sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dança de Eleanor

Há muito penso em escrever sobre a solidão; mas, por ironia do destino, quando tento me debruçar sobre o tema, alguém aparece ou algum aparelho toca. E, na verdade, pra escrever sobre a solidão,

É preciso assistir, desacompanhado,
ao ocaso;
E jantar sozinho
Num sábado.

É preciso tornar-me azul
Diante da luz que emana da televisão
Num quarto escuro.
É preciso chorar sem preocupação
De que vejam minhas lágrimas,
E rir, e ouvir minha risada
Como um som estranho e distante.

É preciso dançar só, de janelas fechadas,
E estar tão isolado a ponto de imaginar alguém
Com quem conversar;
É preciso querer sair e não encontrar forças;
E se forças encontrar,
Andar sem destino, sem hora pra voltar
E sem ninguém a me esperar.

Existem pelo menos duas espécies de solidão: a que desejamos (auto-isolamento) e a que se nos impõe, quando os outros nos esquecem, ainda que temporariamente. Confesso que, como misantropo, sou adepto da primeira modalidade: sou mestre em me isolar. E não me sinto nem um pouco mal com isso. É mais fácil irritar-me com a presença constante que com a ausência.

Minha paixão pela literatura muito tem a ver com minha propensão à solidão; não me sinto nada só quando leio ou escrevo - sinto-me, na verdade, num monólogo silencioso, que freqüentemente mais me parece um diálogo (quase uma esquizofrenia, como a descrita em "Lobo da Estepe", de H. Hesse).

A poesia acima trata da solidão imposta, aquela da qual fugimos. Confesso que é muito difícil sentir a separação completa - embora na realidade sejamos sempre solitários, quer aceitemos esse fato ou não -, em razão das várias formas de atenuar, mascarar, a inexorável solidão que nos é inerente. Ligamos o computador e, num minuto, estamos conectados a várias outras pessoas (perfis); ligamos a TV ou o rádio; o celular permite que encontremos as pessoas onde quer que estejam, ou seja, acessamos o outro na hora em que desejamos. Mas até que ponto este "contato virtual" satisfaz nossa necessidade de nos relacionar?

E não se iluda: encontrar pessoas não significa sair da solidão. No meu caso, estar no meio da multidão muita vez aumenta minha sensação de alienação. E isso também acontece com as companhias superficiais, as conversas sem atenção, as palavras sem reflexão. Na verdade, prefiro a solidão ao contato vazio.

Hoje, para ficar realmente só - ou melhor, para sentir integralmente a solidão, sem subterfúgios - é necessário se esforçar; para tanto, temos que desligar todos os aparelhos: TV, computador, mp3 player, telefones etc.

Com efeito, a rapidez de nossos tempos nos conduz a estas relações fugazes e superficiais, que se prestam a dissimular o silêncio de nossa alienação. Há muitos “perfis” (máscaras virtuais) para se conectar, mas poucas pessoas (seres humanos) para se relacionar de verdade. Como afirma Bauman, nossas relações são cada vez mais líquidas, fluidas. Impossível não concordar.

Nesse contexto, as músicas que evoco abordam o tema com uma profundidade peculiar. Uma trata das pessoas que são sozinhas; outra, das pessoas que estão sozinhas.

Quem é “Eleanor Rigby” (Beatles)?
Esta mulher que cata, sozinha, grãos de arroz depois de um casamento. Reparem na profundidade desta descrição: o casamento representa justamente a celebração da união; assim, catar, só, os grãos caídos ao chão, depois desta cerimônia é ainda mais grave, na medida em que reforça o isolamento.

“Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door”

Quem é ela? Esta mulher que vive num sonho e espera à janela, vestindo a face (ostentando a máscara) que mantém num pote perto da porta. Este verso permite diversas interpretações. Para mim, a janela representa a relação com os outros, o que permitimos que os outros vejam; desta forma, a máscara guardada no pote é a expressão que Eleanor ostenta quando se expõe.

E de onde vêm as pessoas solitárias?
E quem é o padre Mackenzie, que se dedica a elaborar um sermão que ninguém escutará? De onde ele vem? E quem se importa?

O solitário representa aquele que não interage e que, portanto, é um observador, um ser afastado, que assiste, à distância, às vidas e relações alheias. A imagem de Eleanor à janela é exatamente esta: a de alguém que observa a vida e não a vive. Não se trata de solidão-estado, mas, sim, de solidão-ser.

"Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came"

A idéia de um enterro sem qualquer pessoa é uma das imagens mais fortes que se pode ter da solidão. A morte, por si só, é separação, abandono; um velório vazio é uma morte dentro da morte. Ninguém foi ao enterro de Eleanor. O ato de velar o corpo e após enterrá-lo é um ato que celebra a extinção do eu: escondemos embaixo da terra os vestígios materiais que restam inertes. Socialmente, alguém que não se relaciona, já está morto; confirmamos amiúde nossa existência ao interagir.

Em relação à outra música, podemos refletir como seria então a “Dança da solidão”, que parece exprimir um paradoxo, pois dançar é uma manifestação social, a qual, seja numa tribo ou numa festa, envolve várias pessoas.

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura”

Segundo o Eu-lírico, a solidão petrifica, tal qual a cabeça de medusa; ela é “lava que cobre tudo”, é “amargura” na boca, tem dentes de chumbo, e cava o coração silenciosamente. Esta é a solidão que decorre da desilusão amorosa.

É interessante notar que tanto em "Eleanor Rigby" quanto em "Dança da solidão", há referência a personagens: o Eu-liríco, na segunda música, cita Camélia, a viúva; Joana, a apaixonada; e Maria, a desiludida. Penso que a idéia de criar personagens é relevante para personificar a solidão e, desta forma, provocar a identificação.

Na primeira parte da última estrofe, aborda-se o caráter criativo da solidão, “Quando vem a madrugada / Meu pensamento vagueia / Corro os dedos na viola / Contemplando a lua cheia”.

De fato, a solidão é imprescindível à criação artística. Como diz Calvino, "o temperamento saturnino [tendente ao melancólico, ao solitário] é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores (...). É certo que a literatura não existiria se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é (...)".

Outrossim, no que se refere à desilusão - pois a solidão da segunda canção decorre da frustração amorosa -, lembro-me de Pessoa a dizer que:

"Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um".

Entretanto, enquanto em “Eleanor Rigby” a solidão não encontra nenhum remédio, em "Dança da solidão", vemos que, ao fim, o Eu-lírico, que baila ao som mudo do abandono, propõe uma solução para o alheamento:

”Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura”

Esta solução pode ser interpretada de diversas formas. O que seria esta “fonte de água pura”? Pode ser a aceitação da nossa inelutável solidão, entendendo-se que esta fonte de água pura emana do nosso próprio ser, ou uma solução metafísica, caso se prefira acreditar num ser supremo e onipresente.

Podemos disfarçar a solidão, nos distrair um pouco, acreditar que o outro poderá removê-la - assim agimos ao nos apaixonarmos -, da mesma forma que é comum dissimularmos a inevitabilidade da morte - seja ignorando-a, seja preferindo acreditar num além, numa “esperança supraterrestre.” * Para mim, todavia, que não ouso “blasfemar contra a terra”, não há solução: a solidão é invencível, assim como a morte. Prefiro a realidade à ilusão.

Nota

* V. prólogo de Assim falou Zaratustra, uma das últimas obras de Nietzsche.“Eu vos conjuro, ó irmãos, permaneçam fiéis à terra e não creiam naqueles que vos falam da esperança supraterrestre. (...) De agora em diante, o crime é blasfemar contra a terra e conceder mais apreço às entranhas do inescrutável do que ao sentido da terra”.


11 comentários:

  1. Meu Deus! Que texto mais triste! Isso é quase um culto à morte!
    Só vc mesmo pra se debruçar sobre "Dança da solidão" e "Eleanor Rigby"...
    Solidão, desilusão, velório etc. Acho que vc gosta mesmo de sofrer.
    Vc é mesmo um filho de Saturno ("tendente ao melancólico, ao solitário") ou Vulcano ("entocado no fundo das crateras, fechado em sua forja" de palavras). Acho, na verdade, que vc deve ser filho dos dois!

    Pedro Oniwlack

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  2. A obra do Proust é uma crítica à vida mundana e à vida amorosa, as duas principais formas de se iludir quanto à solidão. Somos solitários querendo ou não. A questão é se assumimos esta condição ou se nos iludimos quanto a ela. Quando se deixa de apostar na companhia que o mundo diz oferecer, quando se deixa de apostar na companhia que uma mulher também nos diz oferecer, o que resta é a aposta na criação, seja de novos conceitos, de novas frases, metáforas.

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  3. Oi,
    'Eleanor Rigby' é uma música que adoro, mesmo antes de saber do que se tratava, o arranjo com os violinos me pegou da 1ª vez.
    Estar acompanhado na maioria das vezes é ilusão, e é quando estamos sós que entramos em contato com o que está abaixo da persona do social. Compreender-nos um pouco mais é viver e viver melhor.
    Tem uma passagem na letra que me intriga: 'wearing the face that she keeps in a jar by the door', tentei traduzir, procurei versões em português já gravadas, mas não me contentei com nenhuma.
    Bjs,
    Mônica

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  4. Mônica, alterei um trecho do texto, utilizando a sua tradução - "ostentando um rosto" -, para aprofundar a análise do verso "wearing the face that she keeps in a jar by the door", que, de fato, é muito intrigante. Bjs

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  5. Esta é minha visão (poética, como não poderia deixar de ser) sobre a solidão:

    Solidão?

    Ser só é antes de tudo
    Ser livre.
    Não temo a solidão,
    Até mesmo porque
    Ela é uma opção.

    “Antes só do que
    Mal acompanhado”
    É, sim, um belo ditado.
    Pra que se unir se pode
    Ser livre e viver o que bem entender?

    Não sofro nada.
    A solidão é uma ilusão
    De quem pensa que é
    Possível realmente
    Ligar-se a alguém.

    Se as relações são superficiais,
    Muito melhor:
    Não me darão qualquer trabalho!
    Conecto-me e me desconecto
    De acordo com minha vontade;
    E nada espero de ninguém,
    E nada esperam de mim.
    Quer saber mesmo a verdade?
    Eu prefiro assim!

    Pedro Oniwlack

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  6. "Não se deixe apanhar. Evite abraços muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e densas as suas ligações, compromissos e engajamentos, maiores os seus riscos. Não confunda a rede - um turbilhão de caminhos sobre os quais se pode deslizar - com uma malha, essa coisa traiçoeira que, vista de dentro, parece uma gaiola".
    (BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. P. 78)

    Pedro Oniwlack

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  7. Afilhado querido da dindinha, sei não, mas acho que tá pintando um belo ensaísta aqui. Tô tão engasgada com esse texto, que ainda não me ocorreu nada de brilhante pra dizer. E, sim, catar arroz de casamento alheio e ser enterrada sozinha, me parece, são cenas torturantes da solidão em estado puro.

    No meu caso específico, só tenho a dizer que, no meu coração, ser ateia é a solidão mostrando sua cara dura, me atormentando segundo após segundo.

    Bjs. Rozane

    P.S.: Eu removi os posts anteriores porque acabei achando erro de digitação.

    P.S.1: E vou parar de ler esta coisa, senão não acaba nunca. Fui.

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  8. Obrigado, madrinha! Vc não sabe o quanto sua opinião é importante pra mim.
    Vc já leu o "rumor de uma folha seca"? É o meu preferido - foi o primeiro ensaio e o escrevi porque não parava de chorar, ouvindo "folhas secas"...

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  9. "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia"
    F. Nietzsche

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  10. "In a real dark night of the soul, it is always three o clock in the morning, day after day".

    (Scott Fitzgerald)

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  11. Estou passada com tudo o que escreve.
    Parabens Be..
    Bjo. Ester

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