sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mortalha do amor

Depois de escrever sobre a solidão (Dança de Eleanor) e a paixão (“O meu pensamento tem a cor do seu vestido”), a saudade se impôs como terceiro elemento desta trilogia não planejada.

A paixão e a solidão poderiam ser tratadas como opostos: a paixão como queda - ainda que ilusória - das barreiras da separação. Mas esta definição seria superficial, na medida em que a solidão pode surgir como uma ilha dentro do mar revolto da paixão: ao sentirmos o afastamento, ainda que breve, do objeto do desejo, toda intensidade da paixão se converte na constatação da sua incapacidade de promover a almejada, embora nunca realizável, fusão; neste momento, a lava da solidão nos envolve e, dentro desta prisão, é comum pensarmos no passado, lembrando com saudade do que vivemos.

A saudade é, portanto, esta visita do passado ao presente; é a invasão de pensamentos e sentimentos gerados por fatos pretéritos, mas que ainda ecoam dentro de nós. E a distância potencializa tais sentimentos: a saudade não decorre somente das lembranças e emoções associadas ao passado mas também da fantasia que criamos sobre essas recordações.

A saudade não é como uma foto,* um registro fiel, objetivo, do que vivemos ontem; ela é como uma pintura: ao nos lembrarmos, pintamos a cena de acordo com as emoções que sentimos hoje e que sentimos - ou imaginamos ter sentido - quando a vivemos; daí o caráter subjetivo da construção das lembranças. Desta forma, muitas vezes supervalorizamos fatos que não foram tão significativos enquanto aconteciam, o que nos faz de certo modo negar o presente; em suma, freqüentemente o passado – ou melhor, a tela das memórias transformada pelo tempo e pela saudade - se sobrepõe ao presente.

Fernando Pessoa expressa perfeitamente esta valorização do passado “só porque foi”:

"Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."

E é quase impossível (“quase” é eufemismo: para mim é impossível mesmo) não se deixar levar por este apego ao que se foi, bem como evitar a ansiedade que nos causa o porvir. Não é à toa que as religiões e alguns filósofos se dedicam ao tema: trata-se de algo inerente ao ser humano, que lhe causa sofrimento e ao mesmo tempo o distingue dos outros animais.

O cristianismo, tal qual o budismo, parece invalidar os pensamentos e sentimentos associados ao passado e ao futuro. No “sermão da montanha”, propõe Jesus, como exemplo de integração ao presente, o modo de viver dos seres irracionais: “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta”. [1]

Todavia a liberdade do homem reside justamente nesta capacidade de autonomia em relação à natureza: “o animal e a natureza são um só. O homem e a natureza são dois”, ou seja, o homem é por excelência um ser antinatural; e aí se encontra sua liberdade, que lhe permite inclusive praticar excessos contra si mesmo.

Explico-me: os animais são determinados pela natureza, são condicionados por seus instintos, não podem se aperfeiçoar à medida que crescem, são perfeitos (prontos) desde o início. [2] Nós homens, não: podemos nos aperfeiçoar ao longo da vida, não estamos condicionados a sermos um só com a natureza.

Com efeito, os animais, segundo Schopenhauer, “são o presente corporificado”, na medida em que a consciência deles é limitada ao presente (instinto), “ao passo que a consciência humana tem um campo de visibilidade que abarca a totalidade da vida, e mesmo a ultrapassa” (metafísica). [3]

Destarte, rejeitar a saudade, bem como os sofrimentos decorrentes do apego e da ansiedade em relação ao futuro, é recusar um potencial humano. As lembranças, sob a perspectiva coletiva, permitem a formação da cultura, assim como a noção do futuro permite que haja planejamento. Se nos vincularmos apenas ao agora, nos afastaremos do conhecimento desenvolvido pelas experiências dos nossos ancestrais e também não conseguiremos levar a cabo grandes empreendimentos, pois evitaremos os projetos, imprescindíveis às grandes realizações.

Sem a saudade, não existiria a Odisséia. Nostalgia significa sofrimento causado pelo retorno (em grego, nóstos é retorno e álgos, dor). Como escreveu Kundera em A ignorância, Odisseu, um dos maiores aventureiros de todos os tempos, foi também o maior nostálgico. Talvez Kundera tenha invertido a ordem: porque era um grande nostálgico, Odisseu foi um incrível aventureiro.

No entanto, lembrar do passado não significa sentir saudade. Pode-se recordar sem sofrer, sem cotejar o ontem com o hoje. Tão-somente lembrar; observar uma foto e não pintar um quadro, ou seja, ter uma visão objetiva do ontem. Mas será isso possível? A memória objetiva, sem emoções, é viável? Em se tratando das relações interpessoais acredito que não; e, para ser sincero, prefiro ser um pintor que sofre a um mero observador de retratos.

Portanto, viva a saudade! Viva o apego! Viva o sofrimento! Não negarei minhas emoções, elas me fazem “humano, demasiadamente humano”. O desejo da ausência de sofrimento é uma forma de fugir da vida. Portanto, viva o Ego! Não quero ser uma partícula do cosmos nem ser um com Deus (embora o cristianismo ofereça a tentadora promessa de carregarmos o ego e as pessoas que amamos para o além, para a eternidade). Quero ser Eu! Por mais insignificante, doloroso e efêmero que isso seja perto das promessas de unidade e eternidade que oferecem as religiões e filósofos otimistas.

Não há dúvida de que a saudade é uma fuga - ainda que involuntária - do presente e que a distância do tempo transforma fatos triviais em lembranças extraordinárias. Porém, como já afirmei, este quadro é tão belo quanto a vida e por isso não deve ser evitado; a saudade é como a arte – a comparação com a pintura não é vã.

“E por falar em saudade”, a música “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, é visceral.

"Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus"

Nesta canção da saudade, percebe-se o uso da anáfora, que consiste na repetição de um grupo de palavras no princípio de frases ou versos consecutivos. Assim, o verso “Oh, pedaço de mim” e o verso subseqüente, o qual sempre se inicia com “oh, metade...”, possuem a função de vocativo, ou seja, designam a quem o Eu-lírico fala.

Desta forma, em “Pedaço de mim”, o Eu-lírico implora ao objeto da saudade – “oh, pedaço de mim" - que vá embora, e o faz explicando em cada estrofe o que é a saudade e o quanto ela dói. É interessante ressaltar que as lembranças são partes do Eu (partes arrancadas dele); não são o outro, mas, sim, fragmentos do Eu, mutilados e exilados pelo tempo. Nesse contexto, esta poesia é na verdade um monólogo (considerando o Eu-lírico como um só ser) entre uma parte do Eu que deseja esquecer a fim de parar de sofrer e a outra, que insiste em recordar o amor e fomentar a saudade; ou seja, uma conversa entre razão e emoção.

Racionalmente, quem sofre de saudade clama pelo esquecimento: é melhor não se lembrar do que sonhar com algo que inexoravelmente não existe mais. Por isso, no terceiro verso de todas as estrofes (exceto a última), o Eu-lírico roga que a causa da saudade (o pedaço emotivo dele) leve embora seus sinais, seu olhar, seu vulto, tudo o que possa provocar mais saudade; e, na última estrofe, exige que o objeto do desejo lave os seus olhos tristes, que não conseguem parar de admirar a tela das lembranças.

Seria perda de tempo comentar as definições de saudade de cada estrofe; basta ler, ouvir e sentir; desejo, no entanto, escrever sobre a comparação da saudade com um barco, o qual descreve um arco e evita atracar no cais. O barco é a imagem que temos do passado, o tempo é a distância que há entre nós, que estamos no cais (presente), e o barco que a cada dia está mais longe. E mesmo quando o barco sumir no horizonte (porque este é o seu destino - ele nunca voltará ao cais), seremos capazes de imaginá-lo e pintá-lo no quadro da saudade, com as cores e as emoções que surgirem ao tocarmos a tela do ontem com as tintas de hoje.

A saudade é prova de que o amor existiu. Pois tudo que há é finito. A saudade é o enterro de uma paixão. A saudade é a mortalha do amor.

Notas

* A foto também não é um registro objetivo. Uso a comparação, mas na verdade a fotografia é subjetiva, não objetiva.

[1] Novo Testamento. Mateus, 5:7. “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor que elas? (...) E quanto às vestes, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam (...) Não andeis pois inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos?”

[2] ROSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens. In: Rosseau. Os pensadores. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo. Nova Cultural, 2000.

[3] SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte; Metafísica do Amor; Do Sofrimento do Mundo. São Paulo. Martin Claret, 2008.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Refrões da cidade

Menino das Laranjas
(Théo de Barros)

"Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar

É madrugada, vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
Esse filho vai ter que apanhar

Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor!

Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar

De madrugada, ele, menino, acorda cedo
Tentando encontrar
Um pouco pra poder viver até crescer
E a vida melhorar

Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor..."

Até então, eu partia da música para o ensaio, ou seja, diante do que sentia ao ouvir a música, eu escrevia. Desta vez, no entanto, foi diferente: ao presenciar o vendedor de sombrinhas da Praça XV seguir sem proteção sob a chuva, surgiu a idéia de escrever a crônica e a partir daí me lembrei das músicas que abordam o tema.

A letra de “Menino das laranjas” é interessantíssima. De fato, a feira é um reduto dos vendedores ambulantes, um espaço livre para eles, tal como as praias. Nestes dois ambientes, a liberdade de atuação dos camelôs é maior, apesar de o Estado regular a atividade.

Na praia, os vendedores de picolé, sanduíches e bebidas são muito bem recebidos; acredito que assim seja em virtude do interesse dos freqüentadores, que querem ser servidos à beira d’água. Na feira, além dos meninos que vendem frutas, há ainda os carregadores, com seus carrinhos de rolimã. Quando criança ia sempre à feira aos sábados e lembro do barulho dos carros de rodinhas metálicas e das brincadeiras dos meninos carregadores, seus refrões e as corridas que às vezes apostavam entre eles. Havia o trabalho, a obrigação de levar as compras alheias, mas eles não deixavam de brincar, de ser crianças, era - apesar de tudo - lúdico o modo como empurravam seus carrinhos, oferecendo seus serviços.

O fato de a versão de Elis começar com o refrão deve ser ressaltada, pois é esta repetição que o camelô usa para chamar a atenção do público para seu produto - e frequentemente são musicais e bastante criativos estes jingles das ruas.
O segundo verso da primeira estrofe, “Vender sua laranja até se acabar” dá azo a duas interpretações: o menino que se acaba ou as laranjas que se acabam; penso que os dois se acabam, na verdade; mas não sei quem fenece primeiro: será a criança ou o produto?

Quanto aos dois últimos versos da primeira estrofe, “Filho de mãe solteira / Cuja ignorância tem que sustentar”, tenho algumas considerações a fazer. O filho, a meu ver, sustenta a ignorância que nós - Estado, sociedade - criamos, na medida em que não oferecemos educação a boa parte da população.

A estrofe seguinte trata da angústia da criança, que só pode voltar quando o cesto estiver vazio, caso contrário ele será substituído por outro filho e ainda castigado. Será que conseguimos nos imaginar, aos 8 ou 9 anos, saindo de casa bem cedo com um cesto de laranjas nas mãos, sem hora pra retornar; ou melhor, só podendo voltar quando o produto acabar, seja lá quando isto acontecer?

A intenção do texto é proporcionar esta identificação, é uma tentativa de preencher estes homens, pois de fato é como se eles fossem vazios da substância que os faz humanos e que permite a identificação das pessoas que ignoram sua realidade. Quem é ignorante, então: a mãe solteira desta criança ou todos os que passam por eles e não percebem que ali há um homem como qualquer outro?

E lá vão eles, bradando seus refrões:

“Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor!”

Para mim, estes refrões, cantados pelos vendedores ambulantes, são a trilha sonora real das grandes cidades, principalmente nos centros. Nós os ignoramos, mas eles estão lá, quase como máquinas, a repetir, intermitentemente, seus jingles:
Chocolate é um! Sombrinha é 5! Familhão é 10! Doce é 2! Olhai, DVD com filme que tá no cinema ainda! Bala, olha a bala!

As pessoas seguem quase sempre; alguns param e compram algo, se lhes interessa o que é ofertado nas calçadas. No entanto, insisto: não são homens que estão ali de pé vendendo na rua: são máquinas, nas quais pode-se depositar o dinheiro e pegar o produto.

Nos ônibus, também transitam camelôs, os quais - com seus ganchos cheios de sacos de balas, que se adaptam às barras internas - proferem seus refrões mais que decorados, totalmente automáticos, e oferecem sua mercadoria.
E os ambulantes não pedem esmolas: eles oferecem bens - não pedem dinheiro sem nada em troca. Sobre os pedidos nos ônibus, “O Rappa” transformou em música um refrão da cidade:

“Senhoras e senhores estamos aqui
Pedindo uma ajuda por necessidade
Pois tenho irmão doente em casa
Qualquer trocadinho é bem recebido
Vou agradecendo antes de mais nada
Aqueles que não puderem contribuir
Deixamos também o nosso muito obrigado
Pela boa vontade e atenção dispensada”

Temo que as músicas sobre tais temas sejam ouvidas como mero entretenimento e não como críticas severas a uma realidade absurda. Porque a ignorância é tanta que é capaz de dançarmos “empolgados” ao ouvir estes tristes refrões, os quais, em vez de incitar a reflexão, podem banalizar os jingles das ruas.

Voltando a “menino das laranjas”:

“Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E a comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar

Esta estrofe é crucial: inicialmente, pela divisão entre morro e cidade, mas também pela denúncia que faz ao colocar que a comida é pouca e há muita roupa pra lavar. Esta divisão (cidade/morro), segundo Bauman, em “Amor Líquido”, é um fenômeno mundial: as elites protegem-se em seus condomínios hiper-seguros e vivem suas vidas virtuais - segregação voluntária – e os demais se acumulam nas áreas físicas que lhes restam. Sobre São Paulo, o sociólogo afirma que “uma nova estética da segurança modela todos os tipos de construção e impõe uma nova lógica de vigilância e distância”.

Os versos “A comida é pouca e muita roupa / Que a cidade manda pra lavar” demonstram que há muito trabalho e poucas condições e oportunidade para os moradores do morro - e eles se inserem - se é que se pode se chamar isto de inclusão - na medida em que servem aos moradores da cidade. Esta dicotomia morro/cidade foi banalizada e parece que não enxergamos o absurdo que ela contém.

Os termos falam por si: cidadão, etimologicamente, significa o habitante da cidade (a civitas romana ou polis grega), ressaltando-se que o conceito de cidadania sempre esteve “atrelado à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado”.
Sobre esta dicotomia, os Racionais MC´s cantam, em primeira pessoa, a segregação e o dilema em que vive o jovem da periferia de São Paulo (que por sinal foi a cidade que Bauman utilizou em “Amor Líquido”, ao falar das barreiras que são erigidos para “proteger” a elite)[1]:

“Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal
Por menos de um real, minha chance era pouca
Mas se eu fosse aquele moleque de toca
Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca
De quebrada, sem roupa você e sua mina,
Um dois nem me viu já sumi na neblina
Mas não! Permaneço vivo, prossigo a mística
Vinte e sete anos contrariando a estatística
Seu comercial de tv não me engana
Eu não preciso de status nem fama”
(Racionais MC´s – Capítulo 4, versículo 3)

Neste contexto, quem é, então, o favelado? Seria aquele que serve à cidade mas a ela não pertence? Seria um cidadão ou seria uma espécie de “estrangeiro”, “refugiado” apesar de nacional?

Afinal, ele é do morro, não habita a cidade (polis) - ele transita por ela, se encaixa como peça onde há algum espaço (ainda que irregular), porém não é beneficiário da pavimentação, da proteção (polícias) etc. e não consegue influenciar nos rumos do Estado (carência de poderes políticos).

Na verdade, pode-se entender que as instituições estatais, em sua maioria, prestam-se a colocar o favelado de volta ao seu espaço e não inseri-lo; um exemplo recente é a construção de muros ao redor de algumas favelas do Rio. Não obstante a segregação dos condomínios, o Estado se propôs a usar dinheiro público para criar barreiras físicas às comunidades discriminadas.

Não seria mais lógico, como sugere Bauman, construir “pontes” em vez de “muros”, a fim de aproximar a favela da cidade e não tornar ainda mais grave a separação que já existe? O investimento em educação de qualidade e a criação de meios para que os habitantes da favela possam residir no asfalto (termo usado para designar a cidade) são algumas das “pontes” que deveriam ser construídas no lugar das barreiras.

Outro exemplo de instituição estatal que serve para reprimir é a guarda municipal, cuja função é apreender as mercadorias dos vendedores ambulantes e persegui-los pelas ruas e calçadas irregularmente ocupadas. Os guardas são servidores da cidade, do asfalto, e devem por isso zelar pela correta utilização do espaço público.

Ora, quem tem dinheiro pode comprar uma loja e colocar seus produtos à venda, ou seja, com recursos adquire-se um espaço privado e com ele há liberdade para fazer o que quiser. No entanto, como ficam aqueles que não tem dinheiro para comprar um “espaço privado”, aqueles que desconhecem o título de propriedade? A estes, que só conhecem a posse (não a segurança da propriedade), resta ocupar o espaço público, que é, em última instância, o único ao qual eles têm acesso - mesmo assim transitório, pois ninguém pode se estabelecer definitivamente no espaço que é de “todos”.

Daí se constata que ele é ambulante justamente porque tem que transitar no espaço, não tem os meios e recursos de se estabelecer: nós exigimos que ele seja nômade e o refutamos por isso! Mandamos que prossiga sempre, tal qual o agente 64 de “Crainquebille” [2], que prende o camelô que se recusa a seguir em frente.

E o movimento dos ambulantes não se restringe às suas vidas nos centros urbanos. Com efeito, a maioria dos moradores das favelas não é daqui; eles vêm do campo, são os retirantes que, instados pela fome, vêm tentar a vida nas cidades. Ou seja, essas pessoas são condenadas a se moverem sempre. Não é só o guarda que os faz seguir. É bem pior: a falta de oportunidades os obriga a migrar e a ausência de recursos os condena a se encaixar onde há espaço, ainda que informal, irregular, ilícito.

Será que os produtos realmente flutuam, sozinhos, pelas ruas ou já começamos a ver as máquinas (ou seriam sombras) que os carregam?

Notas:

[1] BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. “Sobre a dificuldade de amar o próximo”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2004. V. p. 130 e seguintes.

[2] FRANCE, Anatole. A Justiça dos Homens. Tradução de João Guilherme Linke. São Paulo: Ed. Difel, 1986.



Gostei desta versão, mas a da Elis também é ótima.

sábado, 1 de agosto de 2009

Escravos de ganho

Poderia ser ficção. Mas não é. Praça XV, segunda-feira, 24 de agosto, 18 h; sob chuva torrencial, um camelô vende guarda-chuvas sem parar, cantando seu refrão: “Sombrinha é 5, familhão, 10!”. Na verdade, há vários vendedores ambulantes trabalhando ali e os refrões se confundem, se imbricam, e o canto parece não ter fim: “Sombrinha-familhão-5-10-guarda-chuva-olhaí-barato-vai-chover-mais-pode-pegar-tacabando-aproveita...”

O ritual da venda assemelha-se a uma espécie de dança da chuva. No entanto, eles não cantam para atrair a chuva, mas para mantê-la, e se as gotas param de cair eles ameaçam: “vai chover, olhaí, vai cair um pé d’água, melhor comprar comigo logo”.
E o mais incrível é o caráter mágico da aparição dos vendedores de sobrinhas: quando a primeira gota cai, eles surgem não se sabe de onde e lotam as ruas, esquinas, becos e calçadas da cidade.

Há os que trocam de produto para atender a demanda: se faz sol, eles vendem balas; se chove, guarda-chuvas brotam - como cogumelos - de suas mãos. Eles já estão ali, atentos para oferecer o produto que demandarem.

Mas voltemos ao protagonista, o camelô da Praça XV do primeiro parágrafo: ele vende compulsivamente e por isso não usa guarda-chuva; afinal, suas mãos estão ocupadas em pegar o dinheiro e entregar a mercadoria. Observo-o de longe. Em cinco ou dez minutos seus guarda-chuvas acabam; ele sorri, ajeita os bolsos e segue, sob a chuva forte, sem qualquer proteção. Ele vende sombrinhas, mas não possui uma sequer para voltar pra casa ou para o ponto onde pegará mais guarda-chuvas para continuar vendendo.

O camelô é “antes de tudo um forte”. É um homem que sai de casa e trabalha nas ruas, a pé, sem a proteção de um escritório, de uma instituição, de uma pessoa jurídica - e ainda sofre com a repressão. Para o Estado, ele é um ocupante irregular do espaço público, um vendedor de mercadorias de origem e qualidade duvidosas e, principalmente, uma loja ambulante que não rende tributos aos cofres públicos.

Não sei se estou correto, mas penso que os camelôs de hoje descendem dos “escravos de ganho” de outrora. Pra quem não sabe, esta espécie de escravo realizava tarefas remuneradas - geralmente a venda de guloseimas e a realização de pequenos reparos pelas ruas do Centro -, no período colonial e no Império, entregando ao seu proprietário uma quota diária do pagamento recebido. Era comum os “escravos de ganho” conseguirem acumular pouco a pouco o dinheiro que ganhavam e, depois de algum tempo, comprar a própria liberdade. Pode-se incluir também entre os “escravos de ganho” as negras que se prostituíam para pagar a cota diária aos seus senhores brancos - o sexo também era uma das mercadoria oferecidas neste contexto.

Apesar de todo discurso de incentivo aos empreendedores que o sistema no qual vivemos profere, os vendedores ambulantes são perseguidos pelo Estado. Ora, o capitalismo ostenta a figura do self-made man como o ápice: há, segundo tal discurso, um mundo de oportunidades e se você trabalhar, inovar, empreender, colherá os frutos do seu suor, com base na propalada “meritocracia”.

Desta forma, o camelô, o homem que vai às ruas para vender seus produtos - e assim age porque não encontra espaço no mercado formal (cadê o mundo de oportunidades?) -, não deveria sofrer repressão do Estado, mas incentivo, na medida em que ele tenta conceder a si mesmo o que o próprio Estado e o mercado não lhe oferecem.

E o Estado, conforme o discurso (neo)liberalista, não deve intervir o mínimo? Se o mercado abre espaço para os camelôs, não deve haver repressão estatal à atividade - “laisse faire...”, deixem que vendam e prosperem, as leis do mercado são perfeitas, não é mesmo?!

Vender balas, livros velhos, guarda-chuvas, cds, dvds, eletrônicos asiáticos etc. é uma opção - ou falta de opção, melhor dizendo - para estes homens que vivem em comunidades segregadas (“segregação compulsória”), onde transitam traficantes armados e jovens provenientes dos condomínios(castelos seguros - "segregação voluntária")[1], que os procuram para comprar drogas (ou seria Soma?).[2]

O refrão “eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar vendendo drogas” é real, apesar de parecer um canto distante, ilusório. O pior é que de fato as principais opções são estas. Mas eles também podem ser catadores de papel ou latas de alumínio ou serem músicos, poetas, pintores, dançarinos - artistas em geral - ou servidores públicos, empregadas domésticas, professores, advogados etc. Porém, quantos médicos, advogados ou engenheiros que nasceram e cresceram numa favela você conhece? E quantos jovens de classe média trabalham como camelôs?

A verdade é que vendedores ambulantes existem em toda parte; trata-se de mais um “problema global” para o qual se buscam apenas soluções locais. Por que estas pessoas vão para rua com um tabuleiro nas mãos para vender coisas? Parece-me que elas sobraram: o mercado as acolhe (porque as pessoas apesar de reclamarem da ocupação do espaço público continuam comprando suas “duvidosas” mas baratas mercadorias), sob o nome de “irregulares”, “informais”, “marginais”; é um acolhimento discriminatório, semelhante ao que se confere às drogas ilícitas e à prostituição, que são produtos consumidos com avidez, embora de forma silenciosa.

Quem pensa que o “problema” (ou seria uma solução?) é atual e restrito ao solo nacional engana-se. Anatole France escreveu um belíssimo conto sobre “Jérône Crainquebille”, um vendedor ambulante francês, que, por não obedecer imediatamente a um guarda municipal, o qual o mandava prosseguir com sua carrocinha de legumes (a eterna questão do espaço publico nas grandes cidades), acaba preso cautelarmente, a princípio; e, julgado - com ampla defesa e contraditório (vejam como é justo o Judiciário!) -, termina condenado, por uma frase que não proferiu. O conto deve ser lido, não o recontarei aqui, apesar de ser esta a minha vontade. Um trecho precisa ser citado, no entanto:

A justiça é administração da força, (...) Desarmar os fortes e armar os fracos seria mudar a ordem social que eu [juiz] tenho que preservar. A justiça é a sanção das injustiças estabelecidas”.[3]

Escrevi há algum tempo um pequeno texto chamado “nadando na fumaça”:

"Muitas semelhanças há entre os meninos que circulam entre a fumaça, nos sinais de trânsito das grandes cidades do Brasil, e os garotos que nadam ao redor de navios no Caribe.

Os pequenos do Caribe acompanham, nadando, a chegada e a saída de transatlânticos aos portos de suas cidades. Os turistas, dos luxuosos balcões, jogam-lhes moedas, e os meninos mergulham bem fundo para alcançá-las. O tempo para ganhar os centavos é o do mergulho - perdura enquanto os pequenos e cansados pulmões suportam.

Aqui, o sinal é o cronômetro que determina a ocasião para se ganhar a esmola: a luz vermelha permite o trabalho e a verde manda os garotos à calçada. Os carros seguem, deixando-lhes trocados e fumaça. Então, esperam os meninos, ansiosos, que o sinal escarlate lhes ilumine, uma vez mais, o palco do asfalto: não são cortinas que se abrem, mas janelas de carros, e os espectadores têm pressa. Não há tempo para o desumano espetáculo da miséria."

Mas tudo isso parece ser mera ilusão. Não são crianças que vendem balas nos sinais nem homens que padecem sob a chuva, vendendo sombrinhas a R$ 5,00. Não olhamos seus olhos, mal ouvimos seus refrões monótonos; só enxergamos as mercadorias que flutuam pelas ruas.

Notas:

[1] O conceito de "segregação voluntária" é de BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. “Sobre a dificuldade de amar o próximo” P. 97 e seguintes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2004.

[2] "Soma" é a droga de "Admirável mundo novo", de A. Huxley.

[3] FRANCE, Anatole. A Justiça dos Homens. Tradução de João Guilherme Linke. São Paulo: Ed. Difel, 1986.




Tirei a foto ontem, de dentro do ônibus, a caminho do trabalho. Estava chovendo, como podem observar pelo homem com guarda-chuva no canto superior direito. Conseguem ver o homem entre os carros ou só vislumbram a caixa de papelão cheia de bombons?