sábado, 19 de junho de 2010

O assassinato de José

Há poucas semanas fiquei bastante preocupado com o Saramago. Não, não foi por causa do problema de saúde; minha preocupação nasceu quando vi uma biografia dele numa grande livraria do centro do Rio.

Podem me chamar de supersticioso, não me importo; mas, para mim, o que mata um escritor são as biografias que insistem em escrever sobre eles. Obviamente, quando o próprio se mete a escrever sobre si podemos considerá-lo suicida; sim, uma autobiografia é quase como tomar cianureto.

Exceções existem, é claro: há autores que vivem um bom tempo depois do lançamento de suas biografias; porém, isso apenas confirma a regra. E não estou sozinho na minha teoria: Gabriel García Márquez foge de biografias justamente por isso, e já chegou a perguntar a um escritor-urubu, que insistiu em entrevistá-lo para colher material para o homicídio: “por que você quer escrever uma biografia? Biografias significam morte.”

Esse é um dos principais motivos pelos quais eu nunca leio biografias de pessoas vivas; afinal, não gosto de compactuar com homicidas. Não tenho o mesmo pensamento quanto às autobiografias, pois respeito os suicidas: acho muito digna a pessoa, que já de saco cheio da vida, resolve dar fim à sua existência, escrevendo sobre si mesma. Prefiro essa espécie de suicídio às mais ordinárias, como tiro na cabeça, salto de prédio ou ponte, envenenamento...

Chega a ser bela a morte assim: o autor se esvai em palavras. Quem dera se Hemingway (e muitos outros), em vez de ter empunhar uma arma contra si, tivesse se metido a contar a sua estória.

O fato é que Saramago morreu e, embora eu tenha quase certeza de que o homicídio foi premeditado - a biografia foi lançada pouco antes da sua morte! -, as pessoas em geral (e a própria lei) não condenarão o autor-urubu. No fundo, também não quero que o pobre-coitado seja condenado, visto que um cara desse, preso, sem nada pra fazer, pode cismar de escrever mais biografias e se tornar um verdadeiro serial killer.

E também não é justo prender um homem por uma morte tão irrelevante como a que ocorreu ontem.

Acalmem-se! Posso explicar.

Na verdade, Saramago não morreu; ele está vivo: ele está nos livros, nas palavras que escreveu durante sua vida. Podem conferir: ele está mais vivo que muita gente que anda por aí. Um artista nunca morre: sua obra é sua alma. Se olharmos bem, a censura é uma das piores espécies de assassinato.

Pilar pode chorar a morte do seu companheiro; a família e os amigos do José também têm direito às lágrimas. Nós, leitores, no entanto, podemos chorar apenas pelas obras que Saramago deixou de escrever; podemos imaginar como seria o seu próximo romance e chorar por não poder lê-lo. Bom, quem quiser chorar pelo José, que chore! Pode ser que eu é que só tenha um vínculo com a obra e não com a carne...

Posso dizer que o próprio não era refratário à morte; em intermitências da morte, o narrador se mostra um defensor do temido mas inevitável - e necessário - destino de todos nós. A morte não deixa de ser renovação.

Para sentir a vida de Saramago basta lê-lo e relê-lo, sempre. Como ele mesmo afirmou, “as coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar.” Mas não é só isso que podemos fazer para senti-lo: podemos (a meu ver devemos) também fazer ecoar os seus gritos de lucidez, levar adiante os seus pensamentos.

Portanto, para terminar essa homenagem ao homem que apesar das dificuldades nunca desistiu de escrever, faço o que imagino que ele faria. Poderia ecoar muitas de suas lúcidas críticas: à igreja (no vídeo abaixo ele fala sobre ela), ao sistema econômico, ao que chamam de democracia mas que na realidade é outra coisa bem diversa...

Todavia, optei por criticar, como ele fez tantas e tantas vezes, o absurdo que acontece na Palestina. Minha escolha não foi aleatória; escolhi o ponto justamente porque Saramago foi uma das únicas vozes que conseguiu se expressar sobre o assunto (manisfestando uma opinião contrária a da maioria) no ocidente, e por tais declarações foi atacado de todas as formas, sendo injustamente acusado de anti-semita.

Injustamente porque ele nunca foi se manifestou contra qualquer povo ou etnia - e nunca o faria. Posso dizer com tranquilidade que se fossem os palestinos, ajudados pelos Russos, que tivessem criado uma espécie de Israel, ele faria as mesmas críticas. Nada mais justo que citá-lo:

"O que ocorre na Palestina é um crime que podemos comparar a Auschwitz."

O que a Alemanha nazista fez foi um absurdo. Todos sabemos disso e a mídia sempre nos lembra do extermínio daquelas pessoas, e embora se refira quase sempre a só um dos grupos, sabe-se que faziam parte dos grupos perseguidos ciganos, eslavos, militantes comunistas, homossexuais, judeus, deficientes motores, deficientes mentais, prisioneiros de guerra, membros da elite intelectual polaca, russa e de outros países do Leste Europeu, além de ativistas políticos, testemunhas de Jeová, dentre outros.

A mídia, sem dúvida, deve sempre nos lembrar das crises do passado; no entanto, parece não há uma preocupação equivalente com o presente dos palestinos, que também deveria ser divulgado. Os crimes cometidos ontem não podem servir de justificativa para os crimes de hoje.

Um homem não morre quando o motivo por que luta permanece vivo em outros homens.



Vale a pena transcrever um trecho da entrevista:

"Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle - não tanto das almas, porque à igreja não importam nada as almas -; um instrumento de controle dos corpos (...). Aquilo que perturba a igreja católica é o corpo: o corpo com a sua liberdade, o corpo com seus apetites, o corpo com suas necessidades..."

PS. Confesso que quando fui pegar um vídeo para colocar aqui chorei um pouco. Acho que lembrei de outros vídeos que assisti, dos romances, das entrevistas, daquele senhor falando com calma e emoção sobre sua percepção do mundo; acho que vi o homem atrás das palavras. Talvez eu tenha chorado a minha morte; afinal, toda morte é um anúncio sobre o fim.

PS1. Para compreender melhor o que acontece na Palestina, sugiro a leitura de CHOMSKY, Noam. Estados Fracassados. p. 194 e seguintes.

PS2. Pra quem quiser ler uma biografia de Saramago, acho mais interessante as pequenas memórias, do próprio.

10 comentários:

  1. Saramago não morreu nem nunca esteve vivo, ele é um nome, tal como as disciplinas que separam os campos, um princípio de classificação, de coerção e de controle de um conjunto de escritos e da produção do discurso em geral.

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  2. Gabriel G Marquez que se cuide, pois uma biografia dele foi publicada recentemente:-|.A História do Cerco me marcou muito, e como ele disse "nunca acaba de passar".
    Bj

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  3. Pois é, retirei a declaração do Gabriel G. Márquez justamente de uma entrevista com o cara que resolveu fazer a biografia dele.
    Segundo o escritor-urubu, trata-se de uma biografia tolerada, não autorizada.

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  4. Vim responder seu texto, mas ele ficou tão grande que resolvi postar no meu blog, que, de forma meio torta, acabou voltando a ser atualizado.

    Um abraço!

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  5. Fui lá, Rafael. Adorei a leitura que ele faz no vídeo. É um Trecho lindo demais! Que bom que você voltou a escrever!

    Abraços!

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  6. Saramago vive eternizado por suas idéias e palavras!!!

    Linda homenagem! Comovente!

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  7. Muito legal a homenagem! Belo texto!

    Parece que o Bruno, do primeiro comentário, não entendeu muito bem a intenção do texto. E talvez sequer conheça o escritor e homem José Saramago, que podia ser tudo, menos apenas um nome ou mero discurso.

    Fernando Souza

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  8. Que bom que gostou do texto, Fernando. Seja bem-vindo!
    Não vou botar lenha na fogueira, fomentar a discussão. O que eu queria dizer tá no texto.

    Sobre o nome "Saramago" há uma curiosidade. Em "as pequenas memórias", livro no qual o escritor conta o início de sua vida, ele explica que o Saramago era apenas a alcunha por que a família era conhecida, não sobrenome. Porém, quando o pai foi registrá-lo, o funcionário do cartório, bêbado, acrescentou Saramago ao nome que o pai havia escolhido (José de Sousa). Ou seja, segundo o próprio Saramago, o tal funcionário, sob a influência de Baco, o poupou de ter que inventar um pseudônimo.

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