sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O herói fluido



Michael Jackson é o ícone da modernidade líquida (o uso do presente é deliberado) ou pós-modernidade, como quiserem. O ídolo pop é muito mais que um músico; suas características, inclusive as físicas, espelham as do mundo contemporâneo.

Segundo Z. Bauman, a única inabalável constante da modernidade líquida é sua capacidade de mudar sempre e rapidamente; a vida como sucessão de episódios, “eventos fechados em si mesmos.” O que importa é o prazer por si só – o prazer puro, o prazer sem ônus, sem amarras, fruto da vida como ato de consumo, na qual o que importa é a novidade, a variedade e a rotatividade; “impacto máximo e obsolescência instantânea.”

Queremos mais, queremos o novo; nossas mãos devem estar vazias para que possamos agarrar o que se nos apresenta. A segurança é um peso, uma corrente; almejamos liberdade, total e irrestrita. “O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelos de produtos disponíveis projetados para a imediata obsolescência. Num mundo como esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca de roupa.” [1]

Nesse contexto, nenhum outro superou a mutabilidade – e antes disso, a própria indefinição – de Michael Jackson. O mais líquido dos ídolos pós-modernos mudou os traços de seu rosto, a sua cor (não entrarei na discussão das causas dessa alteração), bem como não era criança nem adulto nem homem ou mulher, como se percebia de sua voz e de seu caráter andrógino.

Não estou analisando as opções do músico norte-americano; cingir-me-ei aos fatos: um homem que nasceu negro e morreu branco, praticamente sem nariz; uma pessoa que construiu um parque de diversões para si e que falava com a voz de menino.

A única constante em Michael era seu inexaurível poder de se transformar, ou seja, sua fluidez e sua indefinição, que o libertavam de posturas fixas para adaptar-se tão rapidamente quanto quisesse a novas identidades. Construir um parque de diversão para si - Neverland - é comprar a infância, ou melhor, manter-se indefinidamente nessa fase, sempre no processo de construção (aquisição) da identidade (nunca crescer, nunca se definir); fazer operações plásticas é comprar um rosto, e assim por diante.

Embora famoso como músico, ele era um grande artista plástico: sempre em busca do nariz "perfeito", a ponto de acabar quase sem matéria-prima. A redução dos narizes, bem como o aumento dos seios, são os símbolos do nosso mundo. O nariz é um objeto deslocado de sua função; não serve para sentir cheiro, ostenta-se como elemento central, puramente estético, do rosto. E os seios são outdoors da sensualidade, setas sedutoras, hipérboles das "super-fêmeas", objetos de consumo.

Fazer operações com finalidade estética é cada vez mais comum. Pela cidade há diversos outdoors com mulheres exibindo seus corpos, anunciando que “agora você pode ter o corpo dos seus sonhos!” . Operações plásticas parceladas no cartão de crédito. O corpo como matéria-prima da transformação; o corpo livre de rugas e gordura, com o bronzeado perfeito, o cabelo liso, esticado, tudo isso pode ser comprado!

Michael, como outros produtos, entrou pelos nossos poros, por meio de vinhetas de programas de TV (alguém descobre qual a abertura que tinha um trechinho da música abaixo?), vídeo-clipes exibidos em horários nobres, presença constante na mídia (inclusive e principalmente com os escândalos), trilha sonora de filmes, repetição nas rádios etc.

Vamos adiante! Michael morreu, mas temos outros ídolos, novos ídolos - sempre os teremos! Gostar dos últimos lançamentos é estar in, dentro, ligado, não ultrapassado. Vamos, prossigamos, não podemos parar - não pare até se sentir satisfeito!

Don´t stop ´till you get enough: não pare até que você se satisfaça!

E satisfazer-se definitivamente é impossível, razão por que você deverá continuar sempre em movimento.

Don´t stop till you get enough

O poder a que se refere essa música, a meu ver, pode ser interpretado como poder de consumir. Ainda que a letra tenha forte apelo sexual, o corpo é tratado como produto, objeto, ou seja, é reificado. Assim, mesmo que se entenda que o Eu-lírico está falando de sexo, o tratamento que lhe é conferido o transforma em mercadoria.

Don´t stop till you get enough

A melodia é cíclica: mais desejo, mais consumo, mais insatisfação; o prazer que nunca se satisfaz, o “prazer puro”. Estamos condenados a nos movimentar - don´t stop! -, porque a satisfação é inalcançável. Não pergunte por quê! Devemos cumprir nossos desejos!
Nunca pare!

Don´t stop till you get enough

Nota: [1] BAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade: Jorge Zahar Ed., 1998. Pág. 112.

6 comentários:

  1. Oi Bernardo,

    Adorei o texto. No momento estou no trabalho e não consigo ver o vídeo. Depois assistirei ao vídeo. Mas já adianto o comentário.
    Concordo com vc e BAUMAN, Zigmunt.
    O consumo hoje é intenso e rápido e, além disso, queremos mais e mais consumo.
    Um abraço, Luciana

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  2. Olá!
    É difícil discordar do Bauman; vivemos numa sociedade de consumo e a velocidade das mudanças é realmente incrível.

    Abraços

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  3. Muito bom! O consumismo é o deus da hora e por ele faz-se quase tudo.
    Bjs

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  4. Olá!

    Quando o MJ morreu pensei em escrever sobre ele, à luz de Bauman, mas só agora o fiz.
    Que bom que gostou!

    Bjs

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  5. Pois é, a sociedade do consumo é assim, sempre a criar necessidades desnecessárias... A dar personalidade a objetos e coisificar pessoas. O sistema vive do consumo e da especulação.Num mundo em que tudo muda o tempo todo, o velho não serve para nada, é obsoleto. A Morte, o maior tabu. Precisamos parecer sempre felizes. A emulação nos consume. Ser popular é obrigação, precisamos de seguidores, amigos virtuais, qualquer coisa que ateste que somos admirados. Oh, precisamos ser bonitos tb, se a natureza não nos contemplou, só é preciso ter dinheiro, mas não podemos esperar, temos pressa. Não pensamos, porque senão descobriremos que existe o tempo que passa invariavelmente, a solidão, a dor, a perda, a velhice, a morte, o sofrimento. Como é difícil ser feliz, melhor viver a fantasia. O mal porém não está no sistema, habita o coração do homem. A única revolução capaz de criar um mundo melhor é aquela que pode aconter no coração do Ser Humano.

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  6. Eu compreendo, Fernandes, o que você diz em relação ao coração do homem, mas acho que se tivéssemos um sistema menos cruel seria mais fácil para as pessoas perceberem os valores, tornarem-se mais humanas. Ainda que se entenda que a revolução tenha que partir do indivíduo (interior), acredito que dialogar sobre os problemas pode de alguma forma despertar esse desejo de mudar.

    Abraços!

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