quinta-feira, 23 de junho de 2011

eNe

Às bocas e aos olhos os poetas sempre dedicaram seus versos mais intensos, graves até, e belíssimos adjetivos. Encontros e despedidas de olhos, olhares, lábios... Mas ninguém se mete a escrever sobre o encontro de narizes, esse prosaico encontro que afeta os apaixonados; às vezes - muitas vezes - os narizes se encontram antes das bocas. Bom, falo por mim, pois meu nariz é um tanto ousado, mete-se na frente da boca, nos momentos em que geralmente os olhos já estão perdidos.
E as musas - bocas e olhos - implicam demais com o nariz: os olhos exigem narizes mínimos; tenho quase certeza que fumar foi um jeito que a boca arrumou para passar a frente do nariz. Além disso, os lábios vivem falando mal dos narizes: quanto maiores, maior o escárnio.
Quando os poetas escrevem sobre o nariz é na base da mofa; ninguém fala sério do coitadinho. Cyrano de Bergerac nada mais é que um homem fugindo da sombra (enorme) de sua nareba.
Neridos namigos neitores, nestou num nilema nanado! (Sentiram o poder das narinas?).
Meu dilema é o seguinte: não sei se repito trinta ou mais vezes o termo nariz ou se vou trocando por órgão do olfato, venta, focinho etc. Porque na verdade todos esses termos não são tão bons como nariz.
Parece-me que a melhor solução é usar nase (alemão), nez (francês), naso (italiano), nose (inglês), ou seja, trocar a língua e não a palavra. Ou então usar o N, que é a letra fetiche do nariz em todas as línguas pesquisadas; o nariz é o ene do rosto. O ene, sobretudo, é o som nasal.
Por favor, repitam comigo: nasal, nariz, ene, narinas – sintam a vibração do naso!
O eNe, que já foi acusado pela infelicidade do mundo e até apontado como possível responsável por um eclipse (coisa de Bocage) [1], é na realidade vítima da sociedade, do homem. Pode o homem sorver o ar - a vida - pelo nariz e zombar dele pela boca? Devemos-lhe o ar que respiramos e no entanto pagamos-lhe com desacatos!
O nez não tem boca para se defender e por isso espirra! O naso lacrimeja triste: o resfriado é sua revolução! Todo poder às narinas! O que seria da boca sem o nariz? Tapem o nez e falem: ouçam a voz maculada pela ausência do eNe.
O N, tadinho, é o nosso bode-expiatório: isolado, culpado, condenado, extirpado. Ou pelo menos reduzido, covardemente reduzido. Portanto, à sua defesa, que é a defesa da verdade.
Chega de bisturis! Chega de cirurgias que fazem do eNe um i de tão fino! Daqui a pouco os noses serão metafísicos, como no conto o segredo do Bonzo [2], de Machado de Assis. As mulheres estão em guerra com seus eNes e alguns homens andam aderindo a essa cobarde batalha. Extirpar o nariz é esvaziar-se de virilidade; perdoem-me o radicalismo, mas um homem com ene pequeno é quase uma mulher. Não, isso não é autopromoção!
Se há alguns séculos as mulheres usavam vestidos que aumentavam os quadris, hoje a moda é reduzir os enes. Seios grandes e narizes pequenos, eis a mulher contemporânea. As atrizes estão todas desnarigadas! Qualquer dia, vão cair desmaiadas por aí. O motivo? Falta de oxigênio! É bom lembrá-las que o nariz serve para respirar também. Só as comediantes podem ostentar um N maiúsculo, um eNe histriônico - só elas são livres.
Podem rir de mim, mas admiro ferrenhamente as mulheres que não mexem nos narizes e ainda mais as que não alteram nada, sequer a cor dos cabelos. Porque as nossas meninas andam comprando de tinta de cabelo a orelhas pequeninas.
Além disso, historicamente, o ene é um símbolo do poder. A monarquia não está no trono, na coroa ou no cetro; a monarquia sempre esteve no nariz: pior que guilhotinas, seriam os cortadores de narizes. O eNe empinado é o símbolo da aristocracia. Reis são sobretudo narizes imponentes.
Ainda escrevo um tratado político sobre o nariz. Maquiavel deixou passar uma observação que o tornaria célebre: príncipe que é príncipe tem grande naso! E o nariz, sendo grande, tudo justifica. Deve-se ter coragem para sustentar o nariz em pé; aí esta o poder. Naquiavélico!
Talvez seja por isso que os palhaços têm bolas vermelhas como nariz, pois a alma do palhaço é o saliente eNe colorido. Não se pode rir do poder, logo o homem cuja função é fazer rir precisa fantasiar o seu nez. O palhaço, com sua bolota vermelha no meio do rosto, é um ser despido de decoro e portanto de poder. (Embora o poder muita vez seja indecoroso e os palhaços, dignos.)
E mais: se eu tivesse que escolher um ícone para a arte pós-moderna, escolheria o eNe. Ele se tornou um objeto deslocado: não serve mais para respirar e cheirar (serve cada vez menos pra isso), serve apenas como objeto estético, imagem no rosto. Rosto que é museu, produto ou sei lá o que; rosto puro, face de um ser, não é.
Revolte-se, eNe! Chega de sofrer! Está na hora de se assumir e crescer, se impor, virar tromba! Viva o elefante!

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8 comentários:

  1. Nariz tem que ter personalidade, deve chegar primeiro imprimindo marca e presença. Julia Roberts, Meryl Streep e Adrien Brody que o digam!
    Mônica

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  2. É isso aí! Nossa família sempre soube reconhecer a importância do nariz! rsrs

    Beijos

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  3. Adorei o texto! Muito bem humorado e um apelo ao exagero das plásticas!
    E se o resfriado é a revolução do nariz o meu é um anarquista quando o inverno chega! Ele impõe a falta de decoro nas relações sociais que é uma beleza!
    Nessas horas até canto o "melô" do meu nariz: Ai meu nariz! Ai meu nariz! Ele parece muito mais um chafariz!

    hahuahauha

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  4. Que bom que vc gostou, Érika!

    O meu nariz, apesar da minha homenagem, resolveu fazer uma verdadeira revolução essa semana. rsrs Acho que é o inverno mesmo. Não esperava essa atitude dele. Isso foi ingratidão!

    Beijos

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  5. Também gostei muito desse texto. Um dia desses eu me peguei pensando em quanto estamos acostumados a ignorar nosso nariz. Ele está ali no nosso campo de visão o dia inteiro, mas o cérebro aprendeu a ignorá-lo. Tadinho! :)

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  6. É verdade, Rebeca, a gente se esquece do pobre do eNe. Coitado! rs Bjs

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  7. Cara, seu texto é sensacional! Muito bom, mesmo. Obrigado. Adorei tê-lo lido.

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  8. Valeu, Raoní! Fico feliz por saber q vc gostou! Abraço

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