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terça-feira, 12 de março de 2019

As mil e uma jornadas (conto)

“Bom dia, doutora Clara”, disse o velho ascensorista à senhora que entrava no elevador.

“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E sem esperar resposta, continuou. “E então, o que aconteceu ao João da Baiana? O senhor não terminou de contar ontem...”.
“A doutora não vai acreditar. Como eu tava contando ontem, o João tava indo pra uma festa na casa de um senador, homem poderoso lá na época, e foi parado pela polícia. Quando explicou que era músico, que era do samba, acabou sendo preso! Assim, sem mais nem menos, só porque era sambista. Mas pode ser também porque era pai-de-santo, vai saber... A polícia não gostava nem de sambista nem de quem tivesse ligação com terreiro. O fato é que ele não apareceu na festa lá do político grã-fino, que sentiu falta dele (o tal senador era um fã do João da Baiana!), e quando soube da prisão, ficou foi muito bravo e mandou soltar na hora o Jão. E diz que depois disso, o tal político arrumou um jeito pra lá de criativo de garantir a liberdade do sambista. Mas isso eu deixo pra contar depois, doutora. Já tá chegando no andar da senhora e eu não vou ficar aqui atrasando seus compromissos...”
“Tá certo, seu Zé. É sempre assim, eu já até me acostumei. O melhor da história fica sempre pra depois. Bom dia pro senhor.”
“Igualmente, doutora.”

No dia seguinte, como já acontecia há muito tempo.

“Bom dia, doutora Clara”, cumprimentou o velho ascensorista. 
“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E prosseguiu, sem perder tempo, antes mesmo que a porta do elevador fechasse. “E então, como é que o tal senador garantiu a liberdade do João da Baiana?”
“A doutora não vai acreditar. O que dizem é que assim que o senador mandou soltar o grande sambista, também mandou que fizessem um novo pandeiro pra ele, com uma dedicatória do político, com assinatura e tudo! E era com esse pandeiro debaixo do braço que o Jão andava a cidade toda, ia a todo canto e dizem que nunca mais foi preso. Agora, veja a senhora, um pandeiro com dedicatória era o “documento” pra se livrar da perseguição da policia; e pra fazer música, ele gostava mesmo era de usar prato e faca: arrastava a faca no prato e saía samba. Pandeiro pra se identificar e prato pra tocar! Onde é que já se viu um a coisa dessas? Mas ele também arrebentava no pandeiro, não era só pra evitar cadeia, não. E não deixa de ser curioso o apelido do João: da Baiana. Mas isso fica pra outra hora, doutora, porque não vou aqui tomar seu tempo...”.
“Tá bom, seu Zé; eu tenho que ir. Mas eu quero ouvir a continuação - como sempre. Bom dia pro senhor!”
E a porta do elevador fechou, encerrando mais um capítulo.

No dia seguinte:

“Afinal, seu Zé, por que o João é da Baiana?”
“Pois então, o João é da Baiana e não é à toa; dizem que a mãe dele era uma das baianas que, como todos sabem, estão lá na raiz do samba. Já falei disso, a senhora sabe, mas não custa relembrar que a Cidade Nova, a Praça Onze foi o berço do samba e o morro da Providência, ali atrás da Central do Brasil, se confunde com a origem da favela. Pois era por ali naquela área que moravam as chamadas tias baianas, tão importantes na história do carnaval carioca. A mãe do João era uma baiana, que marcou o filho carioca com a sua origem. A mais famosa das baianas foi Tia Ciata, que era uma referência, participava ativamente, mãe espiritual do povo, fazia roupas de carnaval, cozinhava que era um absurdo e sua casa servia de sede dos sambistas, dos grandes compositores, uma casa que reunia todo mundo, uma verdadeira roda de samba. E dizem que o primeiro samba gravado (“Pelo telefone”) já rolava solto lá na casa de Tia Ciata, dizem que era folclórico e aí tem aquela polêmica, porque vieram o Donga e o Mauro e registraram a composição lá em 1916 ou 17. Esse negócio de ser dono da música dá pano pra manga não é de hoje; outra hora eu explico melhor, a doutora já chegou ao seu andar...”.
“Sempre fica um restinho de história... Bom dia pro senhor!”

A porta do elevador abria e fechava como a capa de um livro, com pequenas histórias que eram reveladas por poucos minutos a cada dia. Um narrador presente, de carne, osso e uniforme. Um narrador que contava pequenos trechos e sempre deixava um indício do que viria a revelar, a despertar curiosidade sobre o dia seguinte. Um narrador que fazia parte da história do edifício onde atualmente era o senhor e condutor do elevador. Fazia parte dessa história, porque foi um dos operários, um dos ajudantes de pedreiro que trabalhou na construção daquele prédio, muitos anos antes. E quando a obra estava quase pronta, nos últimos retoques, foi chamado para trabalhar naquele novo condomínio, como ascensorista. 
Nos primeiros tempos era empregado do condomínio e assim ficou por muitos anos. Mas depois, com a intenção de cortar gastos, o condomínio contratou uma empresa e o ascensorista passou a ser terceirizado. Foi mantido no seu posto, continuou como o senhor do sobe e desce, mas agora como empregado de uma outra empresa, com um salário mais baixo e sob a ameaça de ser mandado para qualquer outro prédio ou até demitido. Era considerado um bom funcionário desde os tempos da obra, e assim foi ficando no mesmo espaço, passando por diferentes patrões. Terceirizado, passou a ser uma mera concessão o fato de trabalhar ali e não em outro edifício, já que a empresa fornecia mão de obra a muitos condomínios pela cidade, e poderia colocá-lo onde bem entendesse. 
A empresa - bem diferente do condomínio com seu síndico - era um empregador sem cara, sem corpo, uma espécie de máquina de gestão, distante, abstrata. A pedido do condomínio, foi mantida a maioria dos antigos funcionários, entre eles o velho José; mas nada garantia sua permanência ali, pairava sobre cada jornada de trabalho a dúvida sobre a manutenção da antiga equipe. Um dos porteiros havia sido mandado para outro prédio, noutro bairro, e os faxineiros tinham sido demitidos. Não havia necessidade de tantos funcionários ali, gastos altos demais, segundo a análise da empresa. José foi mantido. Mesmo terceirizado continuou no mesmo prédio e na mesma função. 

“Bom dia, seu Zé. E a história de ontem, como continua?”
“Pois bem, doutora. A senhora sabe a confusão que é esse negócio de autoria; no samba não poderia ser diferente, né? Aquele disse me disse, as histórias que contam sobre sambistas que ouviam o samba de outro e saiam correndo pra gravar e registrar no seu nome, essa bagunça toda. Dizem que Heitor do Prazeres acusou Sinhô de roubar seus sambas, e este rebateu com a famosa frase: “samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. E foi de intrigas como essas que vieram as “brigas musicais”, aqueles sambas em que um compositor atacava, desafiava, provocava o outro, que fazia um samba de resposta, e aí tinha réplica, tréplica, um provocando o outro, e o povo curtindo, acompanhando, com torcidas, partidários, debates de defesa e ataque de cada um dos lados. Mas isso fica pra outra hora, que a doutora tem coisa séria pra cuidar.”
“Tá bom, seu Zé, depois a gente continua...”

E as histórias continuavam...

“Pois uma das maiores brigas musicais, uma das mais conhecidas e que rendeu muitos sambas de arrasar foi a que se deu entre Noel Rosa e Wilson Batista. Noel, que na época já era reconhecido, se envolveu com tudo numa disputa com o outro, que ainda estava começando sua carreira. Tem gente que diz que por trás das letras provocativas, das batalhas de samba entre os dois, estava a disputa pela atenção de uma mulher. Pensar que “Feitiço da Vila” veio daí... A verdade é que nem importa muito os motivos, as composições é que ficaram. E mais: diferente das brigas comuns que se veem por aí - que muitas vezes terminam mal -, essa arenga de sambas, além de bem humorada e cheia de arte, foi dar até em parceria entre os dois compositores, no “Deixa de ser convencida”. Também dizem que um dos grandes professores do ex-universitário da Vila foi Cartola. A verdade é que o mestre da Mangueira foi professor de muita gente e não poderia ser diferente. Falar dele e da Estação Primeira dá pano pra manga e agora não dá mais tempo; depois eu falo mais, doutora...”  

“Sobre a Mangueira há muito do que falar e em outras ocasiões já falei um bocado, espero não estar repetindo nada. Ouvi falar que a escola surgiu do Bloco dos Arengueiros, numa reunião de seus integrantes lá no Buraco Quente, no fim da década de 20, início da de 30. Cada um diz um coisa sobre o nome, uns que foi das árvores, da fruta, outros que foi da estação de trem inaugurada lá ainda no fim do século XIX, que já levava esse nome. Cartola cantou o nome e ficou: “Chega de demanda, chega/ com esse time temos que ganhar/ somos a estação primeira/ salve o morro de mangueira.” E sobre ser a Estação Primeira também não há certeza: alguns dizem que foi a primeira parada do trem, enquanto outros dizem que foi pra se destacar como a primeira a fazer samba ou até para destacá-la como a melhor; mas isso tudo tem pouca importância perto do que a Mangueira fez no carnaval, nas composições, nos desfiles. E realmente a Mangueira se fez primeira e isso eu conto depois...”

“Como eu estava dizendo, da última vez, a Mangueira fez jus ao nome, pois foi vencedora na primeira competição entre as escolas de samba, lá em 1932 e repetiu a façanha por mais dois anos seguidos, consagrando-se como tricampeã logo de início, além dos vários títulos que veio a receber depois. Mas isso não é de se estranhar com o time que a escola tinha: além de Cartola, Carlos Cachaça, dona Neuma, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Nelson Sargento, dona Zica, Hélio Turco, e mais tarde Beth Carvalho, Lecy Brandão, Alcione, entre outros grandes integrantes, que plantaram e fizeram crescer essa bela árvore do samba carioca. Fato marcante da escola se deu no ano da criação do Sambódromo, em 1984: com o enredo de homenagem à Braguinha (rei das marchinhas), a verde-e-rosa fez algo que nunca mais se repetiu: o povo pediu bis e a escola atendeu, fazendo o caminho de volta pela Avenida. Que coisa mais linda! E pensar que a primeira “escola” recusou o título e a disputa. Mas o caso é de deixar pra falar depois...”

“A verdade é que dizem que a primeira escola de samba - 'Deixa falar' - preferiu ser rancho, que na época era mais considerado que as escolas, e se recusou a participar do primeiro desfile dos “acadêmicos”. Pelo que contam, foi a pioneira na organização dos sambistas, reunindo na sua fundação Ismael Silva, Bide, Baiaco, Brancura e outros grandes nomes. Segundo dizem por aí, o nome “escola” veio da proximidade de uma instituição de ensino “normal” no largo do Estácio. E se havia rixa com outros sambistas de outros bairros, respondia o pessoal da escola, “deixa falar! É daqui que saem os professores!”. A escola que preferiu ser rancho durou pouco e acabou no ano do primeiro desfile, mas reza a lenda que o surdo foi criação de Bide e que foi essa agremiação que introduziu a cuíca na bateria. Não dá pra negar que os desfiles, mesmo de blocos, sofriam arbitrariedades, e é curioso que o nome de uma das escolas mais tradicionais tenha surgido do abuso de poder de uma autoridade. Isso fica pra depois, doutora. Bom dia pra senhora.”

“Como eu estava dizendo, o nome de uma das escolas mais tradicionais veio de uma sugestão (ou seria melhor dizer logo imposição?) de um delegado responsável pelas autorização dos blocos na cidade. Pois é. Contam que a 'Vai como pode' foi à polícia renovar sua licença, um delegado se negou a conceder a autorização, alegando que o nome era indigno para uma agremiação; disse que era melhor adotar a denominação 'Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela', já que os sambistas se reuniam na estrada do Portela. E a sugestão da autoridade não teve rejeição popular, porque os sambistas de Oswaldo Cruz já eram conhecidos na praça Onze como pessoal da Portela. O nome hoje é mais do que consagrado e a escola, além de grande campeã, lançou muitos grandes compositores, como Candeia, Zé Queti, João Nogueira, Monarco, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não eram só das autoridades que vinham arbitrariedades, preconceitos e injustiças. Amanhã eu explico melhor...”

“Como eu estava falando, as injustiças não vinham só das autoridades. Hoje as coisas estão diferentes, mas a verdade é que por muito tempo as mulheres não podiam se assumir como compositoras; mulheres não podiam assinar suas composições, elas eram obrigadas a ficar atrás dos homens, à sombra dos homens. Um machismo danado. Foi o que aconteceu com Dona Ivone Lara, quando era ainda uma menina e passou a escrever seus primeiros sambas. Durante muito tempo, suas composições foram assinadas por seus primos, integrantes importantes do Império Serrano. Só pelo fato de ser mulher era proibida de de ingressar na alas dos compositores. Somente lá pela década de 1970 é que Dona Ivone Lara se libertou das sombras do machismo pra brilhar na avenida, nas rodas de samba e nos palcos. E o Império Serrano tem já no início de sua história outros atos revolucionários, atos que deixaram pra trás aqueles que se meteram a ditadores. Que subida rápida, a porta já tá se abrindo, o causo fica pra depois...”

 “Bom dia, doutora. A senhora se lembra como antes a subida do elevador era mais lenta? Havia mais tempo. Quando comecei aqui, era eu que fechava a porta pantográfica, com minhas mãos. Eu fazia mais coisas, quem vinha aqui dentro via mais, e não tinha essa sensação de estar preso, completamente enlatado. Mas dizem que os avanços trouxeram mais rapidez, segurança, eficiência, e assim vai indo, também nas escolas de samba, com muitos avanços tecnológicos, regras, análises técnicas. Eu confesso que sinto uma certa falta da espontaneidade de antigamente. Talvez isso explique a volta dos blocos... Bom, eu tava falando da fundação do Império Serrano, que surgiu de uma dissidência da Escola Prazer da Serrinha contra o presidente ditador que foi capaz de impor um samba diferente do criado pelos compositores . Além de ter tido um resultado horrível, num ato revolucionário os dissidentes criaram a Império Serrano, que teve como maior princípio a democracia, ali todo mundo iria participar e opinar, sem tiranos. Outras escolas revolucionaram, mas agora me falta tempo pra desenvolver... Bom dia pra senhora.”

“Pode parecer algo muito comum e natural hoje em dia, mas a senhora sabia que no passado os enredos não tratavam do negro, da cultura e da história dos negros? Pois é. Hoje a gente vê um monte de enredos assim, mas dizem que isso começou com o Salgueiro, a vermelho e branco da Tijuca. O que dizem é que na década de 1950 o Salgueiro levou pra Avenida o enredo 'Navio negreiro' e assim colocou o negro como protagonista do desfile, inaugurando novos tempos e temas. Difícil imaginar que levou mais de vinte anos para aqueles que criaram o samba, a dança e até alguns dos instrumentos de percussão fossem pra Avenida, pros desfiles, cantar sua história e cultura. Eles eram donos da música, mas não se viam como tema da festa... Algumas mudanças foram pensadas, como essa aí do Salgueiro. Mas, segundo contam por aí, outras mudanças aconteceram sem querer. A porta já está aberta. Depois eu continuo...”.

“Pois uma inovação que dizem ter acontecido sem ter sido pensada com antecedência foi a paradinha da bateria. Bom, certeza não tenho. A senhora sabe que eu falo o que escuto por aí; tenho certeza de nada não. Bom, o que dizem é que o mestre André - um dos grandes integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel - inventou a paradinha sem querer: durante um ensaio, ele escorregou, caiu e os instrumentistas pararam. Pois o mestre não perdeu tempo, já se levantou fazendo sinal pro repique, que recomeçou no ritmo, nascendo daí a paradinha da bateria que hoje várias escolas fazem questão de fazer. E assim foi, teve coisa pensada e coisa espontânea. Coisa que se desenvolveu de forma mais ou menos espontânea foram os blocos, ranchos e escolas de samba.  Mas depois acabaram pensando em construir um lugar específico pros desfiles das Escolas de samba... A porta já está abrindo; bom dia pra senhora!”

“Pelo que dizem, o desfile lá no início era realizado na praça Onze. Depois, com as obras da avenida Presidente Vargas, o desfile foi deslocado; a partir de 1947, após o fim das obras na Avenida, passou a ser lá mesmo. Depois, com os passar dos anos, começaram a montar arquibancadas e a cobrar ingressos. Então, vieram as obras do metrô e o desfile foi pra avenida Presidente Antônio Carlos e em seguida para a rua Marquês de Sapucaí, ali pertinho da praça Onze. E lá no início dos anos 80, o Brizola encomendou ao Niemeyer o projeto de um local definitivo pros desfiles,. E foi daí que surgiu o sambódromo como conhecemos hoje. Também chamam de Passarela Darcy Ribeiro, que foi um dos mentores da construção que, além de local para desfiles e eventos, também abrigava salas de aula de CIEPs, aquele projeto de educação integral que depois foi abandonado pelos governos seguintes. Isso ninguém me contou, não, isso eu vi. Pra algumas coisas sempre falta dinheiro. Andam falando muito de crise, mas parece que algumas áreas estão sempre em crise, né? Já chegamos, doutora. Bom dia!”.

José continuou contando as histórias do samba e do carnaval carioca por mais algum tempo. Ele continuou com suas histórias até o dia em que saiu de férias e ao voltar encontrou um elevador hipermoderno já instalado. O novo elevador era muito avançado, eficiente e econômico, falava, tinha câmeras e até uma TV para exibir poucas informações e muita publicidade, gerando um ganho extra com publicidade. Um boato entre os funcionários já havia indicado que a empresa pretendia investir em tecnologia e cortar gastos em outras áreas. E assim foi feito: além dos novos elevadores, instalaram muitas câmeras, travas eletrônicas e outros equipamentos de segurança, tudo para controlar à distância, tornando desnecessárias pessoas no local, demitindo também os porteiros. Agora só havia pessoas nos serviço de limpeza, que eram trocadas com frequência pela empresa terceirizada.
  No seu último dia como empregado no prédio, José trabalhou como sempre, contando suas histórias. Durante o dia, a voz metálica, monótona e repetitiva emitida pelo novo elevador competiu com a voz do ascensorista: enquanto o homem conversava, se despedia e narrava trechos de episódios do samba, a máquina limitava-se a dizer os andares ao abrir a porta. José ainda brincou com a situação, dizendo que o elevador agora colocava um ponto final em suas falas, exclamando o andar, marcando a hora de desembarcar. 

“Bom dia, doutora Clara!”
“Bom dia, seu Zé! Como o senhor está? Só fiquei sabendo hoje que o senhor está nos deixando...”
“Bom, é a vida, né? A empresa é que decidiu que é a hora de eu deixar o trabalho, e tem essa coisa da crise, né? Esse elevador aqui é muito bom, faz tudo que a senhora puder imaginar!”.
“Essa crise não tá fácil, não; esse ano nem sei se vou fazer a viagem de férias que eu tinha planejado. Esse elevador pode fazer muitas coisas, até falar, mas com certeza não conta histórias.”
“Isso é verdade, histórias não conta, não, mas é muito rápido e eficiente, tem TV e tudo. Tecnologia de ponta!”
“Décimo sexto andar”, falou a voz metálica do elevador.
“Tão rápido que a senhora já chegou, olha aí, e ele avisou. A tecnologia tá em tudo, até no carnaval, doutora. Só não fizeram ainda robô compositor e robô passista...”.
“Verdade, seu Zé, verdade. Nem robô contador de histórias. Boa sorte para o senhor. Tudo de bom!”.
“Obrigado, doutora.” 

sábado, 16 de abril de 2016

Visitando uma escola estadual ocupada

Sábado, 16/04/2016. Hoje à tarde, por volta de 16h, visitei a ocupação do IEPIC - Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, em Niterói. Nesse texto quero apenas expor minhas impressões sobre a visita à ocupação. Para saber mais e acompanhar o movimento, vale a pena acessar a comunidade “Ocupa IEPIC”, no Facebook, onde há vídeos, textos e fotos postados pelos alunos.

Fui sozinho até o colégio, que fica numa rua pouco movimentada de um bairro residencial próximo ao Centro da cidade. O portão estava fechado e havia vários cartazes colados na parede (foto abaixo). Bati e logo fui atendido: uma menina, que aparentava ter 16 ou 17 anos, perguntou quem eu era. Me apresentei e expliquei que tinha interesse em conhecer a ocupação. Sem mais perguntas, o portão foi aberto e pude ver um grupo de alunos que estava reunido na portaria. Um deles se aproximou, perguntando se eu já conhecia o espaço e informando que fazia parte da comissão de segurança da ocupação. Ele me levou até a cozinha, onde havia um grupo lanchando e conversando de forma descontraída. Assim que entrei, todos me cumprimentaram e ofereceram refrigerante e pão com presunto. Em seguida, fui apresentado a um aluno da comissão de comunicação que me levou para ver o espaço e explicar como funciona a ocupação. Um integrante da comissão da cozinha também nos acompanhou durante a volta que fizemos pela escola.

Os dois alunos - ambos com 17 anos e estudantes do segundo ano do curso normal do IEPIC - foram simpáticos, receptivos e bem articulados diante de todas as perguntas que fiz - e foram muitas! Expliquei a eles a minha intenção de escrever sobre a visita e perguntei se havia algum problema; eles responderam que eu poderia relatar tudo livremente, esclarecendo que tinham restrições apenas quanto à mídia corporativa e a eventuais oportunistas ligados a partidos ou organizações, que pudessem deturpar ou tentar se promover com a ocupação. Daí conversamos sobre a importância de construir narrativas que desmontem os discursos que criminalizam o movimento.

Caminhamos pelo pátio da escola. Visitamos a horta, que está sendo preparada para ser reativada depois de 18 anos de abandono (hoje de manhã eles tiveram aula de compostagem); a quadra onde eles dormiam; a sala do rádio; a quadra de esportes (onde alguns jogavam bola) e ainda o local onde foi realizada a reunião com a diretoria. Tudo está limpo e organizado. Eles explicaram que a escola estava suja e com mato alto em algumas partes, e que, em pouco mais de uma semana de ocupação, os alunos limparam e capinaram tudo. Também esclareceram que não têm livre acesso a todos os espaços do instituto, já que a biblioteca e a cantina, dentre outros locais, estão trancados.

No tocante ao modo de funcionamento e o processo de tomada de decisões da ocupação, eles disseram que se organizam em comissões e decidem tudo por meio de assembleias com a participação de todos. Também perguntei por que eles tinham decidido integrar do movimento e se a experiência de ocupação em São Paulo havia influenciado a mobilização. Eles explicaram que apoiam a luta dos professores e que desejam uma escola pública de qualidade e afirmaram que a experiência paulista influenciou principalmente a organização do movimento.

No que se refere às causas dos problemas relativos à educação, ambos falaram que o descaso não é só do estado, mas também de grande parte dos pais, que não se interessam, e em seguida explicaram que não há preocupação em formar pessoas que pensem, que tenham uma visão crítica, que a formação é vista somente como uma forma de arrumar emprego; e que esses pais se mostram desinteressados porque também não tiveram ensino de qualidade.

Estávamos na sala do rádio conversando, quando uma menina apareceu na porta e anunciou a próxima atividade: assistir ao filme “Escritores da liberdade”. Decidi que era uma boa hora para me despedir, até para não atrapalhar a participação dos rapazes que estavam comigo. Agradeci e desejei força à ocupação. Eles me convidaram a voltar e a trazer mais gente. Cruzei o portão cheio de orgulho daqueles meninos e meninas, feliz da vida por ter visto, num sábado à tarde, uma escola cheia de jovens lutando por educação de qualidade.


Todo mundo que eu conheço - de direita, de esquerda, apartidário... - diz que temos que melhorar a educação, que os professores não são valorizados etc. Pois bem: aí está um movimento que tem justamente essa finalidade. Por que não aproveitar a oportunidade para ver de perto, conhecer e apoiar a mobilização?       


sábado, 1 de agosto de 2009

"Escravos de ganho"

Poderia ser ficção. Mas não é. Rio de Janeiro, Praça XV, segunda-feira, 24 de agosto de 2009, 18 h; sob chuva torrencial, um camelô vende guarda-chuvas sem parar, cantando seu refrão: “Sombrinha é 5, familhão, 10!”. Na verdade, há vários vendedores ambulantes trabalhando ali e os refrões se confundem, se imbricam, e o canto parece não ter fim: “Sombrinha-familhão-5-10-guarda-chuva-olhaí-barato-vai-chover-mais-pode-pegar-tacabando-aproveita...”

O ritual da venda assemelha-se a uma espécie de dança da chuva. No entanto, eles não cantam para atrair a chuva, mas para mantê-la e se as gotas param de cair, eles ameaçam e invocam: “vai chover, olhaí, vai cair um pé d’água, melhor comprar comigo logo”. E o mais incrível é o caráter mágico da aparição dos vendedores de sobrinhas: quando a primeira gota cai, eles surgem não se sabe de onde e lotam as ruas, esquinas, becos e calçadas da cidade.

Há os que trocam de produto para atender a demanda: se faz sol, eles vendem balas; se chove, guarda-chuvas brotam - como cogumelos - de suas mãos. Eles já estão ali, atentos para oferecer o produto que os clientes demandarem.

Mas voltemos ao protagonista, o camelô da Praça XV do primeiro parágrafo: ele vende compulsivamente e por isso não usa guarda-chuva; afinal, suas mãos estão ocupadas em pegar o dinheiro e entregar a mercadoria. Observo-o de longe. Em cinco ou dez minutos seus guarda-chuvas acabam; ele sorri, ajeita os bolsos e segue, sob a chuva forte, sem qualquer proteção. Ele vende sombrinhas, mas não possui uma sequer para voltar pra casa ou para o ponto onde pegará mais guarda-chuvas para continuar vendendo.

O camelô é “antes de tudo um forte”. É um homem que sai de casa e trabalha nas ruas, a pé, sem a proteção de um escritório, de uma instituição, de uma pessoa jurídica - e ainda sofre (e muito!) com a repressão. Para o Estado, ele é um ocupante irregular do espaço público, um vendedor de mercadorias de origem e qualidade duvidosas e, principalmente, uma espécie de "loja" ambulante e informal que não rende tributos aos cofres públicos.

Não sei se estou correto, mas penso que os camelôs de hoje descendem dos “escravos de ganho” de outrora. Pra quem não sabe, esta categoria de negro escravizado realizava tarefas remuneradas - geralmente a venda de guloseimas e a realização de pequenos reparos pelas ruas do Centro -, no período colonial e no Império, entregando ao seu proprietário uma quota diária do pagamento recebido. Era comum os “escravos de ganho” conseguirem acumular pouco a pouco o dinheiro que ganhavam e, depois de algum tempo, comprar a própria liberdade. Podem-se incluir também entre os “escravos de ganho” as negras que se prostituíam para pagar a cota diária aos seus senhores brancos - o sexo também era uma das mercadoria oferecidas neste contexto.

Apesar de todo discurso de incentivo aos empreendedores que o sistema no qual vivemos profere, os vendedores ambulantes são perseguidos pelo Estado. Ora, o capitalismo ostenta a figura do self-made man como o ápice: há, segundo tal discurso, um mundo de oportunidades e se você trabalhar, inovar, empreender, colherá os frutos do seu suor, com base na propalada “meritocracia”.

Desta forma, o camelô, o homem que vai às ruas para vender seus produtos - e assim age porque não encontra espaço no mercado formal (cadê o mundo de oportunidades?) -, não deveria sofrer repressão do Estado, mas incentivo, na medida em que ele tenta conceder a si mesmo o que o próprio Estado e o mercado não lhe oferecem.

E o Estado, conforme o discurso (neo)liberalista, não deve intervir o mínimo? Se o mercado abre espaço para os camelôs, não deve haver repressão estatal à atividade - “laisse faire...”, deixem que vendam e prosperem, as leis do mercado são perfeitas, não é mesmo?!

Vender balas, livros velhos, guarda-chuvas, LPs, CDs, DVDs, eletrônicos asiáticos etc. é uma opção - ou falta de opção, melhor dizendo - para estes homens que vivem em comunidades segregadas (“segregação compulsória”), onde transitam traficantes armados e jovens provenientes dos condomínios (castelos seguros - "segregação voluntária")[1], que os procuram para comprar drogas (ou seria Soma?).[2]

O refrão “eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar vendendo drogas” é real, apesar de parecer um canto distante, ilusório. O pior é que de fato as principais opções são estas. Mas eles também podem ser catadores de papel ou latas de alumínio ou serem músicos, poetas, pintores, dançarinos - artistas em geral - ou servidores públicos, empregadas domésticas, professores, advogados etc. Porém, quantos médicos, advogados ou engenheiros que nasceram e cresceram numa favela você conhece? E quantos jovens brancos de classe média você já viu trabalhando como camelôs?

A verdade é que vendedores ambulantes existem em toda parte; trata-se de mais um “problema global” para o qual se buscam apenas soluções locais. Por que estas pessoas vão para rua com um tabuleiro nas mãos para vender coisas? Parece-me que elas sobraram: o mercado as acolhe (porque as pessoas apesar de reclamarem da ocupação do espaço público continuam comprando suas “duvidosas” mas baratas mercadorias), sob o nome de “irregulares”, “informais”, “marginais”; é um acolhimento discriminatório, semelhante ao que se confere às drogas ilícitas e à prostituição, que são produtos consumidos com avidez, embora de forma silenciosa.

Quem pensa que o “problema” (ou seria uma solução?) é atual e restrito ao solo nacional engana-se. Anatole France escreveu um belíssimo conto sobre “Jérône Crainquebille”, um vendedor ambulante francês, que, por não obedecer imediatamente a um guarda municipal, o qual o mandava prosseguir com sua carrocinha de legumes (a eterna questão do espaço público nas grandes cidades), acaba preso cautelarmente, a princípio; e, julgado - com ampla defesa e contraditório (vejam como é justo o Judiciário!) -, termina condenado, por uma frase que não proferiu. O conto deve ser lido, não o recontarei aqui, apesar de ser esta a minha vontade. Um trecho precisa ser citado, no entanto:

A justiça é administração da força, (...) Desarmar os fortes e armar os fracos seria mudar a ordem social que eu [juiz] tenho que preservar. A justiça é a sanção das injustiças estabelecidas”.[3]

Escrevi há algum tempo um pequeno texto chamado “nadando na fumaça”:

"Muitas semelhanças há entre os meninos que circulam entre a fumaça, nos sinais de trânsito das grandes cidades do Brasil, e os garotos que nadam ao redor de navios no Caribe.

Os pequenos do Caribe acompanham, nadando, a chegada e a saída de transatlânticos aos portos de suas cidades. Os turistas, dos luxuosos balcões, jogam-lhes moedas, e os meninos mergulham bem fundo para alcançá-las. O tempo para ganhar os centavos é o do mergulho - perdura enquanto os pequenos e cansados pulmões suportam.

Aqui, o sinal é o cronômetro que determina a ocasião para se ganhar a esmola: a luz vermelha permite o trabalho e a verde manda os garotos à calçada. Os carros seguem, deixando-lhes trocados e fumaça. Então, esperam os meninos, ansiosos, que o sinal escarlate lhes ilumine, uma vez mais, o palco do asfalto: não são cortinas que se abrem, mas janelas de carros, e os espectadores têm pressa. Não há tempo para o desumano espetáculo da miséria."

Mas tudo isso parece mera ilusão. Não são crianças que vendem balas nos sinais nem homens que padecem sob a chuva, vendendo sombrinhas a R$ 5,00. Não olhamos seus olhos, mal ouvimos seus refrões monótonos; só enxergamos as mercadorias que flutuam pelas ruas.

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Notas:

[1] O conceito de "segregação voluntária" é de BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. “Sobre a dificuldade de amar o próximo” P. 97 e seguintes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2004.

[2] "Soma" é a droga de "Admirável mundo novo", de A. Huxley.

[3] FRANCE, Anatole. A Justiça dos Homens. Tradução de João Guilherme Linke. São Paulo: Ed. Difel, 1986.




Tirei esta foto ontem, de dentro do ônibus, a caminho do trabalho. Estava chovendo, como podem observar pelo homem com guarda-chuva no canto superior direito. Conseguem ver o homem entre os carros ou só vislumbram a caixa de papelão cheia de doces?