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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A metamorfose, de F. Kafka (texto publicado no blog Café com impressões).



Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Assim começa A metamorfose, de Franz Kafka, obra escrita em 1912, na qual um narrador neutro (“cara de pau”, segundo o tradutor Modesto Carone) conta a história de um homem que se transformou num inseto e a reação de sua família, que até então era sustentada por ele. A frieza do narrador, que não se espanta, não explica e sequer divaga sobre o absurdo da situação é assombrosa.

Como é possível narrar a transformação de um homem em um inseto sem se surpreender com o fato, sem ao menos tentar descobrir por que Gregor acordou daquele jeito?

Essa postura narrativa, contudo, é uma das principais características da obra, na medida em que afasta a atenção da metamorfose – que é colocada como um fato ordinário – e se atém às conseqüências da transformação. Até o protagonista, que simplesmente acorda inseto, não se espanta com a sua mutação; pelo contrário, sua preocupação é como irá se levantar para ir ao trabalho.

Em nossa conversa sobre a obra, falamos sobre essa indiferença do narrador, que chegou a causar frustração a uma das leitoras. No entanto, é justamente nessa impassibilidade que reside a liberdade interpretativa de A metamorfose.

Como lemos em O retrato de Dorian Gray, “definir é limitar”; não é preciso muito esforço para perceber que o nosso debate não teria sido tão rico se Kafka houvesse elucidado os motivos da transformação. Por não haver uma definição imposta a priori pelo escritor, nós, leitores, temos liberdade para divagar sobre o porquê da transformação de Gregor.

Surgiram, portanto, em nosso debate, três interpretações, todas muito interessantes a meu ver: a metamorfose seria uma doença? Seria uma manifestação do subconsciente da personagem para se livrar do trabalho? Ou haveria uma inversão na narrativa: Gregor adoece e por isso passa a se ver como um inseto, um parasita?

Em nossa reunião, discutimos ainda a reação da família (exploração, repugnância, ingratidão, dificuldade de comunicação, vínculo puramente econômico, dependência etc.) e a reificação do ser humano - que somente seria considerado importante se capaz de produzir (relação de trabalho) -, ligando essas questões a nossas relações interpessoais. Além disso, falamos um pouco sobre a conturbada relação de Kafka com seu pai, que, segundo alguns críticos, influenciou toda a sua obra.

Não há conclusão, mas apenas indagações: será que tratamos certas pessoas como insetos? Já nos sentimos como insetos em alguma situação? Até que ponto somos fungíveis ou descartáveis?

Por fim, nada melhor que citar a opinião do próprio autor sobre literatura:

Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?

Talvez a metamorfose mais relevante seja a dos leitores...

Nota: 8,75.

Uma ideia para uma versão pós-moderna de A metamorfose:

ecosprosaicos.blogspot.com/search/label/Kafka

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Texto publicado no blog Café com impressões, criado com o objetivo de registrar as conversas de um grupo que se reunia para conversar sobre leituras.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Bacurau: uma cidade a um “17” de distância do “sul maravilha” (sem spoilers)



(Sem spoilers) Criado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme Bacurau é sobre um “novo” oeste, ou melhor, um oeste de um futuro próximo, com muitas referências ao faroeste - western ou “nordestern” -, sem deixar de enveredar por outros gêneros, como suspense, ação, gore etc. “Definir é limitar” e o longa está além destas classificações mais comuns. 

Na tela, a protagonista é a cidade de Bacurau, onde observamos quem ali vive, convive e resiste. O lugarejo do longa não existe, mas a cidade de Barra/RN, sim, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Por isso, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais, apresentando personagens de todas as cores e orientações sexuais.

O filme consegue colocar Bacurau como personagem, coletivamente, o que o distingue das grandes produções enlatadas, que costumam dar destaque a heróis considerados individualmente. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama não apresenta um herói (indivíduo). Pelo contrário, o tempo todo se evidencia a ação coletiva, deixando claro que a união do povoado é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.

Logo no início do filme, vemos a estrada que leva ao povoado e há um “close” numa placa, onde se lê: “BACURAU, 17 KM, SE FOR, VÁ NA PAZ”. Surge a dúvida: Bacurau está à distância daqueles habitantes do “sul maravilha”[1] que apertaram nas urnas o número 17, do partido do atual presidente do Brasil? Ou foi só uma distância qualquer, sem outras intenções? 

O fato é que até no trailer a placa aparece em destaque e mostra um número que marcou a polarização política e regional nas eleições de 2018, não custando lembrar que o Nordeste foi a região que onde o presidente de extrema direita teve menos votos.[2] 

E a mensagem da placa tem muito a ver com o enredo do filme, que mostra a cisão entre as regiões do Brasil e os preconceitos daí decorrentes, assim como a relação dos brasileiros com estrangeiros. Tudo isso numa espécie de jogo (game) bastante simbólico. 

Filme espetacular. Recomendo demais.

PS. Para quem já assistiu, deixo aqui o link para minha análise mais completa sobre o filme: http://ecosprosaicos.blogspot.com/2019/10/lunga-vive-novo-oeste-na-caatinga-uma.html

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Notas e referências:

[1] “Sul maravilha” é uma expressão usada por Henfil em sua obra. Segundo Seixas (1996), “’sul-maravilha’ é apenas mencionado pelos personagens, sem ter existência real nas histórias: assim como o Brasil divulgado pela grande imprensa era apenas uma fantasia, para o homem do interior brasileiro as cidades grandes de Rio e São Paulo configuravam-se como um sonho distante e inalcançável ou então como uma realidade sufocante e esmagadora”. 


Trailer de Bacurau: https://youtu.be/1DPdE1MBcQc

Ficha técnica do filme:
Nome Original: Bacurau
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil e França
Ano de produção: 2014
Gênero: ação / suspense / western
Duração: 132 min.
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Reflexos obscuros da queda livre (Black mirror)

O tema é “Queda livre”, primeiro episódio da terceira temporada da série Black Mirror (Netflix). Não, esse texto não tem revelações da trama, é apenas uma leitura da ideia, especialmente do uso da tecnologia para avaliar pessoas e colocá-las em níveis ou classes diferentes. Mas é melhor ver primeiro e ler depois.

A primeira cena é de uma mulher correndo com um celular na mão, olhando pra tela o tempo todo. Daí em diante todos os encontros dela geram avaliações, notas de 1 a 5. Um esbarrão pode render notas baixas e um bom atendimento a troca de 5 estrelas marcadas rapidamente na tela. Vale pra tudo: fotos, postagens, atitudes, todos podem se avaliar, mas a nota dos mais bem avaliados (acima de 4.5) tem peso maior na pontuação. E essas notas determinam tudo na vida da pessoa: acesso a casas, financiamentos, serviços, empregos, pessoas com quem se relacionar etc. essa é a ideia. 

No Uber tem isso. Você faz a corrida e rola uma avaliação mútua. Então, isso passa a fazer parte de todos os atos. As pessoas tornam-se reféns (e algozes) das avaliações, dali vem o status de cada personagem. Reprovação social gera queda de pontos. Autoridades podem punir com perda de pontos. Como outros episódios de Black Mirror, esse causa um mal-estar. Ainda bem que é ficção, tento me aliviar. Mas, refletindo um pouco mais, fico assustado ao pensar que a realidade é parecida ou até pior.

O critério de avaliação atual baseia-se na desigualdade, construída historicamente, sendo evidente a dificuldade ou proibição do acesso de certas pessoas a determinados locais, serviços, relações sociais etc. E no episódio, a princípio, não se veem mendigos, pessoas famintas, trabalho escravo (talvez o fim revele como lidam com os desajustados); não se fala em desemprego e as pessoas parecem estar vivendo com conforto. No presente, na realidade, há miséria, pobreza e uma enorme restrição dessas pessoas a serviços essenciais de qualidade (educação, saúde etc.), concessão de crédito, empregos com maior remuneração etc. E ainda há avaliações, como a das roupas (moda), do modo de falar, da origem, da cor da pele, do gênero, marcas dos produtos que usa etc. Isso sem falar do individualismo, da falta de consciência de classe.

Como são avaliadas pessoas pobres, sem estudo formal, que não dominam mais línguas, sem a bagagem cultural exigida, sem a aparência imposta, que moram em locais discriminados? Como são dadas as oportunidades? A ficção não se esgota na trama de personagens distantes de nós, a fantasia, a imaginação apontam pra realidade. A ficção é um reflexo crítico da vida. Nossas avaliações, interações e acessos também estão sendo definidas por critérios falhos. E as pessoas, tão imersas nesse sistema, muitas vezes não veem suas estruturas.