Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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domingo, 19 de julho de 2026
Identidades inventadas, verdades escondidas.
Em Argo (2012), uma equipe falsa de cinema é criada para retirar diplomatas americanos do Irã em meio à Revolução Islâmica. A ficção se transforma em estratégia de sobrevivência.
Em A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, Gabriel García Márquez narra a história real do cineasta chileno que, exilado pela ditadura de Pinochet, retorna secretamente ao seu país usando identidades falsas para registrar, com sua câmera, um Chile que o regime tentava esconder.
As duas obras mostram que, em tempos de exceção, representar um papel pode ser mais do que teatro: pode ser um ato de resistência.
Se em Argo a mentira salva vidas, em Miguel Littín clandestino no Chile o disfarce preserva a memória. Em ambos os casos, o cinema deixa de ser entretenimento para se tornar instrumento político, documental e, sobretudo, humano.
No fim, a pergunta permanece: quando a verdade é perseguida, quantas máscaras são necessárias para que ela sobreviva?
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Indicação de Leitura: Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Marquez
Poucos escritores conseguiram retratar a América Latina com tanta sensibilidade e profundidade quanto Gabriel García Márquez. Em Ninguém Escreve ao Coronel, o autor deixa de lado os elementos mais conhecidos do realismo mágico para construir uma narrativa marcada pela espera, pela dignidade e pela resistência.
Na trama, um velho coronel vive com a esposa em uma pequena cidade, aguardando há anos a carta que deveria confirmar sua aposentadoria pelos serviços prestados ao país. A correspondência nunca chega. Em meio à pobreza, à burocracia e ao abandono do Estado, o casal luta para sobreviver enquanto deposita suas últimas esperanças em um galo de briga herdado do filho morto.
Com uma escrita enxuta e poderosa, García Márquez transforma uma história aparentemente simples em uma reflexão sobre injustiça social, desigualdade e esperança. O coronel representa milhões de latino-americanos esquecidos pelas instituições, obrigados a conviver com promessas não cumpridas, precariedade e exclusão.
Mais do que um romance sobre a espera, o livro é uma denúncia silenciosa das estruturas de poder que marcaram a história da América Latina. E, ao mesmo tempo, é um retrato emocionante da capacidade humana de resistir mesmo quando tudo parece perdido.
📖 Leitura breve, intensa e profundamente humana. Uma excelente porta de entrada para a obra de García Márquez e para a compreensão de muitas das contradições sociais e políticas latino-americanas.
Cem anos de Solidão. Netflix, 2024.
A adaptação de Cem Anos de Solidão, disponível na Netflix, traz para as telas uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. Escrita por Gabriel García Márquez, a narrativa acompanha várias gerações da família Buendía na mítica cidade de Macondo, onde realidade e fantasia se misturam de forma única.
A série preserva a essência do romance, explorando temas como amor, solidão, poder, memória e os ciclos que parecem se repetir ao longo da história. Com uma produção cuidadosa e visualmente impressionante, a adaptação busca traduzir para a linguagem audiovisual o realismo mágico que consagrou a obra de García Márquez.
Para quem já leu o livro, a série é uma oportunidade de revisitar Macondo sob uma nova perspectiva. Para quem ainda não conhece a obra, é um excelente convite para mergulhar em um dos maiores clássicos da literatura mundial.
Uma história sobre o tempo, a memória e os destinos que insistem em se repetir.
sábado, 28 de janeiro de 2017
Ninguém liga pro Daniel Blake (Ken Loach, 2016)
O
filme começa com palavras num fundo negro: apenas um diálogo. Um
homem e uma mulher falam sobre o questionário para obter benefício previdenciário. Muitas frases são ditas antes que as imagens
venham à luz. O diretor é um parteiro de imagens sóbrias,
realistas, em tons azuis acinzentados e focos originais. O filme tem
cortes bem marcados de tempos em tempos, indicando a passagem de
períodos: segundos de tela negra e silêncio destacam trechos da
obra.
A
narrativa mira a burocracia, a frieza, a falta de humanidade, o
despreparo programado dos técnicos, que negam benefícios vitais
para pessoas mais pobres, numa sociedade claramente desigual. Mira,
sobretudo, o estado, a máquina pública e os vilões são os
gerentes do instituto de previdência britânico. Daniel Blake,
carpinteiro há mais de 40 anos, viúvo, morador de uma cidade média,
sofreu um infarto, quase morreu. Sua médica o proibiu de trabalhar.
Porém, mesmo com o laudo, o benefício lhe foi negado. Daniel não é
um homem paciente, submisso; é um homem ciente dos seus direitos,
astuto, tem o dom da ironia, a simpatia de um homem experiente, que
convive em harmonia com vizinhos pobres, imigrantes.
A
trama pode lembrar “o processo” de Kafka, mas é muito mais
realista, embora as exigências e a
falta de abertura ao diálogo nos deixem mareados, enjoados,
irritados, tensos. Blake tenta, fala, grita e, ao presenciar o
absurdo da negativa de atendimento a uma mulher jovem com duas
crianças, toma partido, em defesa da mãe desnorteada. Ambos
terminam expulsos da unidade, agressivamente. E daí começam uma
amizade.
Há
cenas que expõem a globalização, quando um vizinho de Daniel
recebe pares de tenis da china para revender na cidade, e também com
a multietnicidade das personagens, além da conversa por vídeo com o
chinês apaixonado por futebol. O filme revela a vida, os impasses,
os dramas de Daniel e Katie, que está longe da família e sem
dinheiro. O filme é realista e delicado.
A
narrativa tem sua poesia, com os dons artísticos do senhor solitário
que faz peixinhos de madeira para pendurar no teto, rendendo belas
imagens dos bichinhos contra a luz da janela, por onde entra alguma
luz para aquecer a casa e a vida em crise de pessoas que estão
isoladas e sem meios de subsistência. Os peixinhos de madeira me
lembraram os de ouro de Aureliano Buendia (Cem anos de
Solidão).
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
Blake lembra também a
Clara de Aquarius: um homem com dignidade, força, história e uma
disposição de lutar, mesmo que o coração já esteja enfraquecido.
Nenhum dos dois se submete. Uma das cenas mais marcantes é quando
Daniel inscreve seu recurso fora do lugar, numa superfície pública,
aberta. O fato de escrever diz muito. A palavra. Mais uma vez. Se o
diálogo inaugural tinha o fundo negro, agora a palavra se expõe
aberta. Um homem pobre, um homem machucado pela vida, com roupas
velhas, bêbado começa a defender Daniel e faz um belo discurso, se
identificando também como uma vítima do governo, “dos gordos com
suas taxas”.
Em
tempos de governantes que apagam arte, pichar pode ser um meio de
dizer (qual o lugar da arte?). E qual o lugar do poder econômico? O
filme é magnífico, o diretor Ken Loach faz um trabalho excelente,
porém penso que a narrativa poderia abordar mais a vinculação do
poder privado ao público, as relações econômicas capitalistas que
criam e reproduzem a desigualdade, a exploração, a negação da
dignidade de forma sistemática. Os vilões do filme, burocratas do estado, só
fazem o trabalho sujo para os empresários ricos.
E a palavra, ao final,
surge com um discurso deslocado, agora não de superfície mas de
personagem, um discurso que vai além. Um recurso/discurso que é
escrito e acaba lido fora da repartição, longe do seu lugar, um
recurso que lembra a carta não enviada, que segundo Lacan seria para
o grande Outro. O filme é como a mensagem, e lá como aqui vemos
idosos tendo que trabalhar, mesmo doentes, para sobreviver e todo
avanço neoliberal de privatização, redução do estado. Pode ser
que amanhã ninguém nos escreva.
______________________________________
Filme: "Eu, Daniel Blake"
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
Marcadores:
capitalismo,
cinema,
desigualdade,
Estado,
Eu Daniel Blake,
ficção,
filme,
Gabriel Garcia Marquez,
informalidade,
Kafka,
Ken Loach,
literatura,
Ninguém escreve ao coronel,
pobreza,
previdência social
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