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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Poucos livros me causaram tanto impacto quanto Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. A obra reconstrói a história do Hospital Colônia de Barbacena, instituição psiquiátrica onde milhares de pessoas morreram em condições desumanas ao longo do século XX. O mais chocante é perceber que muitas das vítimas sequer tinham transtornos mentais: eram mulheres consideradas "inconvenientes", pessoas pobres, homossexuais, alcoólatras, órfãos e tantos outros que simplesmente não se encaixavam nos padrões da época. Com uma pesquisa rigorosa e relatos devastadores, Daniela Arbex revela uma das páginas mais sombrias da história brasileira. É uma leitura dura, triste e muitas vezes revoltante, mas também necessária. Um livro que nos obriga a refletir sobre dignidade humana, exclusão social, preconceito e memória. Li o livro e recomendo fortemente. É daqueles trabalhos jornalísticos que permanecem com o leitor muito tempo depois da última página. A obra também ganhou um documentário homônimo, disponível na Netflix. Ainda não assisti à adaptação, então não posso indicá-la com a mesma convicção com que indico o livro. Mas fica a sugestão para quem quiser conhecer essa história também em formato audiovisual. Uma leitura dolorosa, profunda e indispensável para entender um dos capítulos mais vergonhosos da história brasileira, ainda mais em tempos de luta antimanicomial.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"O sol só vem depois" e a poesia de AmarElo (Emicida, 2019)

AmarElo, do Emicida, lançado recentemente, é fabuloso. Nas palavras do artista, o álbum tem o objetivo de devolver a calma às pessoas. E realmente devolve, por tudo que apresenta nas melodias, nas letras e até nas conversas gravadas.

A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.

Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.

Na “ordem natural das coisas”, a vida vem antes e sempre vence. Esta letra é uma das coisas mais lindas que já (ou)vi. Em tempos de reificação, o cara diz - da forma mais bela com a qual jamais sonhei - que antes de tudo vem a vida, e não importa que seja a do broto de feijão, das aranhas ou das pessoas - qualquer ser vivo vem antes das coisas. O sol, esta enorme estrela que coloca geral pra girar ao seu redor, que foi e é indispensável à vida, não deixa de ser uma coisa e, por isso, vem depois. "O sol só vem depois".