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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Natureza urbana

Nasce o sol por trás dum prédio
Apagando as luzes dos postes.
Como flores, despontam antenas parabólicas
Dos telhados e coberturas.
Chovem gotas d'água dos aparelhos de ar-condicionado.

Rugem carros, motos, caminhões.
À sombra dum prédio descansa um cão magro,
estendido como um morto ante a vida das máquinas;
Sobrevoam o corpo inerte aviões, helicópteros, urubus.
O vento espalha folhas de papel
E faz dançarem sacos plásticos.

O sol brilha refletido nos prédios envidraçados,
Para-brisas, espelhos, telas, chapas de metal.
Mexe um bicho no lixo, catando restos.
Zumbe um helicóptero pousando num prédio.
Mimetizado - um homem de terno entre
Dezenas de homens de terno - entra num ônibus.
Como formigas, pessoas somem da superfície,
Entrando no buraco, estação do metrô.

Predadora é a pressa, perigosos os carros velozes.
Zumbem também telefones, sirenes,
Palavras num megafone, apitos.
Cantam os camelôs andando entre
uma manada de carros, caminhões, ônibus
Parados, à espreita, diante do sinal vermelho.

Não se ouve o murmúrio do riacho negro de esgoto,
Nem das ondas na praia, abafadas por motores
e escondidas por construções e outdoors.
Uma semente de papel amassado lançada na calçada:
há de nascer uma montanha de lixo.

Brotam tapumes e tatus tratores perfuram asfalto.
Pousam pombos nos fios.
Enquanto o sol se esconde atrás do viaduto,
nascem luzes no fim da tarde.
A noite revela uma constelação de postes,
letreiros luminosos, faróis, telas.

Migram os animais pras tocas, pros bares,
pras esquinas, pros ônibus lotados…
Não brilha a lua, mas o holofote da empena cega.
A TV em cada sala de cada apartamento
reluz como uma fogueira na mata.


Amanhã - cedo demais pra quem se esquece (aquece?)
até tarde na frente da TV -
por trás dum prédio, nascerá o sol.



domingo, 25 de abril de 2010

Brasília: cidade dos sonhos


Brasília é a cidade incapaz de abraçar os homens que a ergueram. É a cidade dos sonhos: não só para quem a projetou, mas também para os que deixaram suas terras e seguiram rumo ao nada, cheios de esperança.

No entanto, ao abrirem os olhos, uns encontraram suas casas; outros, o fim do trabalho, o fim do pão, o fim de sua utilidade: o nada, o adeus - sem promessas.

Marco Polo, em “As cidade invisíveis” - de Italo Calvino -, conversa com Kublai Khan sobre as cidades que visitou. Certa vez, “descreve uma ponte, pedra por pedra:
- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra - responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
- Sem pedras o arco não existe."



Trecho do documentário "Brasília: contradições de uma cidade nova", de Joaquim Pedro de Andrade (cineasta, diretor de Macunaíma), que, contratado para fazer um curta institucional, encontrou, já em 1965, apenas um terço dos habitante do DF morando no plano piloto de Brasília.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Guichês e roletas: Estado mínimo, lucro máximo

De acordo com o discurso vigente, os empreendimentos públicos devem buscar investimentos na iniciativa privada; desta forma, o Estado deve delegar a empresas a prestação de serviços públicos, reservando para si somente o poder de regulamentar e fiscalizar os serviços.

O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público a empresas alivia os cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área/serviço - o que evitaria ou, pelo menos, compensaria os gastos públicos.

Mas na realidade não é assim.

Isso porque, quem arca com as despesas é o usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão cobra tarifas, para cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar seus gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.

Não há certeza sobre os gastos e os lucros - e não haverá enquanto inexistir transparência.

Transporte com tarifas baixas não dão lucro e, portanto, não interessam à iniciativa privada, "patrocinadora" - indispensável? - do Poder Público. O transporte público, que deveria ser uma ponte, transforma-se em muro com as tarifas altas.

O responsável pela prestação dos serviços públicos é o Estado; isso está na nossa Constituição, artigo 175. A delegação do serviço à iniciativa privada é uma opção (sim, o Estado pode prestá-lo diretamente), que só se justifica quando tem por finalidade o interesse público. Resumindo: é pra servir - e muito bem - ao cidadão e não pra encher os bolsos de uns poucos.

A tarifa é alta: pagamos muito. Motoristas, trocadores, mecânicos etc. ganham pouco. Parece que só os empresários estão satisfeitos.