Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Indicação Musical: Nó na Orelha (Criolo, 2011)
Se você procura um disco que foge do óbvio, Nó na Orelha, de Criolo, é uma experiência indispensável.
Lançado em 2011, o álbum rompe barreiras entre gêneros e mistura rap, samba, afrobeat, reggae, soul e MPB com uma naturalidade impressionante. O resultado é um trabalho diverso, criativo e profundamente brasileiro.
As letras afiadas de Criolo transitam entre crítica social, reflexões sobre desigualdade, amor, identidade e esperança. Faixas como Não Existe Amor em SP, Bogotá e Subirusdoistiozin mostram um artista capaz de unir poesia, denúncia e sensibilidade.
Mais do que um álbum de rap, Nó na Orelha é um retrato sonoro do Brasil contemporâneo, construído com inteligência, originalidade e coragem artística.
Uma obra para quem gosta de música que provoca reflexão sem abrir mão da qualidade estética. Um disco que continua atual e relevante mais de uma década após seu lançamento.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Indicação de leitura e audição: Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC's
Poucas obras brasileiras conseguiram retratar com tanta força, lucidez e impacto a realidade social do país quanto o álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's. Lançado em 1997, o disco tornou-se um marco da cultura brasileira ao narrar a violência policial, o racismo estrutural, a desigualdade social, a exclusão das periferias e os dilemas da juventude negra com uma linguagem direta, poética e profundamente crítica.
O que impressiona não é apenas o que os Racionais disseram, mas como disseram. Em vez de falar sobre a periferia de fora para dentro, o grupo fala a partir dela, transformando experiências frequentemente invisibilizadas em arte de enorme potência estética e política. Faixas como Diário de um Detento e Capítulo 4, Versículo 3 permanecem atuais porque revelam problemas que continuam presentes no Brasil contemporâneo.
A importância cultural da obra foi reconhecida quando o álbum ganhou uma edição em livro e passou a integrar listas de leitura obrigatória de importantes vestibulares, um reconhecimento raro para uma obra originalmente musical. Esse movimento ajudou a consolidar os Racionais como autores fundamentais para compreender a sociedade brasileira das últimas décadas.
Mais do que um disco de rap, Sobrevivendo no Inferno é um documento histórico, uma denúncia social e uma reflexão sobre sobrevivência, dignidade e resistência. É uma obra que dialoga com a literatura, a sociologia, a história e os estudos sobre raça e classe no Brasil.
Indicação: leitura e audição obrigatórias para quem deseja compreender o Brasil para além das versões oficiais. Uma obra que continua provocando, questionando e ensinando quase trinta anos após seu lançamento.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
"O sol só vem depois" e a poesia de AmarElo (Emicida, 2019)
AmarElo,
do Emicida, lançado recentemente, é fabuloso. Nas palavras do
artista, o álbum tem o objetivo de devolver a calma às pessoas. E
realmente devolve, por tudo que apresenta nas melodias, nas letras e
até nas conversas gravadas.
A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.
Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.
A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.
Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.
Na
“ordem natural das coisas”, a vida vem antes e sempre vence. Esta
letra é uma das coisas mais lindas que já (ou)vi. Em tempos de
reificação, o cara diz - da forma mais bela com a
qual jamais sonhei - que antes de tudo vem a
vida, e não importa que seja a do broto de feijão, das aranhas
ou das pessoas - qualquer ser vivo vem antes das coisas. O sol,
esta enorme estrela que coloca geral pra girar ao
seu redor, que foi e é indispensável à vida, não deixa de
ser uma coisa e, por isso, vem depois. "O sol só vem depois".
Marcadores:
AmarElo,
amor,
arte,
beleza,
Emicida,
humanização,
letra,
MPB,
música,
poesia,
Rap,
reificação,
sol,
versos,
vida
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Funk: da rejeição ao pós-rebolado
Inicialmente
rejeitado por grande parte da sociedade (como o samba foi no
passado), o Funk carioca ganhou seu espaço. Nesse processo de
assimilação, expansão e comercialização, percebem-se muitas
mudanças no movimento, que, a meu ver, afetam a sua própria
definição.
Sem me aprofundar nas razões e peculiaridades deste processo de difusão, nem na definição do movimento, o fato é que, ao longo de três décadas, o funk passou de desconhecido a protagonista.
Sem me aprofundar nas razões e peculiaridades deste processo de difusão, nem na definição do movimento, o fato é que, ao longo de três décadas, o funk passou de desconhecido a protagonista.
A
música popular parece seguir esse caminho: costuma nascer à margem
da sociedade e, posteriormente, se expande, por meio de alguns
ícones, que são cruciais à propagação e assimilação dos novos
gêneros.
Como exemplo deste processo no caso do funk, podemos observar as músicas de Claudinho e Buchecha: há uns 15 anos, era impossível imaginá-las incluídas na programação de certas rádios voltadas ao público de classe média; no entanto, gravadas por outros artistas, passaram a tocar nessas rádios com frequência.
Como exemplo deste processo no caso do funk, podemos observar as músicas de Claudinho e Buchecha: há uns 15 anos, era impossível imaginá-las incluídas na programação de certas rádios voltadas ao público de classe média; no entanto, gravadas por outros artistas, passaram a tocar nessas rádios com frequência.
Assim
como ocorreu na origem do Samba - com todos os elementos que o
compõe, como os instrumentos, a dança, o meio etc. -, o funk também
foi associado à marginalidade. Do mesmo modo, a história do blues,
o rock, o reggae.
Este
último só foi divulgado e assimilado mundialmente quando Eric
Clapton gravou B. Marley. Pioneiro, o Led Zeppelin, em 73,
lançou D'yer Mak'er, reggae cujo título soa intencionalmente como
Jamaica e que levou anos para ser aceito pela crítica. Em 78, Mick
Jagger tocou com Peter Tosh (Don't lock back). Por aqui, Gil
se encarregou de difundir o novo som.
O curioso é que Gil, anos antes, participou da passeata contra contra a guitarra, fato que também serve para ilustrar o processo de rejeição e posterior incorporação. Nesse sentido, a essência do movimento tropicalista, que admitia beber de muitas fontes e, misturando à cultura nacional, criar algo novo. Um "rabo de galo" estético-cultural.
Para mim, trata-se de admitir o óbvio, já que não acredito em pureza na música: sempre há mistura e transformação, que alteram o objeto original.
O curioso é que Gil, anos antes, participou da passeata contra contra a guitarra, fato que também serve para ilustrar o processo de rejeição e posterior incorporação. Nesse sentido, a essência do movimento tropicalista, que admitia beber de muitas fontes e, misturando à cultura nacional, criar algo novo. Um "rabo de galo" estético-cultural.
Para mim, trata-se de admitir o óbvio, já que não acredito em pureza na música: sempre há mistura e transformação, que alteram o objeto original.
Pra
provar a inexistência de pureza, diz a lenda que os jamaicanos, em
meados do séc. XX, sintonizavam rádios do sul dos EUA, e daí,
misturando música caribenha com norte-americana - ambas com forte
influência africana -, surgiu o reggae.
E, tempos depois, foi a vez do reggae visitar os EUA, influenciando bandas como Sublime, que o regurgitaram com um rock mais contemporâneo.
Isso sem falar que o rap surgiu na Jamaica, o que pouca gente sabe. O DJ jamaicano Kool Herc é considerado o responsável por levar o rap aos EUA, mais especificamente a Nova Iorque, entre as décadas de 60 e 70.
E, tempos depois, foi a vez do reggae visitar os EUA, influenciando bandas como Sublime, que o regurgitaram com um rock mais contemporâneo.
Isso sem falar que o rap surgiu na Jamaica, o que pouca gente sabe. O DJ jamaicano Kool Herc é considerado o responsável por levar o rap aos EUA, mais especificamente a Nova Iorque, entre as décadas de 60 e 70.
Mas voltando à nossa música marginal da atualidade, penso que, guardadas as devidas proporções, Anitta está para o funk, como Elvis, para o rock.
É comum o discurso de que o funk carioca é uma simples importação, uma cópia bruta e mal acabada do miami bass norte-americano. Mas, observando-se o movimento, não dá pra negar a atuação da "antropofagia", ressaltando-se que o tempo é imprescindível para uma boa digestão.
Mesmo o modo de cantar que, em algumas músicas, se aproxima bastante da fala, é uma característica interessante. Quando vemos a arte pós-moderna mexendo com os suportes e deslocando os objetos de suas funções, a letra, falada, sobrepondo-se ao ritmo, pode ser repensada.
Quanto à dança, é bem interessante a mistura. Se pararmos para observar e refletir, veremos que o agora famoso quadradinho representa uma verdadeira transgressão, na medida em que insere pausas e aproxima o rebolado - que é essencialmente arredondado, até no termo - a um movimento em ângulos retos, robótico, vinculando-o às batidas eletrônicas, as quais espelham o ritmo de produção industrial (linha de montagem).
Verdadeiro desafio à física clássica, o quadradinho consegue realizar a quadratura do círculo, ao compasso do funk, violando regras e dispensando réguas. O que os físicos não se deram conta é que quadrados e círculos só podem se aproximar quando em movimento. O estudo das formas puramente estáticas foi superado.
Não é de hoje que parte de nossa dança nos virou às costas e a bunda passou a protagonizar a cena. Ao samba, funk e axé, juntou-se a influência da breakdance, que, embora encarada por muitos só como um jeito norte-americano de dançar, não deixa de ser também africana e latina, vez que surgiu nos guetos de grandes cidades dos EUA. Nesse contexto, o quadradinho parece ser a união do nosso rebolado com o break, uma espécie de square ball action, ou melhor, squarebolation.
Diante do exposto, creio que o quadradinho é, na verdade, o pós-rebolado.
PS. Para
entender melhor a origem funk e observar como foi ignorado a princípio,
sugiro a leitura da dissertação de mestrado sobre o baile funk
carioca, de Hermano Paes Vianna Jr., disponibilizada pelo autor
em http://www.overmundo.com.br/banco/o-baile-funk-carioca-hermano-vianna.
Pena que é antiga. Não sei se há algum livro recente e bom sobre o
assunto. São bem-vindas sugestões.
Marcadores:
Anitta,
arte,
Brasil,
Claudinho e Buchecha,
dança,
Elvis,
favela,
Funk,
história,
MPB,
música,
negros,
periferia,
pobreza,
preconceito,
Rap,
rebolado,
reggae,
rock,
samba
sábado, 17 de julho de 2010
Águas de março
“É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho...”
"Definir é limitar". Embora toda obra seja aberta ao olhar de quem a contempla, poucas conseguem ser tão livres quanto Águas de março, música de Tom Jobim. Em vez de construir frases com significado fechado, o compositor, com simplicidade - origem de sua liberdade -, brinca com palavras soltas:
"(...) É a lenha, é o dia, é o fim da picada,
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada..."
Ouvir Águas de março é como folhear um álbum de fotografias: cada imagem desperta uma lembrança. O Eu-lírico, despretensioso, concede ao interlocutor a liberdade de buscar dentro de si, em suas lembranças, múltiplos significados.
"(...) É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando,
É a luz da manhã, é o tijolo chegando..."
Os versos são tijolos com os quais cada um de nós (re)constrói a sua própria história. Os tijolos nos são doados, mas é nossa a argamassa que vai uni-los.
"É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira..."
Trata-se de uma enxurrada de imagens prosaicas capaz de penetrar na memória e desprender lembranças, como a chuva faz com a poeira esquecida no chão.
"É o fundo do poço, é o fim do caminho,
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho..."
As recordações, mesmo as tristes, guardam sempre alguma ternura; da dor de ontem é possível e provável que se sinta saudade. São de março as águas nas quais se diluem nossas lembranças, como no tempo se diluem nossas vidas.*
"São as águas de março fechando o verão,
É promessa de vida no teu coração."
_________________________
* Mudei a forma, mas a comparação é de Saramago. "(...) No tempo desaparece também a vida." Pág. 326. História do Cerco de Lisboa.
É um resto de toco, é um pouco sozinho...”
"Definir é limitar". Embora toda obra seja aberta ao olhar de quem a contempla, poucas conseguem ser tão livres quanto Águas de março, música de Tom Jobim. Em vez de construir frases com significado fechado, o compositor, com simplicidade - origem de sua liberdade -, brinca com palavras soltas:
"(...) É a lenha, é o dia, é o fim da picada,
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada..."
Ouvir Águas de março é como folhear um álbum de fotografias: cada imagem desperta uma lembrança. O Eu-lírico, despretensioso, concede ao interlocutor a liberdade de buscar dentro de si, em suas lembranças, múltiplos significados.
"(...) É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando,
É a luz da manhã, é o tijolo chegando..."
Os versos são tijolos com os quais cada um de nós (re)constrói a sua própria história. Os tijolos nos são doados, mas é nossa a argamassa que vai uni-los.
"É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira..."
Trata-se de uma enxurrada de imagens prosaicas capaz de penetrar na memória e desprender lembranças, como a chuva faz com a poeira esquecida no chão.
"É o fundo do poço, é o fim do caminho,
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho..."
As recordações, mesmo as tristes, guardam sempre alguma ternura; da dor de ontem é possível e provável que se sinta saudade. São de março as águas nas quais se diluem nossas lembranças, como no tempo se diluem nossas vidas.*
"São as águas de março fechando o verão,
É promessa de vida no teu coração."
_________________________
* Mudei a forma, mas a comparação é de Saramago. "(...) No tempo desaparece também a vida." Pág. 326. História do Cerco de Lisboa.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Mortalha do amor
Depois de escrever sobre a solidão (Dança de Eleanor) e a paixão (“O meu pensamento tem a cor do seu vestido”), a saudade se impôs como terceiro elemento desta trilogia não planejada.
A paixão e a solidão poderiam ser tratadas como opostos: a paixão como queda - ainda que ilusória - das barreiras da separação. Mas esta definição seria superficial, na medida em que a solidão pode surgir como uma ilha dentro do mar revolto da paixão: ao sentirmos o afastamento, ainda que breve, do objeto do desejo, toda intensidade da paixão se converte na constatação da sua incapacidade de promover a almejada, embora nunca realizável, fusão; neste momento, a lava da solidão nos envolve e, dentro desta prisão, é comum pensarmos no passado, lembrando com saudade do que vivemos.
A saudade é, portanto, esta visita do passado ao presente; é a invasão de pensamentos e sentimentos gerados por fatos pretéritos, mas que ainda ecoam dentro de nós. E a distância potencializa tais sentimentos: a saudade não decorre somente das lembranças e emoções associadas ao passado mas também da fantasia que criamos sobre essas recordações.
A saudade não é como uma foto,* um registro fiel, objetivo, do que vivemos ontem; ela é como uma pintura: ao nos lembrarmos, pintamos a cena de acordo com as emoções que sentimos hoje e que sentimos - ou imaginamos ter sentido - quando a vivemos; daí o caráter subjetivo da construção das lembranças. Desta forma, muitas vezes supervalorizamos fatos que não foram tão significativos enquanto aconteciam, o que nos faz de certo modo negar o presente; em suma, freqüentemente o passado – ou melhor, a tela das memórias transformada pelo tempo e pela saudade - se sobrepõe ao presente.
Fernando Pessoa expressa perfeitamente esta valorização do passado “só porque foi”:
A paixão e a solidão poderiam ser tratadas como opostos: a paixão como queda - ainda que ilusória - das barreiras da separação. Mas esta definição seria superficial, na medida em que a solidão pode surgir como uma ilha dentro do mar revolto da paixão: ao sentirmos o afastamento, ainda que breve, do objeto do desejo, toda intensidade da paixão se converte na constatação da sua incapacidade de promover a almejada, embora nunca realizável, fusão; neste momento, a lava da solidão nos envolve e, dentro desta prisão, é comum pensarmos no passado, lembrando com saudade do que vivemos.
A saudade é, portanto, esta visita do passado ao presente; é a invasão de pensamentos e sentimentos gerados por fatos pretéritos, mas que ainda ecoam dentro de nós. E a distância potencializa tais sentimentos: a saudade não decorre somente das lembranças e emoções associadas ao passado mas também da fantasia que criamos sobre essas recordações.
A saudade não é como uma foto,* um registro fiel, objetivo, do que vivemos ontem; ela é como uma pintura: ao nos lembrarmos, pintamos a cena de acordo com as emoções que sentimos hoje e que sentimos - ou imaginamos ter sentido - quando a vivemos; daí o caráter subjetivo da construção das lembranças. Desta forma, muitas vezes supervalorizamos fatos que não foram tão significativos enquanto aconteciam, o que nos faz de certo modo negar o presente; em suma, freqüentemente o passado – ou melhor, a tela das memórias transformada pelo tempo e pela saudade - se sobrepõe ao presente.
Fernando Pessoa expressa perfeitamente esta valorização do passado “só porque foi”:
"Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."
E é quase impossível (“quase” é eufemismo: para mim é impossível mesmo) não se deixar levar por este apego ao que se foi, bem como evitar a ansiedade que nos causa o porvir. Não é à toa que as religiões e alguns filósofos se dedicam ao tema: trata-se de algo inerente ao ser humano, que lhe causa sofrimento e ao mesmo tempo o distingue dos outros animais.
O cristianismo, tal qual o budismo, parece invalidar os pensamentos e sentimentos associados ao passado e ao futuro. No “sermão da montanha”, propõe Jesus, como exemplo de integração ao presente, o modo de viver dos seres irracionais: “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta”. [1]
Todavia a liberdade do homem reside justamente nesta capacidade de autonomia em relação à natureza: “o animal e a natureza são um só. O homem e a natureza são dois”, ou seja, o homem é por excelência um ser antinatural; e aí se encontra sua liberdade, que lhe permite inclusive praticar excessos contra si mesmo.
Explico-me: os animais são determinados pela natureza, são condicionados por seus instintos, não podem se aperfeiçoar à medida que crescem, são perfeitos (prontos) desde o início. [2] Nós homens, não: podemos nos aperfeiçoar ao longo da vida, não estamos condicionados a sermos um só com a natureza.
Com efeito, os animais, segundo Schopenhauer, “são o presente corporificado”, na medida em que a consciência deles é limitada ao presente (instinto), “ao passo que a consciência humana tem um campo de visibilidade que abarca a totalidade da vida, e mesmo a ultrapassa” (metafísica). [3]
Destarte, rejeitar a saudade, bem como os sofrimentos decorrentes do apego e da ansiedade em relação ao futuro, é recusar um potencial humano. As lembranças, sob a perspectiva coletiva, permitem a formação da cultura, assim como a noção do futuro permite que haja planejamento. Se nos vincularmos apenas ao agora, nos afastaremos do conhecimento desenvolvido pelas experiências dos nossos ancestrais e também não conseguiremos levar a cabo grandes empreendimentos, pois evitaremos os projetos, imprescindíveis às grandes realizações.
Sem a saudade, não existiria a Odisséia. Nostalgia significa sofrimento causado pelo retorno (em grego, nóstos é retorno e álgos, dor). Como escreveu Kundera em A ignorância, Odisseu, um dos maiores aventureiros de todos os tempos, foi também o maior nostálgico. Talvez Kundera tenha invertido a ordem: porque era um grande nostálgico, Odisseu foi um incrível aventureiro.
No entanto, lembrar do passado não significa sentir saudade. Pode-se recordar sem sofrer, sem cotejar o ontem com o hoje. Tão-somente lembrar; observar uma foto e não pintar um quadro, ou seja, ter uma visão objetiva do ontem. Mas será isso possível? A memória objetiva, sem emoções, é viável? Em se tratando das relações interpessoais acredito que não; e, para ser sincero, prefiro ser um pintor que sofre a um mero observador de retratos.
Portanto, viva a saudade! Viva o apego! Viva o sofrimento! Não negarei minhas emoções, elas me fazem “humano, demasiadamente humano”. O desejo da ausência de sofrimento é uma forma de fugir da vida. Portanto, viva o Ego! Não quero ser uma partícula do cosmos nem ser um com Deus (embora o cristianismo ofereça a tentadora promessa de carregarmos o ego e as pessoas que amamos para o além, para a eternidade). Quero ser Eu! Por mais insignificante, doloroso e efêmero que isso seja perto das promessas de unidade e eternidade que oferecem as religiões e filósofos otimistas.
Não há dúvida de que a saudade é uma fuga - ainda que involuntária - do presente e que a distância do tempo transforma fatos triviais em lembranças extraordinárias. Porém, como já afirmei, este quadro é tão belo quanto a vida e por isso não deve ser evitado; a saudade é como a arte – a comparação com a pintura não é vã.
“E por falar em saudade”, a música “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, é visceral.
O cristianismo, tal qual o budismo, parece invalidar os pensamentos e sentimentos associados ao passado e ao futuro. No “sermão da montanha”, propõe Jesus, como exemplo de integração ao presente, o modo de viver dos seres irracionais: “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta”. [1]
Todavia a liberdade do homem reside justamente nesta capacidade de autonomia em relação à natureza: “o animal e a natureza são um só. O homem e a natureza são dois”, ou seja, o homem é por excelência um ser antinatural; e aí se encontra sua liberdade, que lhe permite inclusive praticar excessos contra si mesmo.
Explico-me: os animais são determinados pela natureza, são condicionados por seus instintos, não podem se aperfeiçoar à medida que crescem, são perfeitos (prontos) desde o início. [2] Nós homens, não: podemos nos aperfeiçoar ao longo da vida, não estamos condicionados a sermos um só com a natureza.
Com efeito, os animais, segundo Schopenhauer, “são o presente corporificado”, na medida em que a consciência deles é limitada ao presente (instinto), “ao passo que a consciência humana tem um campo de visibilidade que abarca a totalidade da vida, e mesmo a ultrapassa” (metafísica). [3]
Destarte, rejeitar a saudade, bem como os sofrimentos decorrentes do apego e da ansiedade em relação ao futuro, é recusar um potencial humano. As lembranças, sob a perspectiva coletiva, permitem a formação da cultura, assim como a noção do futuro permite que haja planejamento. Se nos vincularmos apenas ao agora, nos afastaremos do conhecimento desenvolvido pelas experiências dos nossos ancestrais e também não conseguiremos levar a cabo grandes empreendimentos, pois evitaremos os projetos, imprescindíveis às grandes realizações.
Sem a saudade, não existiria a Odisséia. Nostalgia significa sofrimento causado pelo retorno (em grego, nóstos é retorno e álgos, dor). Como escreveu Kundera em A ignorância, Odisseu, um dos maiores aventureiros de todos os tempos, foi também o maior nostálgico. Talvez Kundera tenha invertido a ordem: porque era um grande nostálgico, Odisseu foi um incrível aventureiro.
No entanto, lembrar do passado não significa sentir saudade. Pode-se recordar sem sofrer, sem cotejar o ontem com o hoje. Tão-somente lembrar; observar uma foto e não pintar um quadro, ou seja, ter uma visão objetiva do ontem. Mas será isso possível? A memória objetiva, sem emoções, é viável? Em se tratando das relações interpessoais acredito que não; e, para ser sincero, prefiro ser um pintor que sofre a um mero observador de retratos.
Portanto, viva a saudade! Viva o apego! Viva o sofrimento! Não negarei minhas emoções, elas me fazem “humano, demasiadamente humano”. O desejo da ausência de sofrimento é uma forma de fugir da vida. Portanto, viva o Ego! Não quero ser uma partícula do cosmos nem ser um com Deus (embora o cristianismo ofereça a tentadora promessa de carregarmos o ego e as pessoas que amamos para o além, para a eternidade). Quero ser Eu! Por mais insignificante, doloroso e efêmero que isso seja perto das promessas de unidade e eternidade que oferecem as religiões e filósofos otimistas.
Não há dúvida de que a saudade é uma fuga - ainda que involuntária - do presente e que a distância do tempo transforma fatos triviais em lembranças extraordinárias. Porém, como já afirmei, este quadro é tão belo quanto a vida e por isso não deve ser evitado; a saudade é como a arte – a comparação com a pintura não é vã.
“E por falar em saudade”, a música “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, é visceral.
"Pedaço de Mim
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus"
Nesta canção da saudade, percebe-se o uso da anáfora, que consiste na repetição de um grupo de palavras no princípio de frases ou versos consecutivos. Assim, o verso “Oh, pedaço de mim” e o verso subseqüente, o qual sempre se inicia com “oh, metade...”, possuem a função de vocativo, ou seja, designam a quem o Eu-lírico fala.
Desta forma, em “Pedaço de mim”, o Eu-lírico implora ao objeto da saudade – “oh, pedaço de mim" - que vá embora, e o faz explicando em cada estrofe o que é a saudade e o quanto ela dói. É interessante ressaltar que as lembranças são partes do Eu (partes arrancadas dele); não são o outro, mas, sim, fragmentos do Eu, mutilados e exilados pelo tempo. Nesse contexto, esta poesia é na verdade um monólogo (considerando o Eu-lírico como um só ser) entre uma parte do Eu que deseja esquecer a fim de parar de sofrer e a outra, que insiste em recordar o amor e fomentar a saudade; ou seja, uma conversa entre razão e emoção.
Racionalmente, quem sofre de saudade clama pelo esquecimento: é melhor não se lembrar do que sonhar com algo que inexoravelmente não existe mais. Por isso, no terceiro verso de todas as estrofes (exceto a última), o Eu-lírico roga que a causa da saudade (o pedaço emotivo dele) leve embora seus sinais, seu olhar, seu vulto, tudo o que possa provocar mais saudade; e, na última estrofe, exige que o objeto do desejo lave os seus olhos tristes, que não conseguem parar de admirar a tela das lembranças.
Seria perda de tempo comentar as definições de saudade de cada estrofe; basta ler, ouvir e sentir; desejo, no entanto, escrever sobre a comparação da saudade com um barco, o qual descreve um arco e evita atracar no cais. O barco é a imagem que temos do passado, o tempo é a distância que há entre nós, que estamos no cais (presente), e o barco que a cada dia está mais longe. E mesmo quando o barco sumir no horizonte (porque este é o seu destino - ele nunca voltará ao cais), seremos capazes de imaginá-lo e pintá-lo no quadro da saudade, com as cores e as emoções que surgirem ao tocarmos a tela do ontem com as tintas de hoje.
A saudade é prova de que o amor existiu. Pois tudo que há é finito. A saudade é o enterro de uma paixão. A saudade é a mortalha do amor.
Notas
* A foto também não é um registro objetivo. Uso a comparação, mas na verdade a fotografia é subjetiva, não objetiva.
[1] Novo Testamento. Mateus, 5:7. “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor que elas? (...) E quanto às vestes, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam (...) Não andeis pois inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos?”
[2] ROSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens. In: Rosseau. Os pensadores. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo. Nova Cultural, 2000.
[3] SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte; Metafísica do Amor; Do Sofrimento do Mundo. São Paulo. Martin Claret, 2008.
Desta forma, em “Pedaço de mim”, o Eu-lírico implora ao objeto da saudade – “oh, pedaço de mim" - que vá embora, e o faz explicando em cada estrofe o que é a saudade e o quanto ela dói. É interessante ressaltar que as lembranças são partes do Eu (partes arrancadas dele); não são o outro, mas, sim, fragmentos do Eu, mutilados e exilados pelo tempo. Nesse contexto, esta poesia é na verdade um monólogo (considerando o Eu-lírico como um só ser) entre uma parte do Eu que deseja esquecer a fim de parar de sofrer e a outra, que insiste em recordar o amor e fomentar a saudade; ou seja, uma conversa entre razão e emoção.
Racionalmente, quem sofre de saudade clama pelo esquecimento: é melhor não se lembrar do que sonhar com algo que inexoravelmente não existe mais. Por isso, no terceiro verso de todas as estrofes (exceto a última), o Eu-lírico roga que a causa da saudade (o pedaço emotivo dele) leve embora seus sinais, seu olhar, seu vulto, tudo o que possa provocar mais saudade; e, na última estrofe, exige que o objeto do desejo lave os seus olhos tristes, que não conseguem parar de admirar a tela das lembranças.
Seria perda de tempo comentar as definições de saudade de cada estrofe; basta ler, ouvir e sentir; desejo, no entanto, escrever sobre a comparação da saudade com um barco, o qual descreve um arco e evita atracar no cais. O barco é a imagem que temos do passado, o tempo é a distância que há entre nós, que estamos no cais (presente), e o barco que a cada dia está mais longe. E mesmo quando o barco sumir no horizonte (porque este é o seu destino - ele nunca voltará ao cais), seremos capazes de imaginá-lo e pintá-lo no quadro da saudade, com as cores e as emoções que surgirem ao tocarmos a tela do ontem com as tintas de hoje.
A saudade é prova de que o amor existiu. Pois tudo que há é finito. A saudade é o enterro de uma paixão. A saudade é a mortalha do amor.
Notas
* A foto também não é um registro objetivo. Uso a comparação, mas na verdade a fotografia é subjetiva, não objetiva.
[1] Novo Testamento. Mateus, 5:7. “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor que elas? (...) E quanto às vestes, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam (...) Não andeis pois inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos?”
[2] ROSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens. In: Rosseau. Os pensadores. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo. Nova Cultural, 2000.
[3] SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte; Metafísica do Amor; Do Sofrimento do Mundo. São Paulo. Martin Claret, 2008.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Refrões da cidade
Menino das Laranjas
(Théo de Barros)
"Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar
É madrugada, vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
Esse filho vai ter que apanhar
Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor!
Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar
De madrugada, ele, menino, acorda cedo
Tentando encontrar
Um pouco pra poder viver até crescer
E a vida melhorar
Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor..."
Até então, eu partia da música para o ensaio, ou seja, diante do que sentia ao ouvir a música, eu escrevia. Desta vez, no entanto, foi diferente: ao presenciar o vendedor de sombrinhas da Praça XV seguir sem proteção sob a chuva, surgiu a idéia de escrever a crônica e a partir daí me lembrei das músicas que abordam o tema.
(Théo de Barros)
"Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar
É madrugada, vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
Esse filho vai ter que apanhar
Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor!
Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar
De madrugada, ele, menino, acorda cedo
Tentando encontrar
Um pouco pra poder viver até crescer
E a vida melhorar
Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor..."
Até então, eu partia da música para o ensaio, ou seja, diante do que sentia ao ouvir a música, eu escrevia. Desta vez, no entanto, foi diferente: ao presenciar o vendedor de sombrinhas da Praça XV seguir sem proteção sob a chuva, surgiu a idéia de escrever a crônica e a partir daí me lembrei das músicas que abordam o tema.
A letra de “Menino das laranjas” é interessantíssima. De fato, a feira é um reduto dos vendedores ambulantes, um espaço livre para eles, tal como as praias. Nestes dois ambientes, a liberdade de atuação dos camelôs é maior, apesar de o Estado regular a atividade.
Na praia, os vendedores de picolé, sanduíches e bebidas são muito bem recebidos; acredito que assim seja em virtude do interesse dos freqüentadores, que querem ser servidos à beira d’água. Na feira, além dos meninos que vendem frutas, há ainda os carregadores, com seus carrinhos de rolimã. Quando criança ia sempre à feira aos sábados e lembro do barulho dos carros de rodinhas metálicas e das brincadeiras dos meninos carregadores, seus refrões e as corridas que às vezes apostavam entre eles. Havia o trabalho, a obrigação de levar as compras alheias, mas eles não deixavam de brincar, de ser crianças, era - apesar de tudo - lúdico o modo como empurravam seus carrinhos, oferecendo seus serviços.
O fato de a versão de Elis começar com o refrão deve ser ressaltada, pois é esta repetição que o camelô usa para chamar a atenção do público para seu produto - e frequentemente são musicais e bastante criativos estes jingles das ruas.
O segundo verso da primeira estrofe, “Vender sua laranja até se acabar” dá azo a duas interpretações: o menino que se acaba ou as laranjas que se acabam; penso que os dois se acabam, na verdade; mas não sei quem fenece primeiro: será a criança ou o produto?
Quanto aos dois últimos versos da primeira estrofe, “Filho de mãe solteira / Cuja ignorância tem que sustentar”, tenho algumas considerações a fazer. O filho, a meu ver, sustenta a ignorância que nós - Estado, sociedade - criamos, na medida em que não oferecemos educação a boa parte da população.
A estrofe seguinte trata da angústia da criança, que só pode voltar quando o cesto estiver vazio, caso contrário ele será substituído por outro filho e ainda castigado. Será que conseguimos nos imaginar, aos 8 ou 9 anos, saindo de casa bem cedo com um cesto de laranjas nas mãos, sem hora pra retornar; ou melhor, só podendo voltar quando o produto acabar, seja lá quando isto acontecer?
A intenção do texto é proporcionar esta identificação, é uma tentativa de preencher estes homens, pois de fato é como se eles fossem vazios da substância que os faz humanos e que permite a identificação das pessoas que ignoram sua realidade. Quem é ignorante, então: a mãe solteira desta criança ou todos os que passam por eles e não percebem que ali há um homem como qualquer outro?
E lá vão eles, bradando seus refrões:
“Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor!”
Para mim, estes refrões, cantados pelos vendedores ambulantes, são a trilha sonora real das grandes cidades, principalmente nos centros. Nós os ignoramos, mas eles estão lá, quase como máquinas, a repetir, intermitentemente, seus jingles:
Chocolate é um! Sombrinha é 5! Familhão é 10! Doce é 2! Olhai, DVD com filme que tá no cinema ainda! Bala, olha a bala!
As pessoas seguem quase sempre; alguns param e compram algo, se lhes interessa o que é ofertado nas calçadas. No entanto, insisto: não são homens que estão ali de pé vendendo na rua: são máquinas, nas quais pode-se depositar o dinheiro e pegar o produto.
Nos ônibus, também transitam camelôs, os quais - com seus ganchos cheios de sacos de balas, que se adaptam às barras internas - proferem seus refrões mais que decorados, totalmente automáticos, e oferecem sua mercadoria.
E os ambulantes não pedem esmolas: eles oferecem bens - não pedem dinheiro sem nada em troca. Sobre os pedidos nos ônibus, “O Rappa” transformou em música um refrão da cidade:
“Senhoras e senhores estamos aqui
Pedindo uma ajuda por necessidade
Pois tenho irmão doente em casa
Qualquer trocadinho é bem recebido
Vou agradecendo antes de mais nada
Aqueles que não puderem contribuir
Deixamos também o nosso muito obrigado
Pela boa vontade e atenção dispensada”
Temo que as músicas sobre tais temas sejam ouvidas como mero entretenimento e não como críticas severas a uma realidade absurda. Porque a ignorância é tanta que é capaz de dançarmos “empolgados” ao ouvir estes tristes refrões, os quais, em vez de incitar a reflexão, podem banalizar os jingles das ruas.
Voltando a “menino das laranjas”:
“Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E a comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar
Esta estrofe é crucial: inicialmente, pela divisão entre morro e cidade, mas também pela denúncia que faz ao colocar que a comida é pouca e há muita roupa pra lavar. Esta divisão (cidade/morro), segundo Bauman, em “Amor Líquido”, é um fenômeno mundial: as elites protegem-se em seus condomínios hiper-seguros e vivem suas vidas virtuais - segregação voluntária – e os demais se acumulam nas áreas físicas que lhes restam. Sobre São Paulo, o sociólogo afirma que “uma nova estética da segurança modela todos os tipos de construção e impõe uma nova lógica de vigilância e distância”.
Os versos “A comida é pouca e muita roupa / Que a cidade manda pra lavar” demonstram que há muito trabalho e poucas condições e oportunidade para os moradores do morro - e eles se inserem - se é que se pode se chamar isto de inclusão - na medida em que servem aos moradores da cidade. Esta dicotomia morro/cidade foi banalizada e parece que não enxergamos o absurdo que ela contém.
Os termos falam por si: cidadão, etimologicamente, significa o habitante da cidade (a civitas romana ou polis grega), ressaltando-se que o conceito de cidadania sempre esteve “atrelado à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado”.
Sobre esta dicotomia, os Racionais MC´s cantam, em primeira pessoa, a segregação e o dilema em que vive o jovem da periferia de São Paulo (que por sinal foi a cidade que Bauman utilizou em “Amor Líquido”, ao falar das barreiras que são erigidos para “proteger” a elite)[1]:
“Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal
Por menos de um real, minha chance era pouca
Mas se eu fosse aquele moleque de toca
Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca
De quebrada, sem roupa você e sua mina,
Um dois nem me viu já sumi na neblina
Mas não! Permaneço vivo, prossigo a mística
Vinte e sete anos contrariando a estatística
Seu comercial de tv não me engana
Eu não preciso de status nem fama”
(Racionais MC´s – Capítulo 4, versículo 3)
Neste contexto, quem é, então, o favelado? Seria aquele que serve à cidade mas a ela não pertence? Seria um cidadão ou seria uma espécie de “estrangeiro”, “refugiado” apesar de nacional?
Afinal, ele é do morro, não habita a cidade (polis) - ele transita por ela, se encaixa como peça onde há algum espaço (ainda que irregular), porém não é beneficiário da pavimentação, da proteção (polícias) etc. e não consegue influenciar nos rumos do Estado (carência de poderes políticos).
Na verdade, pode-se entender que as instituições estatais, em sua maioria, prestam-se a colocar o favelado de volta ao seu espaço e não inseri-lo; um exemplo recente é a construção de muros ao redor de algumas favelas do Rio. Não obstante a segregação dos condomínios, o Estado se propôs a usar dinheiro público para criar barreiras físicas às comunidades discriminadas.
Não seria mais lógico, como sugere Bauman, construir “pontes” em vez de “muros”, a fim de aproximar a favela da cidade e não tornar ainda mais grave a separação que já existe? O investimento em educação de qualidade e a criação de meios para que os habitantes da favela possam residir no asfalto (termo usado para designar a cidade) são algumas das “pontes” que deveriam ser construídas no lugar das barreiras.
Outro exemplo de instituição estatal que serve para reprimir é a guarda municipal, cuja função é apreender as mercadorias dos vendedores ambulantes e persegui-los pelas ruas e calçadas irregularmente ocupadas. Os guardas são servidores da cidade, do asfalto, e devem por isso zelar pela correta utilização do espaço público.
Ora, quem tem dinheiro pode comprar uma loja e colocar seus produtos à venda, ou seja, com recursos adquire-se um espaço privado e com ele há liberdade para fazer o que quiser. No entanto, como ficam aqueles que não tem dinheiro para comprar um “espaço privado”, aqueles que desconhecem o título de propriedade? A estes, que só conhecem a posse (não a segurança da propriedade), resta ocupar o espaço público, que é, em última instância, o único ao qual eles têm acesso - mesmo assim transitório, pois ninguém pode se estabelecer definitivamente no espaço que é de “todos”.
Daí se constata que ele é ambulante justamente porque tem que transitar no espaço, não tem os meios e recursos de se estabelecer: nós exigimos que ele seja nômade e o refutamos por isso! Mandamos que prossiga sempre, tal qual o agente 64 de “Crainquebille” [2], que prende o camelô que se recusa a seguir em frente.
E o movimento dos ambulantes não se restringe às suas vidas nos centros urbanos. Com efeito, a maioria dos moradores das favelas não é daqui; eles vêm do campo, são os retirantes que, instados pela fome, vêm tentar a vida nas cidades. Ou seja, essas pessoas são condenadas a se moverem sempre. Não é só o guarda que os faz seguir. É bem pior: a falta de oportunidades os obriga a migrar e a ausência de recursos os condena a se encaixar onde há espaço, ainda que informal, irregular, ilícito.
Será que os produtos realmente flutuam, sozinhos, pelas ruas ou já começamos a ver as máquinas (ou seriam sombras) que os carregam?
Notas:
[1] BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. “Sobre a dificuldade de amar o próximo”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2004. V. p. 130 e seguintes.
[2] FRANCE, Anatole. A Justiça dos Homens. Tradução de João Guilherme Linke. São Paulo: Ed. Difel, 1986.
Marcadores:
Amor Líquido,
Anatole France,
Bauman,
Camelôs,
desigualdade,
Elis Regina,
ensaio,
Estado,
Menino das laranjas,
MPB,
música,
pobreza,
política,
segregação,
sociologia
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Uma escada para o futuro ou Ampulheta escarlate
Numa noite de chuva fina, dois carros estão emparelhados, esperando, sob a luz vermelha fragmentada nas inúmeras gotículas suspensas nos vidros, que o sinal de trânsito de trânsito lhes permita seguir.
Os dois motoristas têm pressa e o sinal parece sugar toda a atenção; mas num instante ambos deixam cair os antolhos da ansiedade e olham para o lado. Os olhares se cruzam e, depois de um breve momento, se reconhecem; eles abaixam os vidros e trocam saudações - são amigos que não se encontravam há tempos. A ampulheta escarlate marca o tempo, brevíssimo, que eles têm para conversar. O sinal fechado é uma parada obrigatória; uma pequena interrupção que lhes é imposta.
Queremos seguir, precisamos seguir, somos obrigados a seguir. Aí está a diferença: a rapidez é excitante; no entanto, quando é uma imposição, torna-se cansativa, principalmente se não temos idéia do objetivo da corrida da qual participamos.
É como se houvesse - e creio que de fato há - uma perseguição: nós perseguimos algo inescrutável mas imprescindível, ao mesmo tempo em que somos vítimas de uma perseguição, algo nos empurra adiante; seguimos correndo, sob pena de sermos esmagados. E “enquanto corremos pela estrada, parece que nossas sombras são maiores que nossas almas.”[1]
A imagem de um rio caudaloso, que carrega em sua corrente tudo que ali cai, representa esse fluxo no qual estamos presos. E não conseguimos ver sequer as margens. Outra imagem é a de que somos pedras rolando montanha abaixo; nada é capaz de nos fazer parar: nosso peso, a gravidade de nossas vidas, nos impele para o abismo.[2]
O presente, nesse contexto, é fugaz, enfadonho e instrumental - na medida em que não tem nenhum valor em si mesmo, mas apenas como degrau para o porvir -; é somente um pequeno e imperceptível degrau na escada para o futuro.
Encontramo-nos no labirinto do palácio do Mago Atlas,[3] que, de uma hora para outra, se dissolve no nada, transformando-se num redemoinho de vazio. Atlas, mago ilusionista, cria esta armadilha, para atrair os cavaleiros que procuram algo; ele ilude suas vítimas com visões, nas quais os objetos desejados são roubados e levados para o castelo. Desta forma, os cavaleiros caem nesta armadilha ao perseguirem algum bem que aparentemente lhes teria sido furtado. “O desejo é uma corrida rumo ao nada, o encantamento de Atlas concentra toda as paixões insatisfeitas no interior de um labirinto (...).” [4] Sinto-me neste labirinto, buscando a realização de um desejo dentro da ilusão, ou seja, dentro deste palácio que se encontra deserto daquilo que almejo.
Aqueles amigos que se encontraram debaixo do sinal estão indo, “correndo para pegar” um lugar no futuro, que é algo inatingível, pois, ao chegar lá, ele será presente e, portanto, mais uma vez, será um pequeno degrau da escada infinita, na qual eles estão subindo com pressa, para chegar ao futuro.
No entanto, só existe o presente, que é fugaz e consiste neste degrau, no qual mal colocamos nossos pés, vislumbrando sempre o que está por vir, não o que há agora. E assim seguimos; assim temos que seguir. Parar agora, ainda que por um bom motivo, nos angustia. Estamos condenados a nos mover incessantemente; parar é morrer.
Subimos esta escada que compramos para chegar ao céu (stairway to heaven), [5] ao “sono tranqüilo”, a algum lugar onde poderemos parar finalmente. Mas como podemos sacrificar o presente por algo que não conhecemos? Penso que não temos tempo sequer para refletir sobre isso: as margens estão distantes de nós, não há onde agarrar, precisamos seguir, rapidamente. O sinal vai abrir. Há quanto tempo estamos correndo sem olharmos para onde pisamos. "Pois é, quanto tempo!"
É isto que “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, representa para mim. Aí está o diálogo sobre o tempo e a fluidez das relações:
– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!
Ater-me-ei à análise da letra, mas não posso deixar de ressaltar a beleza da melodia, que, para mim, transmite todo o caráter inelutável do tempo. Prometo que talvez eu faça uma leitura semiótica de “sinal fechado”; "quem sabe?"
A expressão “eu vou indo” representa, ao mesmo tempo, o estado e a maneira pela qual as personagens seguem adiante: “eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro”;“eu vou indo em busca de um sono tranqüilo.” Observem que, em vez de responderem que estão bem, as personagens dizem que estão indo e apontam o futuro como objetivo. Mesmo ao afirmar que deseja um “sono tranqüilo”, podemos perceber que se trata de um anseio quanto a algo que se pretende para o futuro. Assim, nas duas respostas, fica clara a hegemonia do futuro em detrimento do presente.
Em seguida, eles constatam quanto tempo passou até se encontrarem agora, casualmente; e essa constatação se repete mais uma vez no diálogo, servindo como uma espécie de refrão. Após, eles justificam a ausência, reafirmando a pressa, a inevitabilidade da rapidez em que vivem: “me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios! Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!” E falam sobre se encontrar algum dia, num futuro sem qualquer definição, numa data a ser fixada.
E aí se insere a frase que demonstra toda a fluidez das relações: “pra semana, prometo, talvez nos vejamos... Quem sabe?”. O uso do verbo “prometer” seguido de “talvez” e “quem sabe?” demonstra o paradoxo de quem assevera algo e o refuta ao mesmo tempo.
Logo após, ambos afirmam que tinham algo a dizer, mas o tempo e a pressa fizeram as palavras sumir “na poeira das ruas” ou fugir à lembrança. E mais uma vez eles falam no encontro que um dia marcarão no futuro - quem sabe?
Os últimos grãos de areia da ampulheta já estão caindo: a luz vermelha que lhes concedeu esta fugaz intermitência está quase se tornando verde - eles precisarão seguir, pois o sinal “vai abrir, vai abrir.” O esquecimento prevalecerá; a dúvida vencerá as promessas; o presente sucumbirá diante do futuro. Vamos, corra, o sinal vai abrir, cumpra sua sentença: vá correndo pegar seu lugar no futuro; não perca tempo com o presente.
Notas:
[1] V. Stairway to heaven (Led Zeppelin). “And as we wind on down the road / Our shadows taller than our soul.”
[2] V. Stairway to heaven (Led Zeppelin). “When all are one and one is all / To be a rock and not to roll.”
[3] Ariosto. Orlando Furioso.
[4] CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos; tradução Nilson Moulin – S. Paulo: Companhia das Letras, 2007. Pág. 73/74.
[5] V. Stairway to heaven, Led Zeppelin. “There's a lady who's sure all that glitters is gold / And she's buying a stairway to heaven.”
Texto publicado na 2ª edição da Revista Leitura & Crítica (páginas 17 e 18).
Os dois motoristas têm pressa e o sinal parece sugar toda a atenção; mas num instante ambos deixam cair os antolhos da ansiedade e olham para o lado. Os olhares se cruzam e, depois de um breve momento, se reconhecem; eles abaixam os vidros e trocam saudações - são amigos que não se encontravam há tempos. A ampulheta escarlate marca o tempo, brevíssimo, que eles têm para conversar. O sinal fechado é uma parada obrigatória; uma pequena interrupção que lhes é imposta.
Queremos seguir, precisamos seguir, somos obrigados a seguir. Aí está a diferença: a rapidez é excitante; no entanto, quando é uma imposição, torna-se cansativa, principalmente se não temos idéia do objetivo da corrida da qual participamos.
É como se houvesse - e creio que de fato há - uma perseguição: nós perseguimos algo inescrutável mas imprescindível, ao mesmo tempo em que somos vítimas de uma perseguição, algo nos empurra adiante; seguimos correndo, sob pena de sermos esmagados. E “enquanto corremos pela estrada, parece que nossas sombras são maiores que nossas almas.”[1]
A imagem de um rio caudaloso, que carrega em sua corrente tudo que ali cai, representa esse fluxo no qual estamos presos. E não conseguimos ver sequer as margens. Outra imagem é a de que somos pedras rolando montanha abaixo; nada é capaz de nos fazer parar: nosso peso, a gravidade de nossas vidas, nos impele para o abismo.[2]
O presente, nesse contexto, é fugaz, enfadonho e instrumental - na medida em que não tem nenhum valor em si mesmo, mas apenas como degrau para o porvir -; é somente um pequeno e imperceptível degrau na escada para o futuro.
Encontramo-nos no labirinto do palácio do Mago Atlas,[3] que, de uma hora para outra, se dissolve no nada, transformando-se num redemoinho de vazio. Atlas, mago ilusionista, cria esta armadilha, para atrair os cavaleiros que procuram algo; ele ilude suas vítimas com visões, nas quais os objetos desejados são roubados e levados para o castelo. Desta forma, os cavaleiros caem nesta armadilha ao perseguirem algum bem que aparentemente lhes teria sido furtado. “O desejo é uma corrida rumo ao nada, o encantamento de Atlas concentra toda as paixões insatisfeitas no interior de um labirinto (...).” [4] Sinto-me neste labirinto, buscando a realização de um desejo dentro da ilusão, ou seja, dentro deste palácio que se encontra deserto daquilo que almejo.
Aqueles amigos que se encontraram debaixo do sinal estão indo, “correndo para pegar” um lugar no futuro, que é algo inatingível, pois, ao chegar lá, ele será presente e, portanto, mais uma vez, será um pequeno degrau da escada infinita, na qual eles estão subindo com pressa, para chegar ao futuro.
No entanto, só existe o presente, que é fugaz e consiste neste degrau, no qual mal colocamos nossos pés, vislumbrando sempre o que está por vir, não o que há agora. E assim seguimos; assim temos que seguir. Parar agora, ainda que por um bom motivo, nos angustia. Estamos condenados a nos mover incessantemente; parar é morrer.
Subimos esta escada que compramos para chegar ao céu (stairway to heaven), [5] ao “sono tranqüilo”, a algum lugar onde poderemos parar finalmente. Mas como podemos sacrificar o presente por algo que não conhecemos? Penso que não temos tempo sequer para refletir sobre isso: as margens estão distantes de nós, não há onde agarrar, precisamos seguir, rapidamente. O sinal vai abrir. Há quanto tempo estamos correndo sem olharmos para onde pisamos. "Pois é, quanto tempo!"
É isto que “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, representa para mim. Aí está o diálogo sobre o tempo e a fluidez das relações:
– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!
Ater-me-ei à análise da letra, mas não posso deixar de ressaltar a beleza da melodia, que, para mim, transmite todo o caráter inelutável do tempo. Prometo que talvez eu faça uma leitura semiótica de “sinal fechado”; "quem sabe?"
A expressão “eu vou indo” representa, ao mesmo tempo, o estado e a maneira pela qual as personagens seguem adiante: “eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro”;“eu vou indo em busca de um sono tranqüilo.” Observem que, em vez de responderem que estão bem, as personagens dizem que estão indo e apontam o futuro como objetivo. Mesmo ao afirmar que deseja um “sono tranqüilo”, podemos perceber que se trata de um anseio quanto a algo que se pretende para o futuro. Assim, nas duas respostas, fica clara a hegemonia do futuro em detrimento do presente.
Em seguida, eles constatam quanto tempo passou até se encontrarem agora, casualmente; e essa constatação se repete mais uma vez no diálogo, servindo como uma espécie de refrão. Após, eles justificam a ausência, reafirmando a pressa, a inevitabilidade da rapidez em que vivem: “me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios! Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!” E falam sobre se encontrar algum dia, num futuro sem qualquer definição, numa data a ser fixada.
E aí se insere a frase que demonstra toda a fluidez das relações: “pra semana, prometo, talvez nos vejamos... Quem sabe?”. O uso do verbo “prometer” seguido de “talvez” e “quem sabe?” demonstra o paradoxo de quem assevera algo e o refuta ao mesmo tempo.
Logo após, ambos afirmam que tinham algo a dizer, mas o tempo e a pressa fizeram as palavras sumir “na poeira das ruas” ou fugir à lembrança. E mais uma vez eles falam no encontro que um dia marcarão no futuro - quem sabe?
Os últimos grãos de areia da ampulheta já estão caindo: a luz vermelha que lhes concedeu esta fugaz intermitência está quase se tornando verde - eles precisarão seguir, pois o sinal “vai abrir, vai abrir.” O esquecimento prevalecerá; a dúvida vencerá as promessas; o presente sucumbirá diante do futuro. Vamos, corra, o sinal vai abrir, cumpra sua sentença: vá correndo pegar seu lugar no futuro; não perca tempo com o presente.
Notas:
[1] V. Stairway to heaven (Led Zeppelin). “And as we wind on down the road / Our shadows taller than our soul.”
[2] V. Stairway to heaven (Led Zeppelin). “When all are one and one is all / To be a rock and not to roll.”
[3] Ariosto. Orlando Furioso.
[4] CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos; tradução Nilson Moulin – S. Paulo: Companhia das Letras, 2007. Pág. 73/74.
[5] V. Stairway to heaven, Led Zeppelin. “There's a lady who's sure all that glitters is gold / And she's buying a stairway to heaven.”
Texto publicado na 2ª edição da Revista Leitura & Crítica (páginas 17 e 18).
Marcadores:
Ariosto,
arte,
ensaio,
Italo Calvino,
Led Zeppelin,
literatura,
MPB,
música,
Paulinho da Viola,
poesia,
Sinal Fechado,
sociologia,
Stairway to heaven
terça-feira, 7 de julho de 2009
Rumor de uma folha seca
Imagine uma enorme mangueira numa manhã de intenso calor. Aproxime-se dela lentamente; entre em sua sombra, sinta seu cheiro; observe a textura do seu tronco; olhe para cima, veja seus galhos e seus frutos. Em seguida, perscrute os pequenos ramos, e, por último, as folhas: admire-as cuidadosamente, inicialmente como um bloco, como se juntas formassem um só órgão; e, depois, uma a uma: as maiores, as verde-escuras, as tenras folhinhas verde-claras, e as folhas secas.
Escolha uma das folhas secas, a mais frágil que encontrar, e não tire os olhos dela. Compreenda toda sua fragilidade: a qualquer momento o mais que tênue elo que a mantém unida à árvore se romperá. Aprecie o momento em que ela se desprende e levemente paira no ar. Apreenda toda a solidão e liberdade que se encerram no ato de flutuar só, depois de toda uma existência atrelada a um ramo, a uma árvore. Agora, no chão, aproxime-se dela e contemple sua rigidez pálida. Não a toque; deixe que uma brisa a carregue; ouça apenas o ruído que faz ao rolar no chão, carregada pelo vento.
Esse ruído da folha sendo arrastada pelo solo lembra-me Orfeu a chamar Eurídice, mesmo depois de despedaçado pelas furiosas Mênades. Esse rumor é um canto de saudade, que nasce do atrito entre amor e morte, passado e futuro, união e cisão, folha desidratada e solo. A árvore representa para esta delicada folha o que Eurídice representa a Orfeu. Este canta “Eurídice! Eurídice!”, embora saiba que nada poderá trazê-la de volta; da mesma forma que nada pode restabelecer a união entre a folha morta e sua árvore.
Deixe-a de lado agora e procure a folha mais nova, aquela que acabou de se abrir, quase diáfana de tão tenra, e constate que o sol ainda não a atingiu e portanto não lhe causou qualquer cicatriz: ela não tem marcas nem história.
Ande, sem olhar para o solo, dentro da esfera de sombra criada pela copa da mangueira. Ouça o som de suas pegadas sobre as folhas secas. Sinta aquela folha seca que viu cair no chão se fragmentar em contato com seus pés descalços.
Somos folhas - tenras, verdes ou secas. Estamos unidos a uma árvore; mas o sol está sempre nos queimando, o tempo sempre nos consumindo. Seremos folhas secas; quando isso acontecer, sentiremos saudade da nossa juventude.
Mesmo sendo uma folha verde, já consigo sentir melancolia ao pensar na folhinha translúcida que fui e na ressequida folha que serei, “quando o tempo avisar que não” poderei mais estar unido ao que amo.
E não pense que a agonia é apenas da folha morta que segue sozinha. Pelo contrário, a Mangueira sofre a perda de cada folha, de cada poeta que a morte leva. As folhas são imprescindíveis à árvore; afinal, o que é o todo sem suas partes? Ademais, o sol que alimenta a planta entra pelas folhas. Os sambas que nutrem toda a Escola nascem de cada compositor.
Isso é o que sinto ao ouvir “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito:
“Quando piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o Sol me queimando
E assim vou me acabando
Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão e da minha mocidade”
O Eu-lírico, folha da grande Mangueira (Estação Primeira), canta sobre seu fim, sobre o tempo, que, ao passar, o ceifará da árvore. Ele confronta o rompimento (a vulnerável folha caída) com momento de maior união (mocidade). Na primeira estrofe, ele trata da fraqueza das folhas secas - ele e os poetas são folhas -, e se pode sentir o ruído das folhas se desfazendo sob seus pés; é esse som que faz com que se lembre da sua escola de samba, sua árvore, o todo do qual faz parte. É do rumor de uma folha seca sendo arrastada pelo vento e se desmanchando sob uma pegada que nasce o samba.
Ao pisar nas “folhas secas” (presente), ele pensa na Mangueira e, partindo daí, viaja ao passado (flashback): já não sabe quantas vezes subiu o morro cantando, com o sol a queimá-lo. Após, retorna ao presente, para dizer que é desta maneira - exposto ao sol - que vai se acabando. O sol queimando representa o tempo passando. A umidade inerente à mocidade se evapora diante do calor solar.
Na última estrofe, ele vai ao futuro (flashforward) para vislumbrar sua morte - transformando-se a si numa folha seca - e sofrer, desta forma, toda a dor do afastamento. Dentro desse futuro conjecturado - quando o tempo lhe diz que não pode mais cantar -, ele pensa em si mesmo sentindo saudade (flashback) do momento em que esteve mais unido à Mangueira - ao lado de seu violão, em sua mocidade (um flashback dentro do flashforward). Ele convoca a imagem da morte, da cisão, e, dentro dessa imagem, fala do amor, retornando à juventude, ao momento de maior integração.
O Eu-lírico viaja entre o passado e o futuro, e do atrito entre os flashbacks e flashforwards faz nascer o som da folha seca que se desfaz, vindo daí a melancolia necessária para construir seu samba. A música é criada a partir da destruição da folha: o samba nasce da imagem da morte. Como diz Vinicius, “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza" ("Samba da benção", dele e do Baden Powell).
Proponho uma última imagem: no topo de um morro, uma mangueira sob a pálida luz de um ocaso outonal. No chão, milhares de folhas secas formam um denso e quebradiço tapete. Um homem com um violão toca delicadamente os acordes de “Folhas Secas”. Uma mulher, sentada num balanço preso num galho da árvore, canta suavemente. Crianças descalças pisam nas folhas mortas marcando o ritmo da música: a percussão é o barulho das folhas pisadas.
Com efeito, toda prosa construída sobre uma obra - seja ela qual for - nunca superará a experiência de perscrutá-la, senti-la livremente, sem considerar qualquer interpretação que outros lhe tenham dado. Ademais, quem é a prosa para falar sobre a poesia?
Italo Calvino, ao falar sobre a leveza, na primeira das suas "Seis propostas para o próximo milênio", afirma que “toda interpretação empobrece o mito e o sufoca”.* Tal idéia aplica-se não só aos mitos, mas a todas exegeses: interpretar é optar por um sentido - é limitar, portanto. Assim também pensa Umberto Eco que em sua "Obra aberta" defende a liberdade do receptor.
Portanto, não se atenha a minha maneira de sentir “Folhas Secas”, pois este é apenas um eco distante e abafado de um canto magistral. Ouça e leia-a só, num canto sossegado, e chegue à sua própria conclusão; ou melhor, sinta a música, os versos, cada palavra. Minha única pretensão foi partilhar o que senti: descrever o eco que o som das folhas mortas produziu dentro de mim.
*CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 16.
PS. A versão de Elis (abaixo) é a que mais se coaduna com o ensaio, por sua peculiar lentidão.
Escolha uma das folhas secas, a mais frágil que encontrar, e não tire os olhos dela. Compreenda toda sua fragilidade: a qualquer momento o mais que tênue elo que a mantém unida à árvore se romperá. Aprecie o momento em que ela se desprende e levemente paira no ar. Apreenda toda a solidão e liberdade que se encerram no ato de flutuar só, depois de toda uma existência atrelada a um ramo, a uma árvore. Agora, no chão, aproxime-se dela e contemple sua rigidez pálida. Não a toque; deixe que uma brisa a carregue; ouça apenas o ruído que faz ao rolar no chão, carregada pelo vento.
Esse ruído da folha sendo arrastada pelo solo lembra-me Orfeu a chamar Eurídice, mesmo depois de despedaçado pelas furiosas Mênades. Esse rumor é um canto de saudade, que nasce do atrito entre amor e morte, passado e futuro, união e cisão, folha desidratada e solo. A árvore representa para esta delicada folha o que Eurídice representa a Orfeu. Este canta “Eurídice! Eurídice!”, embora saiba que nada poderá trazê-la de volta; da mesma forma que nada pode restabelecer a união entre a folha morta e sua árvore.
Deixe-a de lado agora e procure a folha mais nova, aquela que acabou de se abrir, quase diáfana de tão tenra, e constate que o sol ainda não a atingiu e portanto não lhe causou qualquer cicatriz: ela não tem marcas nem história.
Ande, sem olhar para o solo, dentro da esfera de sombra criada pela copa da mangueira. Ouça o som de suas pegadas sobre as folhas secas. Sinta aquela folha seca que viu cair no chão se fragmentar em contato com seus pés descalços.
Somos folhas - tenras, verdes ou secas. Estamos unidos a uma árvore; mas o sol está sempre nos queimando, o tempo sempre nos consumindo. Seremos folhas secas; quando isso acontecer, sentiremos saudade da nossa juventude.
Mesmo sendo uma folha verde, já consigo sentir melancolia ao pensar na folhinha translúcida que fui e na ressequida folha que serei, “quando o tempo avisar que não” poderei mais estar unido ao que amo.
E não pense que a agonia é apenas da folha morta que segue sozinha. Pelo contrário, a Mangueira sofre a perda de cada folha, de cada poeta que a morte leva. As folhas são imprescindíveis à árvore; afinal, o que é o todo sem suas partes? Ademais, o sol que alimenta a planta entra pelas folhas. Os sambas que nutrem toda a Escola nascem de cada compositor.
Isso é o que sinto ao ouvir “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito:
“Quando piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o Sol me queimando
E assim vou me acabando
Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão e da minha mocidade”
O Eu-lírico, folha da grande Mangueira (Estação Primeira), canta sobre seu fim, sobre o tempo, que, ao passar, o ceifará da árvore. Ele confronta o rompimento (a vulnerável folha caída) com momento de maior união (mocidade). Na primeira estrofe, ele trata da fraqueza das folhas secas - ele e os poetas são folhas -, e se pode sentir o ruído das folhas se desfazendo sob seus pés; é esse som que faz com que se lembre da sua escola de samba, sua árvore, o todo do qual faz parte. É do rumor de uma folha seca sendo arrastada pelo vento e se desmanchando sob uma pegada que nasce o samba.
Ao pisar nas “folhas secas” (presente), ele pensa na Mangueira e, partindo daí, viaja ao passado (flashback): já não sabe quantas vezes subiu o morro cantando, com o sol a queimá-lo. Após, retorna ao presente, para dizer que é desta maneira - exposto ao sol - que vai se acabando. O sol queimando representa o tempo passando. A umidade inerente à mocidade se evapora diante do calor solar.
Na última estrofe, ele vai ao futuro (flashforward) para vislumbrar sua morte - transformando-se a si numa folha seca - e sofrer, desta forma, toda a dor do afastamento. Dentro desse futuro conjecturado - quando o tempo lhe diz que não pode mais cantar -, ele pensa em si mesmo sentindo saudade (flashback) do momento em que esteve mais unido à Mangueira - ao lado de seu violão, em sua mocidade (um flashback dentro do flashforward). Ele convoca a imagem da morte, da cisão, e, dentro dessa imagem, fala do amor, retornando à juventude, ao momento de maior integração.
O Eu-lírico viaja entre o passado e o futuro, e do atrito entre os flashbacks e flashforwards faz nascer o som da folha seca que se desfaz, vindo daí a melancolia necessária para construir seu samba. A música é criada a partir da destruição da folha: o samba nasce da imagem da morte. Como diz Vinicius, “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza" ("Samba da benção", dele e do Baden Powell).
Proponho uma última imagem: no topo de um morro, uma mangueira sob a pálida luz de um ocaso outonal. No chão, milhares de folhas secas formam um denso e quebradiço tapete. Um homem com um violão toca delicadamente os acordes de “Folhas Secas”. Uma mulher, sentada num balanço preso num galho da árvore, canta suavemente. Crianças descalças pisam nas folhas mortas marcando o ritmo da música: a percussão é o barulho das folhas pisadas.
Com efeito, toda prosa construída sobre uma obra - seja ela qual for - nunca superará a experiência de perscrutá-la, senti-la livremente, sem considerar qualquer interpretação que outros lhe tenham dado. Ademais, quem é a prosa para falar sobre a poesia?
Italo Calvino, ao falar sobre a leveza, na primeira das suas "Seis propostas para o próximo milênio", afirma que “toda interpretação empobrece o mito e o sufoca”.* Tal idéia aplica-se não só aos mitos, mas a todas exegeses: interpretar é optar por um sentido - é limitar, portanto. Assim também pensa Umberto Eco que em sua "Obra aberta" defende a liberdade do receptor.
Portanto, não se atenha a minha maneira de sentir “Folhas Secas”, pois este é apenas um eco distante e abafado de um canto magistral. Ouça e leia-a só, num canto sossegado, e chegue à sua própria conclusão; ou melhor, sinta a música, os versos, cada palavra. Minha única pretensão foi partilhar o que senti: descrever o eco que o som das folhas mortas produziu dentro de mim.
*CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 16.
PS. A versão de Elis (abaixo) é a que mais se coaduna com o ensaio, por sua peculiar lentidão.
Marcadores:
arte,
cultura afro-brasileira,
Elis Regina,
ensaio,
Folhas Secas,
G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira,
MPB,
música,
Nelson Cavaquinho,
poesia,
samba,
Umberto Eco
Assinar:
Postagens (Atom)