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terça-feira, 12 de março de 2019

As mil e uma jornadas (conto)

“Bom dia, doutora Clara”, disse o velho ascensorista à senhora que entrava no elevador.

“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E sem esperar resposta, continuou. “E então, o que aconteceu ao João da Baiana? O senhor não terminou de contar ontem...”.
“A doutora não vai acreditar. Como eu tava contando ontem, o João tava indo pra uma festa na casa de um senador, homem poderoso lá na época, e foi parado pela polícia. Quando explicou que era músico, que era do samba, acabou sendo preso! Assim, sem mais nem menos, só porque era sambista. Mas pode ser também porque era pai-de-santo, vai saber... A polícia não gostava nem de sambista nem de quem tivesse ligação com terreiro. O fato é que ele não apareceu na festa lá do político grã-fino, que sentiu falta dele (o tal senador era um fã do João da Baiana!), e quando soube da prisão, ficou foi muito bravo e mandou soltar na hora o Jão. E diz que depois disso, o tal político arrumou um jeito pra lá de criativo de garantir a liberdade do sambista. Mas isso eu deixo pra contar depois, doutora. Já tá chegando no andar da senhora e eu não vou ficar aqui atrasando seus compromissos...”
“Tá certo, seu Zé. É sempre assim, eu já até me acostumei. O melhor da história fica sempre pra depois. Bom dia pro senhor.”
“Igualmente, doutora.”

No dia seguinte, como já acontecia há muito tempo.

“Bom dia, doutora Clara”, cumprimentou o velho ascensorista. 
“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E prosseguiu, sem perder tempo, antes mesmo que a porta do elevador fechasse. “E então, como é que o tal senador garantiu a liberdade do João da Baiana?”
“A doutora não vai acreditar. O que dizem é que assim que o senador mandou soltar o grande sambista, também mandou que fizessem um novo pandeiro pra ele, com uma dedicatória do político, com assinatura e tudo! E era com esse pandeiro debaixo do braço que o Jão andava a cidade toda, ia a todo canto e dizem que nunca mais foi preso. Agora, veja a senhora, um pandeiro com dedicatória era o “documento” pra se livrar da perseguição da policia; e pra fazer música, ele gostava mesmo era de usar prato e faca: arrastava a faca no prato e saía samba. Pandeiro pra se identificar e prato pra tocar! Onde é que já se viu um a coisa dessas? Mas ele também arrebentava no pandeiro, não era só pra evitar cadeia, não. E não deixa de ser curioso o apelido do João: da Baiana. Mas isso fica pra outra hora, doutora, porque não vou aqui tomar seu tempo...”.
“Tá bom, seu Zé; eu tenho que ir. Mas eu quero ouvir a continuação - como sempre. Bom dia pro senhor!”
E a porta do elevador fechou, encerrando mais um capítulo.

No dia seguinte:

“Afinal, seu Zé, por que o João é da Baiana?”
“Pois então, o João é da Baiana e não é à toa; dizem que a mãe dele era uma das baianas que, como todos sabem, estão lá na raiz do samba. Já falei disso, a senhora sabe, mas não custa relembrar que a Cidade Nova, a Praça Onze foi o berço do samba e o morro da Providência, ali atrás da Central do Brasil, se confunde com a origem da favela. Pois era por ali naquela área que moravam as chamadas tias baianas, tão importantes na história do carnaval carioca. A mãe do João era uma baiana, que marcou o filho carioca com a sua origem. A mais famosa das baianas foi Tia Ciata, que era uma referência, participava ativamente, mãe espiritual do povo, fazia roupas de carnaval, cozinhava que era um absurdo e sua casa servia de sede dos sambistas, dos grandes compositores, uma casa que reunia todo mundo, uma verdadeira roda de samba. E dizem que o primeiro samba gravado (“Pelo telefone”) já rolava solto lá na casa de Tia Ciata, dizem que era folclórico e aí tem aquela polêmica, porque vieram o Donga e o Mauro e registraram a composição lá em 1916 ou 17. Esse negócio de ser dono da música dá pano pra manga não é de hoje; outra hora eu explico melhor, a doutora já chegou ao seu andar...”.
“Sempre fica um restinho de história... Bom dia pro senhor!”

A porta do elevador abria e fechava como a capa de um livro, com pequenas histórias que eram reveladas por poucos minutos a cada dia. Um narrador presente, de carne, osso e uniforme. Um narrador que contava pequenos trechos e sempre deixava um indício do que viria a revelar, a despertar curiosidade sobre o dia seguinte. Um narrador que fazia parte da história do edifício onde atualmente era o senhor e condutor do elevador. Fazia parte dessa história, porque foi um dos operários, um dos ajudantes de pedreiro que trabalhou na construção daquele prédio, muitos anos antes. E quando a obra estava quase pronta, nos últimos retoques, foi chamado para trabalhar naquele novo condomínio, como ascensorista. 
Nos primeiros tempos era empregado do condomínio e assim ficou por muitos anos. Mas depois, com a intenção de cortar gastos, o condomínio contratou uma empresa e o ascensorista passou a ser terceirizado. Foi mantido no seu posto, continuou como o senhor do sobe e desce, mas agora como empregado de uma outra empresa, com um salário mais baixo e sob a ameaça de ser mandado para qualquer outro prédio ou até demitido. Era considerado um bom funcionário desde os tempos da obra, e assim foi ficando no mesmo espaço, passando por diferentes patrões. Terceirizado, passou a ser uma mera concessão o fato de trabalhar ali e não em outro edifício, já que a empresa fornecia mão de obra a muitos condomínios pela cidade, e poderia colocá-lo onde bem entendesse. 
A empresa - bem diferente do condomínio com seu síndico - era um empregador sem cara, sem corpo, uma espécie de máquina de gestão, distante, abstrata. A pedido do condomínio, foi mantida a maioria dos antigos funcionários, entre eles o velho José; mas nada garantia sua permanência ali, pairava sobre cada jornada de trabalho a dúvida sobre a manutenção da antiga equipe. Um dos porteiros havia sido mandado para outro prédio, noutro bairro, e os faxineiros tinham sido demitidos. Não havia necessidade de tantos funcionários ali, gastos altos demais, segundo a análise da empresa. José foi mantido. Mesmo terceirizado continuou no mesmo prédio e na mesma função. 

“Bom dia, seu Zé. E a história de ontem, como continua?”
“Pois bem, doutora. A senhora sabe a confusão que é esse negócio de autoria; no samba não poderia ser diferente, né? Aquele disse me disse, as histórias que contam sobre sambistas que ouviam o samba de outro e saiam correndo pra gravar e registrar no seu nome, essa bagunça toda. Dizem que Heitor do Prazeres acusou Sinhô de roubar seus sambas, e este rebateu com a famosa frase: “samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. E foi de intrigas como essas que vieram as “brigas musicais”, aqueles sambas em que um compositor atacava, desafiava, provocava o outro, que fazia um samba de resposta, e aí tinha réplica, tréplica, um provocando o outro, e o povo curtindo, acompanhando, com torcidas, partidários, debates de defesa e ataque de cada um dos lados. Mas isso fica pra outra hora, que a doutora tem coisa séria pra cuidar.”
“Tá bom, seu Zé, depois a gente continua...”

E as histórias continuavam...

“Pois uma das maiores brigas musicais, uma das mais conhecidas e que rendeu muitos sambas de arrasar foi a que se deu entre Noel Rosa e Wilson Batista. Noel, que na época já era reconhecido, se envolveu com tudo numa disputa com o outro, que ainda estava começando sua carreira. Tem gente que diz que por trás das letras provocativas, das batalhas de samba entre os dois, estava a disputa pela atenção de uma mulher. Pensar que “Feitiço da Vila” veio daí... A verdade é que nem importa muito os motivos, as composições é que ficaram. E mais: diferente das brigas comuns que se veem por aí - que muitas vezes terminam mal -, essa arenga de sambas, além de bem humorada e cheia de arte, foi dar até em parceria entre os dois compositores, no “Deixa de ser convencida”. Também dizem que um dos grandes professores do ex-universitário da Vila foi Cartola. A verdade é que o mestre da Mangueira foi professor de muita gente e não poderia ser diferente. Falar dele e da Estação Primeira dá pano pra manga e agora não dá mais tempo; depois eu falo mais, doutora...”  

“Sobre a Mangueira há muito do que falar e em outras ocasiões já falei um bocado, espero não estar repetindo nada. Ouvi falar que a escola surgiu do Bloco dos Arengueiros, numa reunião de seus integrantes lá no Buraco Quente, no fim da década de 20, início da de 30. Cada um diz um coisa sobre o nome, uns que foi das árvores, da fruta, outros que foi da estação de trem inaugurada lá ainda no fim do século XIX, que já levava esse nome. Cartola cantou o nome e ficou: “Chega de demanda, chega/ com esse time temos que ganhar/ somos a estação primeira/ salve o morro de mangueira.” E sobre ser a Estação Primeira também não há certeza: alguns dizem que foi a primeira parada do trem, enquanto outros dizem que foi pra se destacar como a primeira a fazer samba ou até para destacá-la como a melhor; mas isso tudo tem pouca importância perto do que a Mangueira fez no carnaval, nas composições, nos desfiles. E realmente a Mangueira se fez primeira e isso eu conto depois...”

“Como eu estava dizendo, da última vez, a Mangueira fez jus ao nome, pois foi vencedora na primeira competição entre as escolas de samba, lá em 1932 e repetiu a façanha por mais dois anos seguidos, consagrando-se como tricampeã logo de início, além dos vários títulos que veio a receber depois. Mas isso não é de se estranhar com o time que a escola tinha: além de Cartola, Carlos Cachaça, dona Neuma, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Nelson Sargento, dona Zica, Hélio Turco, e mais tarde Beth Carvalho, Lecy Brandão, Alcione, entre outros grandes integrantes, que plantaram e fizeram crescer essa bela árvore do samba carioca. Fato marcante da escola se deu no ano da criação do Sambódromo, em 1984: com o enredo de homenagem à Braguinha (rei das marchinhas), a verde-e-rosa fez algo que nunca mais se repetiu: o povo pediu bis e a escola atendeu, fazendo o caminho de volta pela Avenida. Que coisa mais linda! E pensar que a primeira “escola” recusou o título e a disputa. Mas o caso é de deixar pra falar depois...”

“A verdade é que dizem que a primeira escola de samba - 'Deixa falar' - preferiu ser rancho, que na época era mais considerado que as escolas, e se recusou a participar do primeiro desfile dos “acadêmicos”. Pelo que contam, foi a pioneira na organização dos sambistas, reunindo na sua fundação Ismael Silva, Bide, Baiaco, Brancura e outros grandes nomes. Segundo dizem por aí, o nome “escola” veio da proximidade de uma instituição de ensino “normal” no largo do Estácio. E se havia rixa com outros sambistas de outros bairros, respondia o pessoal da escola, “deixa falar! É daqui que saem os professores!”. A escola que preferiu ser rancho durou pouco e acabou no ano do primeiro desfile, mas reza a lenda que o surdo foi criação de Bide e que foi essa agremiação que introduziu a cuíca na bateria. Não dá pra negar que os desfiles, mesmo de blocos, sofriam arbitrariedades, e é curioso que o nome de uma das escolas mais tradicionais tenha surgido do abuso de poder de uma autoridade. Isso fica pra depois, doutora. Bom dia pra senhora.”

“Como eu estava dizendo, o nome de uma das escolas mais tradicionais veio de uma sugestão (ou seria melhor dizer logo imposição?) de um delegado responsável pelas autorização dos blocos na cidade. Pois é. Contam que a 'Vai como pode' foi à polícia renovar sua licença, um delegado se negou a conceder a autorização, alegando que o nome era indigno para uma agremiação; disse que era melhor adotar a denominação 'Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela', já que os sambistas se reuniam na estrada do Portela. E a sugestão da autoridade não teve rejeição popular, porque os sambistas de Oswaldo Cruz já eram conhecidos na praça Onze como pessoal da Portela. O nome hoje é mais do que consagrado e a escola, além de grande campeã, lançou muitos grandes compositores, como Candeia, Zé Queti, João Nogueira, Monarco, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não eram só das autoridades que vinham arbitrariedades, preconceitos e injustiças. Amanhã eu explico melhor...”

“Como eu estava falando, as injustiças não vinham só das autoridades. Hoje as coisas estão diferentes, mas a verdade é que por muito tempo as mulheres não podiam se assumir como compositoras; mulheres não podiam assinar suas composições, elas eram obrigadas a ficar atrás dos homens, à sombra dos homens. Um machismo danado. Foi o que aconteceu com Dona Ivone Lara, quando era ainda uma menina e passou a escrever seus primeiros sambas. Durante muito tempo, suas composições foram assinadas por seus primos, integrantes importantes do Império Serrano. Só pelo fato de ser mulher era proibida de de ingressar na alas dos compositores. Somente lá pela década de 1970 é que Dona Ivone Lara se libertou das sombras do machismo pra brilhar na avenida, nas rodas de samba e nos palcos. E o Império Serrano tem já no início de sua história outros atos revolucionários, atos que deixaram pra trás aqueles que se meteram a ditadores. Que subida rápida, a porta já tá se abrindo, o causo fica pra depois...”

 “Bom dia, doutora. A senhora se lembra como antes a subida do elevador era mais lenta? Havia mais tempo. Quando comecei aqui, era eu que fechava a porta pantográfica, com minhas mãos. Eu fazia mais coisas, quem vinha aqui dentro via mais, e não tinha essa sensação de estar preso, completamente enlatado. Mas dizem que os avanços trouxeram mais rapidez, segurança, eficiência, e assim vai indo, também nas escolas de samba, com muitos avanços tecnológicos, regras, análises técnicas. Eu confesso que sinto uma certa falta da espontaneidade de antigamente. Talvez isso explique a volta dos blocos... Bom, eu tava falando da fundação do Império Serrano, que surgiu de uma dissidência da Escola Prazer da Serrinha contra o presidente ditador que foi capaz de impor um samba diferente do criado pelos compositores . Além de ter tido um resultado horrível, num ato revolucionário os dissidentes criaram a Império Serrano, que teve como maior princípio a democracia, ali todo mundo iria participar e opinar, sem tiranos. Outras escolas revolucionaram, mas agora me falta tempo pra desenvolver... Bom dia pra senhora.”

“Pode parecer algo muito comum e natural hoje em dia, mas a senhora sabia que no passado os enredos não tratavam do negro, da cultura e da história dos negros? Pois é. Hoje a gente vê um monte de enredos assim, mas dizem que isso começou com o Salgueiro, a vermelho e branco da Tijuca. O que dizem é que na década de 1950 o Salgueiro levou pra Avenida o enredo 'Navio negreiro' e assim colocou o negro como protagonista do desfile, inaugurando novos tempos e temas. Difícil imaginar que levou mais de vinte anos para aqueles que criaram o samba, a dança e até alguns dos instrumentos de percussão fossem pra Avenida, pros desfiles, cantar sua história e cultura. Eles eram donos da música, mas não se viam como tema da festa... Algumas mudanças foram pensadas, como essa aí do Salgueiro. Mas, segundo contam por aí, outras mudanças aconteceram sem querer. A porta já está aberta. Depois eu continuo...”.

“Pois uma inovação que dizem ter acontecido sem ter sido pensada com antecedência foi a paradinha da bateria. Bom, certeza não tenho. A senhora sabe que eu falo o que escuto por aí; tenho certeza de nada não. Bom, o que dizem é que o mestre André - um dos grandes integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel - inventou a paradinha sem querer: durante um ensaio, ele escorregou, caiu e os instrumentistas pararam. Pois o mestre não perdeu tempo, já se levantou fazendo sinal pro repique, que recomeçou no ritmo, nascendo daí a paradinha da bateria que hoje várias escolas fazem questão de fazer. E assim foi, teve coisa pensada e coisa espontânea. Coisa que se desenvolveu de forma mais ou menos espontânea foram os blocos, ranchos e escolas de samba.  Mas depois acabaram pensando em construir um lugar específico pros desfiles das Escolas de samba... A porta já está abrindo; bom dia pra senhora!”

“Pelo que dizem, o desfile lá no início era realizado na praça Onze. Depois, com as obras da avenida Presidente Vargas, o desfile foi deslocado; a partir de 1947, após o fim das obras na Avenida, passou a ser lá mesmo. Depois, com os passar dos anos, começaram a montar arquibancadas e a cobrar ingressos. Então, vieram as obras do metrô e o desfile foi pra avenida Presidente Antônio Carlos e em seguida para a rua Marquês de Sapucaí, ali pertinho da praça Onze. E lá no início dos anos 80, o Brizola encomendou ao Niemeyer o projeto de um local definitivo pros desfiles,. E foi daí que surgiu o sambódromo como conhecemos hoje. Também chamam de Passarela Darcy Ribeiro, que foi um dos mentores da construção que, além de local para desfiles e eventos, também abrigava salas de aula de CIEPs, aquele projeto de educação integral que depois foi abandonado pelos governos seguintes. Isso ninguém me contou, não, isso eu vi. Pra algumas coisas sempre falta dinheiro. Andam falando muito de crise, mas parece que algumas áreas estão sempre em crise, né? Já chegamos, doutora. Bom dia!”.

José continuou contando as histórias do samba e do carnaval carioca por mais algum tempo. Ele continuou com suas histórias até o dia em que saiu de férias e ao voltar encontrou um elevador hipermoderno já instalado. O novo elevador era muito avançado, eficiente e econômico, falava, tinha câmeras e até uma TV para exibir poucas informações e muita publicidade, gerando um ganho extra com publicidade. Um boato entre os funcionários já havia indicado que a empresa pretendia investir em tecnologia e cortar gastos em outras áreas. E assim foi feito: além dos novos elevadores, instalaram muitas câmeras, travas eletrônicas e outros equipamentos de segurança, tudo para controlar à distância, tornando desnecessárias pessoas no local, demitindo também os porteiros. Agora só havia pessoas nos serviço de limpeza, que eram trocadas com frequência pela empresa terceirizada.
  No seu último dia como empregado no prédio, José trabalhou como sempre, contando suas histórias. Durante o dia, a voz metálica, monótona e repetitiva emitida pelo novo elevador competiu com a voz do ascensorista: enquanto o homem conversava, se despedia e narrava trechos de episódios do samba, a máquina limitava-se a dizer os andares ao abrir a porta. José ainda brincou com a situação, dizendo que o elevador agora colocava um ponto final em suas falas, exclamando o andar, marcando a hora de desembarcar. 

“Bom dia, doutora Clara!”
“Bom dia, seu Zé! Como o senhor está? Só fiquei sabendo hoje que o senhor está nos deixando...”
“Bom, é a vida, né? A empresa é que decidiu que é a hora de eu deixar o trabalho, e tem essa coisa da crise, né? Esse elevador aqui é muito bom, faz tudo que a senhora puder imaginar!”.
“Essa crise não tá fácil, não; esse ano nem sei se vou fazer a viagem de férias que eu tinha planejado. Esse elevador pode fazer muitas coisas, até falar, mas com certeza não conta histórias.”
“Isso é verdade, histórias não conta, não, mas é muito rápido e eficiente, tem TV e tudo. Tecnologia de ponta!”
“Décimo sexto andar”, falou a voz metálica do elevador.
“Tão rápido que a senhora já chegou, olha aí, e ele avisou. A tecnologia tá em tudo, até no carnaval, doutora. Só não fizeram ainda robô compositor e robô passista...”.
“Verdade, seu Zé, verdade. Nem robô contador de histórias. Boa sorte para o senhor. Tudo de bom!”.
“Obrigado, doutora.” 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Legaliza! Chega de violência

"Não se tem notícia que a Argentina tenha se tornado um país de drogados por conta da liberação do uso de entorpecentes
Rafael Muneratti, defensor público do Estado de São Paulo
O direito ao prazer ainda está garantido na Constituição
Luciana Boiteux, representante da Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos
Deixar de incriminar não afetará o consumo. Em países em que houve a descriminalização não houve aumento do consumo
Cristiano Avila Maronna, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais
A criminalização ou o castigo ao usuário de drogas afeta o acesso à saúde, afeta o tratamento. O usuário, na maior parte das vezes, é uma vítima do seu vício
Pierpaolo Cruz Bottini, advogado e representante da ONG viva Rio
A lei antidrogas brasileira funciona como instrumento de criminalização da pobreza
Rafael Custódio, da Conectas" (el pais)
Gente, vamos pensar no assunto. A guerra contra as drogas nunca funcionou, só aumenta a venda de armas e a violência. 

Links sobre o tema:

http://www.diplomatique.org.br/editorial.php?edicao=2

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2012/10/composto-da-maconha-alivia-fobia-social-e-ansiedade-diz-estudo-da-usp.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/19/politica/1440017854_649230.html

https://youtu.be/G-BFxtdQQE8

https://youtu.be/ZyFkUqkFM2A

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Delação premiada é direito de todos?

Traficante preso preventivamente em Bangu, falando com seu defensor:

"Doutor, quero fazer minha delação premiada. Fui pego, tô no erro, doutor, mas quero fazer a delação pra me livrar da cadeia. Falo se me derem perdão total. Ou pode ser tornozeleira também. No máximo. Mas sem tranca, sem tranca. Se tiver tranca nem falo, nem vale a pena. E não vai ser tipo o esquema da lava jato, não, doutor. Na lava jato é o esquema de entregar parte da grana ou entregar alguém e aí ficar na boa. O cara que for cumprir pena é o otário, o último da fila, o que é mandado e que nem tem grana pra perder. Tá ligado? Começou com os empresários e aí eles deduraram, se livraram da tranca, deram grana, jogaram o problema no colo dos políticos. Agora os políticos tão aí... podem entregar outros e os pequenos. E adivinha quem vai pagar cadeia? Os pequenos. É claro! Os grandes já tão na rua, voltando. Herdeiros, milionários. Eu vejo TV, doutor. A gente vê eles com pena de nada, indo pra rua, pra casa. No meu caso, não vou entregar ninguém. Mas vou entregar a grana do crime e a droga escondida. Não dá pra entregar parceiro. É morte. Mas tenho o direito de ganhar prêmio, não tenho? Vou entregar e pronto, rua. Como é que isso? Porque a gente vê empresário rico livrando a cara em caso de mais de milhões. E aí, como é que faz com traficante pobre? Traficante pequeno, que é pego com drogas, rádio e um pente de balas, mas sem pistola, só o pente, como é que fica a delação? Tem prêmio de que? Sou primário, vou entregar tudo, quero perdão do juiz. Doutor, eu vendia mesmo, traficava, mas não faço maldade não, nunca fiz. Arma é pra defesa, intimidação e no caso só o pente, que não mata ninguém. Me disseram que tá na lei que entregar os produtos do crime é perdão, é rua direto. É verdade ou só tem delação premiada pra empresário rico?"

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Calçadas, espaços e poder



Que tal pensarmos sobre calçadas? Sobre o espaço que temos pra andar nas calçadas? Você, leitor, já deve ter passado por um momento em que viu a calçada cheia e teve dificuldade de passar, de caminhar livremente, de seguir seu caminho no seu ritmo pela calçada. E isso pode ter acontecido pelos mais diversos motivos: um casal com um cachorro com a guia esticada; uma família numerosa que anda lentamente como se não existisse mais ninguém querendo passar por ali; um grupo de jovens conversando em voz alta e vindo em bloco no sentido contrário sem sequer perceber que esmaga pessoas que estão tentando caminhar, em festas populares etc.
O que você faz quando se vê numa situação assim? Pede licença? Vai pela rua, se arriscando? Tenta passar pelo cantinho, meio que esmagado? Como faz? Bom, essa é uma situação comum, em que o espaço nas ruas, o espaço público (físico) parece ser disputado entre as pessoas, cada uma delas com interesses diferentes, com ritmos, necessidades e intenções diversas. Na verdade, uma mesma pessoa pode apresentar interesses diferentes a cada dia: pode ser que um dia esteja caminhando lentamente com os avós e em outro queira correr, na mesma calçada.
A pergunta que faço é: como conciliar esses interesses diferentes e por vezes contrários? Como conviver naquele mesmo espaço, na calçada? Como andar a cada dia por ali sem se submeter aos interesses de grupos maiores, mais fortes, nem impor aos demais os seus interesses, suprimindo os direitos alheios? É a lei do mais forte que dever prevalecer? Como fazer no dia em que você estiver sozinho e um grupo grande o empurrar para a rua, pra cima dos carros em alta velocidade?
Fiz muitas perguntas. Pense nas respostas antes de prosseguir a leitura do texto. Tente refletir sobre essas situações: como você deve agir quando está num grupo grande e também quando está só, diante de um monte de pessoas que seguem pela calçada, criando um muro e sem perceber sua presença.
Pois bem. Isso foi uma metáfora para o fascismo, sobre o exercício do poder. Qual o critério estabelecer para definir quem terá prevalência sobre o espaço na calçada, na política, nos governos, na definição das normas, nas determinações do poder econômico? Na vida há grupos que esmagam outros. Há aqueles que são donos de espaços, que compram e dominam vastas extensões, oprimindo os mais pobres. E são eles que pedem menos ou nenhuma regulamentação, que pedem um estado mais fraco, reduzido, mínimo. A desigualdade ainda é imensa, mesmo com a retirada de milhões de pessoas da miséria.
A imposição de medidas neoliberais só aprofundam a desigualdade. Piketty demonstra a concentração de renda e patrimônio para um percentual mínimo da população, em detrimento das maiorias cada vez mais pobres (veja link abaixo). Com a ausência de regulamentação, não existiria calçadas, seria tudo propriedade privada, como já é no asfalto.
O foco da mídia e do senso comum geralmente se atem ao poder político, nada fala sobre o poder econômico. Vemos prevalecer o discurso de que os políticos são todos iguais, a retórica da corrupção generalizada, sem vinculá-la ao capitalismo. E no assassinato da política vemos mãos fascistas. O momento é de luta. As ocupações e manifestações estão aí.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Como o Brasil se deixa manipular pela elite

Falo do livro do professor Jessé Souza "A tolice da inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite". É muito bom. O livro trabalha com a desconstrução muito bem articulada da visão geral fundada em Freyre, Buarque e Faoro. A clareza dos argumentos corrói criativamente as mais de mil e quinhentas páginas de Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil e Os donos do poder, obras que até então eram sempre vistas como a verdade, como se dotadas de caráter sagrado. Jessé reconhece o valor das obras numa crítica profunda que atinge suas raízes, a sobrar pouco mais que o viés mitológico. O cerne é que a visão dos autores consagrados não é científica e se assemelha a uma forma de "racismo" (culturalismo), ao colocar-se sempre em posição de submissão ao modelo externo, além de atacar o Estado e defender o mercado, como se a corrupção se restringisse à esfera púbica e não fosse inerente ao capitalismo. 

"Nos bolsos do 1% mais rico da população brasileira está o resultado do trabalho dos 99% restantes. E assim é há muito tempo, diante do olhar passivo de toa a população subjugada que quase nunca levanta a voz contra esse estado de coisas é porque a violência física que antes permitia um desigualdade tão grande e uma concentração de renda tão grotesca foi substituída no Brasil formalmente democrático de hoje, por uma espécie de violência simbólica, que se disfarça de convencimento pelo melhor argumento e isso se faz com o sequestro da inteligência brasileira."  

Link para resenha do cafezinho:

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Segunda visita à ocupação escolar

Ontem, 21 de abril de 2016, voltei ao IEPIC/Niterói-RJ, dessa vez com a Verônica (minha mulher e ex-aluna de lá) e o Rafael, grande amigo. Dessa vez, outrx estudante - de 16 anos e alunx do 2º ano do curso normal e integrante da comissão de comunicação - mostrou a escola e conversou com a gente. A ocupação completou duas semanas e tivemos a oportunidade de conhecer espaços do colégio que os próprios alunxs não conheciam até iniciar a mobilização. Ficamos surpresos com a quantidade de material em bom estado - computadores, máquinas copiadoras, impressoras etc. -, que estava inacessível ao alunado. Mais que sem acesso: eles explicaram que não sabiam sequer da existência do material e de certos locais, que estavam sempre fechados. Alguns desses espaços foram revelados com a visita de ex-alunxs à ocupação que, ao conversarem sobre suas lembranças no colégio, levaram os alunxs ocupantes a ingressarem nesses locais anteriormente interditados. Ex-alunxs, junto aos atuais, conversando e descobrindo novos espaços. E não são só espaços físicos. Na verdade, a ocupação é a descoberta desse espaço de cidadania e de política, na melhor e mais honrada acepção do termo.

Nessa segunda visita, o colégio estava ainda mais bonito. Limpo, mais aberto, cheio de jovens dialogando e se envolvendo em atividades. Outros visitantes e apoiadores também andavam pelo pátio. Li em alguns jornais que as ocupações estariam impedindo o funcionamento dos colégios. Não é verdade. Infelizmente, é esse governo que está vandalizando a educação, ao cortar gastos e deixar de pagar professores e funcionários. Os professores estão em greve e a ocupação é legítima. Vandalismo é o que faz a atual administração do estado do RJ. Se não acredita no que digo aqui, sugiro que visite as ocupações, pesquise sobre o que o governo vem fazendo e chegue a suas próprias conclusões.

O movimento é delxs, dxs alunos, e extremamente democrático. Perguntei se elxs lutavam para escolher a diretoria e a resposta foi que não era só para escolher, mas participar das decisões: elxs querem mais que uma democracia representativa, eles querem assembleias e votação direta para as grandes decisões do colégio. Esse movimento, a pauta dessxs meninxs, ensina muito e serve de exemplo para o nosso sistema político e a necessidade de reformas. Mais uma vez, saí da escola cheio de esperança. Amanhã voltarei lá. #OcupaIEPIC 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ideologia: perto demais para ser vista

Curto a revista Superinteressante, que nem parece da Editora Abril, mesma da Veja. Mas a última capa serve de exemplo pra falar um pouco de ideologia, especialmente sobre a predominante, essa que muita gente nem repara, porque se encontra completamente mergulhada nela.

Pois bem. Vamos ao título na capa da revista: “Transforme seu stress em algo bom”. Parece uma dica legal, né? Só que não. Vou explicar os motivos.

A matéria não fala sobre o que poderíamos fazer para mudar as causas do estresse. Pelo contrário, o texto já parte da ideia de que viver uma rotina constante de estresse é inevitável. Também é superinteressante notar que a própria autora reconhece o imenso impacto da área profissional, das relações de trabalho, na origem do estresse: a maioria dos exemplos utilizados diz respeito ao trabalho, as fotos na parte interna são de um homem de terno e já no subtítulo se fala em aumento da produtividade.

O texto da matéria não se afasta do título e não deixa dúvidas sobre a mensagem principal: é destino de todos ter uma rotina de trabalho exaustiva, estressante, e é o indivíduo - sozinho, isoladamente - que deve se adaptar para tirar proveito disso.

Por que a matéria não aborda as causas atuais do estresse? Por que não fala de possíveis soluções para mudar a estrutura que gera a rotina massacrante? A matéria só oferece duas opções: sofrer mais com o estresse (se não se adaptar) ou sofrer um pouco menos, “curtindo o lado bom dele”. Não existem no texto alternativas que cheguem à raiz do problema. É como uma questão de múltipla escolha, que já parte de opções pré-determinadas e reflete muito bem a ideologia, na medida em que reduz as opções, fecha-se numa moldura estreita, e interdita o diálogo e a criação que são permitidas nas questões discursivas.

Aí se vê claramente que essa rotina estressante - que faz parte de um modo de produção que explora coletivamente - é mostrada como destino inevitável. Não dá para ignorar que a palavra coletividade sofre um bloqueio ideológico. O estresse é a consequência de um sistema de trabalho imposto (e o texto reconhece isso nos exemplos), que afeta a maioria das pessoas, ou seja, a sociedade, a coletividade. Mas é o indivíduo, sozinho, que deve fazer alguma coisa: e sozinho ele só pode aceitar e se adaptar - nunca atingir a causa. Daí as praças e sindicatos vazios e os consultórios de psicólogos e psiquiatras cheios. Os problemas vêm de sistemas, estruturas, que afetam todos, mas a ideologia predominante é de fragmentação e individualização.

Nesse contexto, o discurso que se repete é: “você tem que ser adaptar! Você tem que se moldar, se transformar! É preciso resiliência!”. Típico discurso raso de “auto-ajuda”. Nada é falado sobre as estruturas, é o indivíduo que tem que se encaixar ali, se transformar em mais uma engrenagem, e não tentar transformar a máquina. O indivíduo tem que abrir mão do seu tempo, dos seus desejos, da sua família, das suas características para se encaixar no modo de produção massacrante, o que envolve, cada vez mais, até o uso de medicamentos psiquiátricos, ou seja, uma adequação química para “funcionar” e produzir bem nessa realidade apresentada como imutável.

Por que não há a sugestão de que as pessoas se unam e coletivamente tentem formular mudanças nas causas do estresse? A solução da matéria aponta para o indivíduo que, sozinho, é absolutamente impotente pra isso. A estratégia coletiva - que é a única que pode atingir a estrutura - é negada, sequer é cogitada.

Curioso destacar que, enquanto essa capa individualista é exibida nas bancas, é uma ação coletiva que consegue ter eficácia. Os estudantes da rede pública do Estado de São Paulo se organizaram e coletivamente impediram que a gestão do governador Geraldo Alckmin impusesse o fechamento de várias escolas, sem qualquer tentativa de diálogo e com evidente prejuízo aos jovens, que teriam que se deslocar pra locais distantes e se submeter a salas superlotadas, o que, muito provavelmente, levaria à evasão escolar.

Se cada um daqueles jovens fosse seguir a dica da revista Superinteressante, eles iam se adaptar às mudanças: aceitar, calar, nada fazer para impedir e viver uma rotina massacrante pra chegar e voltar da escola. Como os trabalhadores estressados. Cada um deles sofreria individualmente as consequências. Mas eles se uniram e pra mim são um coletivo de heróis; e só são heróis porque organizados coletivamente. E aqui é importante chamar a atenção pros super-heróis dos quadrinhos norte-americanos que, com raras exceções, são indivíduos isolados, que usam seus superpoderes contra supervilões, mas nunca atingem as estruturas que causam as desigualdades no mundo. Mais um exemplo da ideologia das estratégias individualistas (e por isso impotentes) pros problemas coletivos.

Muitos dizem que não há ideologia ou que só existem ideologias de esquerda, comunista etc. Como já coloquei acima, penso que isso acontece porque as pessoas estão mergulhadas na ideologia predominante (capitalista), o que dificulta muito a percepção. O termo capitalismo também sofre um bloqueio ideológico. É comum falarem no número de mortes causadas pelos regimes soviéticos, por exemplo, mas quantas vezes vemos sistema capitalista como causador de mortes?  O fato é que a revista Superinteressante não nega a existência de ideologia, porque páginas depois da reportagem sobre o estresse, fala que o uso da maconha é barrado por motivos ideológicos (página 56).

Para revelar a ideologia é indispensável formular certas perguntas, como: por que esse esse tema e essa abordagem? E tal tipo de análise e questionamento pode ser utilizado para desvendar o que está por trás de diversos discursos e escolhas, inclusive das pesquisas científicas que são citadas na matéria, que tratam de situações isoladas de estresse e não envolvem os efeitos da submissão a rotinas estressantes contantes e a longo prazo, o que ocorre frequentemente com muitas pessoas.

Acredito que a autora do texto nem tenha pensado sobre as questões colocadas aqui. Penso que é provável que a ideia de escrever essa matéria tenha surgido diante da leitura de outros artigos que foram escritos sobre as novas pesquisas científicas acerca dos efeitos do estresse. Se foi assim, não há surpresa, já que faz parte da imersão da ideologia a reprodução dos discursos dominantes, sem grandes reflexões sobre as origens, raízes.    

Por último, mas não menos importante, a matéria termina comparando pessoas “a máquina[s] de enfrentar dificuldades”. Nada melhor para a produtividade que máquinas. Mas não. Não somos máquinas e não estamos dispostos a nos transformar em máquinas e engrenagens para produzir melhor. Impossível negar a ideologia predominante. Vou enviar esse texto à revista e ver se tenho alguma resposta. Seria legal ler uma matéria falando sobre ideologia. 


PS. O texto tem influência de dois autores de que gosto bastante: Bauman e Zizek.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Fracasso


O fracasso ronda a cidade. Ombros caídos, ruas vazias, rostos tristes. Nas chuteiras a expectativa concentrada. Tudo terminou em frustração; a trilha sonora é um silêncio imposto, severo.


Uma euforia, uma energia guardada não sei onde explodia antes e durante a partida. Hora e meia depois, o fim. Aos poucos ouve-se o barulho da vida retornando: as cornetas cessaram, os ônibus voltaram a circular, as pessoas estão voltando às suas casas, lentas, melancólicas. No ar o cheiro da derrota, a pólvora queimada.

Os grupos de torcedores, moléculas cujos átomos eram atraídos pela energia intensa mas fugaz do anseio de vitória, fragmentam-se em pessoas solitárias; a orgia da torcida, a festa, o sentimento de comunidade, de união é fulminado pelo apito do fim de jogo.

Éramos nós há pouco?

Agora seguimos sós?

Sempre estivemos sós.

O álcool, nos bares, mascara a derrota, perpetua a euforia; mas depois do porre o sentimento de fracasso virá.

Que fracasso é esse? A quem ele pertence? Isso é o fracasso?

Não! Isso é só um jogo de bola. O fracasso antecede a copa; o fracasso atravessa as copas, as comemorações de ano novo, os jogos, as festas. A derrota já nos atingiu faz tempo. Na verdade, nunca conhecemos a vitória.

Estamos separados: a união não existe - é pura ilusão. Isso é fracasso.

Paga-se para estudar. Paga-se para ser atendido num hospital. E quem não paga? Submete-se, espera, morre.

Abaixa a cabeça para ter um emprego de merda e poder com o pouco que ganha pagar comida, escola, médico, teto, uma TV pra ver jogo de bola. Tão nos devendo isso tudo: cadê o cobrador?

Derrotados. Fudidos. Medrosos. Não foi um gol que nos derrotou. Os fracassados tem imunidade ao fracasso, assim como os mortos são imunes à morte.

Que as pessoas chorem. Mas que chorem pelos que morrem sem atendimento, pelos que não conseguem ir à escola, pelos que deixam o campo (não o de futebol, mas a terra seca, árida, sem torcida, sem propagandas nas bordas) para tentar a vida na cidade grande, num barraco. Isso é fracasso. O resto é circo.

sábado, 26 de junho de 2010

E agora, José?

A fim de continuar a homenagem a Saramago, preparava-me para escrever sobre a criação de Israel, abordando-a de forma não maniqueísta, desde o início do movimento sionista. Porém, depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão de que poderia falar do tema sem ir tão longe. Em vez de falar de Israel, resolvi tratar do retorno dos índios ao litoral de Niterói.

Talvez o leitor, a princípio, possa achar a associação inusitada, mas olhando de perto perceber-se-á que o retorno à terra antes ocupada vincula diretamente os dois fatos.

Farei, inicialmente, um brevíssimo resumo dos acontecimentos.

Sobre Israel:

“Em novembro de 1947, as Nações Unidas recomendaram a partição da Palestina em um Estado judeu, um Estado árabe e uma administração direta das Nações Unidas sob Jerusalém. A partição foi aceita pelos líderes sionistas, mas rejeitada pelos líderes árabes, o que conduziu à Guerra Civil de 1947-1948. Israel declarou sua independência em 14 de maio de 1948 e Estados árabes vizinhos atacaram o país no dia seguinte. Desde então, Israel travou uma série de guerras com os Estados árabes vizinho e, como consequência, Israel atualmente controla territórios além daqueles delineados no Armistício israelo-árabe de 1949. Algumas das fronteiras internacionais do país continuam em disputa, mas Israel assinou tratados de paz com o Egito e com a Jordânia e apesar de esforços para resolver o conflito com os palestinos, até agora só se encontrou sucesso limitado.” [1]

A criação de Israel tem origem no sionismo, "movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado Judaico, por isso sendo também chamado de nacionalismo judaico. Ele se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX, em especial entre os Judeus da Europa central e do leste europeu, sob pressão de pogroms e do anti-semitismo crônico destas regiões, mas também na Europa ocidental, em seguida ao choque causado pelo caso Dreyfus.” (...)

Apesar de não haver evidência de qualquer interrupção da presença judaica na Palestina há mais de três milênios, é fato incontroverso o concurso de várias migrações substitutivas em massa, com a saída de judeus e a entrada de outros povos, notadamente árabes. (...) [2]

Sobre os Guaranis:

“Nas primeiras décadas do século XVI, quando o processo colonizador mercantilista ainda não havia compreendido com maior clareza a geografia humana nativa no continente sul-americano, os indígenas, que posteriormente serão chamados, genericamente, de Guaranis, eram conhecidos como carijós no Brasil e cariós no Paraguai colonial. O termo Guarani, que significa guerreiro, passou a ser empregado a partir do século XVII, quando a ordem tribal já estava bastante esfacelada por mais de 100 anos de exploração colonial, para designar um grande número de índios que viviam em aldeamentos pertencentes a grupos falantes de dialetos da língua Guarani da família linguística Tupi-guarani. (...)

A antiga e intensa política de ocupação dizimou a população indígena, todavia as populações desta etnia ainda mantém fortes indícios de unidade linguística e cultural, desenvolvendo sempre formas estratégicas relacionais diante das realidades nacionais com as quais são obrigados a conviver.

As populações guaranis contemporâneas vivem em pequenas reservas, acampamentos a beira de rodovias ou habitam ainda espaços geograficamente isolados. Suas principais atividades econômicas são a confecção e a venda de artesanato - cestas com taquara e cipó, estátuas em madeira e colares com sementes nativas - a coleta de raízes, ervas e frutos silvestres e o plantio de suas sementes tradicionais.” [3]

Por fim, a associação óbvia: se os Judeus, depois de milênios, têm direito de criar um Estado, por que os Guaranis não podem morar num sítio arqueológico em Camboinhas, Niterói?

Como se sabe, o litoral, há cinco séculos, pertencia aos índios, que, dizimados e deslocados ao longo da história, atualmente ocupam pequenas áreas. As razões que fundamentaram a criação, manutenção e expansão de Israel serviriam para legitimar o retorno de todos (os poucos que sobraram) índios descendentes dos que viviam no litoral.

A grande diferença é que os índios são uma minoria muito mais fraca e fragmentada. A terra que lhes pertenceu ontem é hoje propriedade, protegida pelo Estado. Os palestinos (agora minoria no território que ocuparam por séculos) tiveram que ceder suas terras aos "judeus israelitas", que voltavam ao "Sião". Os proprietários de Camboinhas (maioria), com certeza, não deixarão que os Guaranis se instalem.

Holocausto quer dizer imolação; etimologicamente relaciona-se à cremação de corpos em sacrifícios religiosos. Na história dos índios há vários holocaustos, embora não se fale muito deles.

O pior é que tais sacrifícios não fazem parte só do passado distante: há dois anos, ocorreu um incêndio aparentemente criminoso na aldeia de Camboinhas. Parece que o holocausto dos índios, apesar de não tão divulgado, continua.

E agora, José? Os judeus têm direito e os índios não?



(Foi difícil achar um vídeo sem propagandas...)

Referências

[1] Retirei o trecho da Wikipedia em 26/06/2010, às 12:05h - pt.wikipedia.org/wiki/Israel. Assim fiz para evitar que me acusem de maniqueísmo. O texto pareceu-me imparcial.

[2] Trecho também retirado da Wikipedia, às 12:14h - pt.wikipedia.org/wiki/Sionismo.

[3] Wikipedia, consulta realizada à 12:18 - pt.wikipedia.org/wiki/Guaranis.

Link para matéria de “O Globo”: g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL456844-5606,00-ALDEIA+EM+PRAIA+DE+NITEROI+OPOE+INDIOS+A+DONOS+DE+CASAS+DE+LUXO.html.

Link sobre o incêndio: webradiobrasilindigena.wordpress.com/2008/07/18/um-incendio-criminoso-ocorreu-na-aldeia-dos-indios-guarani-em-camboinhas-niteroi-rj/


PS. Informo desde logo que não sou a favor de um Estado indígena! Gostaria que o Estado constituído os protegesse melhor, até porque há grupos que usam os direitos indígenas apenas como discurso para invadir e controlar certos espaços.

Deixo claro (como já havia falado no texto anterior, em relação ao Saramago) que não tenho nada contra nenhum povo, etnia ou grupo social. Minha crítica se dirige apenas à forma como foi criado Israel.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Guichês e roletas: Estado mínimo, lucro máximo

De acordo com o discurso vigente, os empreendimentos públicos devem buscar investimentos na iniciativa privada; desta forma, o Estado deve delegar a empresas a prestação de serviços públicos, reservando para si somente o poder de regulamentar e fiscalizar os serviços.

O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público a empresas alivia os cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área/serviço - o que evitaria ou, pelo menos, compensaria os gastos públicos.

Mas na realidade não é assim.

Isso porque, quem arca com as despesas é o usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão cobra tarifas, para cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar seus gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.

Não há certeza sobre os gastos e os lucros - e não haverá enquanto inexistir transparência.

Transporte com tarifas baixas não dão lucro e, portanto, não interessam à iniciativa privada, "patrocinadora" - indispensável? - do Poder Público. O transporte público, que deveria ser uma ponte, transforma-se em muro com as tarifas altas.

O responsável pela prestação dos serviços públicos é o Estado; isso está na nossa Constituição, artigo 175. A delegação do serviço à iniciativa privada é uma opção (sim, o Estado pode prestá-lo diretamente), que só se justifica quando tem por finalidade o interesse público. Resumindo: é pra servir - e muito bem - ao cidadão e não pra encher os bolsos de uns poucos.

A tarifa é alta: pagamos muito. Motoristas, trocadores, mecânicos etc. ganham pouco. Parece que só os empresários estão satisfeitos.