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sexta-feira, 5 de junho de 2026

A Invenção de Hugo Cabret. Martin Scorsese, 2011.

Se você ama cinema, poucos filmes conseguem transmitir tanto encantamento quanto A Invenção de Hugo Cabret, adaptação do livro A Invenção de Hugo Cabret. A história acompanha Hugo, um menino que vive escondido em uma estação de trem de Paris e que, ao tentar desvendar um mistério ligado ao pai e a um autômato, acaba descobrindo muito mais do que imaginava. O filme se transforma em uma emocionante homenagem às origens do cinema e ao poder da imaginação. Dirigido por Martin Scorsese, o longa impressiona pela beleza visual, pela direção sensível e pela forma como desperta no espectador a mesma fascinação que o cinema provocou em seus primeiros espectadores. Ao mesmo tempo em que emociona, também apresenta a importância histórica de Georges Méliès, um dos grandes inventores da magia cinematográfica. Mais do que um filme infantil ou uma aventura, A Invenção de Hugo Cabret é uma declaração de amor ao cinema, à arte de contar histórias e à capacidade dos sonhos sobreviverem ao tempo. Uma obra delicada, emocionante e visualmente deslumbrante. Recomendada para cinéfilos, leitores e para todos que ainda acreditam no poder da imaginação. Vale muito a pena assistir — e também conhecer o livro que inspirou essa bela adaptação.

terça-feira, 31 de março de 2020

O Irlandês (M. Scorsese, 2019): narrativas e tempo

Há muitas maneiras de contar uma história. A mais comum é a linear, começo, meio e fim, “the end”. Mas há filmes que fogem dos modos mais fáceis de narrar, brincam com o tempo, e contam, de forma original, os fatos, sem seguir a ordem cronológica: O Irlandês é um deles.

No mais recente longa de M. Scorsese, o espectador, inicialmente, é levado, num plano sequência interessante, até o narrador, já idoso e cheio de lembranças, que vai contar sua vida, como chegou até ali. É aí que a narrativa dá um primeiro pulo ao passado (como se voltasse ao “meio da história”), destacando uma viagem de carro de dois casais para um casamento.

E, ao falar dessa viagem ao casamento que é revisitada durante todo o filme, o narrador fala sobre um passado mais distante, explicando como ele se envolveu com as pessoas que mudaram sua vida, inclusive (e principalmente) do cara que está viajando com ele para o tal casório da filha de um dos personagens da trama.

O mais interessante é que o filme começa no presente (idoso narrador que se encontra numa espécie de casa de repouso), volta à viagem dos casais, regride mais no tempo, falando das origens, e vai intercalando, às vezes voltando ao presente, outras tratando do “meio” (viagem ao casamento) e também narrando como se deu seu envolvimento com certas pessoas e atividades - tudo isso num roteiro incrível, que, lá na frente, mostra o que houve de relevante no trajeto até a celebração do matrimônio.

O senhor, “ex-pintor de paredes”, faz vários flashbacks e flashforwards, indo, vindo, voltando e adiantando, até fechar a história, de modo muito bem construído, encaixando-se perfeitamente.

Outro filme que merece destaque na manipulação do tempo é Pulp Fiction (Q. Tarantino, 1994), em que a primeira cena é retomada no final, depois de algumas ramificações envolvendo núcleos de personagens diferentes, mas que se interligam de alguma forma. Obra-prima que ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Ficam as indicações dos longas, que além da originalidade narrativa, são filmes incríveis.







quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quem conta a história em "Coringa"?



Quem é, afinal, o narrador no filme “Coringa” (Todd Phillips, 2019)?

Acredito que há mais de um. Ou talvez só um narrador, mas que apresenta versões variadas, pura fantasia ou não, sobre as mesmas situações. Com vozes plurais, é certo que a trama apresenta versões diferentes para os mesmos fatos, como, p. ex, o relacionamento de Fleck com a vizinha.

Esta maneira de contar a história, em que há cenas distintas sobre as mesmas situações, levanta, no mínimo, dúvida sobre o que está rolando na trama, a “veracidade” interna relativa à ficção em si. Isso pode gerar alguma confusão ao espectador, e pode ser lido de muitas formas, uma das mais óbvias é a de que a primeira versão encenada é a imaginada por Arthur Fleck (Coringa) e a segunda, os fatos “reais”, descritos por um narrador impessoal, terceira pessoa, de fora, narrador deus, que tudo sabe.

Não se trata de algo novo no cinema. O filme “Uma mente brilhante” (Ron Howard) - vencedor do Oscar de 2002 nas categorias de melhor filme, roteiro adaptado, diretor e atriz coadjuvante - foi ousado e muito feliz ao apresentar dois narradores. E o fez de modo desafiador, pois durante boa parte do longa - da abertura até metade ou mais - as cenas contam uma versão, dada como única, “verídica” (lógica interna), sem dar pistas (fáceis) de que eram criações ou distorções do protagonista, da mente dele.

E aí o espectador é levado a “sentir” sintomas da doença que acomete o matemático, a esquizofrenia. Alucinações, paranoias, ilusões persecutórias só são questionadas, reencenadas, expostas, lá na frente. “A ilha do medo” (M. Scorsese, 2009) também joga com confrontos narrativos, apresentando um belo trabalho com plurivocidade, a contrapor o que era pura imaginação de um personagem e o que houve de fato.

De tudo, ficam as perguntas: até que ponto a visão (subjetiva) dos personagens interfere? O que é verdade (ou seriam verdades?) Como deve ser a experiência de ter delírios? Como confiar nas narrativas?