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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Indicação de Álbum: AmarElo (2019), de Emicida

AmarElo não é apenas um álbum de rap. É um manifesto sobre sobrevivência, afeto, ancestralidade e esperança em tempos difíceis. Lançado em 2019, o disco marcou uma nova fase artística de Emicida, ampliando os limites do hip-hop ao dialogar com MPB, samba, música africana e poesia brasileira. A grande força do álbum está na sua capacidade de fazer crítica social sem abrir mão da ternura. Em vez de apostar apenas na denúncia, Emicida propõe o afeto como forma de resistência. Racismo, desigualdade, saúde mental e identidade negra aparecem lado a lado com temas como amizade, amor e solidariedade. Faixas como Principia, Ismália e a própria AmarElo mostram um artista maduro, que transforma experiências individuais em reflexões coletivas. O famoso verso de Belchior sampleado na faixa-título se tornou um símbolo de resiliência para milhares de pessoas. Há quem critique o álbum por se afastar do rap mais tradicional e adotar uma sonoridade mais acessível, mas justamente essa abertura ajudou a levar suas mensagens para um público muito maior. O consenso entre críticos e muitos ouvintes é que AmarElo está entre os trabalhos mais importantes da música brasileira recente. Vale ouvir porque: mostra que a arte pode ser crítica sem ser desesperançosa. Em tempos de ódio e polarização, Emicida escolheu construir pontes.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"O sol só vem depois" e a poesia de AmarElo (Emicida, 2019)

AmarElo, do Emicida, lançado recentemente, é fabuloso. Nas palavras do artista, o álbum tem o objetivo de devolver a calma às pessoas. E realmente devolve, por tudo que apresenta nas melodias, nas letras e até nas conversas gravadas.

A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.

Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.

Na “ordem natural das coisas”, a vida vem antes e sempre vence. Esta letra é uma das coisas mais lindas que já (ou)vi. Em tempos de reificação, o cara diz - da forma mais bela com a qual jamais sonhei - que antes de tudo vem a vida, e não importa que seja a do broto de feijão, das aranhas ou das pessoas - qualquer ser vivo vem antes das coisas. O sol, esta enorme estrela que coloca geral pra girar ao seu redor, que foi e é indispensável à vida, não deixa de ser uma coisa e, por isso, vem depois. "O sol só vem depois".