Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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sexta-feira, 5 de junho de 2026
House of Cards: livro, trilogia e série que revelam os bastidores do poder
House of Cards nasceu como uma trilogia de romances do escritor e político britânico Michael Dobbs, ambientada nos corredores do Parlamento britânico. Nos livros, acompanhamos a ascensão implacável de um político disposto a tudo para alcançar o cargo de primeiro-ministro, em uma trama repleta de conspirações, manipulação e jogos de poder.
A adaptação televisiva transportou a história para os Estados Unidos e criou um dos maiores fenômenos da TV contemporânea. Apesar das polêmicas que cercaram a produção, a série continua sendo uma obra impressionante pela qualidade de seu roteiro, pela construção dos personagens e pela forma como expõe os bastidores da política institucional.
Um dos elementos mais marcantes é a quebra da quarta parede: o protagonista conversa diretamente com o público, tornando o espectador cúmplice de seus planos e estratégias. Esse recurso cria uma experiência envolvente e ajuda a revelar a lógica muitas vezes cruel que move a disputa pelo poder.
Tanto os livros quanto a série oferecem uma reflexão fascinante sobre ambição, corrupção, influência e sobrevivência política. Mesmo com as diferenças entre o contexto britânico original e a adaptação norte-americana, ambas as versões permanecem extremamente atuais.
Uma excelente indicação para quem gosta de política, suspense, personagens moralmente ambíguos e histórias que mostram que, nos bastidores do poder, quase nada é o que parece.
domingo, 15 de setembro de 2019
Sintonia: periferia nas telas e caixas de som (Netflix, 2019)
[Texto sem spoilers] A Netflix acertou ao fazer parceria com KondZilla, fundador do Canal de música que leva o seu nome e é o maior do Brasil no YouTube (link: https://m.youtube.com/user/CanalKondZilla).
Do Guarujá/SP e com 31 anos, Konrad Dantas é criador da série Sintonia, também atuando na direção da produção lançada recentemente, que é muito bem-feita, com um roteiro de primeira qualidade, atuações ótimas, fotografia original e uma trilha sonora incrível.
Do Guarujá/SP e com 31 anos, Konrad Dantas é criador da série Sintonia, também atuando na direção da produção lançada recentemente, que é muito bem-feita, com um roteiro de primeira qualidade, atuações ótimas, fotografia original e uma trilha sonora incrível.
Meu objetivo aqui não é falar sobre a trama, o que eu talvez faça em outro texto com revelações (spoilers). O fato é que eu vi, gostei muito, estou revendo e recomendo demais. O que desejo nesta análise é destacar os muitos pontos altos da série Sintonia e também fazer críticas a aspectos da produção que me chamaram atenção.
O tema principal da série é a amizade - e isso é o que a trama tem de universal -, mas o que brilha nas cenas e até emociona são as particularidades da vida numa das periferias brasileiras, a maior do país: a periferia de São Paulo. As gravações rolaram na Favela do Jaguaré, zona oeste da capital, mas na ficção a favela se chama Vila Áurea - homenagem do KondZilla à mãe dele -, localidade marginal (no sentido sociológico) onde os três amigos - dois rapazes e uma jovem mulher - vivem e compartilham seus dramas e destinos.
E as chaves da originalidade e vanguardismo da produção são justamente a coragem e a fidelidade ao retratar a vida na marginalidade, especialmente a de SP. E isso é muito interessante, porque geralmente os holofotes estão virados para as favelas cariocas e não pra periferia paulistana. As favelas do Rio merecem atenção, é claro, mas esse foco nos cariocas é desproporcional, já que, além de KondZilla, SP é a terra dos Racionais, Sabotage, Criollo, Emicida e mais uma pá de gente talentosa, formando um cenário social, cultural e artístico muito ativo, original e rico.
Sintonia tem personagens muito bem construídos e verossímeis - interpretados por atores muito talentosos que espantam pela naturalidade nos papéis -, diálogos ágeis, cheios de gírias, ritmo e espontâneos demais, além de uma narrativa realista, forte, muito bem contada, que cresce e encaixa os caminhos dos três protagonistas.
Os atores da série (não só os principais) são incríveis, parecem ter nascido nas personagens. E não é à toa: o elenco é formado por desconhecidos (profissionais que não estão na TV) e, pesquisando sobre a origem dos talentos, descobri que alguns dos atores são ex-detentos, que fizeram curso de teatro na prisão. Pelo resultado do trabalho, essa foi um excelente escolha dos realizadores.
Para não dar spoilers, vou dizer apenas que a trama se sustenta nas caminhadas e batalhas do trio principal: Rita (Bruna Mascarenhas), Doni (Jottapê Carvalho) e Nando (Christian Malheiros). Os amigos, cada um com seus “corres” (lutas diárias), representam o tripé que fundamenta a história narrada: a vida no crime (em facção que explora o tráfico de drogas), a aproximação com a igreja evangélica e o desejo de realizar o sonho de viver da música, de se destacar como MC.
Sintonia conta a realidade da periferia de SP e realiza muito bem esse projeto, porque tem criadores e atores que nasceram e se desenvolveram ali, dentro da favela, e por isso sabem do que estão falando. Impossível tratar de experiências na periferia brasileira sem mencionar igrejas evangélicas, tráfico de drogas, cenário musical, trabalho informal (com personagens camelôs, vendedores ambulantes), união da comunidade, violência (incluindo a doméstica), preconceitos, corrupção policial etc. Tudo isso é abordado na série.
Bom, agora passo às críticas sobre o que penso que pode ser aperfeiçoado. As personagens são muito boas, mas podem ser ainda melhores se o roteiro da segunda temporada se dispuser a contar mais sobre o passado de cada um dos protagonistas. Colocar alguns flashbacks da história de Rita, Doni e Nando pode dar mais profundidade às suas personalidades e também à trama como um todo.
Na minha opinião, o maior erro de Sintonia foi em relação à representatividade, especialmente no trio principal. A questão é de gênero, racial (étnica) e também passa pelo colorismo: há apenas uma mulher e somente um dos três protagonistas é negro com pele mais escura, e é justamente esse personagem que faz parte de uma facção criminosa.
No plano geral, a série consegue fugir dos estereótipos; porém, ao colocar só um negro no trio e ainda ligado ao crime, acaba reforçando uma visão menos apurada e original da favela. Conforme explica o site GELEDÉS, “de uma maneira simplificada, o termo [colorismo] quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.”[1]
Na população brasileira em geral, segundo o IBGE, a maioria é de brancos (47,51%), seguidos de pardos (43,42%), negros (7,52%), amarelos (1,1%) e indígenas (0,42%) [2], sendo a maioria de mulheres, que representam mais de 51% do total. Apesar de os brancos serem maioria no país, não é esta a realidade nas quebradas, nos lugares mais pobres, onde o percentual de negros supera 50%. [3] Portanto, um trio mais representativo da favela paulistana poderia ter duas mulheres negras ou dois negros, e não vincular os mais escuros a atividades ilegais. Em um país racista e desigual como o Brasil não dá pra passar pano na questão da representatividade.
As críticas - que se pretendem construtivas - não tiram o valor da série, uma das melhores já realizadas no Brasil, com temas e cenários muito ricos, belos, peculiares e geralmente mal representados em produções audiovisuais, que não respeitam o lugar de fala das pessoas da favela. Que venham mais projetos artísticos criados e produzidos por pessoas da periferia!
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Reflexos obscuros da queda livre (Black mirror)
O tema é
“Queda livre”, primeiro episódio da terceira temporada da série
Black Mirror (Netflix). Não, esse texto não tem revelações da
trama, é apenas uma leitura da ideia, especialmente do uso da
tecnologia para avaliar pessoas e colocá-las em níveis ou classes
diferentes. Mas é melhor ver primeiro e ler depois.
A
primeira cena é de uma mulher correndo com um celular na mão,
olhando pra tela o tempo todo. Daí em diante todos os
encontros dela geram avaliações, notas de 1 a 5. Um esbarrão pode
render notas baixas e um bom atendimento a troca de 5 estrelas
marcadas rapidamente na tela. Vale pra tudo: fotos, postagens,
atitudes, todos podem se avaliar, mas a nota dos mais bem avaliados
(acima de 4.5) tem peso maior na pontuação. E essas notas
determinam tudo na vida da pessoa: acesso a casas, financiamentos,
serviços, empregos, pessoas com quem se relacionar etc. essa é a
ideia.
No Uber tem isso. Você faz a corrida e rola uma avaliação
mútua. Então, isso passa a fazer parte de todos os atos. As pessoas
tornam-se reféns (e algozes) das avaliações, dali vem o status de
cada personagem. Reprovação social gera queda de pontos.
Autoridades podem punir com perda de pontos. Como outros episódios
de Black Mirror, esse causa um mal-estar. Ainda bem que é ficção,
tento me aliviar. Mas, refletindo um pouco mais, fico assustado ao
pensar que a realidade é parecida ou até pior.
O critério de avaliação atual baseia-se na desigualdade,
construída historicamente, sendo evidente a dificuldade ou proibição do acesso de
certas pessoas a determinados locais, serviços, relações sociais
etc. E no episódio, a princípio, não se veem mendigos, pessoas
famintas, trabalho escravo (talvez o fim revele como lidam com os
desajustados); não se fala em desemprego e as pessoas parecem estar
vivendo com conforto. No presente, na realidade, há miséria,
pobreza e uma enorme restrição dessas pessoas a serviços
essenciais de qualidade (educação, saúde etc.), concessão de
crédito, empregos com maior remuneração etc. E ainda há
avaliações, como a das roupas (moda), do modo de falar, da origem, da cor
da pele, do gênero, marcas dos produtos que usa etc. Isso sem falar do individualismo, da falta de consciência de classe.
Como são
avaliadas pessoas pobres, sem estudo formal, que não dominam mais línguas,
sem a bagagem cultural exigida, sem a aparência imposta, que moram
em locais discriminados? Como são dadas as oportunidades? A ficção não se esgota na trama de
personagens distantes de nós, a fantasia, a imaginação apontam pra
realidade. A ficção é um reflexo crítico da vida. Nossas
avaliações, interações e acessos também estão sendo definidas
por critérios falhos. E as pessoas, tão imersas nesse sistema, muitas vezes não veem suas estruturas.
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