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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Indicação de leitura: Milicianos. Rafael Soares, 2023.

Se você quer compreender a violência urbana do Rio de Janeiro para além dos estereótipos, o livro é uma leitura indispensável. Resultado de mais de uma década de investigação jornalística, a obra mostra como agentes treinados para combater o crime acabaram se tornando parte dele. O autor reconstrói a formação e a expansão das milícias, revelando as conexões entre policiais, grupos armados, empresários e políticos que ajudaram a consolidar esse poder paralelo no estado. Mais do que um livro sobre criminalidade, Milicianos é uma análise das falhas estruturais da segurança pública brasileira. A narrativa expõe como a ausência do Estado, a corrupção e a busca por controle territorial transformaram as milícias em uma das principais forças criminosas do Rio de Janeiro. A leitura também ajuda a entender casos que marcaram a história recente do país, mostrando que episódios frequentemente tratados como exceções fazem parte de um fenômeno muito mais amplo e enraizado. Vale a leitura porque: • Combina rigor jornalístico e linguagem acessível. • Explica a origem e a evolução das milícias. • Ajuda a compreender as relações entre violência, política e poder. • É essencial para quem se interessa por segurança pública e pela realidade social do Rio de Janeiro.

Tropa de Elite, 2007.

Dirigido por José Padilha, o filme tornou-se um dos mais marcantes do cinema brasileiro. Inspirado no livro Elite da Tropa, a obra retrata o cotidiano do BOPE no Rio de Janeiro, expondo a violência urbana, a corrupção policial e os desafios da segurança pública. Embora o filme tenha sido concebido como uma crítica à violência estrutural e às falhas das instituições, parte do público acabou transformando o Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, em um herói nacional. Esse fenômeno revela uma contradição importante: um personagem marcado pela brutalidade, pela tortura e pela violação de direitos fundamentais passou a ser admirado justamente por práticas que o próprio Estado Democrático de Direito repudia. A grande força de Tropa de Elite está justamente em provocar esse debate. O combate ao crime pode justificar qualquer meio? A violência policial resolve os problemas da segurança pública ou apenas reproduz o ciclo de violência? Quando um agente estatal que age à margem da lei é celebrado como herói, corre-se o risco de normalizar práticas incompatíveis com a democracia e os direitos humanos. Mais do que um filme de ação, Tropa de Elite é uma obra que convida à reflexão sobre segurança pública, justiça e os limites do poder estatal. Vale assistir - e, principalmente, discutir criticamente suas mensagens.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Eles não ligam pra gente


Minha intenção neste texto é destacar alguns pontos da bela e poderosa música “They don´t care about us” (Michael Jackson, 1995), seus videoclipes e algumas curiosidades. Mais uma vez me impressionei com trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia (e no caso dos videoclipes do astro, ainda há a dança, a fotografia etc., que ofuscam ainda mais a letra, a mensagem).

A música fala de racismo, autoritarismo, violência - especialmente a policial -, política, consumismo, desigualdade, e até do que atualmente chamam de pós-verdade. E é muito atual, encaixa-se perfeitamente à nossa realidade. Em 1995, Michael Jackson cantou sobre a ascensão da violência, denunciando uma situação já crítica, mas que ao longo dos anos ainda piorou e, infelizmente, a resposta a todo discurso de medo e incertezas tem sido mais repressão e violência - e não as saídas indicadas pelo Rei do Pop na sua poesia.

Os versos são diretos, não usam muitas metáforas, dizem logo a que vieram: denunciar o descaso dos poderosos em relação aos marginalizados: they don´t care about us - eles não ligam para a gente (nós), frase que em português pode se desdobrar para o sentido de que eles não ligam pra gente, eles não se importam com pessoas, seres humanos. Descreve claramente como o Estado foi reduzido ao seu papel repressor, abandonando as políticas públicas mais ativas, inclusive (e principalmente) as de promoção de igualdade. E o mais incrível é que ele avisou há mais de 20 anos sobre os riscos e consequências do abandono e marginalização.

A letra já começa falando de “cabeça raspada”, em clara alusão aos skinheads, mas também ao militarismo, porque os soldados também tem o cabelo assim, rente. Ainda na primeira estrofe, acusa o aumento da maldade, além de ressaltar a confusão dos discursos, denunciando um afastamento dos fatos (verdade), em que todos justificam seus atos (inclusive violentos) da maneira que quiserem, criando suas versões, daí a pós-verdade.

E sobre a verdade - prestando bastante atenção ao início dos videoclipes -, ouvimos, no meio do coro infantil que canta o refrão, a voz de menina que se ergue pra dizer: “não importa o que as pessoas digam, a verdade está com a gente.” Num mundo cheio de medo e especulações - como é dito na letra - uma criança defende o seu ponto de vista, que é o da mensagem da música: eles realmente não ligam pra gente. Porque se ligassem pelo menos um pouco, não haveria tanta discriminação e violência, como a letra destaca.

É uma poesia de cunho crítico e politizada: menciona duas figuras históricas, Roosevelt e Martin Luther King, dizendo que se eles tivessem vivos, não deixariam esses absurdos acontecerem. A crítica às políticas neoliberais de redução do Estado não poderia ser mais clara, tendo em vista que o democrata Franklin Delano Roosevelt (FRD) promoveu políticas públicas de inclusão, usando ativamente o Estado de caráter interventor, para atenuar a devastação causada pela crise do capitalismo de 1929. Luther King era um pastor protestante que se tornou um dos líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com uma campanha de não-violência.

Michael Jackson denuncia o descaso dos poderosos, com a amputação do braço protetor do Estado, que atualmente segue apenas com o braço hipertrofiado da repressão, o qual se volta com mais força e frequência contra aos historicamente marginalizados, os “invisíveis” e sem direitos, como diz a letra. E pra quem acha que a divisão da sociedade e a polarização são fenômenos recentes, taí uma música de 1995 que deixa tudo bem claro. Antes, em 1980, Bob Marley já falava desta divisão quando lançou "We and them". E pra citar um exemplo de lucidez nacional, em 1997 veio à luz o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC´s, que até no título expõe a divisão social, e nas músicas descreve uma realidade dura, marcada pela desigualdade e segregação, como nos versos de “Diário de um detento": “Cadeia? Guarda o que sistema não quis/ Esconde o que a novela não diz.”

A divisão social é clara há muito tempo; a polarização ficou mais evidenciada quando a extrema direita saiu do armário empurrada pelo discurso de medo e pela decadência da classe média, também ferida pelo neoliberalismo. Alguns dos fundamentos do conceito de classe média são a maior estabilidade do grupo e seu poder aquisitivo razoável, a ponto de suprir com algum conforto as necessidades básicas (sobrevivência) e ainda ter um excedente para atividades culturais e de lazer.


A redução do Estado - com a privatização da educação, da saúde e até da segurança, além do corte de direitos -  tem esgotado os recursos excedentes: daí resta trabalhar para sobreviver, pra pagar plano de saúde, escola particular, sistema de vigilância em condomínios gradeados, cujos apartamentos (moradia), inflacionados pela especulação, vêm com os juros altos do financiamento. Compras a prazo, cartão de crédito, dívidas: com juros que engordam os lucros dos bancos. O básico agora tem preço, e é caro. O mercado, desregulamentado, cada vez mais livre pra explorar e descartar, não garante estabilidade. A ideologia dominante cega por imersão e direciona o medo - e o ódio - para mais pobres, para os imigrantes (retirantes), tachando de inimigos as maiores vítimas do próprio sistema, aqueles que sofrem duplamente: com a omissão (abandono) e a repressão (violência) do poder público.


E eles ("they") lucram no processo inteiro: menos Estado, menos impostos; menos direitos trabalhistas, menos gastos, menos deveres legais em relação a pessoas; menos serviços públicos gratuitos, mais espaço pra "empreender" e vender até o mínimo essencial; mais dívidas, mais juros; mais crimes (e a elite define que tipo de atividades e substâncias são ilegais), mais armas, produzidas em países desenvolvidos; mais prisões, mais trabalho precarizado e expansão dos negócios com a privatização das cadeias; os jornais reforçam o discurso de medo nos artigos e reportagens ao mesmo tempo que - reféns das verbas de publicidade - anunciam unidades em condomínios clubes-fortalezas, empréstimos,  seguros pra tudo (os riscos são enormes); carros novos condicionados ao pagamento de "suaves" prestações.

O sistema cria guerras e vende as armas (pros dois lados); sucateia o transporte público e vende carros e motos, "soluções" individualistas que engrossam os engarrafamentos, onde os potentes veículos se travam pelo excesso: encarcerados nos carros parados e por isso mais vulneráveis, cidadãos de bem temem ladrões violentos e armados enquanto alimentam, acordados, o sonho da arma própria e legalizada, pra poder "empreender" em sua própria segurança pessoal e patrimonial. Mais consumo e privatização (até do conflito armado), mais lucros.

Pode ser que o mesmo conglomerado empresarial venda armas pro ladrão e pro bom cidadão, além de seguros, blindagem, alarmes, filmes de ação com heróis armados (entretenimento motivacional de guerra que banaliza a violência: cortas as cenas de sexo, mas mostra com detalhes pessoas morrendo metralhadas; censura gemidos de prazer e corpos nus, mas não o som dos disparos e os cadáveres estraçalhados), e pode ganhar uma grana até com o serviço de atendimento de urgência - SAMU (também privatizado), se sobrarem feridos, e também com os remédios de um eventual tratamento médico. 


Além dos versos fortes, os videoclipes de "They don´t care about us" também transgridem e protestam. Neles, o ícone do entretenimento canta e expõe verdades inconvenientes e como cidadão da chamada “Terra da liberdade” grita por liberdade - exige o cumprimento da promessa -, expondo o real pesadelo que na prática contrapõe ao “sonho americano”. Atrelados ao avanço das políticas neoliberais vieram a maior concentração de renda e o aumento da desigualdade.


Os cenários dos videoclipes não poderiam ser mais adequados à mensagem da letra: dirigida por ninguém menos que Spike Lee, a versão filmada no Brasil foi gravada numa favela (Santa Marta, zona sul do Rio) e no Pelourinho (Salvador, Bahia). Já na versão realizada nos EUA, Michael canta e dança dentro de um presídio, encarcerado. A prisão tem sido uma das principais respostas repressivas do Estado, cada vez mais “policial” e menos preocupado com o “bem-estar social”.[1]

E quando a resposta não é criminalização e prisão, pode ser fatal: o Estado mata, como aconteceu com as crianças vitimadas este ano (e nos anteriores também) e com o homem desarmado e acompanhado da família (inclusive uma criança de 7 anos) que foi fuzilado com mais de 80 tiros por soldados do exército. [2] Preciso mencionar a cor do homem executado? E a cor e classe social das crianças assassinadas? Preciso dizer? Preciso relembrar o massacre do Carandiru, em que a prisão não foi suficiente, e 111 homens encarcerados foram mortos?

Escolher o Brasil, país marcado pela desigualdade, e fazer uma parceria com o Olodum tornam a obra ainda mais fantástica. Ele veio cantar e dançar com os excluídos o arranjo é lotado de percussão brasileira, numa pegada meio Rap e Hip hop, sons da periferia. O músico estava a frente de seu tempo: numa época que ainda não se falava muito sobre lugar de fala e representatividade, ele deu seu recado da melhor forma possível. Não bastou fazer uma música de protesto, ele veio aqui, contou com o talento do Olodum, mostrou a favela, a periferia dentro de um periférico país da América Latina, onde o “sonho americano” só passa na TV e às vezes falta tempo pra assistir.



A letra anuncia o caos, a loucura, e expõe os pesadelos bastante reais de muitos, pesadelos que não deixam de ser o preço, o efeito colateral, dos sonhos de alguns. E a obra incomodou: criaram polêmicas em torno da letra, há rumores de que autoridades brasileiras tentaram impedir a gravação para não expor a pobreza e as falhas do governo, além das críticas à negociação de Spike Lee com o chefe do tráfico à época. [3] Isto sem falar na restrição à exibição do clipe na prisão, que só podia ser veiculado depois das 21 horas, sob a alegação de que expunha violência. Sim, há cenas reais de violência, porém não mais que qualquer telejornal ou filme de ação. Ao que parece muita gente queria ver Michael cantar e dançar, mas com temas leves e frívolos, não com um protesto claro, direto e cheio de verdades geralmente negadas, caladas, reprimidas, jogadas pra margem. O incômodo e reações me parecem exagerados: a solução indicada na canção não é uma revolução sangrenta: ao citar Roosevelt e M. Luther King, o compositor enaltece o capitalismo superficialmente brando do Estado de bem-estar social e as vias pacíficas para chegar (voltar) a ele. 



A música e os videoclipes têm muitos aspectos que merecem destaque - como a cena de abertura do clipe da prisão, a mulher brasileira dizendo “Michael, eles não ligam pra gente” logo no início, o barulho de disparo de arma de fogo no meio da música, as mulheres que pra abraçar o astro furam o cordão de isolamento da polícia, as imagens que destacam a bateria do Olodum e seus componentes -, mas quero concluir chamando a atenção pros gritos do cantor. Michael costumava soltar uns gritos em suas músicas, o que se tornou uma de suas marcas. No entanto, em “They don´t care about us”, seus berros são bem diferentes dos demais: são mais ásperos, graves, caóticos, parecem expressar raiva e desespero; e a música se encerra numa espécie de urro de dor. A situação vem se agravando e os sentimentos predominantes ainda são os mesmos mais de duas décadas depois. “Eles não ligam pra gente”.

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sábado, 5 de outubro de 2019

Aquarius: a cidade-mulher e o câncer imobiliário (relação com a trilogia)





Aquarius (2016), do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a construtora que pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa. Trata-se do segundo longa da trilogia que se iniciou em 2013 com O som ao redor e terminou em 2019 com Bacurau, havendo forte ligação entre os filmes, como será demonstrado adiante. 

Clara é uma representação humana da cidade, com suas histórias, estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades sem negar seu passado e suas cicatrizes. 

No entanto, há uma cisão evidente entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente, a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos, como ninhos de cupim. 

"Aquarius" - prédio que integra o corpo de Recife – é atacado pela construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos prédios são importantes e necessários, mas a atuação das empresas não deve ser desordenada como um câncer; caso contrário, a história, as memórias e a própria identidade local estarão em risco. 

Muitos parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada vez mais afastadas. A música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa, tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das grandes empresas.

Também é interessante mencionar a relação de Aquarius (2016) com os outros dois  longas que fazem parte da trilogia do cineasta Kleber Mendonça Filho: O som ao redor (2013) e Bacurau (2019). Na minha leitura do conjunto da obra, penso que o primeiro filme lançado trata do passado (resgate de uma violência sofrida anteriormente); o segundo (tema deste texto), aborda o presente (resistência individualizada/atomizada a uma agressão atual – ataque e contra-ataque simultâneos); e o terceiro - lançado neste ano -, vai ao futuro (resistência organizada coletivamente para lutar contra uma violência que ainda virá). 

Comparando Clara com os protagonistas dos outros dois filmes, percebe-se o isolamento da heroína de Aquarius: ela age de forma atomizada - não em grupo, como em O som ao redor, nem em comunidade (Bacurau) - e, a meu ver, isto ocorre justamente porque ela representa uma integrante da classe média, talvez até alguém que tenha "ascendido" de uma origem pobre, como sugere um diálogo racista no filme.

Neste contexto, Clara parece mostrar a solidão daqueles que, excepcionalmente, conseguiram algum espaço numa classe intermediária entre os mais pobres e as elites, sendo capazes de lutar - de forma isolada - apenas por seu restrito espaço individual (apartamento/prédio/suas memórias afetivas/história pessoal e familiar), sem enxergar e sequer arranhar o sistema, até porque a jornalista aposentada não deixa de ser uma “vencedora” - singular e rara - dentro da estrutura e de acordo com "discurso de meritocracia” (falacioso num país onde a desigualdade é histórica e imensa, com extrema desvantagem para a classe marginalizada). 

A classe média brasileira - mesmo a parcela mais progressista - parece não ter muita consciência de classe nem, muito menos, organização, tampouco identificação com os mais pobres; pelo contrário, tudo indica que se ilude com quaisquer “proximidades” com as elites, de modo a superestimar eventuais semelhanças com os mais ricos (acesso a viagens, modelos de carros, locais etc. dos mais ricos) e subestimar - ou até negar - possíveis afinidades com os menos favorecidos.

De qualquer forma, fica evidenciado nos três longas uma certa equivalência entre as pessoas mais pobres e as de classe média: ambas são (foram ou serão) atacadas pelas elites, donas do(s) poder(es) político e/ou econômico. Porém, de acordo com as três narrativas cinematográficas, é a organização coletiva (comunitária, criativa, a ser construída) que se destaca como melhor solução, frisando-se que esta se baseia na ação, e não nas meras reações que se veem nos dois primeiros filmes.

Por fim, voltando a “Aquarius”, certo é que, quando ações desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado, as consequências atingem não só o morador do local, mas a todos, pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
 
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PS. Outra leitura de Aquarius, relacionando-o ao golpe sofrido por Dilma/PT no link: https://ecosprosaicos.blogspot.com/2016/09/aquarius-poder-economico-e-impeachment.html

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Bacurau: uma cidade a um “17” de distância do “sul maravilha” (sem spoilers)



(Sem spoilers) Criado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme Bacurau é sobre um “novo” oeste, ou melhor, um oeste de um futuro próximo, com muitas referências ao faroeste - western ou “nordestern” -, sem deixar de enveredar por outros gêneros, como suspense, ação, gore etc. “Definir é limitar” e o longa está além destas classificações mais comuns. 

Na tela, a protagonista é a cidade de Bacurau, onde observamos quem ali vive, convive e resiste. O lugarejo do longa não existe, mas a cidade de Barra/RN, sim, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Por isso, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais, apresentando personagens de todas as cores e orientações sexuais.

O filme consegue colocar Bacurau como personagem, coletivamente, o que o distingue das grandes produções enlatadas, que costumam dar destaque a heróis considerados individualmente. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama não apresenta um herói (indivíduo). Pelo contrário, o tempo todo se evidencia a ação coletiva, deixando claro que a união do povoado é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.

Logo no início do filme, vemos a estrada que leva ao povoado e há um “close” numa placa, onde se lê: “BACURAU, 17 KM, SE FOR, VÁ NA PAZ”. Surge a dúvida: Bacurau está à distância daqueles habitantes do “sul maravilha”[1] que apertaram nas urnas o número 17, do partido do atual presidente do Brasil? Ou foi só uma distância qualquer, sem outras intenções? 

O fato é que até no trailer a placa aparece em destaque e mostra um número que marcou a polarização política e regional nas eleições de 2018, não custando lembrar que o Nordeste foi a região que onde o presidente de extrema direita teve menos votos.[2] 

E a mensagem da placa tem muito a ver com o enredo do filme, que mostra a cisão entre as regiões do Brasil e os preconceitos daí decorrentes, assim como a relação dos brasileiros com estrangeiros. Tudo isso numa espécie de jogo (game) bastante simbólico. 

Filme espetacular. Recomendo demais.

PS. Para quem já assistiu, deixo aqui o link para minha análise mais completa sobre o filme: http://ecosprosaicos.blogspot.com/2019/10/lunga-vive-novo-oeste-na-caatinga-uma.html

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Notas e referências:

[1] “Sul maravilha” é uma expressão usada por Henfil em sua obra. Segundo Seixas (1996), “’sul-maravilha’ é apenas mencionado pelos personagens, sem ter existência real nas histórias: assim como o Brasil divulgado pela grande imprensa era apenas uma fantasia, para o homem do interior brasileiro as cidades grandes de Rio e São Paulo configuravam-se como um sonho distante e inalcançável ou então como uma realidade sufocante e esmagadora”. 


Trailer de Bacurau: https://youtu.be/1DPdE1MBcQc

Ficha técnica do filme:
Nome Original: Bacurau
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil e França
Ano de produção: 2014
Gênero: ação / suspense / western
Duração: 132 min.
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Lunga vive! Novo oeste na caatinga: uma leitura do filme Bacurau (contém spoilers)



[Contém spoilers, revelações da trama, inclusive do final] Criado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme Bacurau é sobre um “novo” oeste, ou melhor, um oeste de um futuro próximo, "daqui a alguns anos" na frase que surge na tela, com muitas referências ao faroeste - western ou ainda “nordestern” -, sem deixar de enveredar por outros gêneros, como suspense e ação, que cito apenas a título de exemplo, porque a obra se expande e surpreende, ultrapassando limites e definições.

A narrativa cinematográfica ocorre e se fundamenta num oeste da caatinga, pernambucano, no sertão do Nordeste brasileiro, com tudo que isso implica: falta d`água (má distribuição de recursos em geral), força, cangaceiros, tecnologia, união, armas, politicagem, tiroteios, comunidade, política, pobreza, coragem, desigualdade e violência.

No início, mostra-se o caminhão-pipa seguindo por uma estrada e o velório de Carmelita (interpretada por Lia de Itamaracá), uma senhora negra importante no povoado de Bacurau, que é o grande protagonista da narrativa do filme. A região sofre com a falta d`água e durante toda a história as câmeras acompanham o ir e vir do caminhão-pipa que abastece a cidade. Esse ir e vir também representa a história de muitas das pessoas nascidas no povoado, que vão para outras cidades, estados e países (para estudar, se formar, arrumar empregos etc.), e depois retornam a Bacurau, pelos mais variados motivos.

E, em destaque, no caminho que leva ao povoado, vemos a placa envelhecida à beira da estrada, onde se lê: “Bacurau, 17 km, Se for, vá na paz”. A pergunta que fica é: estará Bacurau à distância daqueles que apertaram nas urnas o número “17”, o mesmo do partido do atual presidente do Brasil? Ou 17 km foi apenas uma distância qualquer exposta na placa? Não há como saber. Mas é interessante ressaltar que a placa aparece na tela e muitos dos telespectadores do filme estão nas regiões mais ao sul do Brasil e votaram “17”, de algum modo se afastando do Nordeste, que foi a região que menos deu votos ao candidato da extrema direita. São apenas suposições minhas na tentativa de interpretar a obra.

O filme é dividido em três atos bem marcados na história contada na tela.

As primeiras cenas mostram um caminhão-pipa, dirigido por Erivaldo (Rubens Santos), indo para Bacurau; um senhor que coloca uma semente - um psicotrópico que é dado como uma hóstia - na boca de Teresa (Bárbara Colen), neta da falecida que acabou de chegar (voltar) a sua cidade natal; o velório e o cortejo fúnebre da matriarca Carmelita, entre outras cenas que descrevem o cotidiano do povo de Bacurau. Percebemos, rapidamente, que a comunidade é bastante unida e toma decisões coletivamente, na praça, e vive bem desta maneira democrática, autônoma (em tudo que consegue) e auto-organizada, apesar das dificuldades.

Ou seja, o primeiro ato apresenta o(s) protagonista(s): a cidade e as pessoas que ali vivem, convivem e resistem. Personagens de todas as cores e orientações sexuais, é importante dizer, destacando que a produção contou com a participação de pessoas de povoados locais do sertão do Nordeste. Bacurau é fictícia, mas a cidade de Barra/RN[1] existe, no mapa e na realidade, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Deste modo, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais.


O segundo ato - cujo início se dá com a chegada de cavalos desgovernados a Bacurau - expõe o começo do conflito: para surpresa de seus habitantes, o povoado some do mapa, e chegam ali forasteiros das regiões Sudeste e Sul, com roupas coloridas e pilotando motos de trilha com a intenção de preparar o terreno para o “jogo” de sangue e morte que será disputado na cidade.
  
Não vou descrever tudo, é claro, mas chamo a atenção para o diálogo sobre o nome “Bacurau”, no qual uma de suas habitantes explica que o nome refere-se a um pássaro, e não a um passarinho, que é menor, respondendo à carioca invasora. E, no mesmo botequim, ouvindo a pergunta da turista sobre quem nasce em naquele lugar (´"Bacurauense?"), uma criança arremata, "É gente!". Também merecem realce os insistentes convites dos habitantes dali para os forasteiros conhecerem o museu, o que os “sudestinos” rejeitam, mas que poderia ajudá-los a perceber o que os esperava adiante.

Não dá pra deixar de mencionar o violeiro do lugarejo, que canta um repente para os forasteiros e os provoca, zomba mesmo - até chama São Paulo de paiol num verso -, e recusa a oferta de dinheiro, que representa perfeitamente o que muitos habitantes do Sudeste e do Sul entendem como forma de lidar com o Nordeste e seu povo. A mensagem é clara: o violeiro não quer grana, mas, sim, rir da cara desse povo arrogante e ridículo do “sul maravilha” (v. Henfil)[2].

É no segundo ato que a violência explode. Cenas de assassinatos, muitas armas, pessoas mortas, tiros no caminhão-pipa que vaza água pelos furos de bala. E se descobre que há um grupo de turistas assassinos que foi a Bacurau para caçar habitantes daquele povoado. Sim, caçadores de pessoas, seres humanos; barbárie pura e intensa, praticada por homens e mulheres brancos, de países supostamente civilizados, como Alemanha e EUA. A História é pródiga em registros de atos bárbaros cometidos por instituições e pessoas de países “civilizados”.

O grupo de estrangeiros pretende usar armas antigas (“vintage”) para promover a chacina dos habitantes de Bacurau e conta com a ajuda dos “sudestinos” motoqueiros, que acabam sendo executados pelos turistas caçadores, porque não são tão brancos e diferentes dos nordestinos, como imaginavam. Vale muito a pena o diálogo em que os sudestinos colaboracionistas são confrontados com a realidade de que, para os estrangeiros, são brasileiros, miscigenados, latinos, e foram apenas usados no jogo.

A “aventura” dos turistas estrangeiros é um jogo (“game”) de sangue e morte. Um “drone” interativo - em formato de disco voador, numa referência intencionalmente cômica - filma o povoado, os assassinatos, além de orientar os turistas participantes, que seguem regras e se submetem um sistema de pontuação para cada execução, na caça de pessoas.

Se do lado dos turistas “caçadores” há organização, planejamento, tecnologia e muitas armas; do lado da resistência de Bacurau, aparece Lunga (vivido por Silverio Pereira), uma espécie de cangaceira(o) pós-gênero futurista, uma guerreira “queer” ou “drag queen”, que é um(a) criminoso(a) procurado(a) pela polícia.

E por falar em polícia, é icônica a cena que mostra uma viatura policial enferrujada e crivada de balas, abandonada no mato com outras sucatas de carros. As personagens deixam claro que não há qualquer autoridade policial institucionalizada em Bacurau. É a própria comunidade que se organiza e se protege, diante do descaso do poder público.

Quando Lunga chega (volta, como muitas das personagens) a Bacurau - com cabelos longos e roupa estilosa - uma senhora pergunta algo mais ou menos assim: “mas que roupa é essa, menino?”. É um dos trechos engraçados do filme, que também tem outras cenas e tiradas bem-humoradas, aliviando um pouco a tensão e o suspense da trama. O filme apresenta muitas frases de efeito e encanta também pelos diálogos.

Apesar da importância de Lunga, a trama não indica uma heroína considerada individualmente. Na verdade, várias personagens se destacam e Bacurau é a principal delas, no aspecto coletivo, o que distingue a produção de outras, enlatadas, que costumam dar destaque a heróis individualmente representados. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama de Bacurau evidencia a ação do povoado como um todo, deixando claro que a união é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.  

Durante o filme as personagens fazem uso de uma sementinha, que é um psicotrópico, como já citado acima. Perguntado sobre o que tem a tal “droga”, o diretor Kleber Mendonça Filho disse que a semente contém “coragem, tesão e compaixão, coisas que não faltam a milhões de brasileiros.”[3]

Merece destaque a personagem de Tony Junior (representado por Thardelly Lima), prefeito politiqueiro, almofadinha, entreguista e, claro, detestado na comunidade de Bacurau. Tony trata livros como lixo, despejando-os de um caminhão no chão de terra batida, e envia ao povoado remédios psiquiátricos que deixam as pessoas “lesas”, como revelado à população local pela médica Domingas (Sônia Braga).

O filme ataca a politicagem e o entreguismo, mas não a política, uma vez que a comunidade é bastante politizada e seus cidadãos tomam decisões coletivamente, em reuniões na praça, com ampla participação popular, a indicar uma espécie de anarquismo bem-sucedido no sertão brasileiro, já que ali as instituições do Estado parecem não chegar para resolver os problemas, mas apenas para pedir (ou tentar comprar) votos e explorar, como se vê na cena que Tony arrasta para seu carro uma mulher, que é garota de programa, contra a vontade dela e de outras mulheres que se manifestam em defesa da pessoa reduzida a objeto pelo politiqueiro.

As mulheres do filme são fortes, guerreiras, assumem todo tipo de protagonismo, na resistência armada, no sexo, na força de existir e se impor. As grandes personagens da narrativa, além de Bacurau, são mulheres ou pessoas além do enquadramento binário de gênero, como a personagem Lunga, a cangaceira drag, reiterando que o heroísmo cabe ao coletivo.

Aí vem o terceiro ato, no qual o conflito final vem à tona. Bacurau já estava fora do mapa, sem acesso a internet e, após, sem energia elétrica, que é cortada. Uma criança é assassinada friamente. Um menino que portava apenas uma lanterna é executado e o turista assassino justifica-se afirmando que a criança parecia um adolescente armado. Qualquer semelhança com as crianças e adolescentes - em sua maioria afrodescentes e pobres - que estão sendo assassinados pela polícia nas favelas não pode ser coincidência. A vítima mais recente foi Ághata Felix, de 8 anos, assassinada no Complexo do Alemão, na Cidade do Rio de Janeiro/RJ [4].

É incrível a cena em que Domingas - depois de tentar salvar a vida de uma das turistas caçadoras, resgatada pelas pessoas que havia tentado matar - recebe o líder dos turistas assassinos com suco de caju, um prato típico local e ao som da canção “True”, da banda Spandau Ballet, cuja melodia leve, lenta e harmoniosa se choca com a tensão do encontro do assassino com a médica da comunidade, o encontro daquele que mata por prazer com aquela que salva vidas, e ela indaga, singela e profundamente, "Por que vocês estão estão fazendo isso?". Para mim, esta cena representa a forma cordial e amigável com a qual os brasileiros costumam receber os estrangeiros, inclusive os bárbaros que vêm aqui explorar e massacrar.

O mais curioso é que a letra de “True”, quando traduzida para o português, tem a muito ver com a narrativa cinematográfica. Os versos da música, “I bought a ticket to the world/But now I've come back again (…) With a thrill in my head and a pill on my tongue/Dissolve the nerves that have just begun”, numa tradução livre, significam: “Eu comprei uma passagem para o mundo/Mas agora estou de volta (…) Com uma emoção na minha cabeça e uma pílula em minha língua/Dissolvo o nervosismo que acabou de começar”. Ir pro mundo e voltar bem como colocar uma pílula (semente) na língua tem tudo a ver com a história narrada. Será que os diretores pensaram até nisso? Aparentemente, sim, pois não acredito em tanta coincidência.

Em seguida, o avanço dos assassinos e a resistência do povo de Bacurau, que se organiza e luta a partir de dois locais principais: a escola e o museu. Nada mais simbólico e belo. Os habitantes do povoado - juntos com Lunga, seu bando e Pacote - matam, em legítima defesa, os turristas sanguinários. E os estrangeiros são decapitados, da mesma forma que fizeram com Lampião, Maria Bonita e outros de seu bando, numa referência ao cangaço e todo o seu peso histórico, político e social naquela região específica e no Brasil.

No final, percebe-se que a resistência usou algumas armas ainda mais “vintage” que os “jogadores” estrangeiros, e que a violência se voltou contra os turistas assassinos. As marcas de sangue deste conflito são preservadas nas paredes do museu, que incorpora esta nova violência, que representa a tentativa de invasão, assim como a luta e a resistência do povoado. Tudo coletivamente, jamais individualmente.

Com a exceção de Michael (líder forasteiro interpretado por Udo Kier), que tem a vida poupada, os demais jogadores sanguinários são mortos. Tony Junior, então, aparece com uma van para buscar os “turistas” mas, apesar de o politiqueiro tentar se desvincular dos estrangeiros, o líder dos assassinos o reconhece e chama por ele, gritando "Tony" que, como tudo indica, havia oferecido (entregado) Bacurau para o jogo de sangue e morte.

Ambos - o líder dos assassinos e Tony Junior - têm suas penas definidas e executadas nas ruas de Bacurau, com participação popular. Interessa mais comentar a punição do líder do jogo de morte: simbolicamente, ele é enjaulado vivo numa cela subterrânea, de onde ameaça ressurgir, como o fascismo que, ao longo da história foi derrotado algumas vezes, mas ainda insiste em retornar.

A ideia original para o título deste texto era “Lunga Livre”, mas pareceria um “spoiler” - que poderia sugerir uma suposta prisão de Lunga - e, por isso, o evitei. No entanto, aqui no final, além de recomendar a todos que vejam (e revejam) o filme e o interpretem como quiserem, fecho com duas frases: Lunga Vive! Lunga Livre!

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Referências e notas:

[1] Reportagem do programa Fantástico sobre a cidade de Barra/RN: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/08/25/conheca-a-cidade-que-serviu-de-cenario-para-bacurau.ghtml

[3] Explicação do diretor sobre a semente de Bacurau aos 3:55min. no vídeo: https://youtu.be/R-DX9hdBcus

Entrevistas com Silvero Pereira (a Lunga de Bacurau):

Outros textos e vídeos sobre Bacurau e o coletivo que o fez nascer:

https://youtu.be/JW9vcFmK9Fw




Ficha técnica do filme:

Nome Original: Bacurau
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil e França
Ano de produção: 2014
Gênero: ação / suspense / western
Duração: 132 min
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Segurança e igualdade

Segurança pública: urgente!
Não é justo que só alguns
tenham vigilância permanente.

Por uma questão de igualdade:
precisamos espalhar UPPs* 
por toda cidade: 
nos shoppings, condomínios,
bairros do asfalto,
caveirões circulando,
prontos pro assalto.

As classes média e rica -
tão sacrificadas(?) por impostos -
também merecem bem perto
a mesma polícia a postos.

Que nas ricas coberturas também
pouse o grande pássaro de metal,
ostentando sua fúria letal.

Que a polícia apure todos
os crimes e irregularidades:
dos deuses dos tribunais
aos patrões vis e covardes.

É urgente vestir de farda o cristo
e torná-lo monumento panóptico,
além de turístico,
com câmeras - mil olhos -
a nos vigiar e a revelar
todo medo místico.

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* Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) era um projeto da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro que pretendia instituir polícias comunitárias em favelas. Acerca do tema, indico o livro da Marielle Franco: "UPP: A redução da favela a três letras", de 2018. (https://www.travessa.com.br/upp-a-reducao-da-favela-a-tres-letras-uma-analise-da-politica-de-seguranca-publica-do-estado-do-rio-de-janeiro/artigo/f33e3b79-22aa-436b-a870-89016d0e6edb)



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Legaliza! Chega de violência

"Não se tem notícia que a Argentina tenha se tornado um país de drogados por conta da liberação do uso de entorpecentes
Rafael Muneratti, defensor público do Estado de São Paulo
O direito ao prazer ainda está garantido na Constituição
Luciana Boiteux, representante da Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos
Deixar de incriminar não afetará o consumo. Em países em que houve a descriminalização não houve aumento do consumo
Cristiano Avila Maronna, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais
A criminalização ou o castigo ao usuário de drogas afeta o acesso à saúde, afeta o tratamento. O usuário, na maior parte das vezes, é uma vítima do seu vício
Pierpaolo Cruz Bottini, advogado e representante da ONG viva Rio
A lei antidrogas brasileira funciona como instrumento de criminalização da pobreza
Rafael Custódio, da Conectas" (el pais)
Gente, vamos pensar no assunto. A guerra contra as drogas nunca funcionou, só aumenta a venda de armas e a violência. 

Links sobre o tema:

http://www.diplomatique.org.br/editorial.php?edicao=2

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2012/10/composto-da-maconha-alivia-fobia-social-e-ansiedade-diz-estudo-da-usp.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/19/politica/1440017854_649230.html

https://youtu.be/G-BFxtdQQE8

https://youtu.be/ZyFkUqkFM2A

domingo, 27 de setembro de 2015

PM apreende Cosme e Damião a caminho da zona sul e causa revolta

Rio. 27/09/2015. 10:17h.

Em operação realizada essa manhã, a polícia militar apreendeu dois irmãos, conhecidos como Cosme e Damião. Eles estavam num ônibus, que no momento da apreensão fazia o trajeto da zona norte à zona sul do Rio. Segundo a assessoria de imprensa da PM, os irmãos não foram apreendidos, mas apenas acolhidos, porque estavam em situação de vulnerabilidade. “Estavam só de bermudas e chinelos, sem documentação, indo sozinhos pra praia de Ipanema.”, informou um dos policiais que participava da operação. Ouvidos pela equipe de reportagem, os irmãos afirmaram ter marcado com amigos na praia e que também tinha intenção de pegar doces, como sempre fazem nesse dia. Os rapazes, surpresos, também indagaram por que os meninos brancos da zona sul não são revistados nos ônibus (nem em lugar nenhum) e por que a polícia não apreende as crianças trabalhando nos sinais e calçadas por toda a cidade. Por essas declarações, consideradas como desacato, foram algemados. O calor já estava insuportável às 9h da manhã, mas mesmo assim eles foram trancados numa viatura exposta ao sol.


A operação tinha tudo para ser tranquila, mas religiosos fundamentalistas e moradores jovens e musculosos da zona sul resolveram punir logo de uma vez Cosme e Damião. Líderes exaltados quiseram tirar os rapazes da viatura e houve tumulto. A confusão se agravou quando os grupos se desentenderam sobre o que fazer com os irmãos apreendidos. Os religiosos queriam aplicar a lei do velho testamento e apedrejar os rapazes, ante a declaração de que iriam pegar doces, atividade demoníaca, segundo explicação de um dos líderes. Já os jovens da zona sul queriam o linchamento, talvez com morte ao final. A polícia interveio e explicou que seria muito complicado o homicídio de Cosme e Damião logo hoje, porque esse ano, perto da páscoa, a PM já havia matado o menino Jesus no Alemão. A temperatura aumentou ainda mais, beirando os 50 graus. Mesmo depois de depredarem a viatura e ferirem dois policias, os rapazes da zona sul foram liberados, sem registro de ocorrência; as autoridades afirmaram que eles não representam risco: muito piores são os que vêm da zona norte para Ipanema, embora não tenham feito nada ainda (é só questão de tempo). Líderes dos religiosos fundamentalistas afirmaram que o fim está próximo e que o eclipse lunar de hoje à noite confirma o apocalipse. “Nós só queríamos salvar esses ímpios do calor do inferno, mas a lei dos homens nos impediu e agora eles estão ali, na viatura, fritando no calor da terra. Deus sabe o que faz!” - afirmou um dos presentes. Os delinquentes serão encaminhados para o centro de acolhimento “Cidade Maravilhosa”, onde permanecerão até o comparecimento de algum familiar para libertá-los. A previsão é de mais calor para esta tarde.

sábado, 31 de maio de 2014

Robocop: uma metáfora sobre a exploração do trabalho

Quando certa manhã Alex Murphy acordou de seu sonho tranquilo - no qual dançava com sua mulher ao som de fly me to the moon na voz de Sinatra -, encontrou-se numa sala grande e clara metamorfoseado num robô. Estava de pé, acoplado a uma máquina e só recuperou seus movimentos aos poucos, obedecendo às ordens do senhor de jaleco branco, que o olhava de perto. Vestia uma armadura que emitia sons a cada movimento. Nervoso, perguntou o que estava acontecendo e pediu que o tirassem daquela carapaça metálica. Não pode ser atendido: aquilo era o seu corpo.

Não era um pesadelo. Depois de ser gravemente ferido por uma bomba, o policial Alex Murphy estava num laboratório, transformado em Robocop, um híbrido de homem e robô, cujo nome já suprime qualquer referência à sua humanidade. Dentre mutilados e doentes afastados da polícia - inválidos sob a ótica do mercado de trabalho -, Alex foi escolhido para se tornar produto (made in china) de uma empresa especializada em fabricar e vender robôs policiais pelo mundo afora, exceto nos EUA, onde uma lei os proibia.

Sob o discurso do medo reforçado por um jornal da TV, a ideia de fabricar o híbrido surgiu para burlar essa lei e transformar o poder público dos EUA em cliente. Essa é a história de Robocop, dirigido por José Padilha (o mesmo de Tropa de Elite), que é uma versão do filme homônimo lançado em 1987.

Robocop aborda muitos temas interessantes, mas vou procurar me ater à questão da exploração do trabalho. Talvez possa parecer estranho falar sobre isso analisando um filme que trata da utilização de robôs na segurança pública. Se o risco é a substituição de homens por máquinas, por que exploração humana?

Bom, o filme pode ser visto como a história do policial transformado numa máquina, com armadura metálica, visão computadorizada, acesso ao arquivo de dados e controle à distância. Mas pode ser interpretado também como uma metáfora do homem pós-moderno; ou melhor, de todos nós, que não temos membros robóticos (embora o celular pareça uma parte do corpo), mas que, ao cumprirmos as exigências profissionais, agimos como máquinas.

Aos que não perceberam, o primeiro parágrafo é uma paródia do início de Metamorfose, de F. Kafka. Em vez de metamorfoseado em inseto, o herói acorda como robô policial. E no lugar da rejeição que sofreu Gregor Samsa (o homem inseto kafkaniano), Robocop é aclamado por todos.

Na minha visão, a principal distinção entre Gregor e Alex é que um deixou de ser útil sob o aspecto profissional, enquanto o outro tornou-se o mais eficiente dos policiais, um exemplo de produtividade. Como um sonho dos chefes, passou de inválido ao melhor da categoria. Para alcançar esse nível de eficiência, Alex foi destituído das emoções, das lembranças, da fragilidade, da autonomia bem como da convivência social e familiar, ou seja, de tudo que o fazia humano.

Há quem leia metamorfose e entenda que Gregor não se transformou num inseto: ele teria passado a se ver e ser visto assim a partir do momento em que deixou de trabalhar, já que na sua família todos dependiam do seu dinheiro, fruto do exercício exaustivo da função de caxeiro-viajante, detestada pelo protagonista.

É interessante ressaltar que Gregor - mesmo metamorfoseado num inseto - continua capaz de se emocionar, apresentando-se bem mais sensível que as demais personagens que o cercam. Essa sensibilidade é nítida durante a narrativa e há um ponto peculiar que merece destaque: sua reação à música. Num trecho do capítulo 3, sua irmã toca violino na sala e os inquilinos mostram-se enfadados; Gregor, no entanto, comove-se com a música e tenta se aproximar da irmã para incentivá-la.

Já em Robocop, as emoções atrapalham o bom funcionamento da máquina, o que leva o cientista a controlar as substâncias no “corpo” de Alex para eliminá-las, a ponto de ele deixar de sentir afeto pela própria família. Tal estratégia, a meu ver, não difere muito do consumo de medicamentos psiquiátricos para adequação ao papel profissional. Remédios para ansiedade, para tristeza, para dormir na hora “certa” e para acordar “feliz” e produtivo, é claro, já que o mau humor prejudica o bom exercício das funções.

E também há uma cena (aos 18 minutos do filme) em que é demonstrada a reação das máquinas à música: um violonista vai tocar pela primeira vez com suas mãos robóticas; sua mulher o acompanha, ansiosa; ele toca por algum tempo e, ao se emocionar, o sistema falha; o cientista lhe explica que emoções intensas congelam o programa.

Robocop, portanto, é o herói aclamado, ou melhor, o funcionário (produto) perfeito: não se emociona; não prioriza a família (na verdade, chega a esquecê-la); não padece das fragilidades humanas; é controlado todo o tempo e ainda pode ser desligado, se demonstrar rebeldia ou prosseguir com investigações que não interessam aos poderosos - que no filme não são os políticos mas os empresários.

O comportamento do Robocop está muito diferente do que exige o discurso sobre profissionalismo? Impessoalidade, foco, metas, produtividade, jornadas enormes, acesso total e ininterrupto por meio de celular, vestir a camisa - ou a armadura que jamais pode ser retirada? Robocop é policial o tempo todo, é o “ser” reduzido à sua parcela profissional - é um superpolicial castrado. Freud explica.

E não para por aqui. Submetido a testes nos quais é comparado com robôs puros, Robocop mostra-se lento, hesita um pouco antes de atirar (certamente, por mais tempo que o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, que parece mais robótico que Alex Murphy). O atraso do Robocop é um grave problema; ele tem consciência, decide, pensa e isso o torna ineficiente. Daí, o cientista faz uma intervenção cirúrgica para consertá-lo.

Mais ou menos aos 50 minutos do filme, depois do reparo e durante um novo teste, o cientista explica que fez uma pequena alteração, de modo que Alex nada decide a partir do momento em que começa a batalha e seu visor desce: “nos combates ele é só um passageiro de carona; pensa que está no controle, mas não está, é uma ilusão de livre-arbítrio.” Uma cientista, que observa o desempenho espetacular do Robocop ao destruir dezenas de robôs, conclui que se trata de uma máquina que pensa ser um homem.

Ilusão de livre-arbítrio. Achar que faz algo porque quer, por livre e espontânea vontade, fruto da própria e independente deliberação, quando na verdade não está no controle. Muitas pessoas vestem a armadura, a máscara profissional, e agem de acordo com o que exigem delas, mesmo que isso signifique a negação de seus valores.

Ao contrário do "pede pra sair" do capitão Nascimento em Tropa de Elite - que incentivava alguns recrutas a desistirem da carreira no BOPE -, em Robocop não há opções: Alex acorda preso à armadura, à profissão, sem escolha. 


Funções exaustivas, exercidas com alienação, destituídas dos valores ligados à identidade, objeto de exploração, mas dissimuladas pelo discurso da liberdade, que tenta encobrir a pura submissão às regras do mercado.

Não se trata de rejeitar o trabalho; de forma alguma. A ideia de empregar a energia humana para criar é ótima; mas não é isso que acontece em regra. A força é explorada e desvalorizada; o ser humano é reificado e a desigualdade cresce.

Vivemos sob o impacto do discurso do medo, cuja causa principal - segundo os jornais e o senso comum - é a violência dos criminosos, para a qual a solução seria o fortalecimento da polícia. No entanto, o Robocop de José Padilha deixa claro algo que poucos parecem enxergar: a pior violência não é a dos bandidos, mas a do império dos poderes econômicos, que, na verdade, é validada pelas leis.

A lei permite que uma jornada de 40 horas semanais seja remunerada com um salário mínimo, mas não impede que empresas lucrativas reduzam seus quadros. Com a globalização, as empresas transitam entre os países e compram de cada um o que encontram mais barato. Há muitas restrições legais para os imigrantes, mas não para os negócios. As funções do Estado vêm sendo reduzidas, ao mesmo tempo em que cresce o número de trabalhadores sem vínculo formal, ou seja, sem proteção legal perante a exploração.

Todavia, os jornais falam o tempo todo das agressões dos criminosos - nada dizem sobre a violência da exploração do trabalho, do medo de perder o emprego, de se tornar uma peça obsoleta, inútil para a produção, e passível de descarte. Isso não é violência? Não é uma boa causa para sentir medo? A polícia pode resolver esse tipo de situação?

A exploração da força de trabalho dilacera as pessoas e as modifica para encaixá-las às exigências do mercado; e se não há como torná-las úteis sob a ótica da produtividade, elas ficam de fora, largadas à própria sorte, já que o Estado deve ser mínimo.

Porém, ao contrário de Alex - que pediu pra sair da armadura -, muitos estão presos em suas carapaças, com o visor abaixado, trabalhando. Eles confundem poder de consumo com liberdade, morrem de medo dos criminosos e aplaudem o sucesso dos empresários famosos. Veem o capitão Nascimento como herói e acham a armadura do Robocop o máximo.