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domingo, 15 de setembro de 2019

Sintonia: periferia nas telas e caixas de som (Netflix, 2019)

[Texto sem spoilers] A Netflix acertou ao fazer parceria com KondZilla, fundador do Canal de música que leva o seu nome e é o maior do Brasil no YouTube (link: https://m.youtube.com/user/CanalKondZilla).

Do Guarujá/SP e com 31 anos, Konrad Dantas é criador da série Sintonia, também atuando na direção da produção lançada recentemente, que é muito bem-feita, com um roteiro de primeira qualidade, atuações ótimas, fotografia original e uma trilha sonora incrível.

Meu objetivo aqui não é falar sobre a trama, o que eu talvez faça em outro texto com revelações (spoilers). O fato é que eu vi, gostei muito, estou revendo e recomendo demais. O que desejo nesta análise é destacar os muitos pontos altos da série Sintonia e também fazer críticas a aspectos da produção que me chamaram atenção.

O tema principal da série é a amizade - e isso é o que a trama tem de universal -, mas o que brilha nas cenas e até emociona são as  particularidades da vida numa das periferias brasileiras, a maior do país: a periferia de São Paulo. As gravações rolaram na Favela do Jaguaré, zona oeste da capital, mas na ficção a favela se chama Vila Áurea - homenagem do KondZilla à mãe dele -, localidade marginal (no sentido sociológico) onde os três amigos - dois rapazes e uma jovem mulher - vivem e compartilham seus dramas e destinos.

E as chaves da originalidade e vanguardismo da produção são justamente a coragem e a fidelidade ao retratar a vida na marginalidade, especialmente a de SP. E isso é muito interessante, porque geralmente os holofotes estão virados para as favelas cariocas e não pra periferia paulistana. As favelas do Rio merecem atenção, é claro, mas esse foco nos cariocas é desproporcional, já que, além de KondZilla, SP é a terra dos Racionais, Sabotage, Criollo, Emicida e mais uma pá de gente talentosa, formando um cenário social, cultural e artístico muito ativo, original e rico.

Sintonia tem personagens muito bem construídos e verossímeis - interpretados por atores muito talentosos que espantam pela naturalidade nos papéis -, diálogos ágeis, cheios de gírias, ritmo e  espontâneos demais, além de uma narrativa realista, forte, muito bem contada, que cresce e encaixa os caminhos dos três protagonistas. 

Os atores da série (não só os principais) são incríveis, parecem ter nascido nas personagens. E não é à toa: o elenco é formado por desconhecidos (profissionais que não estão na TV) e, pesquisando sobre a origem dos talentos, descobri que alguns dos atores são ex-detentos, que fizeram curso de teatro na prisão. Pelo resultado do trabalho, essa foi um excelente escolha dos realizadores.

Para não dar spoilers, vou dizer apenas que a trama se sustenta nas caminhadas e batalhas do trio principal: Rita (Bruna Mascarenhas), Doni (Jottapê Carvalho) e Nando (Christian Malheiros). Os amigos, cada um com seus “corres” (lutas diárias), representam o tripé que fundamenta a história narrada: a vida no crime (em facção que explora o tráfico de drogas), a aproximação com a igreja evangélica e o desejo de realizar o sonho de viver da música, de se destacar como MC.

Sintonia conta a realidade da periferia de SP e realiza muito bem esse projeto, porque tem criadores e atores que nasceram e se desenvolveram ali, dentro da favela, e por isso sabem do que estão falando. Impossível tratar de experiências na periferia brasileira sem mencionar igrejas evangélicas, tráfico de drogas, cenário musical, trabalho informal (com personagens camelôs, vendedores ambulantes), união da comunidade, violência (incluindo a doméstica), preconceitos, corrupção policial etc.  Tudo isso é abordado na série.    

Bom, agora passo às críticas sobre o que penso que pode ser aperfeiçoado. As personagens são muito boas, mas podem ser ainda melhores se o roteiro da segunda temporada se dispuser a contar mais sobre o passado de cada um dos protagonistas. Colocar alguns flashbacks da história de Rita, Doni e Nando pode dar mais profundidade às suas personalidades e também à trama como um todo.

Na minha opinião, o maior erro de Sintonia foi em relação à representatividade, especialmente no trio principal. A questão é de gênero, racial (étnica) e também passa pelo colorismo: há apenas uma mulher e somente um dos três protagonistas é negro com pele mais escura, e é justamente esse personagem que faz parte de uma facção criminosa.

No plano geral, a série consegue fugir dos estereótipos; porém, ao colocar só um negro no trio e ainda ligado ao crime, acaba reforçando uma visão menos apurada e original da favela. Conforme explica o site GELEDÉS, “de uma maneira simplificada, o termo [colorismo] quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.”[1] 

Na população brasileira em geral, segundo o IBGE, a maioria é de brancos (47,51%), seguidos de pardos (43,42%), negros (7,52%), amarelos (1,1%) e indígenas (0,42%) [2],  sendo a maioria de mulheres, que representam mais de 51% do total. Apesar de os brancos serem maioria no país, não é esta a realidade nas quebradas, nos lugares mais pobres, onde o percentual de negros supera 50%. [3] Portanto, um trio mais representativo da favela paulistana poderia ter duas mulheres negras ou dois negros, e não vincular os mais escuros a atividades ilegais. Em um país racista e desigual como o Brasil não dá pra passar pano na questão da representatividade.

As críticas - que se pretendem construtivas - não tiram o valor da série, uma das melhores já realizadas no Brasil, com temas e cenários muito ricos, belos, peculiares e geralmente mal representados em produções audiovisuais, que não respeitam o lugar de fala das pessoas da favela. Que venham mais projetos artísticos criados e produzidos por pessoas da periferia!


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Notas e referências:







terça-feira, 12 de março de 2019

As mil e uma jornadas (conto)

“Bom dia, doutora Clara”, disse o velho ascensorista à senhora que entrava no elevador.

“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E sem esperar resposta, continuou. “E então, o que aconteceu ao João da Baiana? O senhor não terminou de contar ontem...”.
“A doutora não vai acreditar. Como eu tava contando ontem, o João tava indo pra uma festa na casa de um senador, homem poderoso lá na época, e foi parado pela polícia. Quando explicou que era músico, que era do samba, acabou sendo preso! Assim, sem mais nem menos, só porque era sambista. Mas pode ser também porque era pai-de-santo, vai saber... A polícia não gostava nem de sambista nem de quem tivesse ligação com terreiro. O fato é que ele não apareceu na festa lá do político grã-fino, que sentiu falta dele (o tal senador era um fã do João da Baiana!), e quando soube da prisão, ficou foi muito bravo e mandou soltar na hora o Jão. E diz que depois disso, o tal político arrumou um jeito pra lá de criativo de garantir a liberdade do sambista. Mas isso eu deixo pra contar depois, doutora. Já tá chegando no andar da senhora e eu não vou ficar aqui atrasando seus compromissos...”
“Tá certo, seu Zé. É sempre assim, eu já até me acostumei. O melhor da história fica sempre pra depois. Bom dia pro senhor.”
“Igualmente, doutora.”

No dia seguinte, como já acontecia há muito tempo.

“Bom dia, doutora Clara”, cumprimentou o velho ascensorista. 
“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E prosseguiu, sem perder tempo, antes mesmo que a porta do elevador fechasse. “E então, como é que o tal senador garantiu a liberdade do João da Baiana?”
“A doutora não vai acreditar. O que dizem é que assim que o senador mandou soltar o grande sambista, também mandou que fizessem um novo pandeiro pra ele, com uma dedicatória do político, com assinatura e tudo! E era com esse pandeiro debaixo do braço que o Jão andava a cidade toda, ia a todo canto e dizem que nunca mais foi preso. Agora, veja a senhora, um pandeiro com dedicatória era o “documento” pra se livrar da perseguição da policia; e pra fazer música, ele gostava mesmo era de usar prato e faca: arrastava a faca no prato e saía samba. Pandeiro pra se identificar e prato pra tocar! Onde é que já se viu um a coisa dessas? Mas ele também arrebentava no pandeiro, não era só pra evitar cadeia, não. E não deixa de ser curioso o apelido do João: da Baiana. Mas isso fica pra outra hora, doutora, porque não vou aqui tomar seu tempo...”.
“Tá bom, seu Zé; eu tenho que ir. Mas eu quero ouvir a continuação - como sempre. Bom dia pro senhor!”
E a porta do elevador fechou, encerrando mais um capítulo.

No dia seguinte:

“Afinal, seu Zé, por que o João é da Baiana?”
“Pois então, o João é da Baiana e não é à toa; dizem que a mãe dele era uma das baianas que, como todos sabem, estão lá na raiz do samba. Já falei disso, a senhora sabe, mas não custa relembrar que a Cidade Nova, a Praça Onze foi o berço do samba e o morro da Providência, ali atrás da Central do Brasil, se confunde com a origem da favela. Pois era por ali naquela área que moravam as chamadas tias baianas, tão importantes na história do carnaval carioca. A mãe do João era uma baiana, que marcou o filho carioca com a sua origem. A mais famosa das baianas foi Tia Ciata, que era uma referência, participava ativamente, mãe espiritual do povo, fazia roupas de carnaval, cozinhava que era um absurdo e sua casa servia de sede dos sambistas, dos grandes compositores, uma casa que reunia todo mundo, uma verdadeira roda de samba. E dizem que o primeiro samba gravado (“Pelo telefone”) já rolava solto lá na casa de Tia Ciata, dizem que era folclórico e aí tem aquela polêmica, porque vieram o Donga e o Mauro e registraram a composição lá em 1916 ou 17. Esse negócio de ser dono da música dá pano pra manga não é de hoje; outra hora eu explico melhor, a doutora já chegou ao seu andar...”.
“Sempre fica um restinho de história... Bom dia pro senhor!”

A porta do elevador abria e fechava como a capa de um livro, com pequenas histórias que eram reveladas por poucos minutos a cada dia. Um narrador presente, de carne, osso e uniforme. Um narrador que contava pequenos trechos e sempre deixava um indício do que viria a revelar, a despertar curiosidade sobre o dia seguinte. Um narrador que fazia parte da história do edifício onde atualmente era o senhor e condutor do elevador. Fazia parte dessa história, porque foi um dos operários, um dos ajudantes de pedreiro que trabalhou na construção daquele prédio, muitos anos antes. E quando a obra estava quase pronta, nos últimos retoques, foi chamado para trabalhar naquele novo condomínio, como ascensorista. 
Nos primeiros tempos era empregado do condomínio e assim ficou por muitos anos. Mas depois, com a intenção de cortar gastos, o condomínio contratou uma empresa e o ascensorista passou a ser terceirizado. Foi mantido no seu posto, continuou como o senhor do sobe e desce, mas agora como empregado de uma outra empresa, com um salário mais baixo e sob a ameaça de ser mandado para qualquer outro prédio ou até demitido. Era considerado um bom funcionário desde os tempos da obra, e assim foi ficando no mesmo espaço, passando por diferentes patrões. Terceirizado, passou a ser uma mera concessão o fato de trabalhar ali e não em outro edifício, já que a empresa fornecia mão de obra a muitos condomínios pela cidade, e poderia colocá-lo onde bem entendesse. 
A empresa - bem diferente do condomínio com seu síndico - era um empregador sem cara, sem corpo, uma espécie de máquina de gestão, distante, abstrata. A pedido do condomínio, foi mantida a maioria dos antigos funcionários, entre eles o velho José; mas nada garantia sua permanência ali, pairava sobre cada jornada de trabalho a dúvida sobre a manutenção da antiga equipe. Um dos porteiros havia sido mandado para outro prédio, noutro bairro, e os faxineiros tinham sido demitidos. Não havia necessidade de tantos funcionários ali, gastos altos demais, segundo a análise da empresa. José foi mantido. Mesmo terceirizado continuou no mesmo prédio e na mesma função. 

“Bom dia, seu Zé. E a história de ontem, como continua?”
“Pois bem, doutora. A senhora sabe a confusão que é esse negócio de autoria; no samba não poderia ser diferente, né? Aquele disse me disse, as histórias que contam sobre sambistas que ouviam o samba de outro e saiam correndo pra gravar e registrar no seu nome, essa bagunça toda. Dizem que Heitor do Prazeres acusou Sinhô de roubar seus sambas, e este rebateu com a famosa frase: “samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. E foi de intrigas como essas que vieram as “brigas musicais”, aqueles sambas em que um compositor atacava, desafiava, provocava o outro, que fazia um samba de resposta, e aí tinha réplica, tréplica, um provocando o outro, e o povo curtindo, acompanhando, com torcidas, partidários, debates de defesa e ataque de cada um dos lados. Mas isso fica pra outra hora, que a doutora tem coisa séria pra cuidar.”
“Tá bom, seu Zé, depois a gente continua...”

E as histórias continuavam...

“Pois uma das maiores brigas musicais, uma das mais conhecidas e que rendeu muitos sambas de arrasar foi a que se deu entre Noel Rosa e Wilson Batista. Noel, que na época já era reconhecido, se envolveu com tudo numa disputa com o outro, que ainda estava começando sua carreira. Tem gente que diz que por trás das letras provocativas, das batalhas de samba entre os dois, estava a disputa pela atenção de uma mulher. Pensar que “Feitiço da Vila” veio daí... A verdade é que nem importa muito os motivos, as composições é que ficaram. E mais: diferente das brigas comuns que se veem por aí - que muitas vezes terminam mal -, essa arenga de sambas, além de bem humorada e cheia de arte, foi dar até em parceria entre os dois compositores, no “Deixa de ser convencida”. Também dizem que um dos grandes professores do ex-universitário da Vila foi Cartola. A verdade é que o mestre da Mangueira foi professor de muita gente e não poderia ser diferente. Falar dele e da Estação Primeira dá pano pra manga e agora não dá mais tempo; depois eu falo mais, doutora...”  

“Sobre a Mangueira há muito do que falar e em outras ocasiões já falei um bocado, espero não estar repetindo nada. Ouvi falar que a escola surgiu do Bloco dos Arengueiros, numa reunião de seus integrantes lá no Buraco Quente, no fim da década de 20, início da de 30. Cada um diz um coisa sobre o nome, uns que foi das árvores, da fruta, outros que foi da estação de trem inaugurada lá ainda no fim do século XIX, que já levava esse nome. Cartola cantou o nome e ficou: “Chega de demanda, chega/ com esse time temos que ganhar/ somos a estação primeira/ salve o morro de mangueira.” E sobre ser a Estação Primeira também não há certeza: alguns dizem que foi a primeira parada do trem, enquanto outros dizem que foi pra se destacar como a primeira a fazer samba ou até para destacá-la como a melhor; mas isso tudo tem pouca importância perto do que a Mangueira fez no carnaval, nas composições, nos desfiles. E realmente a Mangueira se fez primeira e isso eu conto depois...”

“Como eu estava dizendo, da última vez, a Mangueira fez jus ao nome, pois foi vencedora na primeira competição entre as escolas de samba, lá em 1932 e repetiu a façanha por mais dois anos seguidos, consagrando-se como tricampeã logo de início, além dos vários títulos que veio a receber depois. Mas isso não é de se estranhar com o time que a escola tinha: além de Cartola, Carlos Cachaça, dona Neuma, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Nelson Sargento, dona Zica, Hélio Turco, e mais tarde Beth Carvalho, Lecy Brandão, Alcione, entre outros grandes integrantes, que plantaram e fizeram crescer essa bela árvore do samba carioca. Fato marcante da escola se deu no ano da criação do Sambódromo, em 1984: com o enredo de homenagem à Braguinha (rei das marchinhas), a verde-e-rosa fez algo que nunca mais se repetiu: o povo pediu bis e a escola atendeu, fazendo o caminho de volta pela Avenida. Que coisa mais linda! E pensar que a primeira “escola” recusou o título e a disputa. Mas o caso é de deixar pra falar depois...”

“A verdade é que dizem que a primeira escola de samba - 'Deixa falar' - preferiu ser rancho, que na época era mais considerado que as escolas, e se recusou a participar do primeiro desfile dos “acadêmicos”. Pelo que contam, foi a pioneira na organização dos sambistas, reunindo na sua fundação Ismael Silva, Bide, Baiaco, Brancura e outros grandes nomes. Segundo dizem por aí, o nome “escola” veio da proximidade de uma instituição de ensino “normal” no largo do Estácio. E se havia rixa com outros sambistas de outros bairros, respondia o pessoal da escola, “deixa falar! É daqui que saem os professores!”. A escola que preferiu ser rancho durou pouco e acabou no ano do primeiro desfile, mas reza a lenda que o surdo foi criação de Bide e que foi essa agremiação que introduziu a cuíca na bateria. Não dá pra negar que os desfiles, mesmo de blocos, sofriam arbitrariedades, e é curioso que o nome de uma das escolas mais tradicionais tenha surgido do abuso de poder de uma autoridade. Isso fica pra depois, doutora. Bom dia pra senhora.”

“Como eu estava dizendo, o nome de uma das escolas mais tradicionais veio de uma sugestão (ou seria melhor dizer logo imposição?) de um delegado responsável pelas autorização dos blocos na cidade. Pois é. Contam que a 'Vai como pode' foi à polícia renovar sua licença, um delegado se negou a conceder a autorização, alegando que o nome era indigno para uma agremiação; disse que era melhor adotar a denominação 'Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela', já que os sambistas se reuniam na estrada do Portela. E a sugestão da autoridade não teve rejeição popular, porque os sambistas de Oswaldo Cruz já eram conhecidos na praça Onze como pessoal da Portela. O nome hoje é mais do que consagrado e a escola, além de grande campeã, lançou muitos grandes compositores, como Candeia, Zé Queti, João Nogueira, Monarco, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não eram só das autoridades que vinham arbitrariedades, preconceitos e injustiças. Amanhã eu explico melhor...”

“Como eu estava falando, as injustiças não vinham só das autoridades. Hoje as coisas estão diferentes, mas a verdade é que por muito tempo as mulheres não podiam se assumir como compositoras; mulheres não podiam assinar suas composições, elas eram obrigadas a ficar atrás dos homens, à sombra dos homens. Um machismo danado. Foi o que aconteceu com Dona Ivone Lara, quando era ainda uma menina e passou a escrever seus primeiros sambas. Durante muito tempo, suas composições foram assinadas por seus primos, integrantes importantes do Império Serrano. Só pelo fato de ser mulher era proibida de de ingressar na alas dos compositores. Somente lá pela década de 1970 é que Dona Ivone Lara se libertou das sombras do machismo pra brilhar na avenida, nas rodas de samba e nos palcos. E o Império Serrano tem já no início de sua história outros atos revolucionários, atos que deixaram pra trás aqueles que se meteram a ditadores. Que subida rápida, a porta já tá se abrindo, o causo fica pra depois...”

 “Bom dia, doutora. A senhora se lembra como antes a subida do elevador era mais lenta? Havia mais tempo. Quando comecei aqui, era eu que fechava a porta pantográfica, com minhas mãos. Eu fazia mais coisas, quem vinha aqui dentro via mais, e não tinha essa sensação de estar preso, completamente enlatado. Mas dizem que os avanços trouxeram mais rapidez, segurança, eficiência, e assim vai indo, também nas escolas de samba, com muitos avanços tecnológicos, regras, análises técnicas. Eu confesso que sinto uma certa falta da espontaneidade de antigamente. Talvez isso explique a volta dos blocos... Bom, eu tava falando da fundação do Império Serrano, que surgiu de uma dissidência da Escola Prazer da Serrinha contra o presidente ditador que foi capaz de impor um samba diferente do criado pelos compositores . Além de ter tido um resultado horrível, num ato revolucionário os dissidentes criaram a Império Serrano, que teve como maior princípio a democracia, ali todo mundo iria participar e opinar, sem tiranos. Outras escolas revolucionaram, mas agora me falta tempo pra desenvolver... Bom dia pra senhora.”

“Pode parecer algo muito comum e natural hoje em dia, mas a senhora sabia que no passado os enredos não tratavam do negro, da cultura e da história dos negros? Pois é. Hoje a gente vê um monte de enredos assim, mas dizem que isso começou com o Salgueiro, a vermelho e branco da Tijuca. O que dizem é que na década de 1950 o Salgueiro levou pra Avenida o enredo 'Navio negreiro' e assim colocou o negro como protagonista do desfile, inaugurando novos tempos e temas. Difícil imaginar que levou mais de vinte anos para aqueles que criaram o samba, a dança e até alguns dos instrumentos de percussão fossem pra Avenida, pros desfiles, cantar sua história e cultura. Eles eram donos da música, mas não se viam como tema da festa... Algumas mudanças foram pensadas, como essa aí do Salgueiro. Mas, segundo contam por aí, outras mudanças aconteceram sem querer. A porta já está aberta. Depois eu continuo...”.

“Pois uma inovação que dizem ter acontecido sem ter sido pensada com antecedência foi a paradinha da bateria. Bom, certeza não tenho. A senhora sabe que eu falo o que escuto por aí; tenho certeza de nada não. Bom, o que dizem é que o mestre André - um dos grandes integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel - inventou a paradinha sem querer: durante um ensaio, ele escorregou, caiu e os instrumentistas pararam. Pois o mestre não perdeu tempo, já se levantou fazendo sinal pro repique, que recomeçou no ritmo, nascendo daí a paradinha da bateria que hoje várias escolas fazem questão de fazer. E assim foi, teve coisa pensada e coisa espontânea. Coisa que se desenvolveu de forma mais ou menos espontânea foram os blocos, ranchos e escolas de samba.  Mas depois acabaram pensando em construir um lugar específico pros desfiles das Escolas de samba... A porta já está abrindo; bom dia pra senhora!”

“Pelo que dizem, o desfile lá no início era realizado na praça Onze. Depois, com as obras da avenida Presidente Vargas, o desfile foi deslocado; a partir de 1947, após o fim das obras na Avenida, passou a ser lá mesmo. Depois, com os passar dos anos, começaram a montar arquibancadas e a cobrar ingressos. Então, vieram as obras do metrô e o desfile foi pra avenida Presidente Antônio Carlos e em seguida para a rua Marquês de Sapucaí, ali pertinho da praça Onze. E lá no início dos anos 80, o Brizola encomendou ao Niemeyer o projeto de um local definitivo pros desfiles,. E foi daí que surgiu o sambódromo como conhecemos hoje. Também chamam de Passarela Darcy Ribeiro, que foi um dos mentores da construção que, além de local para desfiles e eventos, também abrigava salas de aula de CIEPs, aquele projeto de educação integral que depois foi abandonado pelos governos seguintes. Isso ninguém me contou, não, isso eu vi. Pra algumas coisas sempre falta dinheiro. Andam falando muito de crise, mas parece que algumas áreas estão sempre em crise, né? Já chegamos, doutora. Bom dia!”.

José continuou contando as histórias do samba e do carnaval carioca por mais algum tempo. Ele continuou com suas histórias até o dia em que saiu de férias e ao voltar encontrou um elevador hipermoderno já instalado. O novo elevador era muito avançado, eficiente e econômico, falava, tinha câmeras e até uma TV para exibir poucas informações e muita publicidade, gerando um ganho extra com publicidade. Um boato entre os funcionários já havia indicado que a empresa pretendia investir em tecnologia e cortar gastos em outras áreas. E assim foi feito: além dos novos elevadores, instalaram muitas câmeras, travas eletrônicas e outros equipamentos de segurança, tudo para controlar à distância, tornando desnecessárias pessoas no local, demitindo também os porteiros. Agora só havia pessoas nos serviço de limpeza, que eram trocadas com frequência pela empresa terceirizada.
  No seu último dia como empregado no prédio, José trabalhou como sempre, contando suas histórias. Durante o dia, a voz metálica, monótona e repetitiva emitida pelo novo elevador competiu com a voz do ascensorista: enquanto o homem conversava, se despedia e narrava trechos de episódios do samba, a máquina limitava-se a dizer os andares ao abrir a porta. José ainda brincou com a situação, dizendo que o elevador agora colocava um ponto final em suas falas, exclamando o andar, marcando a hora de desembarcar. 

“Bom dia, doutora Clara!”
“Bom dia, seu Zé! Como o senhor está? Só fiquei sabendo hoje que o senhor está nos deixando...”
“Bom, é a vida, né? A empresa é que decidiu que é a hora de eu deixar o trabalho, e tem essa coisa da crise, né? Esse elevador aqui é muito bom, faz tudo que a senhora puder imaginar!”.
“Essa crise não tá fácil, não; esse ano nem sei se vou fazer a viagem de férias que eu tinha planejado. Esse elevador pode fazer muitas coisas, até falar, mas com certeza não conta histórias.”
“Isso é verdade, histórias não conta, não, mas é muito rápido e eficiente, tem TV e tudo. Tecnologia de ponta!”
“Décimo sexto andar”, falou a voz metálica do elevador.
“Tão rápido que a senhora já chegou, olha aí, e ele avisou. A tecnologia tá em tudo, até no carnaval, doutora. Só não fizeram ainda robô compositor e robô passista...”.
“Verdade, seu Zé, verdade. Nem robô contador de histórias. Boa sorte para o senhor. Tudo de bom!”.
“Obrigado, doutora.” 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ideologia: perto demais para ser vista

Curto a revista Superinteressante, que nem parece da Editora Abril, mesma da Veja. Mas a última capa serve de exemplo pra falar um pouco de ideologia, especialmente sobre a predominante, essa que muita gente nem repara, porque se encontra completamente mergulhada nela.

Pois bem. Vamos ao título na capa da revista: “Transforme seu stress em algo bom”. Parece uma dica legal, né? Só que não. Vou explicar os motivos.

A matéria não fala sobre o que poderíamos fazer para mudar as causas do estresse. Pelo contrário, o texto já parte da ideia de que viver uma rotina constante de estresse é inevitável. Também é superinteressante notar que a própria autora reconhece o imenso impacto da área profissional, das relações de trabalho, na origem do estresse: a maioria dos exemplos utilizados diz respeito ao trabalho, as fotos na parte interna são de um homem de terno e já no subtítulo se fala em aumento da produtividade.

O texto da matéria não se afasta do título e não deixa dúvidas sobre a mensagem principal: é destino de todos ter uma rotina de trabalho exaustiva, estressante, e é o indivíduo - sozinho, isoladamente - que deve se adaptar para tirar proveito disso.

Por que a matéria não aborda as causas atuais do estresse? Por que não fala de possíveis soluções para mudar a estrutura que gera a rotina massacrante? A matéria só oferece duas opções: sofrer mais com o estresse (se não se adaptar) ou sofrer um pouco menos, “curtindo o lado bom dele”. Não existem no texto alternativas que cheguem à raiz do problema. É como uma questão de múltipla escolha, que já parte de opções pré-determinadas e reflete muito bem a ideologia, na medida em que reduz as opções, fecha-se numa moldura estreita, e interdita o diálogo e a criação que são permitidas nas questões discursivas.

Aí se vê claramente que essa rotina estressante - que faz parte de um modo de produção que explora coletivamente - é mostrada como destino inevitável. Não dá para ignorar que a palavra coletividade sofre um bloqueio ideológico. O estresse é a consequência de um sistema de trabalho imposto (e o texto reconhece isso nos exemplos), que afeta a maioria das pessoas, ou seja, a sociedade, a coletividade. Mas é o indivíduo, sozinho, que deve fazer alguma coisa: e sozinho ele só pode aceitar e se adaptar - nunca atingir a causa. Daí as praças e sindicatos vazios e os consultórios de psicólogos e psiquiatras cheios. Os problemas vêm de sistemas, estruturas, que afetam todos, mas a ideologia predominante é de fragmentação e individualização.

Nesse contexto, o discurso que se repete é: “você tem que ser adaptar! Você tem que se moldar, se transformar! É preciso resiliência!”. Típico discurso raso de “auto-ajuda”. Nada é falado sobre as estruturas, é o indivíduo que tem que se encaixar ali, se transformar em mais uma engrenagem, e não tentar transformar a máquina. O indivíduo tem que abrir mão do seu tempo, dos seus desejos, da sua família, das suas características para se encaixar no modo de produção massacrante, o que envolve, cada vez mais, até o uso de medicamentos psiquiátricos, ou seja, uma adequação química para “funcionar” e produzir bem nessa realidade apresentada como imutável.

Por que não há a sugestão de que as pessoas se unam e coletivamente tentem formular mudanças nas causas do estresse? A solução da matéria aponta para o indivíduo que, sozinho, é absolutamente impotente pra isso. A estratégia coletiva - que é a única que pode atingir a estrutura - é negada, sequer é cogitada.

Curioso destacar que, enquanto essa capa individualista é exibida nas bancas, é uma ação coletiva que consegue ter eficácia. Os estudantes da rede pública do Estado de São Paulo se organizaram e coletivamente impediram que a gestão do governador Geraldo Alckmin impusesse o fechamento de várias escolas, sem qualquer tentativa de diálogo e com evidente prejuízo aos jovens, que teriam que se deslocar pra locais distantes e se submeter a salas superlotadas, o que, muito provavelmente, levaria à evasão escolar.

Se cada um daqueles jovens fosse seguir a dica da revista Superinteressante, eles iam se adaptar às mudanças: aceitar, calar, nada fazer para impedir e viver uma rotina massacrante pra chegar e voltar da escola. Como os trabalhadores estressados. Cada um deles sofreria individualmente as consequências. Mas eles se uniram e pra mim são um coletivo de heróis; e só são heróis porque organizados coletivamente. E aqui é importante chamar a atenção pros super-heróis dos quadrinhos norte-americanos que, com raras exceções, são indivíduos isolados, que usam seus superpoderes contra supervilões, mas nunca atingem as estruturas que causam as desigualdades no mundo. Mais um exemplo da ideologia das estratégias individualistas (e por isso impotentes) pros problemas coletivos.

Muitos dizem que não há ideologia ou que só existem ideologias de esquerda, comunista etc. Como já coloquei acima, penso que isso acontece porque as pessoas estão mergulhadas na ideologia predominante (capitalista), o que dificulta muito a percepção. O termo capitalismo também sofre um bloqueio ideológico. É comum falarem no número de mortes causadas pelos regimes soviéticos, por exemplo, mas quantas vezes vemos sistema capitalista como causador de mortes?  O fato é que a revista Superinteressante não nega a existência de ideologia, porque páginas depois da reportagem sobre o estresse, fala que o uso da maconha é barrado por motivos ideológicos (página 56).

Para revelar a ideologia é indispensável formular certas perguntas, como: por que esse esse tema e essa abordagem? E tal tipo de análise e questionamento pode ser utilizado para desvendar o que está por trás de diversos discursos e escolhas, inclusive das pesquisas científicas que são citadas na matéria, que tratam de situações isoladas de estresse e não envolvem os efeitos da submissão a rotinas estressantes contantes e a longo prazo, o que ocorre frequentemente com muitas pessoas.

Acredito que a autora do texto nem tenha pensado sobre as questões colocadas aqui. Penso que é provável que a ideia de escrever essa matéria tenha surgido diante da leitura de outros artigos que foram escritos sobre as novas pesquisas científicas acerca dos efeitos do estresse. Se foi assim, não há surpresa, já que faz parte da imersão da ideologia a reprodução dos discursos dominantes, sem grandes reflexões sobre as origens, raízes.    

Por último, mas não menos importante, a matéria termina comparando pessoas “a máquina[s] de enfrentar dificuldades”. Nada melhor para a produtividade que máquinas. Mas não. Não somos máquinas e não estamos dispostos a nos transformar em máquinas e engrenagens para produzir melhor. Impossível negar a ideologia predominante. Vou enviar esse texto à revista e ver se tenho alguma resposta. Seria legal ler uma matéria falando sobre ideologia. 


PS. O texto tem influência de dois autores de que gosto bastante: Bauman e Zizek.

sábado, 31 de maio de 2014

Robocop: uma metáfora sobre a exploração do trabalho

Quando certa manhã Alex Murphy acordou de seu sonho tranquilo - no qual dançava com sua mulher ao som de fly me to the moon na voz de Sinatra -, encontrou-se numa sala grande e clara metamorfoseado num robô. Estava de pé, acoplado a uma máquina e só recuperou seus movimentos aos poucos, obedecendo às ordens do senhor de jaleco branco, que o olhava de perto. Vestia uma armadura que emitia sons a cada movimento. Nervoso, perguntou o que estava acontecendo e pediu que o tirassem daquela carapaça metálica. Não pode ser atendido: aquilo era o seu corpo.

Não era um pesadelo. Depois de ser gravemente ferido por uma bomba, o policial Alex Murphy estava num laboratório, transformado em Robocop, um híbrido de homem e robô, cujo nome já suprime qualquer referência à sua humanidade. Dentre mutilados e doentes afastados da polícia - inválidos sob a ótica do mercado de trabalho -, Alex foi escolhido para se tornar produto (made in china) de uma empresa especializada em fabricar e vender robôs policiais pelo mundo afora, exceto nos EUA, onde uma lei os proibia.

Sob o discurso do medo reforçado por um jornal da TV, a ideia de fabricar o híbrido surgiu para burlar essa lei e transformar o poder público dos EUA em cliente. Essa é a história de Robocop, dirigido por José Padilha (o mesmo de Tropa de Elite), que é uma versão do filme homônimo lançado em 1987.

Robocop aborda muitos temas interessantes, mas vou procurar me ater à questão da exploração do trabalho. Talvez possa parecer estranho falar sobre isso analisando um filme que trata da utilização de robôs na segurança pública. Se o risco é a substituição de homens por máquinas, por que exploração humana?

Bom, o filme pode ser visto como a história do policial transformado numa máquina, com armadura metálica, visão computadorizada, acesso ao arquivo de dados e controle à distância. Mas pode ser interpretado também como uma metáfora do homem pós-moderno; ou melhor, de todos nós, que não temos membros robóticos (embora o celular pareça uma parte do corpo), mas que, ao cumprirmos as exigências profissionais, agimos como máquinas.

Aos que não perceberam, o primeiro parágrafo é uma paródia do início de Metamorfose, de F. Kafka. Em vez de metamorfoseado em inseto, o herói acorda como robô policial. E no lugar da rejeição que sofreu Gregor Samsa (o homem inseto kafkaniano), Robocop é aclamado por todos.

Na minha visão, a principal distinção entre Gregor e Alex é que um deixou de ser útil sob o aspecto profissional, enquanto o outro tornou-se o mais eficiente dos policiais, um exemplo de produtividade. Como um sonho dos chefes, passou de inválido ao melhor da categoria. Para alcançar esse nível de eficiência, Alex foi destituído das emoções, das lembranças, da fragilidade, da autonomia bem como da convivência social e familiar, ou seja, de tudo que o fazia humano.

Há quem leia metamorfose e entenda que Gregor não se transformou num inseto: ele teria passado a se ver e ser visto assim a partir do momento em que deixou de trabalhar, já que na sua família todos dependiam do seu dinheiro, fruto do exercício exaustivo da função de caxeiro-viajante, detestada pelo protagonista.

É interessante ressaltar que Gregor - mesmo metamorfoseado num inseto - continua capaz de se emocionar, apresentando-se bem mais sensível que as demais personagens que o cercam. Essa sensibilidade é nítida durante a narrativa e há um ponto peculiar que merece destaque: sua reação à música. Num trecho do capítulo 3, sua irmã toca violino na sala e os inquilinos mostram-se enfadados; Gregor, no entanto, comove-se com a música e tenta se aproximar da irmã para incentivá-la.

Já em Robocop, as emoções atrapalham o bom funcionamento da máquina, o que leva o cientista a controlar as substâncias no “corpo” de Alex para eliminá-las, a ponto de ele deixar de sentir afeto pela própria família. Tal estratégia, a meu ver, não difere muito do consumo de medicamentos psiquiátricos para adequação ao papel profissional. Remédios para ansiedade, para tristeza, para dormir na hora “certa” e para acordar “feliz” e produtivo, é claro, já que o mau humor prejudica o bom exercício das funções.

E também há uma cena (aos 18 minutos do filme) em que é demonstrada a reação das máquinas à música: um violonista vai tocar pela primeira vez com suas mãos robóticas; sua mulher o acompanha, ansiosa; ele toca por algum tempo e, ao se emocionar, o sistema falha; o cientista lhe explica que emoções intensas congelam o programa.

Robocop, portanto, é o herói aclamado, ou melhor, o funcionário (produto) perfeito: não se emociona; não prioriza a família (na verdade, chega a esquecê-la); não padece das fragilidades humanas; é controlado todo o tempo e ainda pode ser desligado, se demonstrar rebeldia ou prosseguir com investigações que não interessam aos poderosos - que no filme não são os políticos mas os empresários.

O comportamento do Robocop está muito diferente do que exige o discurso sobre profissionalismo? Impessoalidade, foco, metas, produtividade, jornadas enormes, acesso total e ininterrupto por meio de celular, vestir a camisa - ou a armadura que jamais pode ser retirada? Robocop é policial o tempo todo, é o “ser” reduzido à sua parcela profissional - é um superpolicial castrado. Freud explica.

E não para por aqui. Submetido a testes nos quais é comparado com robôs puros, Robocop mostra-se lento, hesita um pouco antes de atirar (certamente, por mais tempo que o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, que parece mais robótico que Alex Murphy). O atraso do Robocop é um grave problema; ele tem consciência, decide, pensa e isso o torna ineficiente. Daí, o cientista faz uma intervenção cirúrgica para consertá-lo.

Mais ou menos aos 50 minutos do filme, depois do reparo e durante um novo teste, o cientista explica que fez uma pequena alteração, de modo que Alex nada decide a partir do momento em que começa a batalha e seu visor desce: “nos combates ele é só um passageiro de carona; pensa que está no controle, mas não está, é uma ilusão de livre-arbítrio.” Uma cientista, que observa o desempenho espetacular do Robocop ao destruir dezenas de robôs, conclui que se trata de uma máquina que pensa ser um homem.

Ilusão de livre-arbítrio. Achar que faz algo porque quer, por livre e espontânea vontade, fruto da própria e independente deliberação, quando na verdade não está no controle. Muitas pessoas vestem a armadura, a máscara profissional, e agem de acordo com o que exigem delas, mesmo que isso signifique a negação de seus valores.

Ao contrário do "pede pra sair" do capitão Nascimento em Tropa de Elite - que incentivava alguns recrutas a desistirem da carreira no BOPE -, em Robocop não há opções: Alex acorda preso à armadura, à profissão, sem escolha. 


Funções exaustivas, exercidas com alienação, destituídas dos valores ligados à identidade, objeto de exploração, mas dissimuladas pelo discurso da liberdade, que tenta encobrir a pura submissão às regras do mercado.

Não se trata de rejeitar o trabalho; de forma alguma. A ideia de empregar a energia humana para criar é ótima; mas não é isso que acontece em regra. A força é explorada e desvalorizada; o ser humano é reificado e a desigualdade cresce.

Vivemos sob o impacto do discurso do medo, cuja causa principal - segundo os jornais e o senso comum - é a violência dos criminosos, para a qual a solução seria o fortalecimento da polícia. No entanto, o Robocop de José Padilha deixa claro algo que poucos parecem enxergar: a pior violência não é a dos bandidos, mas a do império dos poderes econômicos, que, na verdade, é validada pelas leis.

A lei permite que uma jornada de 40 horas semanais seja remunerada com um salário mínimo, mas não impede que empresas lucrativas reduzam seus quadros. Com a globalização, as empresas transitam entre os países e compram de cada um o que encontram mais barato. Há muitas restrições legais para os imigrantes, mas não para os negócios. As funções do Estado vêm sendo reduzidas, ao mesmo tempo em que cresce o número de trabalhadores sem vínculo formal, ou seja, sem proteção legal perante a exploração.

Todavia, os jornais falam o tempo todo das agressões dos criminosos - nada dizem sobre a violência da exploração do trabalho, do medo de perder o emprego, de se tornar uma peça obsoleta, inútil para a produção, e passível de descarte. Isso não é violência? Não é uma boa causa para sentir medo? A polícia pode resolver esse tipo de situação?

A exploração da força de trabalho dilacera as pessoas e as modifica para encaixá-las às exigências do mercado; e se não há como torná-las úteis sob a ótica da produtividade, elas ficam de fora, largadas à própria sorte, já que o Estado deve ser mínimo.

Porém, ao contrário de Alex - que pediu pra sair da armadura -, muitos estão presos em suas carapaças, com o visor abaixado, trabalhando. Eles confundem poder de consumo com liberdade, morrem de medo dos criminosos e aplaudem o sucesso dos empresários famosos. Veem o capitão Nascimento como herói e acham a armadura do Robocop o máximo.

                                

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Catadores

Publicado recentemente no Brasil, A política da mudança climática, de Anthony Giddens, trata da "mudança climática sobretudo como uma questão política e defende que toda decisão deve observar o contexto econômico e geopolítico mundial."

Semana passada, comprei o livro numa livraria do centro do Rio. Ao sair de lá, caminhei em direção ao Terminal Menezes Côrtes, a fim de pegar o ônibus de volta para casa. Eu não havia andado por dez minutos quando deparei com montanhas de papel. Não, não estou exagerando: ao lado do Terminal os catadores se reúnem todas as noites, para coletar o lixo reciclável. O contraste foi enorme: em pouquíssimo tempo eu havia passado do livro de Giddens, um livro novo, papel novo, teoria, a homens catando papéis usados, lixo, realidade. A tese do sociólogo – exposta com estilo – pareceu-me distante demais da vida.


Não estou dizendo que as questões ambientais não devam ser discutidas; pelo contrário: elas precisam, sim, ser trazidas à luz, debatidas; contudo, num lugar em que pessoas catam papéis na rua, até altas horas, sem qualquer proteção, tanto física quanto jurídica (sem luvas, botas e sem vínculo empregatício), o clima se torna algo demasiadamente afastado.

Na verdade, Giddens tornou-se-me distante, na medida em que tenho poucas esperanças quanto à eficácia do debate sobre os problemas ambientais. Vivemos num sistema econômico que necessita de crescimento constante, que se baseia no consumo; logo, os problemas ambientais são apenas conseqüência e não serão resolvidos enquanto não houver uma intervenção nas causas.

Ostentando suas bolsas de pano - última moda entre os "preocupados com o futuro do planeta" - as pessoas falam sobre proteção ambiental, mas trocam de celular, computador, TV, carro, toca-mp3 etc. toda hora, assim que conseguem – mesmo que para tanto tenham que se endividar, o que também faz parte do jogo. Falar de preocupação em relação à natureza enquanto se consome tudo o que pode (e também o que não pode!) é cegueira, ignorância ou hipocrisia.

Os catadores com certeza não são uma ameaça ao equilíbrio ambiental: eles consomem pouco, não possuem veículos poluidores e ainda promovem a reciclagem. Quem são esses homens - esses “consumidores falhos”[1] -, que, como os camelôs, vagam pelas ruas, sem qualquer proteção, coletando os restos, as sobras?

Estamos na era da desregulamentação, da privatização: o Estado, cada vez menor, não se mete no trabalho desses homens. Os lixeiros têm ainda alguma proteção, uma relação de emprego, enquanto os catadores – homens invisíveis que ajudam a reciclar - ficam à margem, embora desempenhem uma função importante.

Em “A queda”, Albert Camus fala sobre a inércia de um homem diante da queda de uma suicida no rio:

“Já havia percorrido uns cinqüenta metros aproximadamente, quando ouvi um ruído que, apesar da distância, me pareceu , no silêncio da noite, de um corpo caindo na água. Parei instintivamente, sem me voltar. Quase ao mesmo tempo, ouvi um grito, repetido várias vezes, que descia também o rio, e que se extinguiu bruscamente.”

Estou cansado de passar por pessoas que se jogam e gritam; nada faço, porém. Há um ano escrevi sobre os camelôs (refrões da cidade e escravos de ganho) e à época meu desejo era escrever sobre outras funções de “homens livres” das grandes cidades. Sou um catador de palavras.

Sobre consumo e lixo, escrevi há algum tempo:

Fungível

Não discuta,
Não reflita!
Pega o que lhe dão
E siga em frente,
Não só porque atrás vem gente,
Mas também porque não se deve parar nunca -
Ainda mais, assim, de repente!

Aceite, ceda,
Não resista ao que se lhe apresenta;
Um pedaço é melhor que nada.
Pegue-o, use-o,
Consuma-o, descarte-o,
Afinal, moramos em Leônia.

E não se preocupe nunca!
Você precisa mesmo descartar este pedaço
Para consumir o outro que virá.
É sempre hora de trocar:
Larga pois o que tem em mãos
E agarra hoje o novo que lhe dão!

Sobre o tema, diz Bauman em "Amor líquido" (p. 11):

"Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia, uma das 'Cidades Invisíveis' de Italo Calvino, diriam que sua paixão é 'desfrutar coisas novas e diferentes'. De fato. A cada manhã eles 'vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento'. Mas a cada manhã 'as sobras da Leônia de ontem aguardam o caminhão de lixo', e cabe indagar se a verdadeira paixão dos leonianos na verdade não seria o 'prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente'. Caso contrário, por que os varredores de rua seriam 'recebidos como anjos', mesmo que sua missão fosse 'cercada de um silêncio respeitoso' (o que é compreensível: 'ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas')?"

No entanto, é isso que tenho feito: ando pelo lixo catando palavras. Eu sou o lixo. Olho, vejo e escrevo, mas nada reparo. [2]

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Notas:

[1] “Uma vez que o critério da pureza é a aptidão de participar do jogo consumista, os deixados de fora como um ‘problema’, como a ‘sujeira’ que precisa ser removida, são consumidores falhos – pessoas que são incapazes de responder aos atrativos do mercado consumidor porque lhes faltam os recursos requeridos, pessoas incapazes de ser ‘indivíduos livres’ conforme o senso de ‘liberdade’ definido em função do poder de escolha do consumidor.” BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. P. 24.

[2] "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." SARAMAGO, José. Prólogo de Ensaio sobre a cegueira.

Links para os textos citados:

ecosprosaicos.blogspot.com/2009/08/poderia-ser-ficcao.html


ecosprosaicos.blogspot.com/2009/08/refroes-da-cidade.html

sábado, 1 de agosto de 2009

"Escravos de ganho"

Poderia ser ficção. Mas não é. Rio de Janeiro, Praça XV, segunda-feira, 24 de agosto de 2009, 18 h; sob chuva torrencial, um camelô vende guarda-chuvas sem parar, cantando seu refrão: “Sombrinha é 5, familhão, 10!”. Na verdade, há vários vendedores ambulantes trabalhando ali e os refrões se confundem, se imbricam, e o canto parece não ter fim: “Sombrinha-familhão-5-10-guarda-chuva-olhaí-barato-vai-chover-mais-pode-pegar-tacabando-aproveita...”

O ritual da venda assemelha-se a uma espécie de dança da chuva. No entanto, eles não cantam para atrair a chuva, mas para mantê-la e se as gotas param de cair, eles ameaçam e invocam: “vai chover, olhaí, vai cair um pé d’água, melhor comprar comigo logo”. E o mais incrível é o caráter mágico da aparição dos vendedores de sobrinhas: quando a primeira gota cai, eles surgem não se sabe de onde e lotam as ruas, esquinas, becos e calçadas da cidade.

Há os que trocam de produto para atender a demanda: se faz sol, eles vendem balas; se chove, guarda-chuvas brotam - como cogumelos - de suas mãos. Eles já estão ali, atentos para oferecer o produto que os clientes demandarem.

Mas voltemos ao protagonista, o camelô da Praça XV do primeiro parágrafo: ele vende compulsivamente e por isso não usa guarda-chuva; afinal, suas mãos estão ocupadas em pegar o dinheiro e entregar a mercadoria. Observo-o de longe. Em cinco ou dez minutos seus guarda-chuvas acabam; ele sorri, ajeita os bolsos e segue, sob a chuva forte, sem qualquer proteção. Ele vende sombrinhas, mas não possui uma sequer para voltar pra casa ou para o ponto onde pegará mais guarda-chuvas para continuar vendendo.

O camelô é “antes de tudo um forte”. É um homem que sai de casa e trabalha nas ruas, a pé, sem a proteção de um escritório, de uma instituição, de uma pessoa jurídica - e ainda sofre (e muito!) com a repressão. Para o Estado, ele é um ocupante irregular do espaço público, um vendedor de mercadorias de origem e qualidade duvidosas e, principalmente, uma espécie de "loja" ambulante e informal que não rende tributos aos cofres públicos.

Não sei se estou correto, mas penso que os camelôs de hoje descendem dos “escravos de ganho” de outrora. Pra quem não sabe, esta categoria de negro escravizado realizava tarefas remuneradas - geralmente a venda de guloseimas e a realização de pequenos reparos pelas ruas do Centro -, no período colonial e no Império, entregando ao seu proprietário uma quota diária do pagamento recebido. Era comum os “escravos de ganho” conseguirem acumular pouco a pouco o dinheiro que ganhavam e, depois de algum tempo, comprar a própria liberdade. Podem-se incluir também entre os “escravos de ganho” as negras que se prostituíam para pagar a cota diária aos seus senhores brancos - o sexo também era uma das mercadoria oferecidas neste contexto.

Apesar de todo discurso de incentivo aos empreendedores que o sistema no qual vivemos profere, os vendedores ambulantes são perseguidos pelo Estado. Ora, o capitalismo ostenta a figura do self-made man como o ápice: há, segundo tal discurso, um mundo de oportunidades e se você trabalhar, inovar, empreender, colherá os frutos do seu suor, com base na propalada “meritocracia”.

Desta forma, o camelô, o homem que vai às ruas para vender seus produtos - e assim age porque não encontra espaço no mercado formal (cadê o mundo de oportunidades?) -, não deveria sofrer repressão do Estado, mas incentivo, na medida em que ele tenta conceder a si mesmo o que o próprio Estado e o mercado não lhe oferecem.

E o Estado, conforme o discurso (neo)liberalista, não deve intervir o mínimo? Se o mercado abre espaço para os camelôs, não deve haver repressão estatal à atividade - “laisse faire...”, deixem que vendam e prosperem, as leis do mercado são perfeitas, não é mesmo?!

Vender balas, livros velhos, guarda-chuvas, LPs, CDs, DVDs, eletrônicos asiáticos etc. é uma opção - ou falta de opção, melhor dizendo - para estes homens que vivem em comunidades segregadas (“segregação compulsória”), onde transitam traficantes armados e jovens provenientes dos condomínios (castelos seguros - "segregação voluntária")[1], que os procuram para comprar drogas (ou seria Soma?).[2]

O refrão “eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar vendendo drogas” é real, apesar de parecer um canto distante, ilusório. O pior é que de fato as principais opções são estas. Mas eles também podem ser catadores de papel ou latas de alumínio ou serem músicos, poetas, pintores, dançarinos - artistas em geral - ou servidores públicos, empregadas domésticas, professores, advogados etc. Porém, quantos médicos, advogados ou engenheiros que nasceram e cresceram numa favela você conhece? E quantos jovens brancos de classe média você já viu trabalhando como camelôs?

A verdade é que vendedores ambulantes existem em toda parte; trata-se de mais um “problema global” para o qual se buscam apenas soluções locais. Por que estas pessoas vão para rua com um tabuleiro nas mãos para vender coisas? Parece-me que elas sobraram: o mercado as acolhe (porque as pessoas apesar de reclamarem da ocupação do espaço público continuam comprando suas “duvidosas” mas baratas mercadorias), sob o nome de “irregulares”, “informais”, “marginais”; é um acolhimento discriminatório, semelhante ao que se confere às drogas ilícitas e à prostituição, que são produtos consumidos com avidez, embora de forma silenciosa.

Quem pensa que o “problema” (ou seria uma solução?) é atual e restrito ao solo nacional engana-se. Anatole France escreveu um belíssimo conto sobre “Jérône Crainquebille”, um vendedor ambulante francês, que, por não obedecer imediatamente a um guarda municipal, o qual o mandava prosseguir com sua carrocinha de legumes (a eterna questão do espaço público nas grandes cidades), acaba preso cautelarmente, a princípio; e, julgado - com ampla defesa e contraditório (vejam como é justo o Judiciário!) -, termina condenado, por uma frase que não proferiu. O conto deve ser lido, não o recontarei aqui, apesar de ser esta a minha vontade. Um trecho precisa ser citado, no entanto:

A justiça é administração da força, (...) Desarmar os fortes e armar os fracos seria mudar a ordem social que eu [juiz] tenho que preservar. A justiça é a sanção das injustiças estabelecidas”.[3]

Escrevi há algum tempo um pequeno texto chamado “nadando na fumaça”:

"Muitas semelhanças há entre os meninos que circulam entre a fumaça, nos sinais de trânsito das grandes cidades do Brasil, e os garotos que nadam ao redor de navios no Caribe.

Os pequenos do Caribe acompanham, nadando, a chegada e a saída de transatlânticos aos portos de suas cidades. Os turistas, dos luxuosos balcões, jogam-lhes moedas, e os meninos mergulham bem fundo para alcançá-las. O tempo para ganhar os centavos é o do mergulho - perdura enquanto os pequenos e cansados pulmões suportam.

Aqui, o sinal é o cronômetro que determina a ocasião para se ganhar a esmola: a luz vermelha permite o trabalho e a verde manda os garotos à calçada. Os carros seguem, deixando-lhes trocados e fumaça. Então, esperam os meninos, ansiosos, que o sinal escarlate lhes ilumine, uma vez mais, o palco do asfalto: não são cortinas que se abrem, mas janelas de carros, e os espectadores têm pressa. Não há tempo para o desumano espetáculo da miséria."

Mas tudo isso parece mera ilusão. Não são crianças que vendem balas nos sinais nem homens que padecem sob a chuva, vendendo sombrinhas a R$ 5,00. Não olhamos seus olhos, mal ouvimos seus refrões monótonos; só enxergamos as mercadorias que flutuam pelas ruas.

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Notas:

[1] O conceito de "segregação voluntária" é de BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. “Sobre a dificuldade de amar o próximo” P. 97 e seguintes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2004.

[2] "Soma" é a droga de "Admirável mundo novo", de A. Huxley.

[3] FRANCE, Anatole. A Justiça dos Homens. Tradução de João Guilherme Linke. São Paulo: Ed. Difel, 1986.




Tirei esta foto ontem, de dentro do ônibus, a caminho do trabalho. Estava chovendo, como podem observar pelo homem com guarda-chuva no canto superior direito. Conseguem ver o homem entre os carros ou só vislumbram a caixa de papelão cheia de doces?