zizek
Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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sábado, 22 de outubro de 2016
sábado, 7 de maio de 2011
Personagens (conto)
- Fôssemos personagens - pura imaginação de um escritor qualquer -, seríamos mais reais do que julgamos ser!
- Como assim?!
- O homem é um ser virtual. O homem é, em última análise, um ser cuja natureza comporta (exige, na verdade) a irrealidade; é um ser virtual, visto que a ficção lhe é intrínseca.
- Confesse que você decorou essa frase! Agora explica.
- É mais simples do que parece. A ficção faz parte de nós: somos reais e irreais, e o que estou defendendo é que no fundo somos mais ficção que fatos.
- Você anda lendo demais! Ficção é ficção e vida é vida! Como somos mais ficção?
- É simples! – respondeu. – Estamos aqui conversando pacificamente. Essa é a realidade. Mas se saio daqui e resolvo contar a um conhecido nosso que a gente discutiu, ele provavelmente acreditará na minha narrativa. E se ele encontrar outra pessoa que nos conheça, repetir minha invenção e isso se espalhar, será como se tivesse acontecido mesmo. Não vai demorar muito para nos perguntarem o que houve conosco...
- Isso até me encontrarem: aí vou explicar que você está louco!
- Vão achar que você está ressentido e inventou esse papo de loucura!
- Cara, essa idéia sua não é nada mais que a velha frase “uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade”...
- Não, não é isso; minha idéia vai além. Há hoje uma tremenda discussão sobre o mundo virtual, sobre as loucuras da pós-modernidade. Porém, o que os alguns pensadores apontam como algo recente, eu julgo inerente ao homem.
O amigo, olhos baixos, apenas ouvia.
- A capacidade humana de se comunicar, de usar a linguagem, a escrita, bem como o poder de vislumbrar o futuro, analisar o passado e compará-los, faz do homem um ser criador, apto a inventar outros mundos, os quais começam com as idéias e transbordam pela boca, pelas palavras, tornando-se, assim, objeto do conhecimento de outros homens. A discussão atual parece errar ao confundir uma manifestação com o fenômeno em si, que é tão antigo quanto o ser humano. O mundo virtual é somente a ficção da atualidade; apenas os meios pelos quais se expressa são novos, pois as criações humanas influenciam e determinam a vida há muito.
- Mas daí a dizer que o homem é virtual não haveria uma grande diferença? – indagou o amigo, agora um pouco mais compreensivo.
- Não, de forma alguma. O homem é mesmo virtual: o homem nasceu com a palavra. O ser que antecedeu o homem não conhecia a língua e portanto era um só com a natureza. Um dia, porém, o som gutural, que era o único que o ser que veio a se tornar o homem conseguia emitir, explodiu e se expandiu em fonemas, e com as palavras surgiu o homem. O Homem é fruto do Verbo. O som gutural - a matéria e a energia comprimidas - depois de rebentar, se expandiu, e ainda hoje avança. As palavras, matéria de que o mundo é feito, são constituídas pelos fonemas, letras, átomos que o homem manipula para construir o que chama de realidade. Nós inventamos, criamos teorias e erigimos com base nelas não só a História mas também narrativas que tudo explicam; falo não apenas da religião, pois a ciência também nasce como ficção - e às vezes subsiste bastante com essa natureza -, se é que algum dia deixa de ser discurso para se tornar fato...
- Isso lembra Nietzsche, forças ativas e reativas, não?
- Sim, com certeza! Quando ele diz que força reativa é “vontade de verdade” que se nutre da mutilação de outras forças, percebe-se claramente sua natureza ficcional. Ao defender uma teoria refutam-se as demais que tratam do mesmo assunto. A força ativa, por sua vez, enuncia valores sem os discutir, sem tentar provar a legitimidade, sem aniquilar outras manifestações, uma vez que não pretende definir qualquer verdade. Nesse contexto, a poesia é mais fiel que a ciência, a religião e a filosofia, na medida em que não pretende enunciar a verdade. Poetas não se excluem! A Odisséia é mais coerente que as leis! Ulisses sempre será Ulisses, enquanto as leis e os Estados fundamentar-se-ão nos mais diversos discursos. Só a arte nasce e subsiste perfeita: o que chamamos de realidade é pura contradição. Esse diálogo, por exemplo, é uma manifestação ficcional que a priori não deveria se assumir como tal, tendo em vista que o que defendo aqui (e quando defendo já estou propondo uma “verdade”) esbarra noutras teorias. Se eu quisesse pureza, deveria escrever uma obra literária sobre isso!
- É, de fato, a ciência e a religião são discursos e as “verdades” que enunciam não são realidade. Mas isso não faz do homem um ser virtual!
- É claro que faz! E desde que o homem é homem é assim: a letra escura sobre a página clara, a idéia que faz nascer mundos lá fora. Ouça: o homem surgiu com a palavra, com capacidade de inventar, e se antes as letras eram os átomos com o quais o homem trabalhava para construir seu mundo, agora, na era digital, na pós-modernidade, somos capazes de intervir nas imagens, de construí-las e de propagá-las com incrível rapidez. Questiono as teorias atuais sobre a realidade (olha aí a força reativa atuando!): até que ponto a ficção, embora sob manto da religião ou mesmo da ciência, já não exercia essa função de alienação, de distanciamento, de intervenção, de criação de mundos imbricados. A noção de realidade nunca foi unívoca! Veja a religião: durante muito tempo ela exerceu papel crucial na concepção de “realidade”, e ainda exerce em alguns grupos. Sempre existiram mundos outros que se confundem com o “real” (é, na verdade, impossível distingui-los), e isso, repito, não é exclusividade da pós-modernidade!
- O que diz faz sentido, mas não consigo aceitar que não haja distinção...
- Mas não há! Queremos enxergar a realidade como algo puro, mas isso é impossível; de perto tudo é discurso, tudo é palavra. A diferença é que a arte se assume como tal, enquanto o “mundo virtual” pós-moderno muitas vezes se nos apresenta como se realidade fosse. Contudo, isso também acontecia e acontece com ciência, ou seja, com idéias que prevaleceram - e ainda prevalecem - em determinadas épocas e grupos, como, por exemplo, a “superioridade masculina”, que imperou como “verdade” durante muito tempo (e impera ainda em alguns lugares). Poderia citar ainda a superioridade de uma certa etnia. Essas imbecilidades perduraram séculos! E o que eram? Invenções, com manto de ciência, eleitas como verdade por certo grupo. Você, com certeza, crê cegamente em teorias científicas que, mais cedo ou mais tarde, serão consideradas patéticas.
- Isso se aplica à cultura, ao mundo construído, mas não à natureza, ao mundo dado!
- Ouça: até os elementos puramente físicos sofrem influência do homem, visto que narramos teorias que pretendem explicar a origem das coisas. Se disserem, por exemplo, que uma pedra está em determinado lugar porque deus quis, essa pedra torna-se sagrada. Se, no entanto, falam que a pedra está a ali por acaso, posso destruí-la sem problema. Temos hoje o discurso científico, que pode defender a importância da tal pedra para o equilíbrio da natureza e conseqüentemente para o homem, razão por que a bendita pedra tornar-se-ia sagrada, intocável...
- Realmente, ao saber das origens, tratamos os objetos de forma diferente, mas...
- Pois é, aí está! Quando uma narrativa é tomada como real (seja uma teoria cientifica, seja uma reportagem jornalística ou sei lá o quê!), o que é considerado verdade ganha status de real e se constrói como fato. Sem dúvida, a ficção, hoje, vai mais longe, com mais rapidez, e o consumismo instituiu novos signos. Porém, as palavras proferidas por um padre, na Idade Média, também afetavam os ouvintes, assim como as teorias científicas que pregavam a eugenia. Há pouco executavam-se pessoas com base nessas supostas verdades! Ora, uma marca é um símbolo vazio da mesma forma que a virgindade! Não sou defensor do “mundo virtual” pós-moderno - pelo contrário! Penso que ele deve ser analisado, criticado, questionado; afirmo apenas que ele não passa de uma nova manifestação de algo antigo. O homem é um ser virtual e as palavras são a matéria de que seu mundo é feito.
- Você tem razão, admito; mas não deixa de ser discurso...
- Sim, tudo é; pelo menos, eu assumo a fragilidade do que digo. Agora que você finalmente cedeu, gostaria de falar sobre o início de tudo. Na verdade, é muito claro: a criação é o verbo, o fruto proibido é a linguagem e deus é a Narrativa. O velho testamento nunca escondeu isso; os exegetas que ficam personificando, criando - o que é muito natural, aliás, mas sem dúvida confunde os demais intérpretes.
- Como assim “o fruto proibido é a linguagem”? Isso não é nada claro...
-Você já leu Gênesis?
- Já.
- E nunca se deu conta de que o Verbo é tudo?
- Sim. Há outros que falam disso; mas você está dizendo que o fruto proibido é a linguagem!
- Obviamente. O verbo é tudo. Nomear é criar. O nome é um dos primeiros atos ficcionais da vida do indivíduo. Somos personagens; quando nascemos, já possuímos um nome, dado pelos nossos pais, que agrega uma vontade e uma história. A linguagem é requisito do verbo. A narrativa bíblica não afirma que deus criou a luz, o firmamento... Ao descrever a criação optou-se por deixar claro que tudo foi criado por meio de discurso do criador: usa-se todo o tempo o verbo dizer: “deus disse: que a luz seja, que haja um firmamento...”.
- Sim, isso é verdade, mas é deus quem fala, o poder é deus.
- Como já disse, o ser que antecedeu o homem não conhecia as palavras. Um dia, porém, o som gutural explodiu e se expandiu em fonemas, e com as primeiras palavras surgiu o Homem. O Homem é fruto do Verbo. O homem é personagem e narrador do seu discurso. Deus é o Verbo, o Poder e a Narrativa que pretende explicá-lo. A língua emancipou o homem da natureza; os fonemas e as letras são os átomos - o discurso é a energia que os une.
- Nunca havia pensado dessa forma... Não é à toa, então, que ele é “o alfa e o ômega.” Ele não é só o princípio e o fim, ele é o alfabeto.
- Ao controlar o som, as letras, os seus átomos, e assim inventar o seu mundo, o Homem passa de criatura a Criador e se aparta da natureza. Enquanto no mundo natural o homem é apenas personagem, no mundo que ele concebe, é também autor. E, como Narrador, o Homem concebe sua primeira criação: deus (que na verdade nasceu como deuses, que personificavam as forças da natureza) - a mais drástica das criações, por ser a primeira e se apresentar como real. A Narrativa, portanto. Deus foi crucial à transição do homem ao papel de Criador.
- Mas por que criar deuses?
- O Homem, ao falar, se vê apartado da natureza. A palavra arrancou o homem doparaíso; o suor do rosto e o sofrimento são conseqüências do papel de Narrador. Lutar com palavras não é a luta mais vã - talvez seja a única relevante -, por isso lutamos – e suamos e sofremos – mal rompe a manhã. O homem inventa deus, porque se assombra consigo mesmo, com o seu poder; ele o cria e nele crê para que deus represente sua força criativa - talvez pela incapacidade de conceber tamanho poder em si mesmo. O homem, que sempre foi personagem (sem saber, a princípio), de uma hora para outra – em virtude da linguagem – se vê como Narrador e isso o espanta!
- Deus, então, seria resquício do rompimento com a natureza?
- Mais que um resquício, uma necessidade. Ao deparar com seu poder criador (língua), o Homem imagina deus para plasmar fora de si o seu poder e, desta forma, conceber e respeitar sua própria força criativa. O Homem estava tão habituado a ser vítima das forças natureza que criou deus à sua imagem e semelhança, para espelhar noutro ser o seu poder. Ao tornar-se Criador, o Homem, assombrado, cria deuses, aos quais delega seu poder, dizendo “oh, deus criador, sou sua criatura!”. Age assim para se ver distante de sua própria força, como uma espécie de negação da recém-descoberta autonomia.
- Somos covardes, então?!
- A liberdade é um fardo. Deus, na maneira mais primitiva em que foi concebido (e muita gente ainda insiste em compreendê-lo assim) surge para mitigar o peso desse fardo. O fruto proibido é uma representação do descobrimento da língua; a árvore do conhecimento é a comunicação: a princípio, a fala, a tradição oral, e após as pinturas rupestres, os símbolos, a escrita... Na narrativa mais conhecida no ocidente, a punição que deus impôs à humanidade, representada por Adão e Eva, é a punição que o homem inventa para si, e consiste no preço da emancipação. Afastar-se da natureza é assumir o papel de construir o mundo e não mais o de mero personagem subjugado pela natureza. Ao passar de criatura (personagem) a criador (Narrador) o Homem torna-se responsável por suas mazelas - início da culpa, do suor. Antes, integrado à natureza como um bicho qualquer, era moldado pela natureza; ao se emancipar, impõe-se o trabalho da construção, daí as dores e o suor. O Éden representa a integração total, a ausência de responsabilidade mas também de liberdade.
- É uma interpretação interessante, sem dúvida.
- A língua é a extinção do poder destruidor tempo: vence a morte, desafia o tempo e o espaço - a princípio com a tradição oral e depois com a escrita. A imprensa consolidou e acelerou esse processo. Na realidade, acho que a mulher criou a linguagem. Eva prova o fruto, a palavra - fala -, vê que é bom e ensina a seu companheiro. A serpente é a língua: flexível, móvel, ágil. Fomos seduzidos pelas palavras que a serpente - língua - libertou. Eva não nasceu da costela de Adão; o homem é que veio à luz pela língua de Eva. O homem percebe a mulher, o feminino, e cisma que ela veio dele. Mas não é nada disso. A língua nasceu com a mulher, que ficava mais tempo em grupo, cuidando da prole. O homem, desbravador, saía para caçar, enquanto a mulher, em regra, permanecia num determinado local. Elas descobriram e dominaram essa serpente, criaram as palavras e nos ensinaram. No entanto, como o homem oprimiu e dominou, sua versão prevaleceu. Talvez a escrita seja uma invenção masculina. A fala se expande, é fluida, permite a confluência, é mais dinâmica, mais feminina. A escrita, registro, é o aprisionamento da oralidade.
- O fruto proibido representa a língua, então.
- Sim, é isso: o fruto proibido é a palavra; não é o que entra na boca, mas o que dela sai. Deus, que no princípio agia e falava, hoje está quieto: sentado, assiste ao mundo e a suas personagens. E junto à língua, nasceu a fé: criar e crer são inseparáveis. Ao mundo dado, natural, acrescenta-se - com o nascimento da comunicação - o mundo criado, construído, imaginado pelo Homem. Esse mundo exige, como pressuposto de sua existência, que se acredite nele, porque é um mundo narrado; e no fim tudo é narrado. O Homem se torna eterno, na medida em que suas idéias se tornam invulneráveis ao tempo e ao espaço; elas atravessam, por meio do discurso, as gerações. As idéias passam a durar mais que o homem, ou seja, a linguagem é o principal, primeiro, instrumento metafísico, pois faz com que as narrativas possam ir além da vida do indivíduo. Aí está a árvore do conhecimento. O Homem erige sua realidade com as palavras. O mundo natural - imagem, som, cheiro, matéria bruta - ao ser transformado em signos humanos permite sua apropriação e controle pelo homem, que o constrói e reconstrói como deseja, ou pensa que deseja.
- Gostei disso: a língua como o principal instrumento metafísico. Na verdade, tomamos as idéias, conteúdo, como fundamento da metafísica, mas a forma por si só é transcendente.
- Exatamente. E o capítulo de Gênesis que trata da Torre de Babel ratifica a importância da língua. Lá se diz mais ou menos que os homens decidiram edificar uma cidade e uma torre cujo cume tocasse os céus, e que se unissem sob um nome, para que não fossem espalhados sobre toda a terra. Deus foi ver a tal construção e constatou que os homens unidos (com “uma mesma língua”) tornaram-se totalmente poderosos, capazes de realizar o que quiserem. Diante disso, resolveu descer e confundir a língua, para que não houvesse acordo, espalhando-os, fragmentando o poder. Muitas interpretações podem ser dadas a esse segmento mas, seguindo o meu discurso, o trecho pode ser lido como uma demonstração de que o poder advém da língua, da comunicação.
- Sempre interpretei como pura megalomania do homem.
- Sim, é uma interpretação comum. No entanto, parece claro que a princípio os homens se uniram para construir “uma cidade e uma torre cujo cume tocasse os céus” (demonstração de força), e enquanto estiveram de acordo nada poderia retê-los (o homem aí reconhece o poder em si mesmo). Contudo, em seguida, a concentração gerou problemas, discordância, e a solução encontrada foi espalhar a gente pela face da terra. Note que a discórdia é representada justamente pela confusão das línguas, e que se aponta deus como causador da discórdia, diante da dificuldade de o homem assumir sua responsabilidade, o ônus de sua liberdade. Não é deus que espalha o homem, mas o próprio homem que se afasta, formando grupos, inventando diferenças.
- Por mais incrível que possa parecer (e talvez quanto mais incrível mais crível seja), admito: somos personagens! Pessoa tem razão: “somos contos contando contos”!
sábado, 25 de julho de 2009
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido"
Um amor não realizado é um dos sentimentos mais intensos que há. Perdoem-me pela frase feita, mas, tratando do tema, não consigo construir uma frase menos ordinária; talvez porque não haja de fato outra forma de falar da intensidade deste tipo de paixão.
Pode ser o mais estranho dos paradoxos, porém a verdade é que quando a paixão se realiza - quando se é correspondido - a intensidade do sentimento se transforma: as expectativas e os sonhos inerentes ao momento anterior ao início da relação perdem seu caráter místico para dar espaço à realidade.
É no momento que antecede a vivência (paixão ainda idealizada) que a intensidade e o desejo - e toda a fantasia que os acompanha - são mais fortes. Muito semelhante é o que ocorre com o amor que começou a se realizar, mas foi interrompido abruptamente na fase inicial; neste caso, é como se não houvesse realização e a fantasia preenche esta lacuna deixada pela frustração.
A dúvida é crucial neste processo. A princípio, nunca sabemos se seremos correspondidos, se o outro está sentindo o mesmo que nós; e é esta incerteza que fundamenta toda a fantasia sobre o futuro, que mais parece sonhar acordado. Esta mistura de medo e desejo é indescritível; somente a experiência da paixão é capaz de proporcionar tal sensação; as palavras (meros símbolos) ficam aquém do sentimento (como sempre); no entanto, mesmo tendo consciência da inutilidade das palavras diante da vida, insistimos em usá-las para expressar o inefável (mais um paradoxo que se impõe).
Nosso pensamento fica encharcado do intenso sentimento que o ser pelo qual estamos apaixonados provoca. Tudo nos faz lembrar dele; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício; e esta obsessão (podemos chamá-la assim) não é tanto pelo outro, mas pelo que ele (ser amado) desperta dentro de nós, o que faz da paixão algo muito próximo do narcisismo.
Com efeito, queremos encontrar o objeto da paixão a toda hora, desejamos ouvi-lo, tocá-lo, senti-lo; os limites entre nós e ele perdem-se e nossa vontade predominante é de fusão. Contudo, não é o outro em si o que desejamos em última instância; queremos sentir dentro de nós o que aquele ser desperta. Como assevera Nietzsche: “em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.”
Diante da paixão, passamos a ignorar a realidade da solidão, para acreditar que a separação (na verdade, invencível) é superável, desde que aquele ser específico nos acolha. A verdade (ou melhor, o que elegemos como verdade) torna-se o que sentimos pelo outro.
E é justamente este sofrimento, causado pela paixão idealizada, o sentimento mais utilizado pelos artistas românticos como base para sua criação. O amor deve ser refutado, a realização deve ser impossível ou pelo menos postergada ao máximo; o que importa é a paixão que antecede (que almeja, mas não alcança) a relação fantasiada.
Segundo Nietzsche, “o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.” E, como sabemos, o filósofo destruidor de ídolos era um crítico severo do romantismo, que para ele seria a “plebe sensual”, na medida em que o artista digno não é aquele dilacerado e enfraquecido por suas paixões interiores, mas aquele que sabe cultivar “o ódio ao sentimento, à sensibilidade (...), o ódio ao que é múltiplo, incerto, vago...”.
Afirma Nietzsche que “o herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído” pela contradição de suas forças internas. A verdadeira arte para o homem que declarou o óbito de deus seria a clássica, a qual refuta as emoções sentimentais; para ele são expressões do “grande estilo” - arte, portanto - o que fizeram os gregos, na antiguidade, e os franceses, no fim do séc. XVII.* E a arte, segundo o filósofo destruidor de ídolos, é essencial: ele a classifica como “força ativa” e chega a afirmar que “sem a música [arte], a vida seria um erro”.
Minha tendência é, tal qual Nietzsche, rejeitar o romantismo. Mas confesso que, em certos momentos, me identifico com a fraqueza, o vício, a obsessão, a doença inerente aos românticos, o que faz com que meu "realismo" caia por terra. Depois, quando volto ao normal (sim, porque a paixão é tudo menos normalidade), o "realismo" retorna ao comando e passo a observar a paixão de uma distância segura, ou seja, nos outros, não mais em mim.
Sobre o amor romântico, há uma música extremamente bela que representa perfeitamente o tema:
"Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
(Márcio Borges e Lô Borges)
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo
Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
A primeira estrofe demonstra o quanto o ser amado torna-se uma obsessão, uma vez que o Eu-lírico ao ver uma imagem da terra azul a associa ao vestido de sua amada. Como eu disse acima, “tudo nos faz lembrar dele [objeto da paixão]; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício.”
E a idéia da associação de todos objetos e cores ao objeto da paixão é retomada outras vezes na música:
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
Estes versos expressam o quanto a paixão domina: nosso pensamento passa a ter a cor das vestes de quem amamos; o girassol passa a ter a cor do cabelo dela; ou seja, estamos imersos no que o objeto amado representa para nós.
Esta música tem um significado muito especial para mim, pois me lembra a época da separação dos meus pais (eu tinha uns 3 ou 4 anos), na qual imaginava que meu pai a cantava para minha mãe - o que transformou esta canção na expressão sonora do meu desejo infantil de ver meus pais unidos novamente.
Sonhava acordado com meu pai perguntando à minha mãe:
"Você ainda quer morar comigo?
(...)
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
E não era nada absurdo o meu sonho, pois meu pai é um poeta e ainda morava na mesma rua. Dentro deste contexto, emociono-me demais com a beleza dos versos: “Se eu cantar não chore não / É só poesia” e “Se eu morrer não chore não / É só a lua”. São perfeitos.
Já faz muito tempo que aceitei a separação dos meus pais e hoje não nutro qualquer desejo de vê-los juntos. Sei que o tempo deles passou e a vida os presenteou com outras relações, que lhes trouxeram a realização que não conseguiram juntos. Mas esta música, apesar de continuar evocando estas lembranças da infância (e nunca deixará de evocá-las), transformou-se com o tempo: eu passei a ser o Eu-lírico: não vejo mais meu pai cantando para minha mãe, mas eu mesmo cantando para minha amada:
"Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
Nota:
* FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos; tradução Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Págs. 174 a 232.
Pode ser o mais estranho dos paradoxos, porém a verdade é que quando a paixão se realiza - quando se é correspondido - a intensidade do sentimento se transforma: as expectativas e os sonhos inerentes ao momento anterior ao início da relação perdem seu caráter místico para dar espaço à realidade.
É no momento que antecede a vivência (paixão ainda idealizada) que a intensidade e o desejo - e toda a fantasia que os acompanha - são mais fortes. Muito semelhante é o que ocorre com o amor que começou a se realizar, mas foi interrompido abruptamente na fase inicial; neste caso, é como se não houvesse realização e a fantasia preenche esta lacuna deixada pela frustração.
A dúvida é crucial neste processo. A princípio, nunca sabemos se seremos correspondidos, se o outro está sentindo o mesmo que nós; e é esta incerteza que fundamenta toda a fantasia sobre o futuro, que mais parece sonhar acordado. Esta mistura de medo e desejo é indescritível; somente a experiência da paixão é capaz de proporcionar tal sensação; as palavras (meros símbolos) ficam aquém do sentimento (como sempre); no entanto, mesmo tendo consciência da inutilidade das palavras diante da vida, insistimos em usá-las para expressar o inefável (mais um paradoxo que se impõe).
Nosso pensamento fica encharcado do intenso sentimento que o ser pelo qual estamos apaixonados provoca. Tudo nos faz lembrar dele; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício; e esta obsessão (podemos chamá-la assim) não é tanto pelo outro, mas pelo que ele (ser amado) desperta dentro de nós, o que faz da paixão algo muito próximo do narcisismo.
Com efeito, queremos encontrar o objeto da paixão a toda hora, desejamos ouvi-lo, tocá-lo, senti-lo; os limites entre nós e ele perdem-se e nossa vontade predominante é de fusão. Contudo, não é o outro em si o que desejamos em última instância; queremos sentir dentro de nós o que aquele ser desperta. Como assevera Nietzsche: “em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.”
Diante da paixão, passamos a ignorar a realidade da solidão, para acreditar que a separação (na verdade, invencível) é superável, desde que aquele ser específico nos acolha. A verdade (ou melhor, o que elegemos como verdade) torna-se o que sentimos pelo outro.
E é justamente este sofrimento, causado pela paixão idealizada, o sentimento mais utilizado pelos artistas românticos como base para sua criação. O amor deve ser refutado, a realização deve ser impossível ou pelo menos postergada ao máximo; o que importa é a paixão que antecede (que almeja, mas não alcança) a relação fantasiada.
Segundo Nietzsche, “o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.” E, como sabemos, o filósofo destruidor de ídolos era um crítico severo do romantismo, que para ele seria a “plebe sensual”, na medida em que o artista digno não é aquele dilacerado e enfraquecido por suas paixões interiores, mas aquele que sabe cultivar “o ódio ao sentimento, à sensibilidade (...), o ódio ao que é múltiplo, incerto, vago...”.
Afirma Nietzsche que “o herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído” pela contradição de suas forças internas. A verdadeira arte para o homem que declarou o óbito de deus seria a clássica, a qual refuta as emoções sentimentais; para ele são expressões do “grande estilo” - arte, portanto - o que fizeram os gregos, na antiguidade, e os franceses, no fim do séc. XVII.* E a arte, segundo o filósofo destruidor de ídolos, é essencial: ele a classifica como “força ativa” e chega a afirmar que “sem a música [arte], a vida seria um erro”.
Minha tendência é, tal qual Nietzsche, rejeitar o romantismo. Mas confesso que, em certos momentos, me identifico com a fraqueza, o vício, a obsessão, a doença inerente aos românticos, o que faz com que meu "realismo" caia por terra. Depois, quando volto ao normal (sim, porque a paixão é tudo menos normalidade), o "realismo" retorna ao comando e passo a observar a paixão de uma distância segura, ou seja, nos outros, não mais em mim.
Sobre o amor romântico, há uma música extremamente bela que representa perfeitamente o tema:
"Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
(Márcio Borges e Lô Borges)
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo
Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
A primeira estrofe demonstra o quanto o ser amado torna-se uma obsessão, uma vez que o Eu-lírico ao ver uma imagem da terra azul a associa ao vestido de sua amada. Como eu disse acima, “tudo nos faz lembrar dele [objeto da paixão]; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício.”
E a idéia da associação de todos objetos e cores ao objeto da paixão é retomada outras vezes na música:
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
Estes versos expressam o quanto a paixão domina: nosso pensamento passa a ter a cor das vestes de quem amamos; o girassol passa a ter a cor do cabelo dela; ou seja, estamos imersos no que o objeto amado representa para nós.
Esta música tem um significado muito especial para mim, pois me lembra a época da separação dos meus pais (eu tinha uns 3 ou 4 anos), na qual imaginava que meu pai a cantava para minha mãe - o que transformou esta canção na expressão sonora do meu desejo infantil de ver meus pais unidos novamente.
Sonhava acordado com meu pai perguntando à minha mãe:
"Você ainda quer morar comigo?
(...)
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
E não era nada absurdo o meu sonho, pois meu pai é um poeta e ainda morava na mesma rua. Dentro deste contexto, emociono-me demais com a beleza dos versos: “Se eu cantar não chore não / É só poesia” e “Se eu morrer não chore não / É só a lua”. São perfeitos.
Já faz muito tempo que aceitei a separação dos meus pais e hoje não nutro qualquer desejo de vê-los juntos. Sei que o tempo deles passou e a vida os presenteou com outras relações, que lhes trouxeram a realização que não conseguiram juntos. Mas esta música, apesar de continuar evocando estas lembranças da infância (e nunca deixará de evocá-las), transformou-se com o tempo: eu passei a ser o Eu-lírico: não vejo mais meu pai cantando para minha mãe, mas eu mesmo cantando para minha amada:
"Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
Nota:
* FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos; tradução Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Págs. 174 a 232.
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