ecos prosaicos
Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
terça-feira, 6 de outubro de 2026
O Estrangeiro, de Albert Camus
O Estrangeiro, de Albert Camus
Um dos romances mais marcantes do século XX, O Estrangeiro acompanha Meursault, um homem que parece viver à margem das emoções socialmente esperadas. Logo no início, ele é julgado não apenas pelo crime que comete, mas sobretudo por não ter chorado no enterro da mãe — como se a ausência de dor fosse um crime maior do que o próprio ato.
A partir disso, Camus constrói uma narrativa seca, direta e desconcertante, que coloca em cena o absurdo da existência: a vida não oferece sentidos prontos, e o mundo não responde às nossas expectativas de justiça ou lógica moral. É aqui que o pensamento do existencialismo (e sobretudo do absurdo camusiano) aparece com força — o homem está sozinho diante de um universo indiferente.
Meursault não “representa” emoções: ele simplesmente é. E isso o torna insuportável para a sociedade que o julga.
A obra ganhou também adaptações importantes. No cinema, destaca-se Lo Straniero, com Marcello Mastroianni no papel principal, trazendo uma leitura mais visual desse silêncio existencial do personagem.
No teatro, O Estrangeiro também ganhou montagens relevantes, incluindo uma adaptação brasileira que reforça como a obra continua atual — sempre desconfortável, sempre provocadora.
Camus não oferece respostas. Ele expõe o incômodo de existir.
O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura
Fui ler O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, por indicação da presidenta Dilma — e que indicação!
A trama é incrível: histórias que parecem distantes vão se entrelaçando numa narrativa que mistura ficção e personagens históricos, como Leon Trotski e Ramón Mercader. Aos poucos, cada trajetória ganha outro sentido no encontro com as demais.
Um romance sobre ideais, poder, medo e traição, que nos faz sentir a dimensão humana dos grandes acontecimentos políticos. Daqueles livros que continuam na cabeça muito depois da última página.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
José Saramago entre cegueira e lucidez
Dois livros de José Saramago para pensar o Brasil: Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez.
No primeiro, uma epidemia de cegueira branca expõe a violência, o egoísmo e a fragilidade da vida em sociedade — mas também a possibilidade de solidariedade. No segundo, uma votação maciça em branco provoca uma reação autoritária do governo, que passa a tratar a população como inimiga.
Minha leitura aproxima essas histórias da ascensão da extrema-direita no Brasil: a indiferença diante do sofrimento, o medo transformado em instrumento político e a transformação de quem discorda em inimigo a ser eliminado.
Saramago nos ajuda a perguntar o que acontece com a democracia quando a crueldade se torna aceitável e o pensamento crítico vira ameaça.
Duas leituras que recomendo para manter os olhos abertos — sobretudo para o outro.
Apocalipse nos trópicos, de Petra Costa
A gente tá vivendo um momento em que “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, se torna ainda mais necessário.
O documentário ajuda a compreender o que vem acontecendo no Brasil: o uso político da fé, a força das lideranças religiosas nas disputas pelo poder e as consequências disso para a nossa democracia.
Um filme que organiza acontecimentos que, no cotidiano, parecem dispersos — e nos faz encarar o país que estamos construindo (ou destruindo). Recomendo muito.
Disponível na Netflix.
terça-feira, 21 de julho de 2026
CIDADE DE DEUS: UMA OBRA ESSENCIAL SOBRE O BRASIL
Baseado no romance de Paulo Lins e dirigido por Fernando Meirelles, Cidade de Deus (2002) é um dos filmes brasileiros mais aclamados internacionalmente. A trama acompanha o crescimento da violência na comunidade Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e 1980, sob o olhar de Buscapé, um jovem que tenta escapar do destino imposto pelo crime.
Mais do que um filme sobre tráfico de drogas, Cidade de Deus é uma reflexão sobre desigualdade social, ausência do Estado e a reprodução da violência nas periferias brasileiras. Sua narrativa ágil, a fotografia marcante e as atuações memoráveis transformaram a obra em um marco do cinema nacional.
Ao mesmo tempo, o filme levanta debates importantes. Alguns críticos apontam que a estética vibrante e dinâmica pode transformar a violência em espetáculo, enquanto outros defendem que a obra expõe uma realidade frequentemente ignorada pela sociedade brasileira. Essa tensão entre denúncia social e entretenimento é parte da força e da complexidade do filme.
O livro de Paulo Lins aprofunda ainda mais as relações sociais, históricas e econômicas que moldam aquele universo, oferecendo uma visão mais ampla e detalhada da realidade retratada na tela.
Indicação: indispensável para quem deseja compreender as raízes da violência urbana no Brasil e refletir sobre os mecanismos de exclusão social que continuam presentes no país.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
JORGE AMADO: O BRASIL CABE NA LITERATURA
Poucos escritores retrataram o Brasil com tanta força, humanidade e contradições quanto Jorge Amado. Em suas obras, o autor baiano deu voz aos trabalhadores, pescadores, prostitutas, migrantes e personagens que muitas vezes ficavam à margem da história oficial.
Seus romances misturam crítica social, humor, sensualidade e uma profunda observação das desigualdades brasileiras. Livros como Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos continuam atuais ao abordar pobreza, preconceito, exploração econômica e as transformações sociais do país.
Sua obra também gerou adaptações marcantes para o cinema e a televisão, como o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, o filme Capitães da Areia e a novela Gabriela, que ajudaram a apresentar suas histórias para novas gerações.
Mais do que contar histórias, Jorge Amado construiu um retrato do Brasil popular, mostrando suas injustiças, sua diversidade cultural e sua capacidade de resistência.
Indicação de leitura: Capitães da Areia é uma excelente porta de entrada para conhecer sua obra. Um romance emocionante e crítico sobre infância abandonada, exclusão social e esperança. Merecem destaque também a Morte e a morte de Quincas Berro D'água e Capitão de longo curso.
domingo, 19 de julho de 2026
Identidades inventadas, verdades escondidas.
No filme Argo (2012), uma equipe falsa de cinema é criada para retirar diplomatas americanos do Irã em meio à Revolução Islâmica. A ficção se transforma em estratégia de sobrevivência.
No livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, Gabriel García Márquez narra a história real do cineasta chileno que, exilado pela ditadura de Pinochet, retorna secretamente ao seu país usando identidades falsas para registrar, com sua câmera, um Chile que o regime tentava esconder.
As duas obras mostram que, em tempos de exceção, representar um papel pode ser mais do que teatro: pode ser um ato de resistência.
Se em Argo a mentira salva vidas, em Miguel Littín clandestino no Chile o disfarce preserva a memória. Em ambos os casos, o cinema deixa de ser entretenimento para se tornar instrumento político, documental e, sobretudo, humano.
No fim, a pergunta permanece: quando a verdade é perseguida, quantas máscaras são necessárias para que ela sobreviva?
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