Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
pelas janelas da barca
sábado, 16 de abril de 2016
Visitando uma escola estadual ocupada
sábado, 10 de março de 2012
O furto
Data do fato: meados de 2008.
Depoimento do comunicante:
Não vou me resignar: houve um furto. E ainda que alguns entendam tal subtração como algo positivo - até mesmo desejável -, não tenho outro nome para lhe dar.
Como é comum, o ladrão, ao fazer sua defesa, procurou se livrar da acusação, chamando o furto de progresso - e o pior é que houve quem acreditasse! Mas o que ocorreu efetivamente foi uma lesão ao patrimônio.
Aos fatos. Moro em Niterói e trabalho no Rio, motivo pelo qual fui à estação das barcas. Para minha surpresa, quando lá cheguei, vi um painel luminoso informando que a duração da viagem era de 12 minutos. Achei que houvesse algum erro, porque a travessia sempre durou 20 minutos; pelo menos, desde que me lembro.
Depois de uns vinte minutos - é isso mesmo: o tempo da espera é maior que o da travessia! -, o portão da zona de embarque se abriu, e os passageiros, com a pressa habitual, dirigiram-se à embarcação. Esperei que os mais ansiosos passassem, como costumo fazer, e fui andando em direção à rampa de embarque. Porém não era a barca – a boa e velha barca – que estava lá, mas uma embarcação retilínea, simétrica e com duas faces idênticas – duas proas –, sem popa. Não perguntei nada; entrei e me sentei à janela, que, para minha tristeza era bem menor que a das antigas barcas.
Convenci-me de que havia sido furtado. E a lesão atingiu no mínimo dois bens de uma só vez: a duração da viagem, que foi reduzida de 20 minutos para míseros 12, e a vista da janela, que antes era maior e melhor posicionada.
O ladrão, contudo, apresentou o crime como benefício, dizendo que a nova barca era mais rápida e eficiente. Mas o fato é que não consigo mais ver o brilho do sol refletido na água, pois a janela nova, além de pequena, foi colocada nas alturas. Também fui privado do som das janelas, que trepidavam. E as cadeiras de madeira? E os minutos que eu tinha a mais? E os balcões que permitiam viajar ao ar livre?
Tenho certeza de que perdi oito minutos - dezesseis por dia, na verdade, já que sempre vou e volto -, apesar de dizerem que ganhei os tais 8 minutos. Se eu quisesse oito minutos bastava chegar mais cedo à estação. Por que não subtraíram esses dezesseis minutos da minha jornada de trabalho? Ou da viagem de ônibus? Não, os retiraram da melhor parte da viagem.
E como tenho o costume ler na barca, estes 16 minutos fazem muita diferença, principalmente nos dias de prova na faculdade; mal abro o livro e a barca já está chegando. Quando o livro é um bom romance, então, se torna ainda mais difícil desembarcar: semana passada, voltando do trabalho, absorto numa boa história, quase retornei ao Rio, em vez de desembarcar em Niterói.
A velha barca, que prefere o caminho ao fim, possui frente e verso, e, por isso, tem que dar um giro para virar sua proa para o destino. A nova tem duas proas e já abandona o cais apontando para o terminal. Perdi esta preciosa volta e, ao perdê-la, fui privado também do cálculo sobre o lado sol.
Explico: antes, quando embarcava, refletia sobre onde incidiria o sol durante o trajeto. No inverno, sentava-me no lado da sombra ao entrar, porque, depois de a lancha girar, tornava-se este o lado do sol. No verão, fazia o oposto, para ficar do lado da sombra. De dezembro a março, esquecer-se desse detalhe implicava chegar ao destino suado e irritado. Agora, infelizmente, já não penso em mais nada disso: o sol vai do início ao fim do mesmo lado, monótono e previsível.
Mas o pior foi a redução e elevação das janelas. Aposto que os engenheiros que projetaram as novas barcas moram no Rio e nunca vêm a Niterói; e mesmo que venham, devem preferir a ponte. As janelas hodiernas não permitem que se olhe o mar, parecem grades de tão pequenas; são semelhantes a janelas de ônibus, mas ainda piores, na medida em que são colocadas no alto, fora do alcance da visão. Para ver o sol refletido na superfície de água é preciso ficar de pé. Onde já se viu viajar pelo mar e não vê-lo?
E quanto aos balcões? A barca antiga possui dois balcões, um na popa e outro na proa. Havia até uma lancha mais velha, que tinha um alpendre na popa, o qual possuía bancos parecidos com os de praça mas com encostos móveis, permitindo que se escolhesse para que lado olhar durante a travessia; sem falar noutro modelo, que tinha, além dos balcões, varandas laterais com assentos - sem dúvida o melhor, na medida em que nos permitia viajar confortavelmente ao ar livre.
E para completar, não se pode deixar de falar doutra triste conseqüência do crime: a troca da saudação calorosa do comandante, feita ao vivo - ainda que algumas vezes (não poucas!) não entendêssemos nada do que falava - pela gravação de uma metálica e fria voz, que repete as mesmas insípidas advertências. Extinguiu-se a espontaneidade. Antes, o comandante podia nos desejar boa viagem, advertir sobre os perigos do mar, elogiar o céu, nos dar uma bronca, chorar etc. (embora geralmente se limitasse a nos desejar boa viagem). Mas agora só nos resta a gravação, sempre impessoal, monótona, vazia.
A evolução da barca foi acabando com as suas qualidades: a cada novidade a barca perde seu ar de passeio para se restringir somente a um meio de transporte. E ainda chamam isto de progresso! Não sou um saudosista inveterado nem um casmurro fechado às novidades: meu apego não é ao passado mas ao que é melhor. Se a nova barca tivesse grandes janelas e balcões, talvez eu até suportasse as duas proas e o furto de 16 minutos.
No entanto, o ladrão, apesar de sua crueldade, não levou tudo: durante os fins-de-semana são as barcas antigas que singram a baía de Guanabara, agradavelmente lentas e cheias de poesia. Convido, pois, os engenheiros navais, que são os autores intelectuais do furto, a viajarem, pelo menos uma vez, num domingo de sol, na vetusta e bela barca. Se eles tiverem coração, projetarão, da próxima vez, uma barca menos moderna e mais amiga da vida. Obcecados com a rapidez, os criadores da nova embarcação esqueceram-se – se é que algum dia souberam - de uma das maiores verdades: viajar de barca é como viver: o fim não é mais importante que o caminho a ser percorrido. E no que se transforma o caminho, se reduzem o seu tempo de duração e nos tiram as janelas e os balcões nos quais desfrutávamos a paisagem?
PS. O furto agora tem agravante: aumento da tarifa em 60 %.
sábado, 26 de junho de 2010
E agora, José?
Talvez o leitor, a princípio, possa achar a associação inusitada, mas olhando de perto perceber-se-á que o retorno à terra antes ocupada vincula diretamente os dois fatos.
Farei, inicialmente, um brevíssimo resumo dos acontecimentos.
Sobre Israel:
“Em novembro de 1947, as Nações Unidas recomendaram a partição da Palestina em um Estado judeu, um Estado árabe e uma administração direta das Nações Unidas sob Jerusalém. A partição foi aceita pelos líderes sionistas, mas rejeitada pelos líderes árabes, o que conduziu à Guerra Civil de 1947-1948. Israel declarou sua independência em 14 de maio de 1948 e Estados árabes vizinhos atacaram o país no dia seguinte. Desde então, Israel travou uma série de guerras com os Estados árabes vizinho e, como consequência, Israel atualmente controla territórios além daqueles delineados no Armistício israelo-árabe de 1949. Algumas das fronteiras internacionais do país continuam em disputa, mas Israel assinou tratados de paz com o Egito e com a Jordânia e apesar de esforços para resolver o conflito com os palestinos, até agora só se encontrou sucesso limitado.” [1]
A criação de Israel tem origem no sionismo, "movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado Judaico, por isso sendo também chamado de nacionalismo judaico. Ele se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX, em especial entre os Judeus da Europa central e do leste europeu, sob pressão de pogroms e do anti-semitismo crônico destas regiões, mas também na Europa ocidental, em seguida ao choque causado pelo caso Dreyfus.” (...)
Apesar de não haver evidência de qualquer interrupção da presença judaica na Palestina há mais de três milênios, é fato incontroverso o concurso de várias migrações substitutivas em massa, com a saída de judeus e a entrada de outros povos, notadamente árabes. (...) [2]
Sobre os Guaranis:
“Nas primeiras décadas do século XVI, quando o processo colonizador mercantilista ainda não havia compreendido com maior clareza a geografia humana nativa no continente sul-americano, os indígenas, que posteriormente serão chamados, genericamente, de Guaranis, eram conhecidos como carijós no Brasil e cariós no Paraguai colonial. O termo Guarani, que significa guerreiro, passou a ser empregado a partir do século XVII, quando a ordem tribal já estava bastante esfacelada por mais de 100 anos de exploração colonial, para designar um grande número de índios que viviam em aldeamentos pertencentes a grupos falantes de dialetos da língua Guarani da família linguística Tupi-guarani. (...)
A antiga e intensa política de ocupação dizimou a população indígena, todavia as populações desta etnia ainda mantém fortes indícios de unidade linguística e cultural, desenvolvendo sempre formas estratégicas relacionais diante das realidades nacionais com as quais são obrigados a conviver.
As populações guaranis contemporâneas vivem em pequenas reservas, acampamentos a beira de rodovias ou habitam ainda espaços geograficamente isolados. Suas principais atividades econômicas são a confecção e a venda de artesanato - cestas com taquara e cipó, estátuas em madeira e colares com sementes nativas - a coleta de raízes, ervas e frutos silvestres e o plantio de suas sementes tradicionais.” [3]
Por fim, a associação óbvia: se os Judeus, depois de milênios, têm direito de criar um Estado, por que os Guaranis não podem morar num sítio arqueológico em Camboinhas, Niterói?
Como se sabe, o litoral, há cinco séculos, pertencia aos índios, que, dizimados e deslocados ao longo da história, atualmente ocupam pequenas áreas. As razões que fundamentaram a criação, manutenção e expansão de Israel serviriam para legitimar o retorno de todos (os poucos que sobraram) índios descendentes dos que viviam no litoral.
A grande diferença é que os índios são uma minoria muito mais fraca e fragmentada. A terra que lhes pertenceu ontem é hoje propriedade, protegida pelo Estado. Os palestinos (agora minoria no território que ocuparam por séculos) tiveram que ceder suas terras aos "judeus israelitas", que voltavam ao "Sião". Os proprietários de Camboinhas (maioria), com certeza, não deixarão que os Guaranis se instalem.
Holocausto quer dizer imolação; etimologicamente relaciona-se à cremação de corpos em sacrifícios religiosos. Na história dos índios há vários holocaustos, embora não se fale muito deles.
O pior é que tais sacrifícios não fazem parte só do passado distante: há dois anos, ocorreu um incêndio aparentemente criminoso na aldeia de Camboinhas. Parece que o holocausto dos índios, apesar de não tão divulgado, continua.
E agora, José? Os judeus têm direito e os índios não?
(Foi difícil achar um vídeo sem propagandas...)
[1] Retirei o trecho da Wikipedia em 26/06/2010, às 12:05h - pt.wikipedia.org/wiki/Israel. Assim fiz para evitar que me acusem de maniqueísmo. O texto pareceu-me imparcial.
[2] Trecho também retirado da Wikipedia, às 12:14h - pt.wikipedia.org/wiki/Sionismo.
[3] Wikipedia, consulta realizada à 12:18 - pt.wikipedia.org/wiki/Guaranis.
Link para matéria de “O Globo”: g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL456844-5606,00-ALDEIA+EM+PRAIA+DE+NITEROI+OPOE+INDIOS+A+DONOS+DE+CASAS+DE+LUXO.html.
Link sobre o incêndio: webradiobrasilindigena.wordpress.com/2008/07/18/um-incendio-criminoso-ocorreu-na-aldeia-dos-indios-guarani-em-camboinhas-niteroi-rj/
Deixo claro (como já havia falado no texto anterior, em relação ao Saramago) que não tenho nada contra nenhum povo, etnia ou grupo social. Minha crítica se dirige apenas à forma como foi criado Israel.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Barcas: transporte público ou shopping?
Agora, o foco são as Barcas, que, em vez de melhorar a prestação do serviço, piora a cada dia. Embora tenham sido criadas barcas novas, mais modernas e rápidas, o tempo de espera na estação aumentou muito, visto que elas têm somente a metade da capacidade das antigas. A travessia demora 12 minutos (a barca tradicional demorava 20), mas a espera, nos horários de maior movimento, pode chegar a uma hora!
E, recentemente, para piorar, a empresa ainda substituiu algumas roletas por mesas de certa lanchonete localizada à direita - Estação Praça XV.
Como nós, usuários, ficamos esperando um tempão para embarcar, acabamos comprando lanches e outros produtos nas lojas situadas na estação; assim, ao gastarmos nosso dinheiro ali, a Barcas S/A lucra, pois, quanto mais compramos, mais valorizado se torna aquele espaço.
O consumo de produtos na estação está gerando lucro e a espera - criada pela própria empresa - beneficia esse comércio. Não é à toa que A ESTAÇÃO SE TRANSFORMOU NUM VERDADEIRO SHOPPING, com direito a propaganda em todos os lugares - nas paredes, nos bancos e até na fachada das embarcações, fazendo-as parecer um ridículo pacotão de sabão em pó!
Será que o lucro obtido dessa forma é abatido do valor da tarifa? Só quando houver transparência poderemos descobrir...
A estratégia da empresa é antiga. Vocês já devem ter reparado que os supermercados e lojas de departamento oferecem produtos baratos, de consumo imediato, situados justamente nos corredores onde se formam as filas para os caixas. Isso obviamente é feito de propósito, tendo em vista que a ansiedade da espera faz com que o consumidor gaste mais, adquirindo coisas que nem pensava em comprar quando entrou na loja - é quase um consumo automático, inconsciente. Quem nunca comeu chocolates ou balas enquanto esperava para pagar?
E o pior é que, segundo o liberalismo - opção do Estado brasileiro (ou imposição acatada) -, não existem cidadãos, há apenas consumidores. Sob essa perspectiva, não é só o transporte público que está se transformando em shopping, produto, mas também a saúde e a educação - o que é muito mais grave.
Voltando à questão do transporte, a meu ver, para demonstrar nossa insatisfação, deveríamos evitar gastar nosso dinheiro nas estações, para que nossa espera (que é cada vez maior!) não gere ainda mais lucro para a Empresa.
SE O COMÉRCIO E A PUBLICIDADE NÃO REDUZEM A TARIFA, POR QUE MANTÊ-LOS?
Nunca fui contra a beber um cafezinho, ao esperar 10 ou 15 minutos. Mas do jeito que está, a solução parece ser mesmo não consumir nada para não fomentar a indústria da espera.
Se continuarmos dando lucro fácil, a situação só vai piorar. O transporte público tem que servir ao cidadão e não se tornar fonte de exploração da iniciativa privada, que visa somente LUCRAR!

Foto da estação em 1958 - quando as barcas ainda serviam para realizar o transporte de cidadãos.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Muro disfarçado de ponte
Parece que as pontes, os meios de ligação, possuem barreiras, as quais se abrem apenas a uma pequena parcela da população. Embora projetados pelo Estado, certos caminhos e meios de transporte públicos são inacessíveis a grande parte da coletividade. A fim de refletir sobre essa questão, analiso uma obra do Município de Niterói: a estação hidroviária de Charitas, projetada por Oscar Niemeyer.
Olhando a construção da calçada, veem-se as embarcações (que levam os passageiros até o centro do Rio em 15 ou 20 minutos) e o mar. Todavia, observando-a da areia, vê-se a enorme favela que se ergue no morro em frente. A pergunta que faço é a seguinte: de que maneira o dinheiro público investido nesse empreendimento beneficiou a integração e não a segregação? Os moradores da favela do Preventório, que abriga grande parte das pessoas que moram no referido bairro, têm acesso à belíssima obra de Niemeyer?
(A Estação vista da calçada)
A resposta é clara: o público da estação hidroviária não mora em favelas. O bilhete hoje custa entre R$ 8,00 e 9,00 - mais de três vezes o valor da barca simples e quase duas vezes o valor da passagem dos ônibus que levam ao mesmo destino. Além da estação, há, no local, lojas cujo público alvo é a classe média e ainda um restaurante de luxo que ocupa o ápice da construção.
Ressalto que não sou contra a criação de novos meios para facilitar o tráfego de pessoas para o Rio; pelo contrário, reconheço a necessidade, tanto por conhecer a crise no trânsito em Niterói quanto pelo fato de que, como grande parte da população de Niterói, trabalho no Rio.
A questão é: por que o Município escolheu gastar dinheiro com esta obra específica e qual a parcela da população de Niterói é beneficiada?
Construir novas estações hidroviárias é importante, na medida em que desafoga o trânsito: as pessoas não precisam ir até o Centro de Niterói para pegar a embarcação até o Rio. Sem dúvida! Mas isso só seria relevante se o número de pessoas que os catamarãs luxuosos levam não fosse irrisório. Nos horários de pico, a barca leva 2000 pessoas e sai a cada 10 minutos. Os catamarãs levam 200 pessoas (10% da capacidade das barcas) e saem a cada 30 minutos. A viagem de uma barca equivale a 10 viagens do catamarã! Será que uma obra assinada por Niemeyer é um investimento proporcional ao ganho que de fato se obteve?
Quanto à segunda pergunta, é óbvio que o público da estação de Charitas é restrito, já que exige um gasto alto. Afinal, quem pode pagar mais que o dobro do que pagam os que vão de ônibus (pela ponte) ou barca (saindo do Centro)? Considerando que o mês possui em média 22 dias úteis (ida e volta) o valor mensal só com o catamarã - sem levar em consideração o preço do ônibus até a estação ou o estacionamento - é de R$ 396,00, ao passo que usando a barca o gasto mensal é de R$ 123,20 (e o preço da barca é caro – R$ 2,80), ou seja, menos de um terço.
Portanto, o que parece uma ponte, é na verdade um muro. Não só por essa barreira, mas também porque o ponto mais alto do prédio tem o acesso praticamente vedado àqueles que não puderem pagar caro por uma refeição. O que poderia ser um mirante, um museu, uma biblioteca pública ou uma praça - lugares acessíveis a todos -, é um restaurante de luxo. A obra é pública (seus gastos foram pagos pelo povo), mas os benefícios são privados, restritos a uma ínfima parcela dos habitantes da cidade. O engarrafamento para chegar ao Centro de Niterói piora a cada dia (já que a falsa solução individualista de comprar carros é na verdade uma das causas do problema) e as barcas populares continuam lotadas. Somente aqueles que podem pagar caro para passar pela roleta se livraram do problema. Uma "ponte" com roletas, guichês e bilhetes caros é um muro.
(O outro lado: o morro do Preventório visto da Estação)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Muros e pontes
Em vez de pontes, constroem-se muros. Bauman, sociólogo contemporâneo reconhecido pela profunda análise que desenvolve sobre a fluida pós-modernidade, escreve sobre a construção desses muros.
Em “Modernidade Líquida”, ao discorrer sobre “tempo/espaço”, o sociólogo descreve a cidade dos sonhos de G. Hazeldon - arquiteto inglês estabelecido na África do Sul -, a qual seria uma “versão high tech da aldeia medieval que abriga detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo”.
Qualquer semelhança com nossos condomínios não é mera coincidência: trata-se do mesmo fenômeno. Segundo o arquiteto, a principal questão hoje é a segurança; portanto, nada melhor que morar numa fortaleza segregada do mundo violento por “cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica, barreiras e guardas armados por todos os lados;” e dentro da cidade nada faltará: haverá lojas, igrejas, restaurantes teatros, áreas de lazer, florestas, playgrounds etc. e “há espaço livre suficiente para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa demandar no futuro”. É tudo bem simples: comprando uma casa no Heritage Park (nome da cidade de G. Hazeldon) ou em um supercondomínio da Barra, você viverá em paz e será feliz.
Tornar-se proprietário de uma unidade dentro desses oásis de segurança é a suposta solução para o problema. Mas de onde vem realmente a insegurança que sentimos? A solução é mesmo morar numa fortaleza, cujo acesso só é permitido a alguns? Não seria isso a redução do cidadão a mero condômino?
A “paz sem voz não é paz, é medo”. Cidadania diz respeito aos direitos políticos que permitem ao cidadão - habitante da cidade (do latim civitas) - intervir na direção do Estado, a fazer uso da voz, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e em sua gestão. A palavra “política” origina-se do grego antigo “politeía”, que tratava dos procedimentos relativos à polis, cidade-estado da Grécia antiga.
Como já alertado por muitos, a propagação do medo - fomentada pelas notícias sobre o perigo em cada esquina - é proporcional ao vertiginoso crescimento da indústria da vigilância. Será que a causa do nosso problema é mesmo a sempre acusada violência? A violência não seria uma conseqüência, um sintoma? Toda a insegurança que sentimos vem da violência?
Ao acreditar que o problema é a insegurança (cujas causas não são analisadas com clareza pela maior parte das pessoas) e, assim, aceitar a “solução” proposta, que consiste em se proteger do mundo segregando-se voluntariamente em um “espaço seguro”, o papel de cidadão é substituído pelo de condômino. Nesse contexto, a resolução do problema, que deveria advir da política (esfera pública) - atentando-se para as verdadeiras causas da insegurança -, passa à esfera individual: basta comprar um espaço seguro. Ao adquirir um apartamento numa fortaleza posso acabar com a MINHA insegurança. (Mas a insegurança não seria NOSSA?). Os condomínios-fortaleza são uma pseudo-solução individual para um problema coletivo.
Reduzir o problema a um de seus sintomas é negar a realidade e, desta forma, obstruir o caminho que deve ser tomado para alcançar uma verdadeira mudança. O discurso de que a violência é a causa de todos os males apenas aprofunda o abismo da segregação e reforça a pseudo-solução individualista. A solução eficaz não pode ser comprada; ela não está à venda no supermercado ou no shopping: a solução está além dos muros e fossos dos condomínios; a solução é construir pontes, tarefa que só pode ser executada por cidadãos.
A primeira foto (acima) decompõe-se em duas imagens, que representam, respectivamente, a segregação voluntária (condomínios de luxo) e segregação compulsória (favela):


Muros e pontes
Em vez de pontes, constroem-se muros. Bauman, sociólogo contemporâneo reconhecido pela profunda análise que desenvolve sobre a fluida pós-modernidade, escreve sobre a construção desses muros.
Em “Modernidade Líquida”, ao discorrer sobre “tempo/espaço”, o sociólogo descreve a cidade dos sonhos de G. Hazeldon - arquiteto inglês estabelecido na África do Sul -, a qual seria uma “versão high tech da aldeia medieval que abriga detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo”.
Qualquer semelhança com nossos condomínios não é mera coincidência: trata-se do mesmo fenômeno. Segundo o arquiteto, a principal questão hoje é a segurança; portanto, nada melhor que morar numa fortaleza segregada do mundo violento por “cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica, barreiras e guardas armados por todos os lados;” e dentro da cidade nada faltará: haverá lojas, igrejas, restaurantes teatros, áreas de lazer, florestas, playgrounds etc. e “há espaço livre suficiente para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa demandar no futuro”. É tudo bem simples: comprando uma casa no Heritage Park (nome da cidade de G. Hazeldon) ou em um supercondomínio da Barra, você viverá em paz e será feliz.
Tornar-se proprietário de uma unidade dentro desses oásis de segurança é a suposta solução para o problema. Mas de onde vem realmente a insegurança que sentimos? A solução é mesmo morar numa fortaleza, cujo acesso só é permitido a alguns? Não seria isso a redução do cidadão a mero condômino?
A “paz sem voz não é paz, é medo”. Cidadania diz respeito aos direitos políticos que permitem ao cidadão - habitante da cidade (do latim civitas) - intervir na direção do Estado, a fazer uso da voz, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e em sua gestão. A palavra “política” origina-se do grego antigo “politeía”, que tratava dos procedimentos relativos à polis, cidade-estado da Grécia antiga.
Como já alertado por muitos, a propagação do medo - fomentada pelas notícias sobre o perigo em cada esquina - é proporcional ao vertiginoso crescimento da indústria da vigilância. Será que a causa do nosso problema é mesmo a sempre acusada violência? A violência não seria uma conseqüência, um sintoma? Toda a insegurança que sentimos vem da violência?
Ao acreditar que o problema é a insegurança (cujas causas não são analisadas com clareza pela maior parte das pessoas) e, assim, aceitar a “solução” proposta, que consiste em se proteger do mundo segregando-se voluntariamente em um “espaço seguro”, o papel de cidadão é substituído pelo de condômino. Nesse contexto, a resolução do problema, que deveria advir da política (esfera pública) - atentando-se para as verdadeiras causas da insegurança -, passa à esfera individual: basta comprar um espaço seguro. Ao adquirir um apartamento numa fortaleza posso acabar com a MINHA insegurança. (Mas a insegurança não seria NOSSA?). Os condomínios-fortaleza são uma pseudo-solução individual para um problema coletivo.
Reduzir o problema a um de seus sintomas é negar a realidade e, desta forma, obstruir o caminho que deve ser tomado para alcançar uma verdadeira mudança. O discurso de que a violência é a causa de todos os males apenas aprofunda o abismo da segregação e reforça a pseudo-solução individualista. A solução eficaz não pode ser comprada; ela não está à venda no supermercado ou no shopping: a solução está além dos muros e fossos dos condomínios; a solução é construir pontes, tarefa que só pode ser executada por cidadãos.
A primeira foto (acima) decompõe-se em duas imagens, que representam, respectivamente, a segregação voluntária (condomínios de luxo) e segregação compulsória (favela):


