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terça-feira, 12 de março de 2019

As mil e uma jornadas (conto)

“Bom dia, doutora Clara”, disse o velho ascensorista à senhora que entrava no elevador.

“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E sem esperar resposta, continuou. “E então, o que aconteceu ao João da Baiana? O senhor não terminou de contar ontem...”.
“A doutora não vai acreditar. Como eu tava contando ontem, o João tava indo pra uma festa na casa de um senador, homem poderoso lá na época, e foi parado pela polícia. Quando explicou que era músico, que era do samba, acabou sendo preso! Assim, sem mais nem menos, só porque era sambista. Mas pode ser também porque era pai-de-santo, vai saber... A polícia não gostava nem de sambista nem de quem tivesse ligação com terreiro. O fato é que ele não apareceu na festa lá do político grã-fino, que sentiu falta dele (o tal senador era um fã do João da Baiana!), e quando soube da prisão, ficou foi muito bravo e mandou soltar na hora o Jão. E diz que depois disso, o tal político arrumou um jeito pra lá de criativo de garantir a liberdade do sambista. Mas isso eu deixo pra contar depois, doutora. Já tá chegando no andar da senhora e eu não vou ficar aqui atrasando seus compromissos...”
“Tá certo, seu Zé. É sempre assim, eu já até me acostumei. O melhor da história fica sempre pra depois. Bom dia pro senhor.”
“Igualmente, doutora.”

No dia seguinte, como já acontecia há muito tempo.

“Bom dia, doutora Clara”, cumprimentou o velho ascensorista. 
“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E prosseguiu, sem perder tempo, antes mesmo que a porta do elevador fechasse. “E então, como é que o tal senador garantiu a liberdade do João da Baiana?”
“A doutora não vai acreditar. O que dizem é que assim que o senador mandou soltar o grande sambista, também mandou que fizessem um novo pandeiro pra ele, com uma dedicatória do político, com assinatura e tudo! E era com esse pandeiro debaixo do braço que o Jão andava a cidade toda, ia a todo canto e dizem que nunca mais foi preso. Agora, veja a senhora, um pandeiro com dedicatória era o “documento” pra se livrar da perseguição da policia; e pra fazer música, ele gostava mesmo era de usar prato e faca: arrastava a faca no prato e saía samba. Pandeiro pra se identificar e prato pra tocar! Onde é que já se viu um a coisa dessas? Mas ele também arrebentava no pandeiro, não era só pra evitar cadeia, não. E não deixa de ser curioso o apelido do João: da Baiana. Mas isso fica pra outra hora, doutora, porque não vou aqui tomar seu tempo...”.
“Tá bom, seu Zé; eu tenho que ir. Mas eu quero ouvir a continuação - como sempre. Bom dia pro senhor!”
E a porta do elevador fechou, encerrando mais um capítulo.

No dia seguinte:

“Afinal, seu Zé, por que o João é da Baiana?”
“Pois então, o João é da Baiana e não é à toa; dizem que a mãe dele era uma das baianas que, como todos sabem, estão lá na raiz do samba. Já falei disso, a senhora sabe, mas não custa relembrar que a Cidade Nova, a Praça Onze foi o berço do samba e o morro da Providência, ali atrás da Central do Brasil, se confunde com a origem da favela. Pois era por ali naquela área que moravam as chamadas tias baianas, tão importantes na história do carnaval carioca. A mãe do João era uma baiana, que marcou o filho carioca com a sua origem. A mais famosa das baianas foi Tia Ciata, que era uma referência, participava ativamente, mãe espiritual do povo, fazia roupas de carnaval, cozinhava que era um absurdo e sua casa servia de sede dos sambistas, dos grandes compositores, uma casa que reunia todo mundo, uma verdadeira roda de samba. E dizem que o primeiro samba gravado (“Pelo telefone”) já rolava solto lá na casa de Tia Ciata, dizem que era folclórico e aí tem aquela polêmica, porque vieram o Donga e o Mauro e registraram a composição lá em 1916 ou 17. Esse negócio de ser dono da música dá pano pra manga não é de hoje; outra hora eu explico melhor, a doutora já chegou ao seu andar...”.
“Sempre fica um restinho de história... Bom dia pro senhor!”

A porta do elevador abria e fechava como a capa de um livro, com pequenas histórias que eram reveladas por poucos minutos a cada dia. Um narrador presente, de carne, osso e uniforme. Um narrador que contava pequenos trechos e sempre deixava um indício do que viria a revelar, a despertar curiosidade sobre o dia seguinte. Um narrador que fazia parte da história do edifício onde atualmente era o senhor e condutor do elevador. Fazia parte dessa história, porque foi um dos operários, um dos ajudantes de pedreiro que trabalhou na construção daquele prédio, muitos anos antes. E quando a obra estava quase pronta, nos últimos retoques, foi chamado para trabalhar naquele novo condomínio, como ascensorista. 
Nos primeiros tempos era empregado do condomínio e assim ficou por muitos anos. Mas depois, com a intenção de cortar gastos, o condomínio contratou uma empresa e o ascensorista passou a ser terceirizado. Foi mantido no seu posto, continuou como o senhor do sobe e desce, mas agora como empregado de uma outra empresa, com um salário mais baixo e sob a ameaça de ser mandado para qualquer outro prédio ou até demitido. Era considerado um bom funcionário desde os tempos da obra, e assim foi ficando no mesmo espaço, passando por diferentes patrões. Terceirizado, passou a ser uma mera concessão o fato de trabalhar ali e não em outro edifício, já que a empresa fornecia mão de obra a muitos condomínios pela cidade, e poderia colocá-lo onde bem entendesse. 
A empresa - bem diferente do condomínio com seu síndico - era um empregador sem cara, sem corpo, uma espécie de máquina de gestão, distante, abstrata. A pedido do condomínio, foi mantida a maioria dos antigos funcionários, entre eles o velho José; mas nada garantia sua permanência ali, pairava sobre cada jornada de trabalho a dúvida sobre a manutenção da antiga equipe. Um dos porteiros havia sido mandado para outro prédio, noutro bairro, e os faxineiros tinham sido demitidos. Não havia necessidade de tantos funcionários ali, gastos altos demais, segundo a análise da empresa. José foi mantido. Mesmo terceirizado continuou no mesmo prédio e na mesma função. 

“Bom dia, seu Zé. E a história de ontem, como continua?”
“Pois bem, doutora. A senhora sabe a confusão que é esse negócio de autoria; no samba não poderia ser diferente, né? Aquele disse me disse, as histórias que contam sobre sambistas que ouviam o samba de outro e saiam correndo pra gravar e registrar no seu nome, essa bagunça toda. Dizem que Heitor do Prazeres acusou Sinhô de roubar seus sambas, e este rebateu com a famosa frase: “samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. E foi de intrigas como essas que vieram as “brigas musicais”, aqueles sambas em que um compositor atacava, desafiava, provocava o outro, que fazia um samba de resposta, e aí tinha réplica, tréplica, um provocando o outro, e o povo curtindo, acompanhando, com torcidas, partidários, debates de defesa e ataque de cada um dos lados. Mas isso fica pra outra hora, que a doutora tem coisa séria pra cuidar.”
“Tá bom, seu Zé, depois a gente continua...”

E as histórias continuavam...

“Pois uma das maiores brigas musicais, uma das mais conhecidas e que rendeu muitos sambas de arrasar foi a que se deu entre Noel Rosa e Wilson Batista. Noel, que na época já era reconhecido, se envolveu com tudo numa disputa com o outro, que ainda estava começando sua carreira. Tem gente que diz que por trás das letras provocativas, das batalhas de samba entre os dois, estava a disputa pela atenção de uma mulher. Pensar que “Feitiço da Vila” veio daí... A verdade é que nem importa muito os motivos, as composições é que ficaram. E mais: diferente das brigas comuns que se veem por aí - que muitas vezes terminam mal -, essa arenga de sambas, além de bem humorada e cheia de arte, foi dar até em parceria entre os dois compositores, no “Deixa de ser convencida”. Também dizem que um dos grandes professores do ex-universitário da Vila foi Cartola. A verdade é que o mestre da Mangueira foi professor de muita gente e não poderia ser diferente. Falar dele e da Estação Primeira dá pano pra manga e agora não dá mais tempo; depois eu falo mais, doutora...”  

“Sobre a Mangueira há muito do que falar e em outras ocasiões já falei um bocado, espero não estar repetindo nada. Ouvi falar que a escola surgiu do Bloco dos Arengueiros, numa reunião de seus integrantes lá no Buraco Quente, no fim da década de 20, início da de 30. Cada um diz um coisa sobre o nome, uns que foi das árvores, da fruta, outros que foi da estação de trem inaugurada lá ainda no fim do século XIX, que já levava esse nome. Cartola cantou o nome e ficou: “Chega de demanda, chega/ com esse time temos que ganhar/ somos a estação primeira/ salve o morro de mangueira.” E sobre ser a Estação Primeira também não há certeza: alguns dizem que foi a primeira parada do trem, enquanto outros dizem que foi pra se destacar como a primeira a fazer samba ou até para destacá-la como a melhor; mas isso tudo tem pouca importância perto do que a Mangueira fez no carnaval, nas composições, nos desfiles. E realmente a Mangueira se fez primeira e isso eu conto depois...”

“Como eu estava dizendo, da última vez, a Mangueira fez jus ao nome, pois foi vencedora na primeira competição entre as escolas de samba, lá em 1932 e repetiu a façanha por mais dois anos seguidos, consagrando-se como tricampeã logo de início, além dos vários títulos que veio a receber depois. Mas isso não é de se estranhar com o time que a escola tinha: além de Cartola, Carlos Cachaça, dona Neuma, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Nelson Sargento, dona Zica, Hélio Turco, e mais tarde Beth Carvalho, Lecy Brandão, Alcione, entre outros grandes integrantes, que plantaram e fizeram crescer essa bela árvore do samba carioca. Fato marcante da escola se deu no ano da criação do Sambódromo, em 1984: com o enredo de homenagem à Braguinha (rei das marchinhas), a verde-e-rosa fez algo que nunca mais se repetiu: o povo pediu bis e a escola atendeu, fazendo o caminho de volta pela Avenida. Que coisa mais linda! E pensar que a primeira “escola” recusou o título e a disputa. Mas o caso é de deixar pra falar depois...”

“A verdade é que dizem que a primeira escola de samba - 'Deixa falar' - preferiu ser rancho, que na época era mais considerado que as escolas, e se recusou a participar do primeiro desfile dos “acadêmicos”. Pelo que contam, foi a pioneira na organização dos sambistas, reunindo na sua fundação Ismael Silva, Bide, Baiaco, Brancura e outros grandes nomes. Segundo dizem por aí, o nome “escola” veio da proximidade de uma instituição de ensino “normal” no largo do Estácio. E se havia rixa com outros sambistas de outros bairros, respondia o pessoal da escola, “deixa falar! É daqui que saem os professores!”. A escola que preferiu ser rancho durou pouco e acabou no ano do primeiro desfile, mas reza a lenda que o surdo foi criação de Bide e que foi essa agremiação que introduziu a cuíca na bateria. Não dá pra negar que os desfiles, mesmo de blocos, sofriam arbitrariedades, e é curioso que o nome de uma das escolas mais tradicionais tenha surgido do abuso de poder de uma autoridade. Isso fica pra depois, doutora. Bom dia pra senhora.”

“Como eu estava dizendo, o nome de uma das escolas mais tradicionais veio de uma sugestão (ou seria melhor dizer logo imposição?) de um delegado responsável pelas autorização dos blocos na cidade. Pois é. Contam que a 'Vai como pode' foi à polícia renovar sua licença, um delegado se negou a conceder a autorização, alegando que o nome era indigno para uma agremiação; disse que era melhor adotar a denominação 'Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela', já que os sambistas se reuniam na estrada do Portela. E a sugestão da autoridade não teve rejeição popular, porque os sambistas de Oswaldo Cruz já eram conhecidos na praça Onze como pessoal da Portela. O nome hoje é mais do que consagrado e a escola, além de grande campeã, lançou muitos grandes compositores, como Candeia, Zé Queti, João Nogueira, Monarco, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não eram só das autoridades que vinham arbitrariedades, preconceitos e injustiças. Amanhã eu explico melhor...”

“Como eu estava falando, as injustiças não vinham só das autoridades. Hoje as coisas estão diferentes, mas a verdade é que por muito tempo as mulheres não podiam se assumir como compositoras; mulheres não podiam assinar suas composições, elas eram obrigadas a ficar atrás dos homens, à sombra dos homens. Um machismo danado. Foi o que aconteceu com Dona Ivone Lara, quando era ainda uma menina e passou a escrever seus primeiros sambas. Durante muito tempo, suas composições foram assinadas por seus primos, integrantes importantes do Império Serrano. Só pelo fato de ser mulher era proibida de de ingressar na alas dos compositores. Somente lá pela década de 1970 é que Dona Ivone Lara se libertou das sombras do machismo pra brilhar na avenida, nas rodas de samba e nos palcos. E o Império Serrano tem já no início de sua história outros atos revolucionários, atos que deixaram pra trás aqueles que se meteram a ditadores. Que subida rápida, a porta já tá se abrindo, o causo fica pra depois...”

 “Bom dia, doutora. A senhora se lembra como antes a subida do elevador era mais lenta? Havia mais tempo. Quando comecei aqui, era eu que fechava a porta pantográfica, com minhas mãos. Eu fazia mais coisas, quem vinha aqui dentro via mais, e não tinha essa sensação de estar preso, completamente enlatado. Mas dizem que os avanços trouxeram mais rapidez, segurança, eficiência, e assim vai indo, também nas escolas de samba, com muitos avanços tecnológicos, regras, análises técnicas. Eu confesso que sinto uma certa falta da espontaneidade de antigamente. Talvez isso explique a volta dos blocos... Bom, eu tava falando da fundação do Império Serrano, que surgiu de uma dissidência da Escola Prazer da Serrinha contra o presidente ditador que foi capaz de impor um samba diferente do criado pelos compositores . Além de ter tido um resultado horrível, num ato revolucionário os dissidentes criaram a Império Serrano, que teve como maior princípio a democracia, ali todo mundo iria participar e opinar, sem tiranos. Outras escolas revolucionaram, mas agora me falta tempo pra desenvolver... Bom dia pra senhora.”

“Pode parecer algo muito comum e natural hoje em dia, mas a senhora sabia que no passado os enredos não tratavam do negro, da cultura e da história dos negros? Pois é. Hoje a gente vê um monte de enredos assim, mas dizem que isso começou com o Salgueiro, a vermelho e branco da Tijuca. O que dizem é que na década de 1950 o Salgueiro levou pra Avenida o enredo 'Navio negreiro' e assim colocou o negro como protagonista do desfile, inaugurando novos tempos e temas. Difícil imaginar que levou mais de vinte anos para aqueles que criaram o samba, a dança e até alguns dos instrumentos de percussão fossem pra Avenida, pros desfiles, cantar sua história e cultura. Eles eram donos da música, mas não se viam como tema da festa... Algumas mudanças foram pensadas, como essa aí do Salgueiro. Mas, segundo contam por aí, outras mudanças aconteceram sem querer. A porta já está aberta. Depois eu continuo...”.

“Pois uma inovação que dizem ter acontecido sem ter sido pensada com antecedência foi a paradinha da bateria. Bom, certeza não tenho. A senhora sabe que eu falo o que escuto por aí; tenho certeza de nada não. Bom, o que dizem é que o mestre André - um dos grandes integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel - inventou a paradinha sem querer: durante um ensaio, ele escorregou, caiu e os instrumentistas pararam. Pois o mestre não perdeu tempo, já se levantou fazendo sinal pro repique, que recomeçou no ritmo, nascendo daí a paradinha da bateria que hoje várias escolas fazem questão de fazer. E assim foi, teve coisa pensada e coisa espontânea. Coisa que se desenvolveu de forma mais ou menos espontânea foram os blocos, ranchos e escolas de samba.  Mas depois acabaram pensando em construir um lugar específico pros desfiles das Escolas de samba... A porta já está abrindo; bom dia pra senhora!”

“Pelo que dizem, o desfile lá no início era realizado na praça Onze. Depois, com as obras da avenida Presidente Vargas, o desfile foi deslocado; a partir de 1947, após o fim das obras na Avenida, passou a ser lá mesmo. Depois, com os passar dos anos, começaram a montar arquibancadas e a cobrar ingressos. Então, vieram as obras do metrô e o desfile foi pra avenida Presidente Antônio Carlos e em seguida para a rua Marquês de Sapucaí, ali pertinho da praça Onze. E lá no início dos anos 80, o Brizola encomendou ao Niemeyer o projeto de um local definitivo pros desfiles,. E foi daí que surgiu o sambódromo como conhecemos hoje. Também chamam de Passarela Darcy Ribeiro, que foi um dos mentores da construção que, além de local para desfiles e eventos, também abrigava salas de aula de CIEPs, aquele projeto de educação integral que depois foi abandonado pelos governos seguintes. Isso ninguém me contou, não, isso eu vi. Pra algumas coisas sempre falta dinheiro. Andam falando muito de crise, mas parece que algumas áreas estão sempre em crise, né? Já chegamos, doutora. Bom dia!”.

José continuou contando as histórias do samba e do carnaval carioca por mais algum tempo. Ele continuou com suas histórias até o dia em que saiu de férias e ao voltar encontrou um elevador hipermoderno já instalado. O novo elevador era muito avançado, eficiente e econômico, falava, tinha câmeras e até uma TV para exibir poucas informações e muita publicidade, gerando um ganho extra com publicidade. Um boato entre os funcionários já havia indicado que a empresa pretendia investir em tecnologia e cortar gastos em outras áreas. E assim foi feito: além dos novos elevadores, instalaram muitas câmeras, travas eletrônicas e outros equipamentos de segurança, tudo para controlar à distância, tornando desnecessárias pessoas no local, demitindo também os porteiros. Agora só havia pessoas nos serviço de limpeza, que eram trocadas com frequência pela empresa terceirizada.
  No seu último dia como empregado no prédio, José trabalhou como sempre, contando suas histórias. Durante o dia, a voz metálica, monótona e repetitiva emitida pelo novo elevador competiu com a voz do ascensorista: enquanto o homem conversava, se despedia e narrava trechos de episódios do samba, a máquina limitava-se a dizer os andares ao abrir a porta. José ainda brincou com a situação, dizendo que o elevador agora colocava um ponto final em suas falas, exclamando o andar, marcando a hora de desembarcar. 

“Bom dia, doutora Clara!”
“Bom dia, seu Zé! Como o senhor está? Só fiquei sabendo hoje que o senhor está nos deixando...”
“Bom, é a vida, né? A empresa é que decidiu que é a hora de eu deixar o trabalho, e tem essa coisa da crise, né? Esse elevador aqui é muito bom, faz tudo que a senhora puder imaginar!”.
“Essa crise não tá fácil, não; esse ano nem sei se vou fazer a viagem de férias que eu tinha planejado. Esse elevador pode fazer muitas coisas, até falar, mas com certeza não conta histórias.”
“Isso é verdade, histórias não conta, não, mas é muito rápido e eficiente, tem TV e tudo. Tecnologia de ponta!”
“Décimo sexto andar”, falou a voz metálica do elevador.
“Tão rápido que a senhora já chegou, olha aí, e ele avisou. A tecnologia tá em tudo, até no carnaval, doutora. Só não fizeram ainda robô compositor e robô passista...”.
“Verdade, seu Zé, verdade. Nem robô contador de histórias. Boa sorte para o senhor. Tudo de bom!”.
“Obrigado, doutora.” 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O sequestro (conto)

       Será que as palavras são como um cativeiro para o escritor? Será que aqueles que têm necessidade de escrever são reféns das palavras? As palavras são necessidade, vício, prisão ou liberdade? Realmente não sei, mas me parece que no caso o escritor é prisioneiro das palavras, já que apenas elas poderão libertá-lo.

Preso nessa sala abafada, ouço o barulho dos dedos nas teclas: ele está trabalhando, fazendo o que tem que fazer. Ele demorou dias pra começar a trabalhar. Parece que ele teve dificuldade de entender que só vai sair daqui quando a família pagar o resgate e ele entregar ao menos um conto policial.

Nós o pegamos quando ele estava num banco de uma praça próxima a casa dele, fumando um cigarro. Foi fácil. Paramos um carro roubado, com os vidros escuros, baixamos a janela do motorista e pedimos informações. Ele se aproximou e o pegamos, apontando uma arma. Ele não sabe, mas essa arma é de brinquedo. Ele, que escreve romances e contos policiais, que menciona nomes e detalhes de pistolas e revólveres, que é famoso por seus livros de detetives e criminosos, foi ironicamente rendido por uma arma de brinquedo.

A quadrilha tem sete membros, cinco homens e duas mulheres. A casa onde o colocamos fica na periferia, numa espécie de sítio. Nenhum de nós têm armas de verdade. Na realidade, somos um grupo de fãs dele que teve a ideia de sequestrá-lo para obrigá-lo a escrever alguma coisa boa, porque há anos ele não escreve nada que preste; para se ter uma ideia, a última coisa que ele publicou foi um livro infantil, isso depois de um de poesia há mais de três anos.

Ele se perdeu ou se vendeu, não sabemos bem, e queremos descobrir. Prosa infantil e poesia? É esse o trabalho dele agora? Onde está a prosa policial, a tensão, os crimes, a investigação, o submundo? Tudo indica que, ao vender os direitos de sua obra policial para produtoras de filmes, ele perdeu a inspiração para escrever novos livros desse gênero.

Mas já explicamos o que queremos dele e é bom ele se apressar porque não temos todo o tempo do mundo. Além disso, sequestrar e manter uma pessoa em cativeiro é algo complicado, exige muito de nós. Alugamos esse sítio usando disfarce e nome falso. Pra falar a verdade essa parte foi fácil. Escolhemos o lugar através de um site e pagamos a vista, por depósito bancário. O mais tenso foi pegá-lo e trazê-lo pra cá, pois alguém poderia ver nossa ação criminosa. Ou poderíamos ser parados numa blitz. Por sorte deu tudo certo e agora vivemos a tensão de mantê-lo escondido aqui.

Nós nos revezamos para ficar de vigia e o alimentamos quatro vezes ao dia. Ele come pouco, mas bebe e fuma bastante. Não tem ânimo para conversar conosco, mas nós forçamos a barra, fazendo mil perguntas e ameaçando se ele se recusa a responder. Estamos gravando as conversas, que também serão vendidas ao final, junto com o conto. Uma entrevista exclusiva e profunda, sob a mira de uma arma. De brinquedo, é verdade, mas ele não sabe.

Ontem de manhã ficamos tensos: havia uma viatura da polícia civil relativamente perto, em frente à padaria onde compramos comida com alguma frequência. (Estamos comprando mantimentos em locais diferentes pra não chamar atenção, mas volta e meia vamos a essa padaria, porque é próxima e cheia, ou seja, é mais difícil de notarem alguma coisa estranha). Os policiais estavam perguntando alguma coisa lá e não deu tempo de nos afastarmos; preferimos fazer a compra, pois chamaria menos atenção que entrar e sair sem levar nada.

Há alguns dias, no noticiário, a polícia informou que há um retrato falado de um dos sequestradores, apesar de não ter aparecido no jornal o tal retrato. Pensamos que se trata apenas de uma jogada dos investigadores para nos amedrontar e ver se o libertamos. A lógica é simples: a polícia diz ter um retrato falado, entre outras informações relevantes, e a quadrilha, assustada, desiste do sequestro e larga a vítima em algum canto da cidade. Ora, somos leitores de livros policiais e de jornais, conhecemos a lógica dos detetives.

A família alega não ter o dinheiro do resgate. Fazemos contato com eles através de celulares pré-pagos, com chips que qualquer um compra nas mãos de vendedores ambulantes. Mandamos gravações da voz dele para a família escutar: essas são as provas de que ele está vivo. Impossível eles não terem o dinheiro que pedimos. Ele vendeu toda sua obra policial pra grandes produtoras. É impossível que esse canalha já tenha torrado tanto dinheiro assim, a ponto de não ter grana pro resgate.

Todo dia o sequestro é noticiado, na TV, na internet, nos jornais. Esse puto vai vender mais ainda por estar sendo vítima do sequestro. O nome dele tá em todo lugar. Duvido que as editoras já não estejam se preparando pra relançar a obra dele. E a família dizendo não ter grana pro resgate, e assim a polícia vai ganhando tempo pra investigar o paradeiro do escritor.

Ele é uma pessoa simples, não faz muitas exigências e agora parece estar menos defensivo. Talvez seja a síndrome de Estocolmo. Esse puto deve ter um forte traço masoquista, até mesmo porque ele escreve sua ficção policial sob o ponto de vista dos criminosos. Geralmente, sua narrativa é em primeira pessoa, protagonizada pelos criminosos. A essa hora ele pode estar descrevendo o próprio sequestro, narrado por um dos sequestradores. Vai saber? Além dos cigarros, da bebida e de um dicionário, ele nos fez apenas uma exigência: que só podemos ler o conto quando estiver terminado; ele disse que nunca deixa alguém ler nada dele antes de concluir o texto. Aceitamos as exigências e estamos ansiosos com o resultado.

Ele parece mais baixo e magro pessoalmente, e também mais envelhecido. Adora comer carne vermelha e beber whisky, tem três filhos - duas mulheres e um rapaz - de dois casamentos distintos. Fica calado a maior parte do tempo, não é de falar muito, nem de reclamar. É hétero e diz nunca ter tido experiências homossexuais, embora um dos seus personagens mais famosos seja um criminoso gay. Dorme pouco, lê e fuma muito, gosta de filmes policiais e de drama, especialmente nacionais e europeus. Prefere gatos a cachorros. Além dos romances, dos contos e da poesia, se considera eclético e gosta também de HQs; disse que seus personagens criminosos são inspirados em vilões de quadrinhos. Como havia dado poucas entrevistas, não sabíamos disso. Talvez esteja mentindo, mas parece que não, pois deu detalhes acerca das influências. Curte jazz, rock, mpb e música clássica. Insiste que não é rico, que livros não dão a grana como a maioria das pessoas pensa.

Anteontem ouvimos sirenes aqui perto e quase fugimos. Na verdade, chegamos a fugir; o deixamos trancado, pegamos o carro e saímos. Mas depois de um tempo, quando percebemos que as sirenes se afastaram, voltamos. É uma puta tensão sequestrar alguém e manter em cativeiro. O sequestro é classificado como crime permanente no Direito, por ser um delito cuja consumação se prolonga no tempo, enquanto a vítima estiver nas mãos dos sequestradores. O homicídio, por exemplo, é um crime classificado como instantâneo de efeito permanente, porque a consumação se dá num só momento - com a morte da vítima -, cujo resultado é irreversível, logo de efeito permanente. Ou seja, essa classificação do Direito leva em conta a duração do momento consumativo.

Assim, sequestrar alguém é muito arriscado, muito mais que matar e roubar, já que o criminoso tem de manter a vítima sob seu poder; ainda mais arriscado quando envolve a extorsão da família. E a pena é alta. O sequestro puro, sem extorsão, previsto no artigo 148 do Código Penal, tem pena de reclusão de um a três anos. Já a extorsão mediante sequestro tem a pena de oito a quinze anos, e aumenta pra doze a vinte anos, se dura mais de 24 horas e o crime é cometido por quadrilha (artigo 159, parágrafo primeiro, do Código Penal). Nosso caso é justamente esse, ou seja, nossa pena mínima, caso a polícia nos pegue, é de doze anos. Pra se ter uma ideia do risco, no homicídio simples a pena é de seis a vinte anos de reclusão.

Nossa ideia de sequestrá-lo surgiu de uma conversa: queríamos dinheiro, emoção e um novo conto do nosso autor preferido. Melhor seria um romance, mas aí seria perigoso demais, porque precisaríamos de mais tempo. E tempo é algo escasso num sequestro, ainda mais quando sabemos que não vamos machucá-lo ou matá-lo. Ele não sabe, nem sua família, e é bom que pensem que estamos dispostos a tudo, porque assim eles se coçam e fazem o que tem que fazer.
 
A tensão está aumentando. Venho descrevendo o sequestro aos poucos, à medida que os dias passam. Pois nessa manhã saiu o tal retrato falado e é bem parecido com o R. Não temos ideia de quem possa tê-lo visto, porque o carro usado na captura tinha os vidros escuros, mas o fato é que o viram. Ligamos logo para a família pra tentar agilizar o recebimento do dinheiro e no desespero até baixamos o preço do resgate, mas não deu certo. Na certa, eles estão sendo orientados pela polícia, que pode estar perto de nos encontrar.

Ouço barulho de sirenes, é hora de sair daqui rapidamente...

Epílogo

O conto foi escrito por exigência dos sequestradores, que me mantiveram em cativeiro por duas semanas, até que a polícia descobriu o local e me salvou. Além do dinheiro que cobraram da minha família - quantia alta que não tínhamos -, eles me obrigaram a escrever um conto policial, que pretendiam vender para um fã do meu trabalho como escritor. Tudo indica que esse fã foi o autor intelectual do delito. Provavelmente nunca saberei quem fez essa encomenda macabra, já que ninguém foi preso na operação de resgate. A polícia estima que a quadrilha receberia uma boa grana pela obra. Pergunto-me por que o criminoso que teve essa ideia não me fez essa proposta diretamente, porque eu a aceitaria com certeza. Os detetives, no entanto, dizem haver indícios de que o autor intelectual do meu sequestro queria que a obra fosse produzida em cativeiro e sob estresse. Acho que ele não sabia que considero a vida um cativeiro e que sempre escrevo sob estresse, já que dependo disso pra viver. Fato é que eu estava afastado da ficção policial e o crime do qual fui vítima me reaproximou. No local do cativeiro, a polícia encontrou duas armas de brinquedo, um notebook com anotações sobre o crime, além de celulares e um gravador. Embora parte da crítica me acuse de ter simulado o sequestro como jogada de marketing, eu fui realmente sequestrado, como noticiaram os jornais.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Julieta (Almodóvar, 2016)

Julieta, filme de Almodóvar, se baseia em contos de Alice Munro (escritora canadense). Sem as cores fortes características do cineasta, a narrativa gira em torno da culpa que a protagonista sente em relação à morte de um desconhecido e também de uma pessoa próxima, com o afastamento de familiares. Culpa ao cubo e para além das gerações. 

Dessa vez Almodóvar não criou uma trama mirabolante: todo suspense do filme se resume mais à esfera dos sentimentos. Cria-se uma expectativa de revelação trágica, numa tensão crescente. 

O longa faz referências diretas ao drama grego e à Odisseia, havendo uma cena em que há aula sobre trecho no qual Odisseu recusa a oferta de Calipso, expondo na aula os diferentes termos gregos para designar “mar”, sendo que um dos significados tem a ver com desafio. Excelente a atriz que interpreta a mãe na juventude, Adriana Ugarte. Recomendo.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

eNe

Às bocas e aos olhos os poetas sempre dedicaram seus versos mais intensos, graves até, e belíssimos adjetivos. Encontros e despedidas de olhos, olhares, lábios... Mas ninguém se mete a escrever sobre o encontro de narizes, esse prosaico encontro que afeta os apaixonados; às vezes - muitas vezes - os narizes se encontram antes das bocas. Bom, falo por mim, pois meu nariz é um tanto ousado, mete-se na frente da boca, nos momentos em que geralmente os olhos já estão perdidos.

E as musas - bocas e olhos - implicam demais com o nariz: os olhos exigem narizes mínimos; tenho quase certeza que fumar foi um jeito que a boca arrumou para passar a frente do nariz. Além disso, os lábios vivem falando mal dos narizes: quanto maiores, maior o escárnio.

Quando os poetas escrevem sobre o nariz é na base da mofa; ninguém fala sério do coitadinho. Cyrano de Bergerac nada mais é que um homem fugindo da sombra (enorme) de sua nareba.

Neridos namigos neitores, nestou num nilema nanado! (Sentiram o poder das narinas?).

Meu dilema é o seguinte: não sei se repito trinta ou mais vezes o termo nariz ou se vou trocando por órgão do olfato, venta, focinho etc. Porque na verdade todos esses termos não são tão bons como nariz.

Parece-me que a melhor solução é usar nase (alemão), nez (francês), naso (italiano), nose (inglês), ou seja, trocar a língua e não a palavra. Ou então usar o N, que é a letra fetiche do nariz em todas as línguas pesquisadas; o nariz é o ene do rosto. O ene, sobretudo, é o som nasal.

Por favor, repitam comigo: nasal, nariz, ene, narinas – sintam a vibração do naso!

O eNe, que já foi acusado pela infelicidade do mundo e até apontado como possível responsável por um eclipse (coisa de Bocage) [1], é na realidade vítima da sociedade, do homem. Pode o homem sorver o ar - a vida - pelo nariz e zombar dele pela boca? Devemos-lhe o ar que respiramos e no entanto pagamos-lhe com desacatos!

O nez não tem boca para se defender e por isso espirra! O naso lacrimeja triste: o resfriado é sua revolução! Todo poder às narinas! O que seria da boca sem o nariz? Tapem o nez e falem: ouçam a voz maculada pela ausência do eNe.

O N, tadinho, é o nosso bode-expiatório: isolado, culpado, condenado, extirpado. Ou pelo menos reduzido, covardemente reduzido. Portanto, à sua defesa, que é a defesa da verdade.

Chega de bisturis! Chega de cirurgias que fazem do eNe um i de tão fino! Daqui a pouco os noses serão metafísicos, como no conto o segredo do Bonzo [2], de Machado de Assis. As mulheres estão em guerra com seus eNes e alguns homens andam aderindo a essa cobarde batalha. Extirpar o nariz é esvaziar-se de virilidade; perdoem-me o radicalismo, mas um homem com ene pequeno é quase uma mulher. Não, isso não é autopromoção!

Se há alguns séculos as mulheres usavam vestidos que aumentavam os quadris, hoje a moda é reduzir os enes. Seios grandes e narizes pequenos, eis a mulher contemporânea. As atrizes estão todas desnarigadas! Qualquer dia, vão cair desmaiadas por aí. O motivo? Falta de oxigênio! É bom lembrá-las que o nariz serve para respirar também. Só as comediantes podem ostentar um N maiúsculo, um eNe histriônico - só elas são livres.

Podem rir de mim, mas admiro ferrenhamente as mulheres que não mexem nos narizes e ainda mais as que não alteram nada, sequer a cor dos cabelos. Porque as nossas meninas andam comprando de tinta de cabelo a orelhas pequeninas.

Além disso, historicamente, o ene é um símbolo do poder. A monarquia não está no trono, na coroa ou no cetro; a monarquia sempre esteve no nariz: pior que guilhotinas, seriam os cortadores de narizes. O eNe empinado é o símbolo da aristocracia. Reis são sobretudo narizes imponentes.

Ainda escrevo um tratado político sobre o nariz. Maquiavel deixou passar uma observação que o tornaria célebre: príncipe que é príncipe tem grande naso! E o nariz, sendo grande, tudo justifica. Deve-se ter coragem para sustentar o nariz em pé; aí esta o poder. Naquiavélico!

Talvez seja por isso que os palhaços têm bolas vermelhas como nariz, pois a alma do palhaço é o saliente eNe colorido. Não se pode rir do poder, logo o homem cuja função é fazer rir precisa fantasiar o seu nez. O palhaço, com sua bolota vermelha no meio do rosto, é um ser despido de decoro e portanto de poder. (Embora o poder muita vez seja indecoroso e os palhaços, dignos.)

E mais: se eu tivesse que escolher um ícone para a arte pós-moderna, escolheria o eNe. Ele se tornou um objeto deslocado: não serve mais para respirar e cheirar (serve cada vez menos pra isso), serve apenas como objeto estético, imagem no rosto. Rosto que é museu, produto ou sei lá o que; rosto puro, face de um ser, não é.

Revolte-se, eNe! Chega de sofrer! Está na hora de se assumir e crescer, se impor, virar tromba! Viva o elefante!

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sábado, 7 de maio de 2011

Personagens (conto)


- Fôssemos personagens - pura imaginação de um escritor qualquer -, seríamos mais reais do que julgamos ser!
- Como assim?!
- O homem é um ser virtual. O homem é, em última análise, um ser cuja natureza comporta (exige, na verdade) a irrealidade; é um ser virtual, visto que a ficção lhe é intrínseca.
- Confesse que você decorou essa frase! Agora explica.
- É mais simples do que parece. A ficção faz parte de nós: somos reais e irreais, e o que estou defendendo é que no fundo somos mais ficção que fatos.
- Você anda lendo demais! Ficção é ficção e vida é vida! Como somos mais ficção?
- É simples! – respondeu. – Estamos aqui conversando pacificamente. Essa é a realidade. Mas se saio daqui e resolvo contar a um conhecido nosso que a gente discutiu, ele provavelmente acreditará na minha narrativa. E se ele encontrar outra pessoa que nos conheça, repetir minha invenção e isso se espalhar, será como se tivesse acontecido mesmo. Não vai demorar muito para nos perguntarem o que houve conosco...
- Isso até me encontrarem: aí vou explicar que você está louco!
- Vão achar que você está ressentido e inventou esse papo de loucura!
- Cara, essa idéia sua não é nada mais que a velha frase “uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade”...
- Não, não é isso; minha idéia vai além. Há hoje uma tremenda discussão sobre o mundo virtual, sobre as loucuras da pós-modernidade. Porém, o que os alguns pensadores apontam como algo recente, eu julgo inerente ao homem.
O amigo, olhos baixos, apenas ouvia.
- A capacidade humana de se comunicar, de usar a linguagem, a escrita, bem como o poder de vislumbrar o futuro, analisar o passado e compará-los, faz do homem um ser criador, apto a inventar outros mundos, os quais começam com as idéias e transbordam pela boca, pelas palavras, tornando-se, assim, objeto do conhecimento de outros homens. A discussão atual parece errar ao confundir uma manifestação com o fenômeno em si, que é tão antigo quanto o ser humano. O mundo virtual é somente a ficção da atualidade; apenas os meios pelos quais se expressa são novos, pois as criações humanas influenciam e determinam a vida há muito.
- Mas daí a dizer que o homem é virtual não haveria uma grande diferença? – indagou o amigo, agora um pouco mais compreensivo.
- Não, de forma alguma. O homem é mesmo virtual: o homem nasceu com a palavra. O ser que antecedeu o homem não conhecia a língua e portanto era um só com a natureza. Um dia, porém, o som gutural, que era o único que o ser que veio a se tornar o homem conseguia emitir, explodiu e se expandiu em fonemas, e com as palavras surgiu o homem. O Homem é fruto do Verbo. O som gutural - a matéria e a energia comprimidas - depois de rebentar, se expandiu, e ainda hoje avança. As palavras, matéria de que o mundo é feito, são constituídas pelos fonemas, letras, átomos que o homem manipula para construir o que chama de realidade. Nós inventamos, criamos teorias e erigimos com base nelas não só a História mas também narrativas que tudo explicam; falo não apenas da religião, pois a ciência também nasce como ficção - e às vezes subsiste bastante com essa natureza -, se é que algum dia deixa de ser discurso para se tornar fato...
- Isso lembra Nietzsche, forças ativas e reativas, não?
- Sim, com certeza! Quando ele diz que força reativa é “vontade de verdade” que se nutre da mutilação de outras forças, percebe-se claramente sua natureza ficcional. Ao defender uma teoria refutam-se as demais que tratam do mesmo assunto. A força ativa, por sua vez, enuncia valores sem os discutir, sem tentar provar a legitimidade, sem aniquilar outras manifestações, uma vez que não pretende definir qualquer verdade. Nesse contexto, a poesia é mais fiel que a ciência, a religião e a filosofia, na medida em que não pretende enunciar a verdade. Poetas não se excluem! A Odisséia é mais coerente que as leis! Ulisses sempre será Ulisses, enquanto as leis e os Estados fundamentar-se-ão nos mais diversos discursos. Só a arte nasce e subsiste perfeita: o que chamamos de realidade é pura contradição. Esse diálogo, por exemplo, é uma manifestação ficcional que a priori não deveria se assumir como tal, tendo em vista que o que defendo aqui (e quando defendo já estou propondo uma “verdade”) esbarra noutras teorias. Se eu quisesse pureza, deveria escrever uma obra literária sobre isso!
- É, de fato, a ciência e a religião são discursos e as “verdades” que enunciam não são realidade. Mas isso não faz do homem um ser virtual!
- É claro que faz! E desde que o homem é homem é assim: a letra escura sobre a página clara, a idéia que faz nascer mundos lá fora. Ouça: o homem surgiu com a palavra, com capacidade de inventar, e se antes as letras eram os átomos com o quais o homem trabalhava para construir seu mundo, agora, na era digital, na pós-modernidade, somos capazes de intervir nas imagens, de construí-las e de propagá-las com incrível rapidez. Questiono as teorias atuais sobre a realidade (olha aí a força reativa atuando!): até que ponto a ficção, embora sob manto da religião ou mesmo da ciência, já não exercia essa função de alienação, de distanciamento, de intervenção, de criação de mundos imbricados. A noção de realidade nunca foi unívoca! Veja a religião: durante muito tempo ela exerceu papel crucial na concepção de “realidade”, e ainda exerce em alguns grupos. Sempre existiram mundos outros que se confundem com o “real” (é, na verdade, impossível distingui-los), e isso, repito, não é exclusividade da pós-modernidade!
- O que diz faz sentido, mas não consigo aceitar que não haja distinção...
- Mas não há! Queremos enxergar a realidade como algo puro, mas isso é impossível; de perto tudo é discurso, tudo é palavra. A diferença é que a arte se assume como tal, enquanto o “mundo virtual” pós-moderno muitas vezes se nos apresenta como se realidade fosse. Contudo, isso também acontecia e acontece com ciência, ou seja, com idéias que prevaleceram - e ainda prevalecem - em determinadas épocas e grupos, como, por exemplo, a “superioridade masculina”, que imperou como “verdade” durante muito tempo (e impera ainda em alguns lugares). Poderia citar ainda a superioridade de uma certa etnia. Essas imbecilidades perduraram séculos! E o que eram? Invenções, com manto de ciência, eleitas como verdade por certo grupo. Você, com certeza, crê cegamente em teorias científicas que, mais cedo ou mais tarde, serão consideradas patéticas.
- Isso se aplica à cultura, ao mundo construído, mas não à natureza, ao mundo dado!
- Ouça: até os elementos puramente físicos sofrem influência do homem, visto que narramos teorias que pretendem explicar a origem das coisas. Se disserem, por exemplo, que uma pedra está em determinado lugar porque deus quis, essa pedra torna-se sagrada. Se, no entanto, falam que a pedra está a ali por acaso, posso destruí-la sem problema. Temos hoje o discurso científico, que pode defender a importância da tal pedra para o equilíbrio da natureza e conseqüentemente para o homem, razão por que a bendita pedra tornar-se-ia sagrada, intocável...
- Realmente, ao saber das origens, tratamos os objetos de forma diferente, mas...
- Pois é, aí está! Quando uma narrativa é tomada como real (seja uma teoria cientifica, seja uma reportagem jornalística ou sei lá o quê!), o que é considerado verdade ganha status de real e se constrói como fato. Sem dúvida, a ficção, hoje, vai mais longe, com mais rapidez, e o consumismo instituiu novos signos. Porém, as palavras proferidas por um padre, na Idade Média, também afetavam os ouvintes, assim como as teorias científicas que pregavam a eugenia. Há pouco executavam-se pessoas com base nessas supostas verdades! Ora, uma marca é um símbolo vazio da mesma forma que a virgindade! Não sou defensor do “mundo virtual” pós-moderno - pelo contrário! Penso que ele deve ser analisado, criticado, questionado; afirmo apenas que ele não passa de uma nova manifestação de algo antigo. O homem é um ser virtual e as palavras são a matéria de que seu mundo é feito.
- Você tem razão, admito; mas não deixa de ser discurso...
- Sim, tudo é; pelo menos, eu assumo a fragilidade do que digo. Agora que você finalmente cedeu, gostaria de falar sobre o início de tudo. Na verdade, é muito claro: a criação é o verbo, o fruto proibido é a linguagem e deus é a Narrativa. O velho testamento nunca escondeu isso; os exegetas que ficam personificando, criando - o que é muito natural, aliás, mas sem dúvida confunde os demais intérpretes.
- Como assim “o fruto proibido é a linguagem”? Isso não é nada claro...
-Você já leu Gênesis?
- Já.
- E nunca se deu conta de que o Verbo é tudo?
- Sim. Há outros que falam disso; mas você está dizendo que o fruto proibido é a linguagem!
- Obviamente. O verbo é tudo. Nomear é criar. O nome é um dos primeiros atos ficcionais da vida do indivíduo. Somos personagens; quando nascemos, já possuímos um nome, dado pelos nossos pais, que agrega uma vontade e uma história. A linguagem é requisito do verbo. A narrativa bíblica não afirma que deus criou a luz, o firmamento... Ao descrever a criação optou-se por deixar claro que tudo foi criado por meio de discurso do criador: usa-se todo o tempo o verbo dizer: “deus disse: que a luz seja, que haja um firmamento...”.
- Sim, isso é verdade, mas é deus quem fala, o poder é deus.
- Como já disse, o ser que antecedeu o homem não conhecia as palavras. Um dia, porém, o som gutural explodiu e se expandiu em fonemas, e com as primeiras palavras surgiu o Homem. O Homem é fruto do Verbo. O homem é personagem e narrador do seu discurso. Deus é o Verbo, o Poder e a Narrativa que pretende explicá-lo. A língua emancipou o homem da natureza; os fonemas e as letras são os átomos - o discurso é a energia que os une.
- Nunca havia pensado dessa forma... Não é à toa, então, que ele é “o alfa e o ômega.” Ele não é só o princípio e o fim, ele é o alfabeto.
- Ao controlar o som, as letras, os seus átomos, e assim inventar o seu mundo, o Homem passa de criatura a Criador e se aparta da natureza. Enquanto no mundo natural o homem é apenas personagem, no mundo que ele concebe, é também autor. E, como Narrador, o Homem concebe sua primeira criação: deus (que na verdade nasceu como deuses, que personificavam as forças da natureza) - a mais drástica das criações, por ser a primeira e se apresentar como real. A Narrativa, portanto. Deus foi crucial à transição do homem ao papel de Criador.
- Mas por que criar deuses?
- O Homem, ao falar, se vê apartado da natureza. A palavra arrancou o homem doparaíso; o suor do rosto e o sofrimento são conseqüências do papel de Narrador. Lutar com palavras não é a luta mais vã - talvez seja a única relevante -, por isso lutamos – e suamos e sofremos – mal rompe a manhã. O homem inventa deus, porque se assombra consigo mesmo, com o seu poder; ele o cria e nele crê para que deus represente sua força criativa - talvez pela incapacidade de conceber tamanho poder em si mesmo. O homem, que sempre foi personagem (sem saber, a princípio), de uma hora para outra – em virtude da linguagem – se vê como Narrador e isso o espanta!
- Deus, então, seria resquício do rompimento com a natureza?
- Mais que um resquício, uma necessidade. Ao deparar com seu poder criador (língua), o Homem imagina deus para plasmar fora de si o seu poder e, desta forma, conceber e respeitar sua própria força criativa. O Homem estava tão habituado a ser vítima das forças natureza que criou deus à sua imagem e semelhança, para espelhar noutro ser o seu poder. Ao tornar-se Criador, o Homem, assombrado, cria deuses, aos quais delega seu poder, dizendo “oh, deus criador, sou sua criatura!”. Age assim para se ver distante de sua própria força, como uma espécie de negação da recém-descoberta autonomia.
- Somos covardes, então?!
- A liberdade é um fardo. Deus, na maneira mais primitiva em que foi concebido (e muita gente ainda insiste em compreendê-lo assim) surge para mitigar o peso desse fardo. O fruto proibido é uma representação do descobrimento da língua; a árvore do conhecimento é a comunicação: a princípio, a fala, a tradição oral, e após as pinturas rupestres, os símbolos, a escrita... Na narrativa mais conhecida no ocidente, a punição que deus impôs à humanidade, representada por Adão e Eva, é a punição que o homem inventa para si, e consiste no preço da emancipação. Afastar-se da natureza é assumir o papel de construir o mundo e não mais o de mero personagem subjugado pela natureza. Ao passar de criatura (personagem) a criador (Narrador) o Homem torna-se responsável por suas mazelas - início da culpa, do suor. Antes, integrado à natureza como um bicho qualquer, era moldado pela natureza; ao se emancipar, impõe-se o trabalho da construção, daí as dores e o suor. O Éden representa a integração total, a ausência de responsabilidade mas também de liberdade.
- É uma interpretação interessante, sem dúvida.
- A língua é a extinção do poder destruidor tempo: vence a morte, desafia o tempo e o espaço - a princípio com a tradição oral e depois com a escrita. A imprensa consolidou e acelerou esse processo. Na realidade, acho que a mulher criou a linguagem. Eva prova o fruto, a palavra - fala -, vê que é bom e ensina a seu companheiro. A serpente é a língua: flexível, móvel, ágil. Fomos seduzidos pelas palavras que a serpente - língua - libertou. Eva não nasceu da costela de Adão; o homem é que veio à luz pela língua de Eva. O homem percebe a mulher, o feminino, e cisma que ela veio dele. Mas não é nada disso. A língua nasceu com a mulher, que ficava mais tempo em grupo, cuidando da prole. O homem, desbravador, saía para caçar, enquanto a mulher, em regra, permanecia num determinado local. Elas descobriram e dominaram essa serpente, criaram as palavras e nos ensinaram. No entanto, como o homem oprimiu e dominou, sua versão prevaleceu. Talvez a escrita seja uma invenção masculina. A fala se expande, é fluida, permite a confluência, é mais dinâmica, mais feminina. A escrita, registro, é o aprisionamento da oralidade.
- O fruto proibido representa a língua, então.
- Sim, é isso: o fruto proibido é a palavra; não é o que entra na boca, mas o que dela sai. Deus, que no princípio agia e falava, hoje está quieto: sentado, assiste ao mundo e a suas personagens. E junto à língua, nasceu a fé: criar e crer são inseparáveis. Ao mundo dado, natural, acrescenta-se - com o nascimento da comunicação - o mundo criado, construído, imaginado pelo Homem. Esse mundo exige, como pressuposto de sua existência, que se acredite nele, porque é um mundo narrado; e no fim tudo é narrado. O Homem se torna eterno, na medida em que suas idéias se tornam invulneráveis ao tempo e ao espaço; elas atravessam, por meio do discurso, as gerações. As idéias passam a durar mais que o homem, ou seja, a linguagem é o principal, primeiro, instrumento metafísico, pois faz com que as narrativas possam ir além da vida do indivíduo. Aí está a árvore do conhecimento. O Homem erige sua realidade com as palavras. O mundo natural - imagem, som, cheiro, matéria bruta - ao ser transformado em signos humanos permite sua apropriação e controle pelo homem, que o constrói e reconstrói como deseja, ou pensa que deseja.
- Gostei disso: a língua como o principal instrumento metafísico. Na verdade, tomamos as idéias, conteúdo, como fundamento da metafísica, mas a forma por si só é transcendente.
- Exatamente. E o capítulo de Gênesis que trata da Torre de Babel ratifica a importância da língua. Lá se diz mais ou menos que os homens decidiram edificar uma cidade e uma torre cujo cume tocasse os céus, e que se unissem sob um nome, para que não fossem espalhados sobre toda a terra. Deus foi ver a tal construção e constatou que os homens unidos (com “uma mesma língua”) tornaram-se totalmente poderosos, capazes de realizar o que quiserem. Diante disso, resolveu descer e confundir a língua, para que não houvesse acordo, espalhando-os, fragmentando o poder. Muitas interpretações podem ser dadas a esse segmento mas, seguindo o meu discurso, o trecho pode ser lido como uma demonstração de que o poder advém da língua, da comunicação.
- Sempre interpretei como pura megalomania do homem.
- Sim, é uma interpretação comum. No entanto, parece claro que a princípio os homens se uniram para construir “uma cidade e uma torre cujo cume tocasse os céus” (demonstração de força), e enquanto estiveram de acordo nada poderia retê-los (o homem aí reconhece o poder em si mesmo). Contudo, em seguida, a concentração gerou problemas, discordância, e a solução encontrada foi espalhar a gente pela face da terra. Note que a discórdia é representada justamente pela confusão das línguas, e que se aponta deus como causador da discórdia, diante da dificuldade de o homem assumir sua responsabilidade, o ônus de sua liberdade. Não é deus que espalha o homem, mas o próprio homem que se afasta, formando grupos, inventando diferenças.
- Por mais incrível que possa parecer (e talvez quanto mais incrível mais crível seja), admito: somos personagens! Pessoa tem razão: “somos contos contando contos”!