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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Lucros ou impostos?

A elite, o poder econômico se escondem atrás do discurso ideológico de que são impostos que encarecem tudo, culpando o Estado. A direita fala da necessidade de cortar direitos, flexibilizar, reduzir encargos, "enxugar a máquina pública". Mas a margem de lucro no Brasil é uma das maiores do mundo e é bastante comum os estados concederem isenção fiscal, como no caso do Rio, que deixou de arrecadar algo em torno de 200 bilhões nos últimos anos. As empresas abusam e a conta é jogada pro povo. Capitalismo atuando. Vale muito a leitura dos textos da Carta e do Justificando:   


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Aos indignados - convite à cidadania

Muito se fala sobre crise de representatividade, mas penso que o problema é mais profundo. Não se sentir representado é mais uma consequência da crise de cidadania e da prevalência de um discurso de falência da política. A maioria das grandes empresas da mídia descrevem o Estado e os políticos como algo ruim, mau, como se todos estivessem envolvidos com corrupção, como se só existisse a politicagem. Essa visão de que tudo é corrompido, de que só existe politicagem liga-se ao fascismo. Falta nas escolas educação para formar cidadãos, para que as pessoas desenvolvam senso crítico e se interessem e participem da política.

A maioria das pessoas demonstra raiva dos políticos, compartilha reportagens sobre corrupção, xinga, grita, fica indignada. Mas grande parte dessas pessoas nunca colocou os pés numa reunião de um partido, nunca tentou participar, ver como funciona a escolha das propostas, dos candidatos, dos programas. Querendo ou não, gostando ou não, é dos partidos que virão os nossos representantes. O modo de vida consumista contamina tudo. Escolher candidatos, atuar para a construção dos governos, não é como ir ao supermercado ou shopping escolher produtos.

Mas é assim que muitos agem: de dois em dois anos ficam surpreendidos e indignados com as escolhas que tem de fazer, como se os candidatos fossem produtos ruins numa prateleira de uma loja arcaica. A mesma coisa acontece com os sindicatos e outras organizações coletivas: as pessoas não participam e depois ficam reclamando, cheias de raiva, como se fossem meras vítimas de um processo macabro e misterioso. Não é assim. Há processos deliberativos, votações, assembleias e muitos não vão, não se informam, não querem saber e depois ficam reclamando, reforçando padrões individualistas, frustrantes e ineficazes.

Se você está surpreso com os candidatos é porque não acompanha a política, não participa de nenhum partido, e uma parcela na restrição de escolhas é responsabilidade sua também. Os partidos são construídos por pessoas e se você fica afastado contribui para sua surpresa e indignação. Sei que é cansativo, desgastante, que a gente trabalha demais, que tem família, outras coisas pra cuidar etc. mas, se a gente não praticar cidadania, não respirar política, vai ser difícil se sentir representado...  

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Crise política: cidadãos reduzidos a consumidores

Há muita gente falando de crise de representatividade: “eles - membros do Legislativo e do Executivo - não nos representam.” Essa dicotomia entre “eles e nós”, além de antiga, é bem abrangente, não se restringindo ao Brasil. E parece que as pessoas ignoram que, apesar de todos os discursos otimistas, o Estado - que já foi absolutista - não costuma garantir o bem comum, se o povo nada faz para isso.

Portanto, não dá para falar apenas da crise de representatividade, deixando de lado a cidadania, que diz respeito aos direitos políticos que permitem ao cidadão - habitante da cidade (do latim civitas) - intervir na direção do Estado, participando na formação do governo e em sua gestão. 

Assim, penso que a questão a ser colocada é mais profunda e ampla, passando pela crise política: a cidadania vem sendo fragmentada e reduzida, para limitar-se aos papéis individualistas de consumidores e condôminos.

Vivemos num modelo que restringe as funções do Estado, por meio da privatização dos serviços. Aí estão os planos de saúde, as escolas particulares e também os condomínios, espaços restritos, nos quais a entrada, assim como a permanência, dependem de dinheiro.

Se antes educação e saúde eram reivindicações de quase todos a serem feitas diretamente ao Estado, hoje boa parte do povo mantém um discurso de cobrança (que é legítimo, sem dúvida), mas, na prática, paga religiosamente planos de saúde e reza pra não precisar de tratamento público; age do mesmo modo em relação ao ensino, só frequentando as instituições públicas de excelência.

Quanto aos condomínios, não dá pra negar que eles representam, na realidade, a privatização da segurança: estranhos não podem se aproximar dos lares - há um porteiro vigiando a entrada, com câmeras, cercas, alarmes etc.

Nesse contexto, se algo não vai bem na prestação dos serviços “públicos”, a solução é individualista. Em vez de se unirem para pressionar o governo - fundamentando-se na Constituição, nos direitos políticos -, as pessoas reclamam com as empresas e, se não funciona (o que é muito comum, como sabemos), vão ao Judiciário, com base no código de defesa do consumidor e no código civil. Fica claro o deslocamento das questões públicas coletivas para a esfera privada; não é mais um problema nosso: cada um que anote os números de protocolo e procure um advogado. 

Isso é consequência da redução do papel do Estado, um projeto antigo defendido pelos (neo)liberalistas. Bom, é verdade que depois da crise de 2008/2009, na qual o Estado "socorreu" os Bancos, eles andam meio calados; afinal, pega mal falar de não intervenção na economia depois de usar dinheiro público para "resgatar" instituições financeiras. 

Mas, com ou sem discurso, a prática é (neo)liberal: a globalização e o fortalecimento do poder econômico supranacional enfraquecem a estrutura política local, ou seja, o Estado, limitado a um território, se vê acuado por exigências de grandes empresas que têm a liberdade de transitar pelo mundo e barganhar com os governos a redução das barreiras para sua entrada e permanência. Elas pedem (impõe) menos proteção aos trabalhadores, menos impostos, e acabam sendo atendidas aqui ou ali, onde ficarão enquanto lhes interessar - até o dia em que decidirem partir para melhores oportunidades de exploração, deixando pra trás desemprego e lixo.

Então, se há privatização dos serviços e redução do Estado, com a individualização das demandas, como explicar nossas recentes manifestações?

Bom, não dá pra negar a existência de uma insatisfação popular antiga, que se dirige contra muitas coisas, sendo certo que a maioria das reivindicações levantadas são legítimas. Todavia, penso que os atos tiveram ampla adesão por dois motivos - não únicos mas, a meu ver, cruciais para a união: o transporte público e a violência policial.

Por que esses dois pontos? O transporte público, porque a solução individualista (compra de veículo) se converte em causa do problema - agravado com o aumento do poder aquisitivo -, gerando mais engarrafamento. Além disso, grande parte da população - até pela questão da idade exigida para dirigir (estudantes, por exemplo) - é mesmo obrigada a usar os transportes coletivos, os quais são, em regra, ruins e caros. Ou seja, é um dos poucos serviços onde as classes ainda se encontram. 

Quanto ao segundo ponto - violência policial - entendo que foi a principal causa do aumento de pessoas nas ruas; pelo que vi, a grande adesão ocorreu depois da exibição das imagens da repressão policial ao movimento. A truculência da PM - muito comum mas restrita às áreas mais pobres - alcançou outros espaços e pessoas, fomentando o desejo de sair de casa e agir.

Minha intenção não é invalidar as manifestações, tampouco segmentá-las. Quero, na verdade, compreendê-las, vê-las ampliadas e mais eficazes; desejo que a maioria das pessoas - que esteve apática (apolítica e até antipolítica) por tanto tempo - se una e lute por boas causas, como alguns grupos já vem fazendo há mais tempo.

É importante estabelecer objetivos claros, de modo que as pessoas entendam por que estão no movimento; caso contrário, vira massa de manobra. A princípio, acho muito bons os dois pontos que levaram as pessoas às ruas, e sou a favor da reforma política, com a realização do plebiscito. 

Todavia, é necessário entender que as causas dos nossos problemas são mais profundas, sendo reducionista o discurso que trata apenas da crise de representatividade. As manifestações são ótimas, mas não bastam; precisamos nos libertar da crise de cidadania e persistir na política: somos mais que consumidores - já passou da hora de sair dos shoppings para ganhar não só as ruas mas também o Estado, tornando-o instrumento do povo contra as pressões do poder econômico.


sábado, 10 de março de 2012

O furto

Data do fato: meados de 2008.

Depoimento do comunicante:

Não vou me resignar: houve um furto. E ainda que alguns entendam tal subtração como algo positivo - até mesmo desejável -, não tenho outro nome para lhe dar.

Como é comum, o ladrão, ao fazer sua defesa, procurou se livrar da acusação, chamando o furto de progresso - e o pior é que houve quem acreditasse! Mas o que ocorreu efetivamente foi uma lesão ao patrimônio.

Aos fatos. Moro em Niterói e trabalho no Rio, motivo pelo qual fui à estação das barcas. Para minha surpresa, quando lá cheguei, vi um painel luminoso informando que a duração da viagem era de 12 minutos. Achei que houvesse algum erro, porque a travessia sempre durou 20 minutos; pelo menos, desde que me lembro.

Depois de uns vinte minutos - é isso mesmo: o tempo da espera é maior que o da travessia! -, o portão da zona de embarque se abriu, e os passageiros, com a pressa habitual, dirigiram-se à embarcação. Esperei que os mais ansiosos passassem, como costumo fazer, e fui andando em direção à rampa de embarque. Porém não era a barca – a boa e velha barca – que estava lá, mas uma embarcação retilínea, simétrica e com duas faces idênticas – duas proas –, sem popa. Não perguntei nada; entrei e me sentei à janela, que, para minha tristeza era bem menor que a das antigas barcas.

Convenci-me de que havia sido furtado. E a lesão atingiu no mínimo dois bens de uma só vez: a duração da viagem, que foi reduzida de 20 minutos para míseros 12, e a vista da janela, que antes era maior e melhor posicionada.

O ladrão, contudo, apresentou o crime como benefício, dizendo que a nova barca era mais rápida e eficiente. Mas o fato é que não consigo mais ver o brilho do sol refletido na água, pois a janela nova, além de pequena, foi colocada nas alturas. Também fui privado do som das janelas, que trepidavam. E as cadeiras de madeira? E os minutos que eu tinha a mais? E os balcões que permitiam viajar ao ar livre?

Tenho certeza de que perdi oito minutos - dezesseis por dia, na verdade, já que sempre vou e volto -, apesar de dizerem que ganhei os tais 8 minutos. Se eu quisesse oito minutos bastava chegar mais cedo à estação. Por que não subtraíram esses dezesseis minutos da minha jornada de trabalho? Ou da viagem de ônibus? Não, os retiraram da melhor parte da viagem.

E como tenho o costume ler na barca, estes 16 minutos fazem muita diferença, principalmente nos dias de prova na faculdade; mal abro o livro e a barca já está chegando. Quando o livro é um bom romance, então, se torna ainda mais difícil desembarcar: semana passada, voltando do trabalho, absorto numa boa história, quase retornei ao Rio, em vez de desembarcar em Niterói.

A velha barca, que prefere o caminho ao fim, possui frente e verso, e, por isso, tem que dar um giro para virar sua proa para o destino. A nova tem duas proas e já abandona o cais apontando para o terminal. Perdi esta preciosa volta e, ao perdê-la, fui privado também do cálculo sobre o lado sol.

Explico: antes, quando embarcava, refletia sobre onde incidiria o sol durante o trajeto. No inverno, sentava-me no lado da sombra ao entrar, porque, depois de a lancha girar, tornava-se este o lado do sol. No verão, fazia o oposto, para ficar do lado da sombra. De dezembro a março, esquecer-se desse detalhe implicava chegar ao destino suado e irritado. Agora, infelizmente, já não penso em mais nada disso: o sol vai do início ao fim do mesmo lado, monótono e previsível.

Mas o pior foi a redução e elevação das janelas. Aposto que os engenheiros que projetaram as novas barcas moram no Rio e nunca vêm a Niterói; e mesmo que venham, devem preferir a ponte. As janelas hodiernas não permitem que se olhe o mar, parecem grades de tão pequenas; são semelhantes a janelas de ônibus, mas ainda piores, na medida em que são colocadas no alto, fora do alcance da visão. Para ver o sol refletido na superfície de água é preciso ficar de pé. Onde já se viu viajar pelo mar e não vê-lo?

E quanto aos balcões? A barca antiga possui dois balcões, um na popa e outro na proa. Havia até uma lancha mais velha, que tinha um alpendre na popa, o qual possuía bancos parecidos com os de praça mas com encostos móveis, permitindo que se escolhesse para que lado olhar durante a travessia; sem falar noutro modelo, que tinha, além dos balcões, varandas laterais com assentos - sem dúvida o melhor, na medida em que nos permitia viajar confortavelmente ao ar livre.

E para completar, não se pode deixar de falar doutra triste conseqüência do crime: a troca da saudação calorosa do comandante, feita ao vivo - ainda que algumas vezes (não poucas!) não entendêssemos nada do que falava - pela gravação de uma metálica e fria voz, que repete as mesmas insípidas advertências. Extinguiu-se a espontaneidade. Antes, o comandante podia nos desejar boa viagem, advertir sobre os perigos do mar, elogiar o céu, nos dar uma bronca, chorar etc. (embora geralmente se limitasse a nos desejar boa viagem). Mas agora só nos resta a gravação, sempre impessoal, monótona, vazia.

A evolução da barca foi acabando com as suas qualidades: a cada novidade a barca perde seu ar de passeio para se restringir somente a um meio de transporte. E ainda chamam isto de progresso! Não sou um saudosista inveterado nem um casmurro fechado às novidades: meu apego não é ao passado mas ao que é melhor. Se a nova barca tivesse grandes janelas e balcões, talvez eu até suportasse as duas proas e o furto de 16 minutos.

No entanto, o ladrão, apesar de sua crueldade, não levou tudo: durante os fins-de-semana são as barcas antigas que singram a baía de Guanabara, agradavelmente lentas e cheias de poesia. Convido, pois, os engenheiros navais, que são os autores intelectuais do furto, a viajarem, pelo menos uma vez, num domingo de sol, na vetusta e bela barca. Se eles tiverem coração, projetarão, da próxima vez, uma barca menos moderna e mais amiga da vida. Obcecados com a rapidez, os criadores da nova embarcação esqueceram-se – se é que algum dia souberam - de uma das maiores verdades: viajar de barca é como viver: o fim não é mais importante que o caminho a ser percorrido. E no que se transforma o caminho, se reduzem o seu tempo de duração e nos tiram as janelas e os balcões nos quais desfrutávamos a paisagem?

PS. O furto agora tem agravante: aumento da tarifa em 60 %.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A queda

A queda do muro de Berlin foi o ícone da falência da experiência comunista da URSS. Aproximadamente 20 anos depois deparamos com mais uma crise do capitalismo. A imprensa, contudo, parece não reconhecer a gravidade dos fatos e até agora não lhe atribuiu nenhum ícone.

Mais grave que a destruição física é a queda do fundamento ideológico do liberalismo.

Onde estão os defensores do Estado mínimo, da não intervenção estatal, da mão invisível que controla o mercado?

O fundamento do sistema ruiu, porque o Estado - segundo os liberalistas, o monstro que impede o mercado de ser inteiramente livre e resolver todos os problemas do mundo - tem sido usado para salvar as instituições financeiras. Ou seja, o Estado não deve gastar com saúde, educação, subsídios para a agricultura etc., mas deve injetar grana - dinheiro público, dinheiro dos cidadãos - em bancos.

Não é de hoje que o Estado serve aos mais fortes, nem foi agora que o sistema falhou; ele já nasceu falido, tendo em vista que há séculos a riqueza de poucos se faz com a miséria de muitos. A obesidade de alguns corresponde à inanição de outros. Mesmo assim ele é o sistema triunfante para alguns.

Não vou entrar no mérito dos empréstimos como medida de urgência. Desejo apenas registrar a queda, cujo ícone é a ocupação de Wall Street.

Em 2008 os EUA injetaram grana nos bancos; agora é a vez da União Europeia.

Viva a solidariedade com os bancos, porque deles dependemos! Os cidadãos agora são acionistas compulsórios das instituições financeiras que lhes vendem crédito com juros extorsivos e lucram bilhões. Desta forma, o lucro é repartido com os proprietários do negócio e o risco, custeado pelo contribuinte, pelo povo.

Abaixo, link para a Folha de São Paulo, onde se explica o "socorro aos bancos". Ressalto, porém, que é uma tremenda mentira o discurso de salvar a Grécia. Não, a Grécia não é a culpada da crise; acreditar nisso é transformar uma das vítimas em algoz.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/997039-uniao-europeia-chega-a-acordo-para-recapitalizacao-de-bancos.shtml


sábado, 11 de dezembro de 2010

Crise? Para quem?

Quem realmente sofreu com a última crise econômica? O sistema financeiro internacional? Os bancos?

"A atual 'contração do crédito' não é resultado de um insucesso dos bancos," adverte Bauman. "Ao contrário, [a crise] é fruto de seu extraordinário sucesso - sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens e mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. (...) A presente 'crise de crédito' não sinaliza o fim do capitalismo, somente o sucessivo esgotamento de uma fonte de pastagem."

BAUMAN, Zigmunt. Vida a crédito.