Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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quinta-feira, 4 de junho de 2026
Indicação de leitura e audição: Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC's
Poucas obras brasileiras conseguiram retratar com tanta força, lucidez e impacto a realidade social do país quanto o álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's. Lançado em 1997, o disco tornou-se um marco da cultura brasileira ao narrar a violência policial, o racismo estrutural, a desigualdade social, a exclusão das periferias e os dilemas da juventude negra com uma linguagem direta, poética e profundamente crítica.
O que impressiona não é apenas o que os Racionais disseram, mas como disseram. Em vez de falar sobre a periferia de fora para dentro, o grupo fala a partir dela, transformando experiências frequentemente invisibilizadas em arte de enorme potência estética e política. Faixas como Diário de um Detento e Capítulo 4, Versículo 3 permanecem atuais porque revelam problemas que continuam presentes no Brasil contemporâneo.
A importância cultural da obra foi reconhecida quando o álbum ganhou uma edição em livro e passou a integrar listas de leitura obrigatória de importantes vestibulares, um reconhecimento raro para uma obra originalmente musical. Esse movimento ajudou a consolidar os Racionais como autores fundamentais para compreender a sociedade brasileira das últimas décadas.
Mais do que um disco de rap, Sobrevivendo no Inferno é um documento histórico, uma denúncia social e uma reflexão sobre sobrevivência, dignidade e resistência. É uma obra que dialoga com a literatura, a sociologia, a história e os estudos sobre raça e classe no Brasil.
Indicação: leitura e audição obrigatórias para quem deseja compreender o Brasil para além das versões oficiais. Uma obra que continua provocando, questionando e ensinando quase trinta anos após seu lançamento.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
"O sol só vem depois" e a poesia de AmarElo (Emicida, 2019)
AmarElo,
do Emicida, lançado recentemente, é fabuloso. Nas palavras do
artista, o álbum tem o objetivo de devolver a calma às pessoas. E
realmente devolve, por tudo que apresenta nas melodias, nas letras e
até nas conversas gravadas.
A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.
Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.
A música que mais me tocou até agora é “Ordem natural das coisas” (que coloquei abaixo). Sugiro que escutem esta faixa e leiam sua bela poesia (letra), antes de prosseguirem neste meu textinho, que traz minha leitura da canção. Na verdade, meus comentários não são nada demais, até porque o Emicida (com part. Mc Tha) já disse tudo na faixa.
Desejo apenas ressaltar a sensibilidade e criatividade poética da letra, que coloca A VIDA - das pessoas, da semente que germina e até das aranhas - antes e ACIMA DO SOL. E há um monólogo (ou talvez diálogo) dentro da canção, em que o eu poético (lírico) insiste que “o sol é o astro rei”, e a resposta é: “okay, mas vem depois/o sol só vem depois.” E isto pra mim soa como: okay, eu tô ligado na grandeza do sol, na importância dele, no reinado do sistema solar, tudo isso aí; mas ele - mesmo sendo uma grande estrela - vem depois da vida; vem depois da merendeira e do pessoal que pega o ônibus na madruga; vem depois da dona Maria e de tudo que vive, ama, respira e suspira antes de o sol pensar em nascer. Ele - o astro rei - não pensa nem nasce, porque não tem vida, e é aí que ele perde: “o som das criança indo pra escola convence/ O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”.
Na
“ordem natural das coisas”, a vida vem antes e sempre vence. Esta
letra é uma das coisas mais lindas que já (ou)vi. Em tempos de
reificação, o cara diz - da forma mais bela com a
qual jamais sonhei - que antes de tudo vem a
vida, e não importa que seja a do broto de feijão, das aranhas
ou das pessoas - qualquer ser vivo vem antes das coisas. O sol,
esta enorme estrela que coloca geral pra girar ao
seu redor, que foi e é indispensável à vida, não deixa de
ser uma coisa e, por isso, vem depois. "O sol só vem depois".
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019
“Que país é esse?” É um “Faroeste caboclo”, uma odisseia brasileira
Não tenho a pretensão de fazer uma análise profunda da letra de “Faroeste caboclo”, música composta por Renato Russo em 1979 e lançada no álbum da Legião Urbana “Que país é este” em 1987. A letra da canção é comprida, sem refrões ou repetições, e conta a incrível história de João de Santo Cristo, de uma forma bem interessante.
Minha intenção neste texto é apenas destacar alguns pontos da narrativa desta canção, trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia -, mas que agora me tocam demais, até porque vão além da saga da personagem ao mostrar fatos históricos e que fazem parte da vida de muita gente. É claro que não vou recontar a história toda, o que é desnecessário ao meu propósito e tornaria o texto prolixo e entediante; para quem deseja conhecer a história completa, sugiro ouvir a música e, principalmente, ler o texto, a letra.
A odisseia do título não é à toa: é uma referência direta ao poema épico da Grécia antiga atribuído a Homero, que narra o retorno de Odisseu à sua terra natal e sua amada, Penélope, depois de lutar na guerra de Troia. João de Santo Cristo é nosso Odisseu, cuja saga da vida é contada do início ao fim em “Faroeste cabloco”, com viagens, retornos e um grande amor. É claro que há mil diferenças entre as narrativas de Renato Russo e Homero, mas as duas, na essência, contam em versos a história (ou parte dela) dos protagonistas, e isto muito é fantástico, poético e merece destaque.
Na minha visão, João de Santo Cristo é uma personagem que em sua saga individual mostra o que acontece com muitas pessoas no Brasil, ou seja, é um indivíduo que representa muito bem uma coletividade. Da mesma forma, sua história pessoal, individual, também expõe marcas da História do país.
Pra começar, é importante saber as origens e algumas características essenciais de João de Santo Cristo. E o interessante - e digno de elogio - é que a letra não diz tudo de forma direta, o que deixa espaço pra interpretação e exige uma atenção maior pra perceber certos aspectos, alguns muito relevantes.
A meu ver, se a letra fosse direta e prosaica, descreveria o herói assim: João era negro, sagaz (“até o professor com ele aprendeu”), embrutecido, sensível, nascido numa família pobre (talvez miserável) em alguma cidade do sertão da Bahia, revoltado (com causa), só, forte, corajoso (“temido e destemido”), discriminado por “sua classe e sua cor”, bom e digno (respeitava uma ética bastante lógica dentro do contexto de sua vida), não ligava pra religião institucionalizada (“ia pra igreja só pra roubar o dinheiro”) e idealista (num sentido meio romântico e de alguém que, apesar de tudo, ainda nutria esperanças).
Dito isto, passo a justificar minha descrição simplificada mencionando trechos canção (alguns eu já coloquei acima, entre aspas).
A letra diz que ele “deixou pra trás todo o marasmo da fazenda” e, em sua primeira viagem, “foi direto a Salvador”, capital do estado situada no litoral, destino mais próximo e barato para aqueles que querem sair do interior do estado pra tentar vida nova. Era forte, porque se virava e seguia em frente, apesar de tudo. Revoltado e embrutecido, pela vida difícil e violências que sofreu, a começar pelo assassinato do pai, ainda na infância, e o reformatório, aos quinze, “onde aumentou seu ódio diante de tanto terror”.
Era também sensível, capaz de admirar a beleza de Brasília enfeitada com luzes de natal e de amar Maria Lúcia a ponto de se arrepender “de todos os seus pecados”, prometer a ela o seu coração e voltar a ser carpinteiro, abrindo mão da grana alta dos crimes. Este amor, com promessa de eternidade e desejo formar família, assim como seu desejo de falar pro presidente “pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer” mostram seu idealismo, sua esperança e sua bondade. Sua dignidade e ética aparecem em vários de seus atos: mesmo colocando em risco sua vida, João recusa a proposta lucrativa e indecorosa feita por “um senhor de alta classe”; a decisão de não usar sua arma contra Jeremias antes que o desafeto começasse a brigar; não atirar pelas costas; e até sua morte, santificada pelo povo.
E este João, pobre, forte, negro, do sertão do Nordeste, retirante que acaba indo parar numa periferia da capital, sofreu desde cedo e ao longo da vida duros golpes do braço violento, repressor e discriminatório do Estado: o soldado que matou seu pai, suas passagens pelo reformatório e pela prisão, além da omissão da polícia, que nada fez pra impedir o duelo noticiado com antecedência na TV (talvez porque a morte daqueles marginais fosse mesmo desejada pelas autoridades e também um entretenimento para os cidadãos de bem, para as pessoas que não estão à margem). E parece ter se beneficiado muito pouco do braço protetor do Estado (talvez só a escola pública em sua infância). Esta cruel oposição entre abandono e perseguição, omissão e punição, exposta na narrativa da canção, representa a realidade de muitas pessoas no nosso país.
Em sua trajetória individual, o herói conta um pouco da História do Brasil, que foi o último país da América a abolir a escravidão e, quando o fez, largou os ex-escravizados à própria sorte, sem quebrar as velhas e pesadas correntes de racismo, discriminação e pobreza, presentes na vida sofrida de João; que inventou sua Capital e depois a ergueu no planalto central com o suor de retirantes explorados, que foram tentar melhorar de vida em Brasília e acabaram relegados às periferias, ao “Quarto de despejo” (como dizia Maria Carolina de Jesus), às cidades-satélites, como as citadas na letra (Taguatinga e Ceilândia); que foi submetido a uma ditadura militar com apoio da elite, parceria que é exposta no trecho em que Santo Cristo recebe a “proposta indecorosa” do senhor rico que vai até sua casa para tentar encomendar dele um atentado terrorista - colocar bomba em banca de jornal e colégio -, que recusa e ainda diz “não protejo general de dez estrelas/ que fica atrás da mesa com o cu na mão” (documentos oficiais provam que a direita paramilitar ligada à linha dura do regime autoritário cometeu atentados terroristas que, atribuídos erroneamente a grupos armados da esquerda, serviram de pretexto para recrudescer a ditadura).[1]
Há também na canção muitas referências religiosas, sobretudo cristãs, que fazem parte da nossa cultura. João de Santo Cristo tem um nome religioso em todos os termos e sua trajetória - cheia de injustiças, impasses, dores e provações - remete às vidas de sacrifícios dos santos, posto ao qual o herói, no final, é alçado pelo povo. Como José, pai de Jesus, João era carpinteiro; e como Cristo, perdoou seu algoz e sofreu seu martírio, no fim transformado num espetáculo televisionado (reality show de um duelo de faroeste tropical e marginal), sobre o qual ele - “sentindo o sangue na garganta” e após olhar “pras câmeras” - arremata: “se a via crucis virou circo, estou aqui”. Este belo verso - talvez o mais fantástico da letra - tem uma profundidade abismal: expõe a bestificação contraposta à beatificação de João, assim como a profanação televisiva do seu sacrifício sagrado. Este ato, e a interpretação que cada classe social fez dele, revela nossa polarização, bastante clara e nada recente. O povo viu de perto, sentiu e teve tanta fé que o transformou em santo; a elite, à distância, nem acreditou:
“E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV”
“Faroeste caboclo” talvez seja uma resposta à música “Que país é esse?” (ambas lançadas no meu álbum): um país com soldados que matam pais de família; um país com muita desigualdade e pobreza; um país que oferece pouca educação, mas muita punição, especialmente aos mais pobres; um país com muito racismo e discriminação; um país com gente de “alta classe” que tenta - por covardia e medo de meter a mão diretamente no sangue - corromper os mais pobres a praticar atos cruéis em troca de dinheiro.
O curioso e até estranho é que, no campo da política, muitas pessoas de direita (até da extrema) se apropriaram da música “Que paz é esse?” como um hino raivoso contra “tudo isso que está aí”, frase que a partir das manifestações de 2013 e, em seguida, durante a operação Lava Jato (lançada no início de 2014) e o golpe que derrubou a Dilma (instaurado no final de 2015), era proferida contra especialmente contra o PT (tachado por eles de partido corrupto como se fosse o único), e também abrangia um sentido de insatisfação geral com a política, com nuances antipolíticas fascistoides, com ostentação em suas manifestações de alguns cartazes pedindo a volta da ditadura.
Penso que a apropriação de “Que país é esse?” pela direita é estranha e incoerente pelo teor da própria letra da música, para não falar no Renato Russo e no conjunto de sua obra. Tudo - o compositor, o contexto da criação e a letra - contradiz as ideologias da maioria da direita.
Talvez eles não entendam o caráter de crítica ou só prestem atenção ao refrão, e não nos versos que mencionam: que “ninguém respeita a Constituição” (base normativa dos direitos humanos, bastante criticados por parte da direita); “Araguaia-ia-ia” (onde ocorreu uma guerrilha durante a ditadura); “tudo em paz” (expressão carregada de ironia ao referir-se à baixada fluminense, Araguaia e outros lugares do país); “o sangue anda solto/ Manchando os papéis/ Documentos fiéis/ Ao descanso do patrão” (o empresário empregador - tão defendido e até vitimizado no discurso de boa parte da direita - não parece um cidadão de bem nestes versos); “Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/ Dos nossos índios num leilão” (talvez eles entendam estes versos não como uma crítica, mas como proposta de um negócio lucrativo, pois votaram num presidente que ataca as reservas indígenas).
Além disso, a música foi criada em 1978 - antes do PT, fundado em 1980 - e ao falar em “sujeira” no Senado parecia se referir ao regime vigente à época, a ditadura militar (defendida por parte da direita, inclusive pelo atual presidente), que, inclusive, censurou a canção, em virtude do seu conteúdo questionador. Por tudo isso, fico realmente perplexo quando pessoas de direita gritam “que país é esse”. Não é que eu queira reivindicar a música para a esquerda ou censurar o uso pela direita (defendo a liberdade, cada um canta o que quiser), mas não tenho dúvida de que é um paradoxo; e torço, sinceramente, para que ouçam a letra e possam se transformar, nem que seja pra abraçar, pelo menos, o caráter de indagação, deixando pra trás suas certezas rígidas e mortas; nem que seja para considerar, por um breve momento, que “Faroeste caboclo” pode ser uma resposta interessante para “Que país é esse?; nem que seja para desconfiar que existe um monte de gente real muito parecida com João de Santo Cristo.
_________________________
Nota:
[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538488463_222527.html
Minha intenção neste texto é apenas destacar alguns pontos da narrativa desta canção, trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia -, mas que agora me tocam demais, até porque vão além da saga da personagem ao mostrar fatos históricos e que fazem parte da vida de muita gente. É claro que não vou recontar a história toda, o que é desnecessário ao meu propósito e tornaria o texto prolixo e entediante; para quem deseja conhecer a história completa, sugiro ouvir a música e, principalmente, ler o texto, a letra.
A odisseia do título não é à toa: é uma referência direta ao poema épico da Grécia antiga atribuído a Homero, que narra o retorno de Odisseu à sua terra natal e sua amada, Penélope, depois de lutar na guerra de Troia. João de Santo Cristo é nosso Odisseu, cuja saga da vida é contada do início ao fim em “Faroeste cabloco”, com viagens, retornos e um grande amor. É claro que há mil diferenças entre as narrativas de Renato Russo e Homero, mas as duas, na essência, contam em versos a história (ou parte dela) dos protagonistas, e isto muito é fantástico, poético e merece destaque.
Na minha visão, João de Santo Cristo é uma personagem que em sua saga individual mostra o que acontece com muitas pessoas no Brasil, ou seja, é um indivíduo que representa muito bem uma coletividade. Da mesma forma, sua história pessoal, individual, também expõe marcas da História do país.
Pra começar, é importante saber as origens e algumas características essenciais de João de Santo Cristo. E o interessante - e digno de elogio - é que a letra não diz tudo de forma direta, o que deixa espaço pra interpretação e exige uma atenção maior pra perceber certos aspectos, alguns muito relevantes.
A meu ver, se a letra fosse direta e prosaica, descreveria o herói assim: João era negro, sagaz (“até o professor com ele aprendeu”), embrutecido, sensível, nascido numa família pobre (talvez miserável) em alguma cidade do sertão da Bahia, revoltado (com causa), só, forte, corajoso (“temido e destemido”), discriminado por “sua classe e sua cor”, bom e digno (respeitava uma ética bastante lógica dentro do contexto de sua vida), não ligava pra religião institucionalizada (“ia pra igreja só pra roubar o dinheiro”) e idealista (num sentido meio romântico e de alguém que, apesar de tudo, ainda nutria esperanças).
Dito isto, passo a justificar minha descrição simplificada mencionando trechos canção (alguns eu já coloquei acima, entre aspas).
A letra diz que ele “deixou pra trás todo o marasmo da fazenda” e, em sua primeira viagem, “foi direto a Salvador”, capital do estado situada no litoral, destino mais próximo e barato para aqueles que querem sair do interior do estado pra tentar vida nova. Era forte, porque se virava e seguia em frente, apesar de tudo. Revoltado e embrutecido, pela vida difícil e violências que sofreu, a começar pelo assassinato do pai, ainda na infância, e o reformatório, aos quinze, “onde aumentou seu ódio diante de tanto terror”.
Era também sensível, capaz de admirar a beleza de Brasília enfeitada com luzes de natal e de amar Maria Lúcia a ponto de se arrepender “de todos os seus pecados”, prometer a ela o seu coração e voltar a ser carpinteiro, abrindo mão da grana alta dos crimes. Este amor, com promessa de eternidade e desejo formar família, assim como seu desejo de falar pro presidente “pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer” mostram seu idealismo, sua esperança e sua bondade. Sua dignidade e ética aparecem em vários de seus atos: mesmo colocando em risco sua vida, João recusa a proposta lucrativa e indecorosa feita por “um senhor de alta classe”; a decisão de não usar sua arma contra Jeremias antes que o desafeto começasse a brigar; não atirar pelas costas; e até sua morte, santificada pelo povo.
E este João, pobre, forte, negro, do sertão do Nordeste, retirante que acaba indo parar numa periferia da capital, sofreu desde cedo e ao longo da vida duros golpes do braço violento, repressor e discriminatório do Estado: o soldado que matou seu pai, suas passagens pelo reformatório e pela prisão, além da omissão da polícia, que nada fez pra impedir o duelo noticiado com antecedência na TV (talvez porque a morte daqueles marginais fosse mesmo desejada pelas autoridades e também um entretenimento para os cidadãos de bem, para as pessoas que não estão à margem). E parece ter se beneficiado muito pouco do braço protetor do Estado (talvez só a escola pública em sua infância). Esta cruel oposição entre abandono e perseguição, omissão e punição, exposta na narrativa da canção, representa a realidade de muitas pessoas no nosso país.
Em sua trajetória individual, o herói conta um pouco da História do Brasil, que foi o último país da América a abolir a escravidão e, quando o fez, largou os ex-escravizados à própria sorte, sem quebrar as velhas e pesadas correntes de racismo, discriminação e pobreza, presentes na vida sofrida de João; que inventou sua Capital e depois a ergueu no planalto central com o suor de retirantes explorados, que foram tentar melhorar de vida em Brasília e acabaram relegados às periferias, ao “Quarto de despejo” (como dizia Maria Carolina de Jesus), às cidades-satélites, como as citadas na letra (Taguatinga e Ceilândia); que foi submetido a uma ditadura militar com apoio da elite, parceria que é exposta no trecho em que Santo Cristo recebe a “proposta indecorosa” do senhor rico que vai até sua casa para tentar encomendar dele um atentado terrorista - colocar bomba em banca de jornal e colégio -, que recusa e ainda diz “não protejo general de dez estrelas/ que fica atrás da mesa com o cu na mão” (documentos oficiais provam que a direita paramilitar ligada à linha dura do regime autoritário cometeu atentados terroristas que, atribuídos erroneamente a grupos armados da esquerda, serviram de pretexto para recrudescer a ditadura).[1]
Há também na canção muitas referências religiosas, sobretudo cristãs, que fazem parte da nossa cultura. João de Santo Cristo tem um nome religioso em todos os termos e sua trajetória - cheia de injustiças, impasses, dores e provações - remete às vidas de sacrifícios dos santos, posto ao qual o herói, no final, é alçado pelo povo. Como José, pai de Jesus, João era carpinteiro; e como Cristo, perdoou seu algoz e sofreu seu martírio, no fim transformado num espetáculo televisionado (reality show de um duelo de faroeste tropical e marginal), sobre o qual ele - “sentindo o sangue na garganta” e após olhar “pras câmeras” - arremata: “se a via crucis virou circo, estou aqui”. Este belo verso - talvez o mais fantástico da letra - tem uma profundidade abismal: expõe a bestificação contraposta à beatificação de João, assim como a profanação televisiva do seu sacrifício sagrado. Este ato, e a interpretação que cada classe social fez dele, revela nossa polarização, bastante clara e nada recente. O povo viu de perto, sentiu e teve tanta fé que o transformou em santo; a elite, à distância, nem acreditou:
“E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV”
“Faroeste caboclo” talvez seja uma resposta à música “Que país é esse?” (ambas lançadas no meu álbum): um país com soldados que matam pais de família; um país com muita desigualdade e pobreza; um país que oferece pouca educação, mas muita punição, especialmente aos mais pobres; um país com muito racismo e discriminação; um país com gente de “alta classe” que tenta - por covardia e medo de meter a mão diretamente no sangue - corromper os mais pobres a praticar atos cruéis em troca de dinheiro.
O curioso e até estranho é que, no campo da política, muitas pessoas de direita (até da extrema) se apropriaram da música “Que paz é esse?” como um hino raivoso contra “tudo isso que está aí”, frase que a partir das manifestações de 2013 e, em seguida, durante a operação Lava Jato (lançada no início de 2014) e o golpe que derrubou a Dilma (instaurado no final de 2015), era proferida contra especialmente contra o PT (tachado por eles de partido corrupto como se fosse o único), e também abrangia um sentido de insatisfação geral com a política, com nuances antipolíticas fascistoides, com ostentação em suas manifestações de alguns cartazes pedindo a volta da ditadura.
Penso que a apropriação de “Que país é esse?” pela direita é estranha e incoerente pelo teor da própria letra da música, para não falar no Renato Russo e no conjunto de sua obra. Tudo - o compositor, o contexto da criação e a letra - contradiz as ideologias da maioria da direita.
Talvez eles não entendam o caráter de crítica ou só prestem atenção ao refrão, e não nos versos que mencionam: que “ninguém respeita a Constituição” (base normativa dos direitos humanos, bastante criticados por parte da direita); “Araguaia-ia-ia” (onde ocorreu uma guerrilha durante a ditadura); “tudo em paz” (expressão carregada de ironia ao referir-se à baixada fluminense, Araguaia e outros lugares do país); “o sangue anda solto/ Manchando os papéis/ Documentos fiéis/ Ao descanso do patrão” (o empresário empregador - tão defendido e até vitimizado no discurso de boa parte da direita - não parece um cidadão de bem nestes versos); “Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/ Dos nossos índios num leilão” (talvez eles entendam estes versos não como uma crítica, mas como proposta de um negócio lucrativo, pois votaram num presidente que ataca as reservas indígenas).
Além disso, a música foi criada em 1978 - antes do PT, fundado em 1980 - e ao falar em “sujeira” no Senado parecia se referir ao regime vigente à época, a ditadura militar (defendida por parte da direita, inclusive pelo atual presidente), que, inclusive, censurou a canção, em virtude do seu conteúdo questionador. Por tudo isso, fico realmente perplexo quando pessoas de direita gritam “que país é esse”. Não é que eu queira reivindicar a música para a esquerda ou censurar o uso pela direita (defendo a liberdade, cada um canta o que quiser), mas não tenho dúvida de que é um paradoxo; e torço, sinceramente, para que ouçam a letra e possam se transformar, nem que seja pra abraçar, pelo menos, o caráter de indagação, deixando pra trás suas certezas rígidas e mortas; nem que seja para considerar, por um breve momento, que “Faroeste caboclo” pode ser uma resposta interessante para “Que país é esse?; nem que seja para desconfiar que existe um monte de gente real muito parecida com João de Santo Cristo.
_________________________
Nota:
[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538488463_222527.html
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Renato Russo
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Segurança e igualdade
Segurança pública: urgente!
Não é justo que só alguns
tenham vigilância permanente.
Por uma questão de igualdade:
precisamos espalhar UPPs*
por toda cidade:
nos shoppings, condomínios,
precisamos espalhar UPPs*
por toda cidade:
nos shoppings, condomínios,
bairros do asfalto,
caveirões circulando,
prontos pro assalto.
As classes média e rica -
tão sacrificadas(?) por impostos -
também merecem bem perto
a mesma polícia a postos.
Que nas ricas coberturas também
pouse o grande pássaro de metal,
ostentando sua fúria letal.
Que a polícia apure todos
os crimes e irregularidades:
dos deuses dos tribunais
aos patrões vis e covardes.
É urgente vestir de farda o cristo
e torná-lo monumento panóptico,
além de turístico,
com câmeras - mil olhos -
a nos vigiar e a revelar
todo medo místico.
__________________
* Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) era um projeto da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro que pretendia instituir polícias comunitárias em favelas. Acerca do tema, indico o livro da Marielle Franco: "UPP: A redução da favela a três letras", de 2018. (https://www.travessa.com.br/upp-a-reducao-da-favela-a-tres-letras-uma-analise-da-politica-de-seguranca-publica-do-estado-do-rio-de-janeiro/artigo/f33e3b79-22aa-436b-a870-89016d0e6edb)
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Natureza urbana
Nasce o sol por trás dum prédio
Apagando as luzes dos postes.Como flores, despontam antenas parabólicas
Dos telhados e coberturas.
Chovem gotas d'água dos aparelhos de ar-condicionado.
Rugem carros, motos, caminhões.
À sombra dum prédio descansa um cão magro,
estendido como um morto ante a vida das máquinas;
Sobrevoam o corpo inerte aviões, helicópteros, urubus.
O vento espalha folhas de papel
E faz dançarem sacos plásticos.
O sol brilha refletido nos prédios envidraçados,
Para-brisas, espelhos, telas, chapas de metal.
Mexe um bicho no lixo, catando restos.
Zumbe um helicóptero pousando num prédio.
Mimetizado - um homem de terno entre
Dezenas de homens de terno - entra num ônibus.
Como formigas, pessoas somem da superfície,
Entrando no buraco, estação do metrô.
Predadora é a pressa, perigosos os carros velozes.
Zumbem também telefones, sirenes,
Palavras num megafone, apitos.
Cantam os camelôs andando entre
uma manada de carros, caminhões, ônibus
Parados, à espreita, diante do sinal vermelho.
Não se ouve o murmúrio do riacho negro de esgoto,
Nem das ondas na praia, abafadas por motores
e escondidas por construções e outdoors.
Uma semente de papel amassado lançada na calçada:
há de nascer uma montanha de lixo.
Brotam tapumes e tatus tratores perfuram asfalto.
Pousam pombos nos fios.
Enquanto o sol se esconde atrás do viaduto,
nascem luzes no fim da tarde.
A noite revela uma constelação de postes,
letreiros luminosos, faróis, telas.
Migram os animais pras tocas, pros bares,
pras esquinas, pros ônibus lotados…
Não brilha a lua, mas o holofote da empena cega.
A TV em cada sala de cada apartamento
reluz como uma fogueira na mata.
Amanhã - cedo demais pra quem se esquece (aquece?)
até tarde na frente da TV -
por trás dum prédio, nascerá o sol.
sábado, 7 de outubro de 2017
Natureza urbana
Chovem gotas de ar condicionado;
Rugem carros e motos e caminhões.
À sombra do prédio descansa um cão
Magro, estendido como morto;
Sobrevoam o corpo inerte aviões e urubus.
O vento espalha folhas de papel
E faz dançarem sacos plásticos.
Rugem carros e motos e caminhões.
À sombra do prédio descansa um cão
Magro, estendido como morto;
Sobrevoam o corpo inerte aviões e urubus.
O vento espalha folhas de papel
E faz dançarem sacos plásticos.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
pelas janelas da barca
o mar pelas janelas da barca mal se vê. se vê de longe o que é tão próximo como um paradoxo dessas janelas pequenas. o mar que mal se vê é cinza como chumbo e dele se veem brotar as patas da ponte, como uma centopeia atravessando uma poça de água suja. o barulho do motor e a trepidação lembram a respiração de um bicho, que atravessa o mar meio cansado levando parasitas em sua carcaça. de longe os guindastes parecem insetos, louva-a-deus, prontos pra mexer seus braços mecânicos e carregar estômagos de navios com contêineres, parasitas a serem levados por aí, singrando o mar cinza-chumbo. já perto do destino cruza o céu um inseto branco alado e barulhento, a pousar do lado esquerdo, rápido e duro como um besouro com rodas. ao redor o mar chumbo é como uma bacia de cinzas de uma fogueira queimando há séculos. pelas pequenas janelas da barca mal se vê.
terça-feira, 3 de outubro de 2017
À distância
Da minha janela
Sempre vi a montanha de longe,
Sua plácida silhueta cinza azulada:
A imagem da eterna solidez.
Essa imagem se manteve
Até o dia em que resolvi me aproximar;
Nesse dia aquela imagem de outrora –
Uniformemente azulada –
Tornou-se múltipla, fragmentada e colorida.
Estava quebrado o primeiro quadro.
O silêncio que lhe atribuía transformou-se
Em ruído intermitente.
De perto vi toda a vida e movimento que de longe
Sequer imaginava.
O vento movia todas as folhas de todas as árvores,
As quais eram pedras, quando olhava da minha janela.
A vida revelou-se pela proximidade.
Decidi tocar a montanha, já não me bastava vê-la e ouvi-la.
Entranhei-me nela;
Uma vez mais a imagem anterior tornou-se mera lembrança.
Na trilha que levava ao cume senti a sombra,
A umidade, o cheiro das folhas putrefatas;
Ouvi todos os intermitentes e infindáveis sons;
E toquei seus fragmentos.
Eu perdi a montanha ao adentrar na montanha.
Eu a possuía inteira e agora já não tenho aquele
Recorte cinza azulado – e não a ter é uma forma
Oblíqua de não me ter a mim.
Estou perdido dentro de nova e densa imagem.
Nada é plácido de perto.
O sol é belo à distância.
O outro é belo à distância.
Exausto, segui na trilha tortuosa e mal sinalizada –
O rio pelo qual tive que passar era frio e perigoso.
Mas insisti: queria chegar ao cume. E parecia faltar pouco
Para tanto: minhas pernas tremiam,
Meus braços estavam lanhados; minha roupa, gelada, fundida ao corpo.
Cheguei. Novamente a imagem se desfez. Tornei-me alívio e cansaço,
E senti a grandeza efêmera que é emprestada
Aos pequenos aos quais de repente se concede o poder de olhar bem longe.
Perscruto a paisagem. Vejo a placidez das pequenas casas à distância.
Vejo minha vila - eterna e sólida - e imagino minha casa.
Ela está incrustada lá, mas não consigo separá-la do todo,
Como não se consegue discernir uma árvore numa floresta observada à distância.
Imagino minha casa e a janela de meu quarto;
A janela pela qual sempre vi a montanha.
Imagino-me em casa, à janela, admirando a placidez da montanha.
Ah, como eu sou plácido e íntegro vislumbrado assim!
Sou uma como uma folha de uma árvore na montanha distante!
Porém, tal qual uma montanha,
De perto sou fragmentado, tortuoso e quase inescrutável.
Não tenho sequer trilhas dentro de mim; e meus rios são muitos.
Só eu me arriscaria a adentrar. Mas não sei se chegaria ao cume.
Sempre vi a montanha de longe,
Sua plácida silhueta cinza azulada:
A imagem da eterna solidez.
Essa imagem se manteve
Até o dia em que resolvi me aproximar;
Nesse dia aquela imagem de outrora –
Uniformemente azulada –
Tornou-se múltipla, fragmentada e colorida.
Estava quebrado o primeiro quadro.
O silêncio que lhe atribuía transformou-se
Em ruído intermitente.
De perto vi toda a vida e movimento que de longe
Sequer imaginava.
O vento movia todas as folhas de todas as árvores,
As quais eram pedras, quando olhava da minha janela.
A vida revelou-se pela proximidade.
Decidi tocar a montanha, já não me bastava vê-la e ouvi-la.
Entranhei-me nela;
Uma vez mais a imagem anterior tornou-se mera lembrança.
Na trilha que levava ao cume senti a sombra,
A umidade, o cheiro das folhas putrefatas;
Ouvi todos os intermitentes e infindáveis sons;
E toquei seus fragmentos.
Eu perdi a montanha ao adentrar na montanha.
Eu a possuía inteira e agora já não tenho aquele
Recorte cinza azulado – e não a ter é uma forma
Oblíqua de não me ter a mim.
Estou perdido dentro de nova e densa imagem.
Nada é plácido de perto.
O sol é belo à distância.
O outro é belo à distância.
Exausto, segui na trilha tortuosa e mal sinalizada –
O rio pelo qual tive que passar era frio e perigoso.
Mas insisti: queria chegar ao cume. E parecia faltar pouco
Para tanto: minhas pernas tremiam,
Meus braços estavam lanhados; minha roupa, gelada, fundida ao corpo.
Cheguei. Novamente a imagem se desfez. Tornei-me alívio e cansaço,
E senti a grandeza efêmera que é emprestada
Aos pequenos aos quais de repente se concede o poder de olhar bem longe.
Perscruto a paisagem. Vejo a placidez das pequenas casas à distância.
Vejo minha vila - eterna e sólida - e imagino minha casa.
Ela está incrustada lá, mas não consigo separá-la do todo,
Como não se consegue discernir uma árvore numa floresta observada à distância.
Imagino minha casa e a janela de meu quarto;
A janela pela qual sempre vi a montanha.
Imagino-me em casa, à janela, admirando a placidez da montanha.
Ah, como eu sou plácido e íntegro vislumbrado assim!
Sou uma como uma folha de uma árvore na montanha distante!
Porém, tal qual uma montanha,
De perto sou fragmentado, tortuoso e quase inescrutável.
Não tenho sequer trilhas dentro de mim; e meus rios são muitos.
Só eu me arriscaria a adentrar. Mas não sei se chegaria ao cume.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
viole(n)ta em mar trigueiro
Violeta, violenta,
Passividade ativa,
tem consciência da sua
condição,
sua cor é teu nome,
sua forma, atração.
Seu pólen se dispersa
no ar
alcançando o desejo
alheio.
Despertando ao
desabrochar.
Num mar trigueiro
violenta é sua cor
Abre-se por inteiro
entregando-se ao seu
admirador.
O tempo seu, só seu,
mulher,
Flor, dona de si, se dá
por prazer,
se abre pra quem quer.
só te prometi
Só
te prometi (música com cifras para violão)
(G
/ D / A / E - 4 X
D7
/ A7
um
tom abaixo:
F
/ C / G / D
C7
/ G7)
Eu
só te prometi
O
que eu posso ser
Te
fiz sorrir
Dizendo
nada ter
Falei
de tudo
Que
vou lhe dar
Mãos
atadas, beijos loucos
Sorrisos
e o meu cantar
(C7
/ G7)
Jurei pra sempre
Só
na hora
O
amor eterno
Do
agora
Eu
só te prometi
O
que eu posso ser
Te
fiz sorrir
Dizendo
nada ter
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Fala falo
coração tem fama de
gamadão:
projeta-se por todo
lado
pintado, digital ou à
mão.
embora more, no peito,
entocado,
é bateria da vida,
percussão.
tão profundo, fechado,
é usado pra falar do
amor.
ah, coração apertado,
tem fama de Don Juan do
corpo,
intenso e conquistador,
escute aqui outro
pedaço
tirar onda de trovador.
trema corpo, repercuta
inteiro,
tira roupa, surja,
apareça,
um pedaço de devaneio,
que eu diga, declame e
cresça.
se você, coração,
ama demais,
o que dirá quem é
abraçado,
tocado, cheio de tramas
sensoriais?
falo! falo mesmo! Digo,
grito,
instigo, provoco: te
amo, amo!
não, não sou nenhum
maldito,
o coração se declara,
eu me derramo.
sábado, 10 de dezembro de 2016
Museu do amanhã
Um grande tatuí quase
morto
À beira da baía de
Guanabara,
Navio branco que passou
do porto e
Das águas escuras com
sua carapaça clara.
Fóssil novo e
reluzente,
Exoesqueleto brilhante
e alvo,
Prédio derrubado
por acidente,
Gigante náufrago por
acaso salvo.
Quase totalmente
cercado de mar e mares -
Água suja, fétida,
colorida de combustível -,
A ostentar suas
estruturas triangulares,
Um corpo que se move de
forma previsível.
Um homem que se
aproxime da sua boca-entrada
O verá grande, amplo,
desdentado e faminto;
Mas ao olhar para o
lado, o verá como uma ossada
De um daqueles enormes
navios extintos.
Para nada o seu
exoesqueleto se move:
Um gasto de energia
eterno e desnecessário.
Não voa, não nada,
não anda, embora inove,
mudando e iluminando o
velho cenário.
A velha e sombria praça
do porto gigante
Agora - sem anteparos -
encara o mar,
Mas inda guarda seus
becos logo ali, adiante,
Às sombras de
edifícios e morros a se abandonar.
sábado, 22 de outubro de 2016
Borboletas em Arraial
Na igreja
de Arraial d´ajuda, sul da Bahia, na parte de trás, acima da
encosta, de frente pros coqueiros e pro mar, eu e Zezé (tio), fim de
tarde, passou uma borboleta; eu ou ele a pegamos com os dedos em
pinça, soltamos segundos depois. Ele disse que uma borboleta vivia
muito pouco, um ou poucos dias, e que não era justo prendê-la; que
pelo pouco tempo de vida, dez segundos presa nos nossos dedos era
muito tempo pra ela; e daí resolvemos calcular o que seriam esses
dez segundos em tempo de vida humana. Não me lembro se chegamos a
algum resultado numérico. Rimos. Rimos muito. A borboleta circulava
à volta; tentamos equiparar as 24 horas da vida da borboleta a uma
média de 70 anos de vida humana; falamos de como tudo era efêmero;
discutimos se a borboleta teria alguma noção sobre a brevidade da
sua vida; e se a noção de tempo da borboleta era diferente da
nossa, se ela encarava um dia como nós os 70 anos; se ela sentiria a
velhice ou algo parecido. Lembro apenas da conclusão principal do
papo que durou não sei quanto tempo, estava escuro quando
levantamos: era uma puta sacanagem segurar as borboletas, pelo tempo
que fosse.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Catadores
Publicado recentemente no Brasil, A política da mudança climática, de Anthony Giddens, trata da "mudança climática sobretudo como uma questão política e defende que toda decisão deve observar o contexto econômico e geopolítico mundial."
Semana passada, comprei o livro numa livraria do centro do Rio. Ao sair de lá, caminhei em direção ao Terminal Menezes Côrtes, a fim de pegar o ônibus de volta para casa. Eu não havia andado por dez minutos quando deparei com montanhas de papel. Não, não estou exagerando: ao lado do Terminal os catadores se reúnem todas as noites, para coletar o lixo reciclável. O contraste foi enorme: em pouquíssimo tempo eu havia passado do livro de Giddens, um livro novo, papel novo, teoria, a homens catando papéis usados, lixo, realidade. A tese do sociólogo – exposta com estilo – pareceu-me distante demais da vida.
Não estou dizendo que as questões ambientais não devam ser discutidas; pelo contrário: elas precisam, sim, ser trazidas à luz, debatidas; contudo, num lugar em que pessoas catam papéis na rua, até altas horas, sem qualquer proteção, tanto física quanto jurídica (sem luvas, botas e sem vínculo empregatício), o clima se torna algo demasiadamente afastado.
Na verdade, Giddens tornou-se-me distante, na medida em que tenho poucas esperanças quanto à eficácia do debate sobre os problemas ambientais. Vivemos num sistema econômico que necessita de crescimento constante, que se baseia no consumo; logo, os problemas ambientais são apenas conseqüência e não serão resolvidos enquanto não houver uma intervenção nas causas.
Ostentando suas bolsas de pano - última moda entre os "preocupados com o futuro do planeta" - as pessoas falam sobre proteção ambiental, mas trocam de celular, computador, TV, carro, toca-mp3 etc. toda hora, assim que conseguem – mesmo que para tanto tenham que se endividar, o que também faz parte do jogo. Falar de preocupação em relação à natureza enquanto se consome tudo o que pode (e também o que não pode!) é cegueira, ignorância ou hipocrisia.
Os catadores com certeza não são uma ameaça ao equilíbrio ambiental: eles consomem pouco, não possuem veículos poluidores e ainda promovem a reciclagem. Quem são esses homens - esses “consumidores falhos”[1] -, que, como os camelôs, vagam pelas ruas, sem qualquer proteção, coletando os restos, as sobras?
Estamos na era da desregulamentação, da privatização: o Estado, cada vez menor, não se mete no trabalho desses homens. Os lixeiros têm ainda alguma proteção, uma relação de emprego, enquanto os catadores – homens invisíveis que ajudam a reciclar - ficam à margem, embora desempenhem uma função importante.
Em “A queda”, Albert Camus fala sobre a inércia de um homem diante da queda de uma suicida no rio:
“Já havia percorrido uns cinqüenta metros aproximadamente, quando ouvi um ruído que, apesar da distância, me pareceu , no silêncio da noite, de um corpo caindo na água. Parei instintivamente, sem me voltar. Quase ao mesmo tempo, ouvi um grito, repetido várias vezes, que descia também o rio, e que se extinguiu bruscamente.”
Estou cansado de passar por pessoas que se jogam e gritam; nada faço, porém. Há um ano escrevi sobre os camelôs (refrões da cidade e escravos de ganho) e à época meu desejo era escrever sobre outras funções de “homens livres” das grandes cidades. Sou um catador de palavras.
Sobre consumo e lixo, escrevi há algum tempo:
Fungível
Não discuta,
Não reflita!
Pega o que lhe dão
E siga em frente,
Não só porque atrás vem gente,
Mas também porque não se deve parar nunca -
Ainda mais, assim, de repente!
Semana passada, comprei o livro numa livraria do centro do Rio. Ao sair de lá, caminhei em direção ao Terminal Menezes Côrtes, a fim de pegar o ônibus de volta para casa. Eu não havia andado por dez minutos quando deparei com montanhas de papel. Não, não estou exagerando: ao lado do Terminal os catadores se reúnem todas as noites, para coletar o lixo reciclável. O contraste foi enorme: em pouquíssimo tempo eu havia passado do livro de Giddens, um livro novo, papel novo, teoria, a homens catando papéis usados, lixo, realidade. A tese do sociólogo – exposta com estilo – pareceu-me distante demais da vida.
Não estou dizendo que as questões ambientais não devam ser discutidas; pelo contrário: elas precisam, sim, ser trazidas à luz, debatidas; contudo, num lugar em que pessoas catam papéis na rua, até altas horas, sem qualquer proteção, tanto física quanto jurídica (sem luvas, botas e sem vínculo empregatício), o clima se torna algo demasiadamente afastado.
Na verdade, Giddens tornou-se-me distante, na medida em que tenho poucas esperanças quanto à eficácia do debate sobre os problemas ambientais. Vivemos num sistema econômico que necessita de crescimento constante, que se baseia no consumo; logo, os problemas ambientais são apenas conseqüência e não serão resolvidos enquanto não houver uma intervenção nas causas.
Ostentando suas bolsas de pano - última moda entre os "preocupados com o futuro do planeta" - as pessoas falam sobre proteção ambiental, mas trocam de celular, computador, TV, carro, toca-mp3 etc. toda hora, assim que conseguem – mesmo que para tanto tenham que se endividar, o que também faz parte do jogo. Falar de preocupação em relação à natureza enquanto se consome tudo o que pode (e também o que não pode!) é cegueira, ignorância ou hipocrisia.
Os catadores com certeza não são uma ameaça ao equilíbrio ambiental: eles consomem pouco, não possuem veículos poluidores e ainda promovem a reciclagem. Quem são esses homens - esses “consumidores falhos”[1] -, que, como os camelôs, vagam pelas ruas, sem qualquer proteção, coletando os restos, as sobras?
Estamos na era da desregulamentação, da privatização: o Estado, cada vez menor, não se mete no trabalho desses homens. Os lixeiros têm ainda alguma proteção, uma relação de emprego, enquanto os catadores – homens invisíveis que ajudam a reciclar - ficam à margem, embora desempenhem uma função importante.
Em “A queda”, Albert Camus fala sobre a inércia de um homem diante da queda de uma suicida no rio:
“Já havia percorrido uns cinqüenta metros aproximadamente, quando ouvi um ruído que, apesar da distância, me pareceu , no silêncio da noite, de um corpo caindo na água. Parei instintivamente, sem me voltar. Quase ao mesmo tempo, ouvi um grito, repetido várias vezes, que descia também o rio, e que se extinguiu bruscamente.”
Estou cansado de passar por pessoas que se jogam e gritam; nada faço, porém. Há um ano escrevi sobre os camelôs (refrões da cidade e escravos de ganho) e à época meu desejo era escrever sobre outras funções de “homens livres” das grandes cidades. Sou um catador de palavras.
Sobre consumo e lixo, escrevi há algum tempo:
Fungível
Não discuta,
Não reflita!
Pega o que lhe dão
E siga em frente,
Não só porque atrás vem gente,
Mas também porque não se deve parar nunca -
Ainda mais, assim, de repente!
Aceite, ceda,
Não resista ao que se lhe apresenta;
Um pedaço é melhor que nada.
Pegue-o, use-o,
Consuma-o, descarte-o,
Afinal, moramos em Leônia.
Consuma-o, descarte-o,
Afinal, moramos em Leônia.
E não se preocupe nunca!
Você precisa mesmo descartar este pedaço
Para consumir o outro que virá.
É sempre hora de trocar:
Larga pois o que tem em mãos
E agarra hoje o novo que lhe dão!
Sobre o tema, diz Bauman em "Amor líquido" (p. 11):
"Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia, uma das 'Cidades Invisíveis' de Italo Calvino, diriam que sua paixão é 'desfrutar coisas novas e diferentes'. De fato. A cada manhã eles 'vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento'. Mas a cada manhã 'as sobras da Leônia de ontem aguardam o caminhão de lixo', e cabe indagar se a verdadeira paixão dos leonianos na verdade não seria o 'prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente'. Caso contrário, por que os varredores de rua seriam 'recebidos como anjos', mesmo que sua missão fosse 'cercada de um silêncio respeitoso' (o que é compreensível: 'ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas')?"
No entanto, é isso que tenho feito: ando pelo lixo catando palavras. Eu sou o lixo. Olho, vejo e escrevo, mas nada reparo. [2]
__________________________
Notas:
[1] “Uma vez que o critério da pureza é a aptidão de participar do jogo consumista, os deixados de fora como um ‘problema’, como a ‘sujeira’ que precisa ser removida, são consumidores falhos – pessoas que são incapazes de responder aos atrativos do mercado consumidor porque lhes faltam os recursos requeridos, pessoas incapazes de ser ‘indivíduos livres’ conforme o senso de ‘liberdade’ definido em função do poder de escolha do consumidor.” BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. P. 24.
[2] "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." SARAMAGO, José. Prólogo de Ensaio sobre a cegueira.
Links para os textos citados:
ecosprosaicos.blogspot.com/2009/08/poderia-ser-ficcao.html
ecosprosaicos.blogspot.com/2009/08/refroes-da-cidade.html
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sábado, 31 de outubro de 2009
Tecnocracia e poesia, segundo Quintana
"Não pretendo que a poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual. Mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando assim mais próximo da natureza, mais por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia, nunca." (Quintana, Mario. A vaca e o Hipogrifo. P. 133)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Chuva de imagens
Italo Calvino começa sua conferência sobre a visibilidade citando um verso de Dante no “Purgatório” (XVII, 25): “Chove dentro da alta fantasia”.* Neste trecho de “A divina comédia”, a personagem percorre o círculo dos coléricos, onde “contempla imagens que se formam diretamente em seu espírito, e que representam exemplos clássicos e bíblicos de punição da ira; Dante compreende que essas imagens chovem do céu, ou seja, que Deus as envia.”
E, no começo do Canto XVII - antes da projeção direta de imagens em sua mente -, Dante descreve a cegueira causada por uma “névoa densa”, a qual teve que atravessar:
“Se alguma vez, leitor, em alguma alpina cordilheira foste surpreendido por névoa densa, através da qual não podias enxergar, igualados que ficaram teus olhos aos da toupeira, recorde-te de que ao principiar a descerrar-se a cortina úmida e espessa iam-se infiltrando débeis raios de sol.”
Esta cegueira causada pela névoa espessa - e a ansiedade de atravessá-la - seguida pela projeção de imagens assemelha-se muito ao que sinto quando vou ao cinema: a escuridão que antecede a projeção do filme é como a névoa densa, e a luz que me liberta desta cortina é a que revela as imagens na tela.
As cenas projetadas são como os pensamentos, os sonhos; o cinema tem essa capacidade de apresentar sequências de imagens e de manipular o tempo, tal qual fazemos ao imaginarmos. Quando lembramos de algo, fantasiamos sobre um desejo ou pensamos sobre uma estória, projetam-se cenas em nossa mente. Geralmente controlamos nossos pensamentos e escolhemos por onde seguiremos. Algumas vezes, no entanto, enveredamos por caminhos que não são tão agradáveis de percorrer, mas mesmo assim seguimos, apesar do mal estar que certas cenas (que existiram de fato ou que criamos) nos causam; não é sempre que conseguimos dirigir nossos filmes internos.
Embora seja óbvio, vale a pena ressaltar que as palavras “imaginação” e “imagem” pertencem à mesma família etimológica; ou seja, a língua não ignora que fantasiamos por meio de imagens.
Quando lemos ou assistimos a um filme, aderimos à seqüência de imagens sugerida por outrem. Ao ler um romance, as palavras despertam imagens dentro de nós, a tela onde se projeta a estória é interna. Essa relação entre as imagens e as palavras é muito interessante, pois o escritor, ao descrever um fato, transforma sua representação interna em palavras, e o leitor, ao se deparar com as descrições, transforma aquelas palavras em imagens dentro de si.
O cinema, por sua vez, parte da imagem; portanto, assistir a um filme parece ser o que mais se aproxima da experiência de vislumbrar um sonho alheio. Chovem imagens na tela e as nuvens das quais elas caem são formadas pela imaginação do cineasta, que escolheu como criar as cenas; as câmeras as condensam e o projetor as precipita. A chuva de cenas irriga nossos pensamentos, desperta emoções, traz lembranças, nos leva a refletir sobre a estória, a nos identificar etc.
Ir ao cinema pode ser tão catártico como tomar um banho de chuva no verão. Quem já passou uma tarde de fevereiro brincando ao ar livre, sob o sol escaldante e, no fim da tarde, suado, foi surpreendido por uma torrencial chuva de verão, cujos primeiros pingos parecem evaporar antes mesmo de tocar o chão - você se lembra do cheiro desse vapor? -, sabe do que estou falando.
Para mim, a música que melhor representa o fascínio que o cinema pode causar é “Cinema Olympia” (Caetano), na versão de Elis, ao vivo.
Não há por que me estender em comentários sobre a letra; basta-me salientar a ligação da música com a letra: Elis começa cantando lentamente sobre as tardes sem cinema, normais e em seguida vai acelerando. Na estrofe seguinte canta sobre o que quer a fim de fugir do marasmo, e no refrão chega ao êxtase ao falar do lugar onde encontrará “gargalhada geral do meio dia até o anoitecer”. A interpretação de Elis é tão incrível que torna minhas análises sobre “Cinema Olympia” inúteis. Para sentir o deslumbramento cantado por Elis, só há uma forma: ir ao cinema e se deixar encharcar pelas imagens que chovem na tela.
Nota
* CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 97.
E, no começo do Canto XVII - antes da projeção direta de imagens em sua mente -, Dante descreve a cegueira causada por uma “névoa densa”, a qual teve que atravessar:
“Se alguma vez, leitor, em alguma alpina cordilheira foste surpreendido por névoa densa, através da qual não podias enxergar, igualados que ficaram teus olhos aos da toupeira, recorde-te de que ao principiar a descerrar-se a cortina úmida e espessa iam-se infiltrando débeis raios de sol.”
Esta cegueira causada pela névoa espessa - e a ansiedade de atravessá-la - seguida pela projeção de imagens assemelha-se muito ao que sinto quando vou ao cinema: a escuridão que antecede a projeção do filme é como a névoa densa, e a luz que me liberta desta cortina é a que revela as imagens na tela.
As cenas projetadas são como os pensamentos, os sonhos; o cinema tem essa capacidade de apresentar sequências de imagens e de manipular o tempo, tal qual fazemos ao imaginarmos. Quando lembramos de algo, fantasiamos sobre um desejo ou pensamos sobre uma estória, projetam-se cenas em nossa mente. Geralmente controlamos nossos pensamentos e escolhemos por onde seguiremos. Algumas vezes, no entanto, enveredamos por caminhos que não são tão agradáveis de percorrer, mas mesmo assim seguimos, apesar do mal estar que certas cenas (que existiram de fato ou que criamos) nos causam; não é sempre que conseguimos dirigir nossos filmes internos.
Embora seja óbvio, vale a pena ressaltar que as palavras “imaginação” e “imagem” pertencem à mesma família etimológica; ou seja, a língua não ignora que fantasiamos por meio de imagens.
Quando lemos ou assistimos a um filme, aderimos à seqüência de imagens sugerida por outrem. Ao ler um romance, as palavras despertam imagens dentro de nós, a tela onde se projeta a estória é interna. Essa relação entre as imagens e as palavras é muito interessante, pois o escritor, ao descrever um fato, transforma sua representação interna em palavras, e o leitor, ao se deparar com as descrições, transforma aquelas palavras em imagens dentro de si.
O cinema, por sua vez, parte da imagem; portanto, assistir a um filme parece ser o que mais se aproxima da experiência de vislumbrar um sonho alheio. Chovem imagens na tela e as nuvens das quais elas caem são formadas pela imaginação do cineasta, que escolheu como criar as cenas; as câmeras as condensam e o projetor as precipita. A chuva de cenas irriga nossos pensamentos, desperta emoções, traz lembranças, nos leva a refletir sobre a estória, a nos identificar etc.
Ir ao cinema pode ser tão catártico como tomar um banho de chuva no verão. Quem já passou uma tarde de fevereiro brincando ao ar livre, sob o sol escaldante e, no fim da tarde, suado, foi surpreendido por uma torrencial chuva de verão, cujos primeiros pingos parecem evaporar antes mesmo de tocar o chão - você se lembra do cheiro desse vapor? -, sabe do que estou falando.
Para mim, a música que melhor representa o fascínio que o cinema pode causar é “Cinema Olympia” (Caetano), na versão de Elis, ao vivo.
Não há por que me estender em comentários sobre a letra; basta-me salientar a ligação da música com a letra: Elis começa cantando lentamente sobre as tardes sem cinema, normais e em seguida vai acelerando. Na estrofe seguinte canta sobre o que quer a fim de fugir do marasmo, e no refrão chega ao êxtase ao falar do lugar onde encontrará “gargalhada geral do meio dia até o anoitecer”. A interpretação de Elis é tão incrível que torna minhas análises sobre “Cinema Olympia” inúteis. Para sentir o deslumbramento cantado por Elis, só há uma forma: ir ao cinema e se deixar encharcar pelas imagens que chovem na tela.
Nota
* CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 97.
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sábado, 25 de julho de 2009
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido"
Um amor não realizado é um dos sentimentos mais intensos que há. Perdoem-me pela frase feita, mas, tratando do tema, não consigo construir uma frase menos ordinária; talvez porque não haja de fato outra forma de falar da intensidade deste tipo de paixão.
Pode ser o mais estranho dos paradoxos, porém a verdade é que quando a paixão se realiza - quando se é correspondido - a intensidade do sentimento se transforma: as expectativas e os sonhos inerentes ao momento anterior ao início da relação perdem seu caráter místico para dar espaço à realidade.
É no momento que antecede a vivência (paixão ainda idealizada) que a intensidade e o desejo - e toda a fantasia que os acompanha - são mais fortes. Muito semelhante é o que ocorre com o amor que começou a se realizar, mas foi interrompido abruptamente na fase inicial; neste caso, é como se não houvesse realização e a fantasia preenche esta lacuna deixada pela frustração.
A dúvida é crucial neste processo. A princípio, nunca sabemos se seremos correspondidos, se o outro está sentindo o mesmo que nós; e é esta incerteza que fundamenta toda a fantasia sobre o futuro, que mais parece sonhar acordado. Esta mistura de medo e desejo é indescritível; somente a experiência da paixão é capaz de proporcionar tal sensação; as palavras (meros símbolos) ficam aquém do sentimento (como sempre); no entanto, mesmo tendo consciência da inutilidade das palavras diante da vida, insistimos em usá-las para expressar o inefável (mais um paradoxo que se impõe).
Nosso pensamento fica encharcado do intenso sentimento que o ser pelo qual estamos apaixonados provoca. Tudo nos faz lembrar dele; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício; e esta obsessão (podemos chamá-la assim) não é tanto pelo outro, mas pelo que ele (ser amado) desperta dentro de nós, o que faz da paixão algo muito próximo do narcisismo.
Com efeito, queremos encontrar o objeto da paixão a toda hora, desejamos ouvi-lo, tocá-lo, senti-lo; os limites entre nós e ele perdem-se e nossa vontade predominante é de fusão. Contudo, não é o outro em si o que desejamos em última instância; queremos sentir dentro de nós o que aquele ser desperta. Como assevera Nietzsche: “em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.”
Diante da paixão, passamos a ignorar a realidade da solidão, para acreditar que a separação (na verdade, invencível) é superável, desde que aquele ser específico nos acolha. A verdade (ou melhor, o que elegemos como verdade) torna-se o que sentimos pelo outro.
E é justamente este sofrimento, causado pela paixão idealizada, o sentimento mais utilizado pelos artistas românticos como base para sua criação. O amor deve ser refutado, a realização deve ser impossível ou pelo menos postergada ao máximo; o que importa é a paixão que antecede (que almeja, mas não alcança) a relação fantasiada.
Segundo Nietzsche, “o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.” E, como sabemos, o filósofo destruidor de ídolos era um crítico severo do romantismo, que para ele seria a “plebe sensual”, na medida em que o artista digno não é aquele dilacerado e enfraquecido por suas paixões interiores, mas aquele que sabe cultivar “o ódio ao sentimento, à sensibilidade (...), o ódio ao que é múltiplo, incerto, vago...”.
Afirma Nietzsche que “o herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído” pela contradição de suas forças internas. A verdadeira arte para o homem que declarou o óbito de deus seria a clássica, a qual refuta as emoções sentimentais; para ele são expressões do “grande estilo” - arte, portanto - o que fizeram os gregos, na antiguidade, e os franceses, no fim do séc. XVII.* E a arte, segundo o filósofo destruidor de ídolos, é essencial: ele a classifica como “força ativa” e chega a afirmar que “sem a música [arte], a vida seria um erro”.
Minha tendência é, tal qual Nietzsche, rejeitar o romantismo. Mas confesso que, em certos momentos, me identifico com a fraqueza, o vício, a obsessão, a doença inerente aos românticos, o que faz com que meu "realismo" caia por terra. Depois, quando volto ao normal (sim, porque a paixão é tudo menos normalidade), o "realismo" retorna ao comando e passo a observar a paixão de uma distância segura, ou seja, nos outros, não mais em mim.
Sobre o amor romântico, há uma música extremamente bela que representa perfeitamente o tema:
"Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
(Márcio Borges e Lô Borges)
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo
Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
A primeira estrofe demonstra o quanto o ser amado torna-se uma obsessão, uma vez que o Eu-lírico ao ver uma imagem da terra azul a associa ao vestido de sua amada. Como eu disse acima, “tudo nos faz lembrar dele [objeto da paixão]; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício.”
E a idéia da associação de todos objetos e cores ao objeto da paixão é retomada outras vezes na música:
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
Estes versos expressam o quanto a paixão domina: nosso pensamento passa a ter a cor das vestes de quem amamos; o girassol passa a ter a cor do cabelo dela; ou seja, estamos imersos no que o objeto amado representa para nós.
Esta música tem um significado muito especial para mim, pois me lembra a época da separação dos meus pais (eu tinha uns 3 ou 4 anos), na qual imaginava que meu pai a cantava para minha mãe - o que transformou esta canção na expressão sonora do meu desejo infantil de ver meus pais unidos novamente.
Sonhava acordado com meu pai perguntando à minha mãe:
"Você ainda quer morar comigo?
(...)
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
E não era nada absurdo o meu sonho, pois meu pai é um poeta e ainda morava na mesma rua. Dentro deste contexto, emociono-me demais com a beleza dos versos: “Se eu cantar não chore não / É só poesia” e “Se eu morrer não chore não / É só a lua”. São perfeitos.
Já faz muito tempo que aceitei a separação dos meus pais e hoje não nutro qualquer desejo de vê-los juntos. Sei que o tempo deles passou e a vida os presenteou com outras relações, que lhes trouxeram a realização que não conseguiram juntos. Mas esta música, apesar de continuar evocando estas lembranças da infância (e nunca deixará de evocá-las), transformou-se com o tempo: eu passei a ser o Eu-lírico: não vejo mais meu pai cantando para minha mãe, mas eu mesmo cantando para minha amada:
"Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
Nota:
* FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos; tradução Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Págs. 174 a 232.
Pode ser o mais estranho dos paradoxos, porém a verdade é que quando a paixão se realiza - quando se é correspondido - a intensidade do sentimento se transforma: as expectativas e os sonhos inerentes ao momento anterior ao início da relação perdem seu caráter místico para dar espaço à realidade.
É no momento que antecede a vivência (paixão ainda idealizada) que a intensidade e o desejo - e toda a fantasia que os acompanha - são mais fortes. Muito semelhante é o que ocorre com o amor que começou a se realizar, mas foi interrompido abruptamente na fase inicial; neste caso, é como se não houvesse realização e a fantasia preenche esta lacuna deixada pela frustração.
A dúvida é crucial neste processo. A princípio, nunca sabemos se seremos correspondidos, se o outro está sentindo o mesmo que nós; e é esta incerteza que fundamenta toda a fantasia sobre o futuro, que mais parece sonhar acordado. Esta mistura de medo e desejo é indescritível; somente a experiência da paixão é capaz de proporcionar tal sensação; as palavras (meros símbolos) ficam aquém do sentimento (como sempre); no entanto, mesmo tendo consciência da inutilidade das palavras diante da vida, insistimos em usá-las para expressar o inefável (mais um paradoxo que se impõe).
Nosso pensamento fica encharcado do intenso sentimento que o ser pelo qual estamos apaixonados provoca. Tudo nos faz lembrar dele; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício; e esta obsessão (podemos chamá-la assim) não é tanto pelo outro, mas pelo que ele (ser amado) desperta dentro de nós, o que faz da paixão algo muito próximo do narcisismo.
Com efeito, queremos encontrar o objeto da paixão a toda hora, desejamos ouvi-lo, tocá-lo, senti-lo; os limites entre nós e ele perdem-se e nossa vontade predominante é de fusão. Contudo, não é o outro em si o que desejamos em última instância; queremos sentir dentro de nós o que aquele ser desperta. Como assevera Nietzsche: “em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.”
Diante da paixão, passamos a ignorar a realidade da solidão, para acreditar que a separação (na verdade, invencível) é superável, desde que aquele ser específico nos acolha. A verdade (ou melhor, o que elegemos como verdade) torna-se o que sentimos pelo outro.
E é justamente este sofrimento, causado pela paixão idealizada, o sentimento mais utilizado pelos artistas românticos como base para sua criação. O amor deve ser refutado, a realização deve ser impossível ou pelo menos postergada ao máximo; o que importa é a paixão que antecede (que almeja, mas não alcança) a relação fantasiada.
Segundo Nietzsche, “o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.” E, como sabemos, o filósofo destruidor de ídolos era um crítico severo do romantismo, que para ele seria a “plebe sensual”, na medida em que o artista digno não é aquele dilacerado e enfraquecido por suas paixões interiores, mas aquele que sabe cultivar “o ódio ao sentimento, à sensibilidade (...), o ódio ao que é múltiplo, incerto, vago...”.
Afirma Nietzsche que “o herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído” pela contradição de suas forças internas. A verdadeira arte para o homem que declarou o óbito de deus seria a clássica, a qual refuta as emoções sentimentais; para ele são expressões do “grande estilo” - arte, portanto - o que fizeram os gregos, na antiguidade, e os franceses, no fim do séc. XVII.* E a arte, segundo o filósofo destruidor de ídolos, é essencial: ele a classifica como “força ativa” e chega a afirmar que “sem a música [arte], a vida seria um erro”.
Minha tendência é, tal qual Nietzsche, rejeitar o romantismo. Mas confesso que, em certos momentos, me identifico com a fraqueza, o vício, a obsessão, a doença inerente aos românticos, o que faz com que meu "realismo" caia por terra. Depois, quando volto ao normal (sim, porque a paixão é tudo menos normalidade), o "realismo" retorna ao comando e passo a observar a paixão de uma distância segura, ou seja, nos outros, não mais em mim.
Sobre o amor romântico, há uma música extremamente bela que representa perfeitamente o tema:
"Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
(Márcio Borges e Lô Borges)
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo
Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
A primeira estrofe demonstra o quanto o ser amado torna-se uma obsessão, uma vez que o Eu-lírico ao ver uma imagem da terra azul a associa ao vestido de sua amada. Como eu disse acima, “tudo nos faz lembrar dele [objeto da paixão]; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício.”
E a idéia da associação de todos objetos e cores ao objeto da paixão é retomada outras vezes na música:
"O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"
Estes versos expressam o quanto a paixão domina: nosso pensamento passa a ter a cor das vestes de quem amamos; o girassol passa a ter a cor do cabelo dela; ou seja, estamos imersos no que o objeto amado representa para nós.
Esta música tem um significado muito especial para mim, pois me lembra a época da separação dos meus pais (eu tinha uns 3 ou 4 anos), na qual imaginava que meu pai a cantava para minha mãe - o que transformou esta canção na expressão sonora do meu desejo infantil de ver meus pais unidos novamente.
Sonhava acordado com meu pai perguntando à minha mãe:
"Você ainda quer morar comigo?
(...)
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
E não era nada absurdo o meu sonho, pois meu pai é um poeta e ainda morava na mesma rua. Dentro deste contexto, emociono-me demais com a beleza dos versos: “Se eu cantar não chore não / É só poesia” e “Se eu morrer não chore não / É só a lua”. São perfeitos.
Já faz muito tempo que aceitei a separação dos meus pais e hoje não nutro qualquer desejo de vê-los juntos. Sei que o tempo deles passou e a vida os presenteou com outras relações, que lhes trouxeram a realização que não conseguiram juntos. Mas esta música, apesar de continuar evocando estas lembranças da infância (e nunca deixará de evocá-las), transformou-se com o tempo: eu passei a ser o Eu-lírico: não vejo mais meu pai cantando para minha mãe, mas eu mesmo cantando para minha amada:
"Você vem?
Ou será que é tarde demais?"
Nota:
* FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos; tradução Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Págs. 174 a 232.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Dança de Eleanor
Há muito penso em escrever sobre a solidão; mas, por ironia do destino, quando tento me debruçar sobre o tema, alguém aparece ou algum aparelho toca. E, na verdade, pra escrever sobre a solidão,
É preciso assistir, desacompanhado,
ao ocaso;
E jantar sozinho
Num sábado.
É preciso tornar-me azul
Diante da luz que emana da televisão
Num quarto escuro.
É preciso chorar sem preocupação
De que vejam minhas lágrimas,
E rir, e ouvir minha risada
Como um som estranho e distante.
É preciso dançar só, de janelas fechadas,
E estar tão isolado a ponto de imaginar alguém
Com quem conversar;
É preciso querer sair e não encontrar forças;
E se forças encontrar,
Andar sem destino, sem hora pra voltar
E sem ninguém a me esperar.
Existem pelo menos duas espécies de solidão: a que desejamos (auto-isolamento) e a que se nos impõe, quando os outros nos esquecem, ainda que temporariamente. Confesso que, como misantropo, sou adepto da primeira modalidade: sou mestre em me isolar. E não me sinto nem um pouco mal com isso. É mais fácil irritar-me com a presença constante que com a ausência.
Minha paixão pela literatura muito tem a ver com minha propensão à solidão; não me sinto nada só quando leio ou escrevo - sinto-me, na verdade, num monólogo silencioso, que freqüentemente mais me parece um diálogo (quase uma esquizofrenia, como a descrita em "Lobo da Estepe", de H. Hesse).
A poesia acima trata da solidão imposta, aquela da qual fugimos. Confesso que é muito difícil sentir a separação completa - embora na realidade sejamos sempre solitários, quer aceitemos esse fato ou não -, em razão das várias formas de atenuar, mascarar, a inexorável solidão que nos é inerente. Ligamos o computador e, num minuto, estamos conectados a várias outras pessoas (perfis); ligamos a TV ou o rádio; o celular permite que encontremos as pessoas onde quer que estejam, ou seja, acessamos o outro na hora em que desejamos. Mas até que ponto este "contato virtual" satisfaz nossa necessidade de nos relacionar?
E não se iluda: encontrar pessoas não significa sair da solidão. No meu caso, estar no meio da multidão muita vez aumenta minha sensação de alienação. E isso também acontece com as companhias superficiais, as conversas sem atenção, as palavras sem reflexão. Na verdade, prefiro a solidão ao contato vazio.
Hoje, para ficar realmente só - ou melhor, para sentir integralmente a solidão, sem subterfúgios - é necessário se esforçar; para tanto, temos que desligar todos os aparelhos: TV, computador, mp3 player, telefones etc.
Com efeito, a rapidez de nossos tempos nos conduz a estas relações fugazes e superficiais, que se prestam a dissimular o silêncio de nossa alienação. Há muitos “perfis” (máscaras virtuais) para se conectar, mas poucas pessoas (seres humanos) para se relacionar de verdade. Como afirma Bauman, nossas relações são cada vez mais líquidas, fluidas. Impossível não concordar.
Nesse contexto, as músicas que evoco abordam o tema com uma profundidade peculiar. Uma trata das pessoas que são sozinhas; outra, das pessoas que estão sozinhas.
Quem é “Eleanor Rigby” (Beatles)?
Esta mulher que cata, sozinha, grãos de arroz depois de um casamento. Reparem na profundidade desta descrição: o casamento representa justamente a celebração da união; assim, catar, só, os grãos caídos ao chão, depois desta cerimônia é ainda mais grave, na medida em que reforça o isolamento.
“Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door”
Quem é ela? Esta mulher que vive num sonho e espera à janela, vestindo a face (ostentando a máscara) que mantém num pote perto da porta. Este verso permite diversas interpretações. Para mim, a janela representa a relação com os outros, o que permitimos que os outros vejam; desta forma, a máscara guardada no pote é a expressão que Eleanor ostenta quando se expõe.
E de onde vêm as pessoas solitárias?
E quem é o padre Mackenzie, que se dedica a elaborar um sermão que ninguém escutará? De onde ele vem? E quem se importa?
O solitário representa aquele que não interage e que, portanto, é um observador, um ser afastado, que assiste, à distância, às vidas e relações alheias. A imagem de Eleanor à janela é exatamente esta: a de alguém que observa a vida e não a vive. Não se trata de solidão-estado, mas, sim, de solidão-ser.
"Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came"
A idéia de um enterro sem qualquer pessoa é uma das imagens mais fortes que se pode ter da solidão. A morte, por si só, é separação, abandono; um velório vazio é uma morte dentro da morte. Ninguém foi ao enterro de Eleanor. O ato de velar o corpo e após enterrá-lo é um ato que celebra a extinção do eu: escondemos embaixo da terra os vestígios materiais que restam inertes. Socialmente, alguém que não se relaciona, já está morto; confirmamos amiúde nossa existência ao interagir.
Em relação à outra música, podemos refletir como seria então a “Dança da solidão”, que parece exprimir um paradoxo, pois dançar é uma manifestação social, a qual, seja numa tribo ou numa festa, envolve várias pessoas.
“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura”
Segundo o Eu-lírico, a solidão petrifica, tal qual a cabeça de medusa; ela é “lava que cobre tudo”, é “amargura” na boca, tem dentes de chumbo, e cava o coração silenciosamente. Esta é a solidão que decorre da desilusão amorosa.
É interessante notar que tanto em "Eleanor Rigby" quanto em "Dança da solidão", há referência a personagens: o Eu-liríco, na segunda música, cita Camélia, a viúva; Joana, a apaixonada; e Maria, a desiludida. Penso que a idéia de criar personagens é relevante para personificar a solidão e, desta forma, provocar a identificação.
Na primeira parte da última estrofe, aborda-se o caráter criativo da solidão, “Quando vem a madrugada / Meu pensamento vagueia / Corro os dedos na viola / Contemplando a lua cheia”.
De fato, a solidão é imprescindível à criação artística. Como diz Calvino, "o temperamento saturnino [tendente ao melancólico, ao solitário] é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores (...). É certo que a literatura não existiria se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é (...)".
Outrossim, no que se refere à desilusão - pois a solidão da segunda canção decorre da frustração amorosa -, lembro-me de Pessoa a dizer que:
"Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um".
Entretanto, enquanto em “Eleanor Rigby” a solidão não encontra nenhum remédio, em "Dança da solidão", vemos que, ao fim, o Eu-lírico, que baila ao som mudo do abandono, propõe uma solução para o alheamento:
”Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura”
Esta solução pode ser interpretada de diversas formas. O que seria esta “fonte de água pura”? Pode ser a aceitação da nossa inelutável solidão, entendendo-se que esta fonte de água pura emana do nosso próprio ser, ou uma solução metafísica, caso se prefira acreditar num ser supremo e onipresente.
Podemos disfarçar a solidão, nos distrair um pouco, acreditar que o outro poderá removê-la - assim agimos ao nos apaixonarmos -, da mesma forma que é comum dissimularmos a inevitabilidade da morte - seja ignorando-a, seja preferindo acreditar num além, numa “esperança supraterrestre.” * Para mim, todavia, que não ouso “blasfemar contra a terra”, não há solução: a solidão é invencível, assim como a morte. Prefiro a realidade à ilusão.
Nota
* V. prólogo de Assim falou Zaratustra, uma das últimas obras de Nietzsche.“Eu vos conjuro, ó irmãos, permaneçam fiéis à terra e não creiam naqueles que vos falam da esperança supraterrestre. (...) De agora em diante, o crime é blasfemar contra a terra e conceder mais apreço às entranhas do inescrutável do que ao sentido da terra”.
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