Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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quinta-feira, 4 de junho de 2026
TRAINSPOTTING
Baseado no livro Trainspotting, de Irvine Welsh, e adaptado para o cinema por Danny Boyle, Trainspotting é muito mais do que uma história sobre dependência química. É um retrato brutal de uma geração sem perspectivas, mergulhada no desemprego, na exclusão social e no desencanto com as promessas do capitalismo contemporâneo.
A famosa fala “Choose Life” (“Escolha a Vida”) não é um convite à esperança, mas uma ironia. O filme questiona a ideia de que felicidade significa consumir, trabalhar, comprar e repetir um roteiro pré-fabricado. Para Renton e seus amigos, a heroína surge como uma fuga desesperada de uma realidade que parece tão vazia quanto o próprio vício.
O grande mérito da obra é não transformar seus personagens em monstros nem em heróis. O vício aparece como sintoma de uma sociedade adoecida, marcada pela desigualdade, pelo abandono e pela falta de sentido. Em vez de moralismo, encontramos humanidade, contradições e tragédias profundamente reais.
Trinta anos depois, Trainspotting continua atual. Talvez porque as drogas tenham mudado de forma: além das substâncias químicas, vivemos cercados por vícios em consumo, tecnologia, apostas e validação social. A pergunta permanece a mesma: o que estamos escolhendo quando dizemos que escolhemos a vida?
Indicação obrigatória para quem gosta de obras que provocam desconforto e reflexão, mostrando que o problema nunca foi apenas a droga, mas também o mundo que a torna tão atraente.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Afinal, quem são os parasitas?
[Análise
com spoilers] A malandragem não é um fenômeno apenas brasileiro;
pode ser sul-coreano, como mostra o filme Parasitas, do cineasta Bong
Joon Ho. O filme expõe como a globalização torna parecidas pessoas
de qualquer grande cidade do mundo dominado pelo capitalismo. A
família rica sul-coreana poderia ser carioca, do Leblon, bairro
nobre da zona sul do Rio: não só em relação ao emprego, à
mansão, aos padrões de consumo, modo de se vestir, mas também nos
trejeitos, como se o “american way of life” fosse a única
maneira de ser um vencedor ou, pelo menos, de exteriorizar esse
sucesso – talvez em virtude do consumo em massa dos filmes e séries
estadunidenses pelo mundo afora. É como se a ideologia dominante - a
que por estarmos imersos sequer percebemos – se sustentasse no modo
que os estadunidenses representam as pessoas nos seus produtos
exportados pro resto do planeta, como séries e filmes, por exemplo.
E
o que é malandragem? É esse jeitinho, muitas vezes talentoso, de se
dar bem, de persuadir os outros a entregar algo desejado, de criar
uma suposta relação de confiança, quando, na verdade, o objetivo
principal é de interesse pessoal e material por parte do malandro.
Em estruturas de desigualdade socioeconômica, as pessoas mais pobres
lançam mão dos recursos de que dispõem para acessar aquilo que os
mais ricos têm de sobra: dinheiro e tudo o que ele pode proporcionar
em sociedades como a nossa. E agem assim sem usar violência, que é
outro meio comum para conseguir bens necessários e/ou desejados em
contextos de desigualdade.
No
Brasil - último país do ocidente a acabar com a escravidão,
figurando entre os 10 estados com maior desigualdade no mundo [1] -,
a malandragem se tornou parte da cultura. Porém, com o crescimento
da desigualdade causada pela adesão de vários países às políticas
neoliberais [2], estas maneiras transversas, criativas e ardilosas de
obter recursos parecem ter se espalhado por diferentes culturas. Da
mesma forma que a globalização atingiu diferentes sociedades,
alterando relações de produção e consumo, também parece ter
influenciado o modo de agir e os princípios das pessoas envolvidas
neste processo.
Também
penso ser importante frisar algo curioso acerca da ideia de
malandragem: de acordo com o que vejo (senso comum) sobre o fenômeno,
é que malandros geralmente são representados como pessoas
despossuídas e espertas o bastante para enganar e se dar bem. Mas
será que a classe dominante não é malandra, ao fingir gentileza e
civilidade diante dos explorados e ao criar e reforçar discursos
como o da meritocracia, por exemplo, nos quais a desigualdade
estrutural e sistêmica é atribuída à ausência de esforço dos
mais pobres? Ou mesmo a ideia de bom funcionamento das leis e do
“Estado democrático”, muito úteis para dar uma aparência de
justiça e igualdade, bem como para manutenção de um status quo
bastante desigual que lhes beneficia? Parece-me que a malandragem
institucionalizada não recebe o devido nome, talvez por ser um
fundamento da ideologia dominante, a qual passa despercebida da
maioria que por estar imersa nela não a enxerga.
A
narrativa cinematográfica apresenta duas famílias: uma pobre e
outra rica, as duas formadas por quatro pessoas: pais que moram com
um casal de filhos, sendo os pobres um pouco mais velhos que os
ricos. Junto com uma pedra relativamente grande oferecida de presente
como um amuleto de riqueza/prosperidade ao filho do núcleo
despossuído/mais carente, o amigo universitário lhe faz uma
proposta: como vai estudar no exterior, pretende indicar o amigo
pobre para dar aulas particulares de inglês à filha adolescente da
família abastada. E aqui já é exigido um desvio ético, pois terá
que se apresentar como universitário, mesmo sem ter passado no
vestibular, que tenta há anos. Desempregado, como o resto de sua
família que vive de trabalhos informais e temporários, o jovem
aceita a indicação e, com um falso documento feito por sua sagaz
irmã, se apresenta à família rica.
Em
contraposição ao seu lar apertado e localizado numa espécie de
porão devassado e alvo de bêbados que ali urinam, o jovem pobre vai
para um bairro de ricos, onde é recebido por uma
empregada/governanta numa mansão espaçosa, iluminada e arejada, com
um belo jardim. Enquanto sua casa fica num subsolo, obrigando-o a
descer para poder entrar, a mansão fica no alto, simbolizando o
patamar dos vencedores, dos bem-sucedidos e também um local aberto,
claro e limpo, diferente daqueles que costumam abrigar insetos
asquerosos como baratas.
Acerca
da disparidade entre a altura das moradias, revelando a desigualdade
socioeconômica, ao colocar os ricos no alto e os pobres sempre
abaixo, merece destaque a cena em que, sob um temporal, três dos
empregados são forçados a fugir da mansão e, a caminho de casa,
descem muito, como a água da chuva que escorre para os bueiros, e ao
chegarem ao porão, que está alagado. Ainda sobre a altura, chama
atenção a localização de um objeto específico na casa dos
pobres: o vaso sanitário, que fica em um patamar mais próximo do
nível da rua, acima dos moradores, reforçando o rebaixamento deles,
talvez para o esgoto.
Também
há distinção nos sons, que na casa dos trabalhadores é abafado e
cheio de ruídos – a denotar agitação e uma certa sensação de
confusão -, enquanto na mansão os sons são mais puros e se
percebem inclusive silêncios, a evidenciar tranquilidade,
inexistente no porão dos empregados. Também há diferença nas
cores predominantes em cada uma das residências, como apontou o
youtuber Bruno Albuquerque [3], que destacou o uso de cores quentes
na mansão e de cores frias na residência pobre. Durante todo o
filme, há imagens e diálogos que fazem referência/s a parasitas,
geralmente bem evidentes (o que torna desnecessário comentar a
maioria deles) e associados à família pobre, ao menos numa análise
mais superficial.
A
malandragem pauta toda a relação desenvolvida entre os núcleos,
desde a apresentação como universitário até as manipulações
usadas para fazer com que toda a família do professor particular de
inglês recém-contratado venha a assumir todas as vagas de emprego
para servir a família rica. E isto implica forjar situações para
causar a demissão do motorista e da governanta e indicar de forma
ardilosa os novos ocupantes das vagas criadas.
Neste
processo, é interessante destacar uma estratégia da família pobre
que se assemelha ao que alguns insetos fazem para sobreviver na
natureza e que pode passar despercebida no filme: a mimetização,
que é a capacidade de copiar hábitos, cores ou formas de outro
organismo ou ambiente para se proteger; uma espécie de imitação ou
camuflagem. E neste ponto, creio que haja uso de metalinguagem, pois
os atores representam personagens que fingem ser outras pessoas (com
formações, origens e experiências distintas) por meio de atuação,
havendo uma cena em que os malandros repassam as falas de um roteiro
criado para o pai, num claro ensaio da dramatização arquitetada
para enganar os ricos e convencê-los a satisfazer os interesses da
trupe teatral.
E
a ideia de mostrar as personagens da trama como animais irracionais
(insetos, parasitas), animalizando seres humanos, se faz presente de
várias formas, inclusive no uso do olfato como meio de se perceber a
diferença entre os “bichos” de diferentes classes. Não é nada
comum que pessoas - ainda mais habitantes de cidades grandes - usem o
olfato para analisar e (re)conhecer outros indivíduos no convívio
social. E é justamente o cheiro e a reação que ele provoca que
denuncia as diferenças essenciais entre os núcleos e estabelece o
maior conflito exposto na narrativa. Mesmo que camuflados em
personagens bem construídos para ludibriar os ricos, os pobres não
conseguem disfarçar o “fedor” inerente à sua condição
precária e subalterna, nem o vínculo familiar que os une. O cheiro
que exalam é igual, segundo constata o filho caçula dos abastados,
e o “fedor” do motorista (pai “fracassado”) ultrapassa os
limites tão caros ao pai bem-sucedido.
E
é por este destaque no ato de farejar da família rica – que, a
princípio, pode parece ser mais humana e atuar como hospedeira, não
parasitária, pois apresenta modos limpos, belos, gentis e
desenvolvidos - e também pelo ato violento do pai pobre - que acaba
matando o rico, reagindo à expressão de nojo que este faz ao mover
o corpo de outro despossuído -, além de todo o contexto de relativo
ócio do núcleo abastado e, ainda, a evidente superioridade da
inteligência/perspicácia da família pobre que subjuga a outra,
muito ingênua e fraca em suas defesas ao espaço extremamente
importante e vulnerável do lar; é por tudo isto que ocorre uma
inversão (ou, pelo menos, uma aproximação ou ressignificação)
sobre o papel de cada família na trama, com uma mudança fundamental
no enquadramento de parasita/hospedeiro.
Isto
porque um ser parasitário não é capaz de matar o hospedeiro de
forma rápida e atuando individualmente, como fez o pai pobre e mais:
o motorista agiu como predador, que nunca se confunde com o parasita,
que suga mas preserva o hospedeiro, até porque depende da vida dele
para sobreviver; entre humanos e animais irracionais, o ato de
farejar pertence aos bichos, menos desenvolvidos nos outros sentidos
e estratégias sócio-culturais avançadas; a supremacia dos meios
ardilosos decorre da astúcia refinada dos pobres que invadiram com
facilidade o lar dos abastados, que não foram nada inteligentes ao
permitir o acesso de estranhos ao local de habitação, tão
vulnerável. Tanto é assim que os ricos já haviam permitido a
invasão do marido da ex-governanta ao seu lar e o pai vencedor
acabou assassinado pelo empregado que ele mesmo admitiu para que o
servisse de perto, numa proximidade física extrema, mas que no nível
simbólico entendia como bem afastada, apesar do fedor que
desrespeitava as fronteiras defendidas pelo patrão.
Todas
estas evidências provam que os verdadeiros parasitas são os ricos,
embora também possa se interpretar as situações destacadas como
uma espécie de jogo de equiparação entre os núcleos, os quais,
cada um à sua maneira, interagem como parasitas e hospedeiros um do
outro, diante da dinâmica da apropriação dos recursos de que
dispõem: mão de obra dos despossuídos e “capital” dos
bem-sucedidos, no fim a contraposição de classes, proletários e
burguesia. Coloco o termo contraposição, pois não há luta
coletiva e engajada, apenas revoltas individuais, sem qualquer
consciência de classe e organização coletiva.
E
esta inversão sobre quais as personagens que representam os
verdadeiros parasitas lembra “A metamorfose”, de F. Kafka,
porque, na novela, aquele que se transforma em inseto é justamente a
personagem Gregor Samsa, o filho que se sacrificava trabalhando numa
função exaustiva e marcada por sua exploração para pagar uma
dívida dos seus pais e sustentar a família, a qual tem a mesma
composição daquelas mostradas no filme: mãe, pai e casal de
irmãos.
Na
minha interpretação desta obra literária, suponho que Gregor
contrai uma doença grave - tuberculose, talvez - e por isso é
forçado a parar de trabalhar, motivo pelo qual passa a se ver e a
ser visto como um inseto, um parasita. Esta leitura se baseia no fato
de que Gregor não se preocupa com sua transformação, mas, sim, com
o seu atraso para o trabalho, além de o protagonista considerar a
ideia de justificar sua ausência dizendo ao seu empregador que
estava doente [4]; isso sem mencionar outros trechos da obra que
indicam se tratar de uma enfermidade grave, progressiva e
possivelmente contagiosa. Tudo a resultar numa reificação de
Gregor, que somente poderia ser considerado humano, se fosse
produtivo, capaz de trabalhar.
Também
vejo uma inversão nesta novela de Kafka, tendo em vista que, embora
o filho se transforme em inseto, são os pais que atuavam como
parasitas ao se beneficiarem, ou melhor, dependerem totalmente da
exploração do trabalho de Gregor que, mesmo metamorfoseado (ou
gravemente doente),
parece mais sensível e humano, se comparado com as outras
personagens, mostrando-se até capaz de se comover diante da música
executada por sua irmã no violino e se revoltar com os modos rudes
dos inquilinos durante a bela apresentação, tolerados por seus pais
que priorizavam os aluguéis pagos pela locação de um quarto na
casa. [5]
Outra
semelhança entre as narrativas é o uso de frutas como se fossem
armas para atingir e causar danos a certas personagens. No filme, a
família pobre usa pêssegos contra a ex-governanta, extremamente
alérgica a esta fruta, cujo pó da casca foi usado, de modo eficaz,
para causar sua demissão e também para enfraquecê-la numa briga,
ou seja, o fruto foi utilizado como uma arma a fim de repelir uma
pessoa indesejada. Na novela, Gregor-inseto é atingido por uma maçã
que, atirada por seu pai para afastá-lo, acaba por penetrar nas suas
costas, causando um sofrimento duradouro ao protagonista, já que
esta grave ferida é abordada diversas vezes na trama.
Este
deslocamento em relação à função principal e ordinária de
alguns objetos também aparece noutra cena de “Parasita”, na qual
um espeto de churrasco, com carnes nele enfiadas, é usado como uma
espécie de punhal para ferir uma personagem. Do mesmo modo, uma
lâmpada da mansão serve como meio de envio de mensagens em código
morse; a privada situada no alto do banheiro dos empregados acaba
servindo como refúgio no momento da enchente; e a pedra, recebida
como um amuleto de prosperidade, transforma-se num instrumento
contundente usado numa tentativa de homicídio.
Assim,
tal como as frutas (maçã e pêssego) deveriam servir como alimento
e acabam deslocados para dar vazão ao ódio e ferir pessoas, vários
outros objetos são transformados (deslocados) de forma bastante
peculiar e por isso inesperada, de modo que se pode observar uma
relação direta com a metamorfose (desvio) dos personagens no
decorrer da trama: como a maioria dos objetos citados, os empregados
acabam relacionados a atos de violência, o que parece impossível
até a metade do filme.
E
esta desfiguração também acontece com as risadas no longa: depois
de se recuperar dos ferimentos na cabeça, o jovem pobre passa a rir
de tudo, inclusive de tragédias, soltando risadas inadequadas e
anacrônicas que me fizeram lembrar do filme “Coringa”(Todd
Phillips,
2019),
no qual também se veem muitos risos e gargalhadas da mesma natureza,
sofridas
por uma personagem também marginalizada. Pessoas
em dificuldade que
riem sem razão pra rir; e o riso exigido dos pobres
(empregados),
como na
cena da festa de aniversário do menino rico, em
que o
patrão faz o motorista se fantasiar de índio e, ainda, exige que o
empregado sorria, finja estar contente com a surpresa planejada para
animar o filho caçula de
seus
patrões. Diante
da seriedade do empregado (cuja
casa foi inundada na noite anterior),
que não sorri nem entra no clima da brincadeira imposta, o rico fica
incomodado e, deixando a gentileza de lado, diz
ao empregado que ele está sendo pago pra fazer aquilo. Não são só
as coisas e personagens que se deslocam e transmutam, mas também o
riso. Em síntese, personagens que representam pessoas objetificadas
acabam lançando mão de atos agressivos, nos quais usam coisas ou
mesmo expressões - algumas até um tanto personificadas -
desvirtuadas de seus atributos essenciais.
Outro
ponto a se destacar é a descoberta de que o marido da ex-governanta
vive numa espécie de bunker desprezado pelos ricos, diante da
história que revela medo e covardia que levaram à construção do
esconderijo, à época valorizado e, atualmente, motivo de vergonha.
A trama surpreende ao revelar que a ex-governanta, mostrada como uma
empregada muito eficiente e profissional, esconde seu marido dentro
da casa dos patrões. Esta surpresa, que poderia unir os
trabalhadores pobres e subalternizados, não tem este efeito
agregador, que se prendem às diferenças, ainda que irrelevantes, e
entram em conflito, demonstrando a divisão e desorganização que
esvaziam a possibilidade da ação coletiva de classe capaz de
alterar a estrutura do sistema. Mais uma vez prevalece o
individualismo, sem dúvida um reflexo do acontece na prática,
diante da ideologia capitalista em que as personagens estão imersas.
De
qualquer modo, é bastante relevante no simbolismo da narrativa que o
menino rico veja o miserável morador do seu porão como um fantasma:
numa estrutura de desigualdade e concentração de renda e
patrimônio, os miseráveis – os despossuídos alijados à
marginalização - assombram aqueles que detém riquezas e vivem na
fartura. A cena da aparição fantasmagórica é emblemática, já
que a criança estava se lambuzando ao comer um bolo de aniversário
de madrugada (uma refeição farta e fora do horário regular)
degustada sob a luz forte que emana da geladeira lotada de alimentos
de todo tipo e este menino rico é assombrado por aquele ser
esquálido que surge de um patamar inferior e da escuridão. A
mensagem parece clara: os poucos vencedores que vivem na fartura
serão sempre assombrados pela massa de perdedores miseráveis.
Não
há como deixar de mencionar a explicação que o pai pobre dá ao
seu filho quando questionado sobre o plano que alegou ter pra lidar
com a situação de conflito com a ex-governanta e o marido no
bunker: “meu plano é não ter plano, porque aí nada pode dar
errado, já que não há nada arquitetado, e você pode fazer o for
necessário na hora que a situação se apresentar - pode fazer
qualquer coisa -, sem se preocupar com regras e princípios
preestabelecidos.” Parece uma estratégia de agir sem considerar
princípios éticos e que acaba por fazer prevalecer a emoção e os
instintos (animalescos) de sobrevivência sobre a razão, soando como
um discurso de desespero de alguém que já desistiu de pensar e se
preparar, diante de muitos planos frustrados. Eles fizeram um plano
para iludir os ricos mas, ao surgirem imprevistos, o pai afirma que é
melhor não ter planos.
As
perguntas íntimas e um tanto ousadas, considerando a relação
recente e de subordinação, que o motorista faz para seu chefe,
indagando diretamente sobre o amor do patrão por sua mulher, podem
ser interpretadas como uma curiosidade acerca dos sentimentos do
jovem rico, no intuito de encontrar alguma identificação (ou sinal
de vida real a gerar empatia) no representante de uma classe tão
distinta e talvez isenta de emoções, dada a ausência de expressão
dos sentimentos. A distância imposta pelo patrão no âmbito social,
que revela uma tentativa de total impessoalidade, choca-se com a
proximidade física e a convivência constante, dois elementos que
seriam suficientes para motivar mais diálogos e, consequentemente, a
revelação gradual de pensamentos e sentimentos entre indivíduos de
uma mesma classe, ainda que tal exteriorização da intimidade
pudesse ocorrer por vias indiretas e/ou por meio da percepção de
outros sinais, subjacentes ao conteúdo literal das frases trocadas.
No
entanto, a proibição às conversas, mesmo que tácita, acaba
ensejando o questionamento direto feito pelo empregado com o
objetivo de descobrir se o vínculo do casal de patrões se baseia no
amor, o qual depende da sensibilidade inerente às elevadas
capacidades humanas. O interesse no amor também reforça a natureza
de hospedeiros dos despossuídos. Os ricos parasitas, ao menos
superficialmente, parecem ter uma vida tão estável, confortável e
perfeita, que nem parecem gente de verdade aos olhos dos mais pobres,
que enfrentam inúmeras dificuldades inerentes à sua condição.
Mais um elemento a indicar que os pobres seriam mais humanos, reais e
vivos que os endinheirados, mas não pela animalização destes e sim
por sua metamorfose em algo semelhante a robôs.
Nesse
contexto interpretativo, a ação parasitária dos integrantes da
classe dominante - com todas as nuances de distanciamento e
impessoalidade ressaltadas - se apresenta como um mecanismo
automático de caráter desumano que reforça a falta de empatia
entre membros de diferentes classes. Ou seja, para que se preserve a
situação de desigualdade e exploração faz-se necessário deixar
bem claros os limites - tão defendidos pelo patrão, que não tolera
qualquer invasão, nem pelo cheiro -,
de modo a marcar a distinção entre as classes, negando-se
aos subalternizados quaisquer elementos que pudessem torná-los de
algum modo semelhantes aos exploradores, o que poderia se tornar uma
ameaça ao status quo. Mesmo quando o patrão responde que ama sua
esposa ao motorista, este parece não se convencer sobre a veracidade
do conteúdo da resposta, pois refaz a pergunta em outra
oportunidade, evidenciando-se a dificuldade de identificação e
empatia, assim como a clara distinção entre parasitas e hospedeiros
tão relevante à narrativa do filme.
E
o bloqueio às conversas parece ser reforçado pelo modo como é
usado o código morse no filme: a partir do esconderijo (quase
prisão) no bunker, os homens pobres, que de algum modo violaram as
leis do sistema - seja por não conseguir pagar os empréstimos
(marido da ex-governanta) ou por ter matado um homem (pai e
motorista) , mandam mensagens por meio de código morse, piscando
lâmpadas na mansão. Agradecimentos, explicações e até pedido de
socorro, e se trata de uma tentativa de comunicação sem ter meios
de receber respostas ou sequer saber se alguém viu e entendeu o que
foi dito, tudo a demonstrar a dificuldade ou até mesmo
impossibilidade de comunicação e diálogo. A diferença social é
tão grande que já não há como dialogar, então mensagens em
código morse são enviadas de baixo, do fundo, e ignoradas pelos
mais ricos, como o pedido de socorro feito pelo marido da
ex-governanta que, embora visto e decodificado pelo filho caçula
abastado, não provoca qualquer reação.
Por tudo isso, vemos que a narrativa do filme se aproxima bastante da novela de Kafka (publicada em 1915), diante das metamorfoses, da impossibilidade dos diálogos, das inversões e dos deslocamentos. E o mais intrigante é observar como os finais se parecem: em ambos ocorre a morte de um membro da família e, não muito tempo depois, as personagens sobreviventes se entregam ao sonho de alcançar prosperidade financeira para conseguir uma moradia melhor. O sonho da casa própria, o sonho da prosperidade, o sonho de ascender para a classe rica; o “sonho” que é de reprodução do sistema e não de rompimento. Um “sonho” nada original, individual e com roteiro (previamente) elaborado de acordo com a malandragem dominante, sonhado por aqueles que dormem nela imersos: o “sonho” de passar de hospedeiro, explorado, a parasita, sem arranhar as estruturas.
__________________________________
Notas
e referências:
[4]
KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. 11ª
ed., São Paulo: Brasiliense, 1991. Páginas 7/11.
[5]
KAFKA,
Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. 11ª ed., São
Paulo: Brasiliense, 1991. Páginas 73/75.
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Eles não ligam pra gente
Minha intenção neste texto é destacar alguns pontos da bela e poderosa música “They don´t care about us” (Michael Jackson, 1995), seus videoclipes e algumas curiosidades. Mais uma vez me impressionei com trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia (e no caso dos videoclipes do astro, ainda há a dança, a fotografia etc., que ofuscam ainda mais a letra, a mensagem).
A música fala de racismo, autoritarismo, violência - especialmente a policial -, política, consumismo, desigualdade, e até do que atualmente chamam de pós-verdade. E é muito atual, encaixa-se perfeitamente à nossa realidade. Em 1995, Michael Jackson cantou sobre a ascensão da violência, denunciando uma situação já crítica, mas que ao longo dos anos ainda piorou e, infelizmente, a resposta a todo discurso de medo e incertezas tem sido mais repressão e violência - e não as saídas indicadas pelo Rei do Pop na sua poesia.
Os versos são diretos, não usam muitas metáforas, dizem logo a que vieram: denunciar o descaso dos poderosos em relação aos marginalizados: they don´t care about us - eles não ligam para a gente (nós), frase que em português pode se desdobrar para o sentido de que eles não ligam pra gente, eles não se importam com pessoas, seres humanos. Descreve claramente como o Estado foi reduzido ao seu papel repressor, abandonando as políticas públicas mais ativas, inclusive (e principalmente) as de promoção de igualdade. E o mais incrível é que ele avisou há mais de 20 anos sobre os riscos e consequências do abandono e marginalização.
A letra já começa falando de “cabeça raspada”, em clara alusão aos skinheads, mas também ao militarismo, porque os soldados também tem o cabelo assim, rente. Ainda na primeira estrofe, acusa o aumento da maldade, além de ressaltar a confusão dos discursos, denunciando um afastamento dos fatos (verdade), em que todos justificam seus atos (inclusive violentos) da maneira que quiserem, criando suas versões, daí a pós-verdade.
E sobre a verdade - prestando bastante atenção ao início dos videoclipes -, ouvimos, no meio do coro infantil que canta o refrão, a voz de menina que se ergue pra dizer: “não importa o que as pessoas digam, a verdade está com a gente.” Num mundo cheio de medo e especulações - como é dito na letra - uma criança defende o seu ponto de vista, que é o da mensagem da música: eles realmente não ligam pra gente. Porque se ligassem pelo menos um pouco, não haveria tanta discriminação e violência, como a letra destaca.
É uma poesia de cunho crítico e politizada: menciona duas figuras históricas, Roosevelt e Martin Luther King, dizendo que se eles tivessem vivos, não deixariam esses absurdos acontecerem. A crítica às políticas neoliberais de redução do Estado não poderia ser mais clara, tendo em vista que o democrata Franklin Delano Roosevelt (FRD) promoveu políticas públicas de inclusão, usando ativamente o Estado de caráter interventor, para atenuar a devastação causada pela crise do capitalismo de 1929. Luther King era um pastor protestante que se tornou um dos líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com uma campanha de não-violência.
Michael Jackson denuncia o descaso dos poderosos, com a amputação do braço protetor do Estado, que atualmente segue apenas com o braço hipertrofiado da repressão, o qual se volta com mais força e frequência contra aos historicamente marginalizados, os “invisíveis” e sem direitos, como diz a letra. E pra quem acha que a divisão da sociedade e a polarização são fenômenos recentes, taí uma música de 1995 que deixa tudo bem claro. Antes, em 1980, Bob Marley já falava desta divisão quando lançou "We and them". E pra citar um exemplo de lucidez nacional, em 1997 veio à luz o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC´s, que até no título expõe a divisão social, e nas músicas descreve uma realidade dura, marcada pela desigualdade e segregação, como nos versos de “Diário de um detento": “Cadeia? Guarda o que sistema não quis/ Esconde o que a novela não diz.”
A divisão social é clara há muito tempo; a polarização ficou mais evidenciada quando a extrema direita saiu do armário empurrada pelo discurso de medo e pela decadência da classe média, também ferida pelo neoliberalismo. Alguns dos fundamentos do conceito de classe média são a maior estabilidade do grupo e seu poder aquisitivo razoável, a ponto de suprir com algum conforto as necessidades básicas (sobrevivência) e ainda ter um excedente para atividades culturais e de lazer.
A redução do Estado - com a privatização da educação, da saúde e até da segurança, além do corte de direitos - tem esgotado os recursos excedentes: daí resta trabalhar para sobreviver, pra pagar plano de saúde, escola particular, sistema de vigilância em condomínios gradeados, cujos apartamentos (moradia), inflacionados pela especulação, vêm com os juros altos do financiamento. Compras a prazo, cartão de crédito, dívidas: com juros que engordam os lucros dos bancos. O básico agora tem preço, e é caro. O mercado, desregulamentado, cada vez mais livre pra explorar e descartar, não garante estabilidade. A ideologia dominante cega por imersão e direciona o medo - e o ódio - para mais pobres, para os imigrantes (retirantes), tachando de inimigos as maiores vítimas do próprio sistema, aqueles que sofrem duplamente: com a omissão (abandono) e a repressão (violência) do poder público.
E eles ("they") lucram no processo inteiro: menos Estado, menos impostos; menos direitos trabalhistas, menos gastos, menos deveres legais em relação a pessoas; menos serviços públicos gratuitos, mais espaço pra "empreender" e vender até o mínimo essencial; mais dívidas, mais juros; mais crimes (e a elite define que tipo de atividades e substâncias são ilegais), mais armas, produzidas em países desenvolvidos; mais prisões, mais trabalho precarizado e expansão dos negócios com a privatização das cadeias; os jornais reforçam o discurso de medo nos artigos e reportagens ao mesmo tempo que - reféns das verbas de publicidade - anunciam unidades em condomínios clubes-fortalezas, empréstimos, seguros pra tudo (os riscos são enormes); carros novos condicionados ao pagamento de "suaves" prestações.
O sistema cria guerras e vende as armas (pros dois lados); sucateia o transporte público e vende carros e motos, "soluções" individualistas que engrossam os engarrafamentos, onde os potentes veículos se travam pelo excesso: encarcerados nos carros parados e por isso mais vulneráveis, cidadãos de bem temem ladrões violentos e armados enquanto alimentam, acordados, o sonho da arma própria e legalizada, pra poder "empreender" em sua própria segurança pessoal e patrimonial. Mais consumo e privatização (até do conflito armado), mais lucros.
Pode ser que o mesmo conglomerado empresarial venda armas pro ladrão e pro bom cidadão, além de seguros, blindagem, alarmes, filmes de ação com heróis armados (entretenimento motivacional de guerra que banaliza a violência: cortas as cenas de sexo, mas mostra com detalhes pessoas morrendo metralhadas; censura gemidos de prazer e corpos nus, mas não o som dos disparos e os cadáveres estraçalhados), e pode ganhar uma grana até com o serviço de atendimento de urgência - SAMU (também privatizado), se sobrarem feridos, e também com os remédios de um eventual tratamento médico.
Além dos versos fortes, os videoclipes de "They don´t care about us" também transgridem e protestam. Neles, o ícone do entretenimento canta e expõe verdades inconvenientes e como cidadão da chamada “Terra da liberdade” grita por liberdade - exige o cumprimento da promessa -, expondo o real pesadelo que na prática contrapõe ao “sonho americano”. Atrelados ao avanço das políticas neoliberais vieram a maior concentração de renda e o aumento da desigualdade.
Os cenários dos videoclipes não poderiam ser mais adequados à mensagem da letra: dirigida por ninguém menos que Spike Lee, a versão filmada no Brasil foi gravada numa favela (Santa Marta, zona sul do Rio) e no Pelourinho (Salvador, Bahia). Já na versão realizada nos EUA, Michael canta e dança dentro de um presídio, encarcerado. A prisão tem sido uma das principais respostas repressivas do Estado, cada vez mais “policial” e menos preocupado com o “bem-estar social”.[1]
E quando a resposta não é criminalização e prisão, pode ser fatal: o Estado mata, como aconteceu com as crianças vitimadas este ano (e nos anteriores também) e com o homem desarmado e acompanhado da família (inclusive uma criança de 7 anos) que foi fuzilado com mais de 80 tiros por soldados do exército. [2] Preciso mencionar a cor do homem executado? E a cor e classe social das crianças assassinadas? Preciso dizer? Preciso relembrar o massacre do Carandiru, em que a prisão não foi suficiente, e 111 homens encarcerados foram mortos?
Escolher o Brasil, país marcado pela desigualdade, e fazer uma parceria com o Olodum tornam a obra ainda mais fantástica. Ele veio cantar e dançar com os excluídos o arranjo é lotado de percussão brasileira, numa pegada meio Rap e Hip hop, sons da periferia. O músico estava a frente de seu tempo: numa época que ainda não se falava muito sobre lugar de fala e representatividade, ele deu seu recado da melhor forma possível. Não bastou fazer uma música de protesto, ele veio aqui, contou com o talento do Olodum, mostrou a favela, a periferia dentro de um periférico país da América Latina, onde o “sonho americano” só passa na TV e às vezes falta tempo pra assistir.
A letra anuncia o caos, a loucura, e expõe os pesadelos bastante reais de muitos, pesadelos que não deixam de ser o preço, o efeito colateral, dos sonhos de alguns. E a obra incomodou: criaram polêmicas em torno da letra, há rumores de que autoridades brasileiras tentaram impedir a gravação para não expor a pobreza e as falhas do governo, além das críticas à negociação de Spike Lee com o chefe do tráfico à época. [3] Isto sem falar na restrição à exibição do clipe na prisão, que só podia ser veiculado depois das 21 horas, sob a alegação de que expunha violência. Sim, há cenas reais de violência, porém não mais que qualquer telejornal ou filme de ação. Ao que parece muita gente queria ver Michael cantar e dançar, mas com temas leves e frívolos, não com um protesto claro, direto e cheio de verdades geralmente negadas, caladas, reprimidas, jogadas pra margem. O incômodo e reações me parecem exagerados: a solução indicada na canção não é uma revolução sangrenta: ao citar Roosevelt e M. Luther King, o compositor enaltece o capitalismo superficialmente brando do Estado de bem-estar social e as vias pacíficas para chegar (voltar) a ele.
A música e os videoclipes têm muitos aspectos que merecem destaque - como a cena de abertura do clipe da prisão, a mulher brasileira dizendo “Michael, eles não ligam pra gente” logo no início, o barulho de disparo de arma de fogo no meio da música, as mulheres que pra abraçar o astro furam o cordão de isolamento da polícia, as imagens que destacam a bateria do Olodum e seus componentes -, mas quero concluir chamando a atenção pros gritos do cantor. Michael costumava soltar uns gritos em suas músicas, o que se tornou uma de suas marcas. No entanto, em “They don´t care about us”, seus berros são bem diferentes dos demais: são mais ásperos, graves, caóticos, parecem expressar raiva e desespero; e a música se encerra numa espécie de urro de dor. A situação vem se agravando e os sentimentos predominantes ainda são os mesmos mais de duas décadas depois. “Eles não ligam pra gente”.
____________________________
Notas, referências e os dois videoclipes:
[1]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1941685-brasil-ultrapassa-russia-e-agora-tem-3-maior-populacao-carceraria-do-mundo.shtml
[2] https://www.causaoperaria.org.br/rj-solados-do-exercito-dispara-80-tiros-contra-carro-com-familia-e-assassinam-musico-negro/
[3] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/12/cotidiano/3.html
https://mjbeats.com.br/o-lan%C3%A7amento-do-single-they-dont-care-about-us-e096b2672057
https://pt.wikipedia.org/wiki/They_Don%27t_Care_About_Us
[1]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1941685-brasil-ultrapassa-russia-e-agora-tem-3-maior-populacao-carceraria-do-mundo.shtml
[2] https://www.causaoperaria.org.br/rj-solados-do-exercito-dispara-80-tiros-contra-carro-com-familia-e-assassinam-musico-negro/
[3] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/12/cotidiano/3.html
https://mjbeats.com.br/o-lan%C3%A7amento-do-single-they-dont-care-about-us-e096b2672057
https://pt.wikipedia.org/wiki/They_Don%27t_Care_About_Us
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Medo deslocado
A foto de
um funcionário de escritório trabalhando de capacete incomoda pelo
deslocamento. O capacete sobra, se mostra excessivo, desnecessário,
até ridículo. Mas a imagem suscita a discussão do deslocamento, da
coisa fora de lugar. E isso acontece com o medo. Bauman defende a
ideia de que as pessoas em geral não conhecem a causa da sua
insegurança, direcionando o discurso de reação a fatores que nada
tem a ver com a causa real do medo. Segundo Bauman, enquanto a
maioria das pessoas acha que o medo vem de crimes brutais noticiados
a toda hora pela mídia (e aí a culpa recai sobre grupos de supostos "diferentes", caso dos imigrantes na Europa e dos mais pobres e excluídos no Brasil), a causa real é estrutural e diz
respeito ao fim do estado de bem-estar social, ao avanço neoliberal, lançando as pessoas à
própria sorte e recursos particulares, em sociedades historicamente
desiguais. No fim, o medo e a reação são direcionados a outras
vítimas e não à causa real. Se acha o medo do funcionário da foto
ridículo, talvez possa se indagar sobre o seu.
sábado, 28 de janeiro de 2017
Ninguém liga pro Daniel Blake (Ken Loach, 2016)
O
filme começa com palavras num fundo negro: apenas um diálogo. Um
homem e uma mulher falam sobre o questionário para obter benefício previdenciário. Muitas frases são ditas antes que as imagens
venham à luz. O diretor é um parteiro de imagens sóbrias,
realistas, em tons azuis acinzentados e focos originais. O filme tem
cortes bem marcados de tempos em tempos, indicando a passagem de
períodos: segundos de tela negra e silêncio destacam trechos da
obra.
A
narrativa mira a burocracia, a frieza, a falta de humanidade, o
despreparo programado dos técnicos, que negam benefícios vitais
para pessoas mais pobres, numa sociedade claramente desigual. Mira,
sobretudo, o estado, a máquina pública e os vilões são os
gerentes do instituto de previdência britânico. Daniel Blake,
carpinteiro há mais de 40 anos, viúvo, morador de uma cidade média,
sofreu um infarto, quase morreu. Sua médica o proibiu de trabalhar.
Porém, mesmo com o laudo, o benefício lhe foi negado. Daniel não é
um homem paciente, submisso; é um homem ciente dos seus direitos,
astuto, tem o dom da ironia, a simpatia de um homem experiente, que
convive em harmonia com vizinhos pobres, imigrantes.
A
trama pode lembrar “o processo” de Kafka, mas é muito mais
realista, embora as exigências e a
falta de abertura ao diálogo nos deixem mareados, enjoados,
irritados, tensos. Blake tenta, fala, grita e, ao presenciar o
absurdo da negativa de atendimento a uma mulher jovem com duas
crianças, toma partido, em defesa da mãe desnorteada. Ambos
terminam expulsos da unidade, agressivamente. E daí começam uma
amizade.
Há
cenas que expõem a globalização, quando um vizinho de Daniel
recebe pares de tenis da china para revender na cidade, e também com
a multietnicidade das personagens, além da conversa por vídeo com o
chinês apaixonado por futebol. O filme revela a vida, os impasses,
os dramas de Daniel e Katie, que está longe da família e sem
dinheiro. O filme é realista e delicado.
A
narrativa tem sua poesia, com os dons artísticos do senhor solitário
que faz peixinhos de madeira para pendurar no teto, rendendo belas
imagens dos bichinhos contra a luz da janela, por onde entra alguma
luz para aquecer a casa e a vida em crise de pessoas que estão
isoladas e sem meios de subsistência. Os peixinhos de madeira me
lembraram os de ouro de Aureliano Buendia (Cem anos de
Solidão).
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
Blake lembra também a
Clara de Aquarius: um homem com dignidade, força, história e uma
disposição de lutar, mesmo que o coração já esteja enfraquecido.
Nenhum dos dois se submete. Uma das cenas mais marcantes é quando
Daniel inscreve seu recurso fora do lugar, numa superfície pública,
aberta. O fato de escrever diz muito. A palavra. Mais uma vez. Se o
diálogo inaugural tinha o fundo negro, agora a palavra se expõe
aberta. Um homem pobre, um homem machucado pela vida, com roupas
velhas, bêbado começa a defender Daniel e faz um belo discurso, se
identificando também como uma vítima do governo, “dos gordos com
suas taxas”.
Em
tempos de governantes que apagam arte, pichar pode ser um meio de
dizer (qual o lugar da arte?). E qual o lugar do poder econômico? O
filme é magnífico, o diretor Ken Loach faz um trabalho excelente,
porém penso que a narrativa poderia abordar mais a vinculação do
poder privado ao público, as relações econômicas capitalistas que
criam e reproduzem a desigualdade, a exploração, a negação da
dignidade de forma sistemática. Os vilões do filme, burocratas do estado, só
fazem o trabalho sujo para os empresários ricos.
E a palavra, ao final,
surge com um discurso deslocado, agora não de superfície mas de
personagem, um discurso que vai além. Um recurso/discurso que é
escrito e acaba lido fora da repartição, longe do seu lugar, um
recurso que lembra a carta não enviada, que segundo Lacan seria para
o grande Outro. O filme é como a mensagem, e lá como aqui vemos
idosos tendo que trabalhar, mesmo doentes, para sobreviver e todo
avanço neoliberal de privatização, redução do estado. Pode ser
que amanhã ninguém nos escreva.
______________________________________
Filme: "Eu, Daniel Blake"
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Lucros ou impostos?
A elite, o poder econômico se escondem atrás do discurso ideológico de que são
impostos que encarecem tudo, culpando o Estado. A direita fala da necessidade de cortar direitos, flexibilizar, reduzir encargos, "enxugar a máquina pública". Mas a margem de lucro
no Brasil é uma das maiores do mundo e é bastante comum os estados concederem isenção fiscal, como no caso do Rio, que deixou de arrecadar algo em torno de 200 bilhões nos últimos anos. As empresas abusam e a conta é jogada pro povo.
Capitalismo atuando. Vale muito a leitura dos textos da Carta e do Justificando:
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Margem-de-lucro-taxa-de-lucro-e-crise-politica-/7/35318
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Partidos de esquerda no Brasil
Já
escrevi algumas vezes sobre a crise de cidadania, a falta de
participação das pessoas nos processos coletivos, na construção
dos partidos e na atuação dos governos. Tudo isso ligado ao
discurso de falência da política que prevalece na grande mídia, ao qual me contraponho.
Agora, vou falar um pouco sobre nossos partidos de esquerda (ou que
são chamados assim), que também tem sido atacados pela retórica
antipolítica.
Pra
começar, nossos partidos à esquerda não são comunistas nem
revolucionários. Os fatos de serem partidos na ordem jurídica
vigente já os colocam como reformistas e com a nossa Constituição
de 1988, que é capitalista e protetora da propriedade privada, não
há como instaurar um regime comunista. Nossa esquerda partidária
está mais para defensora do estado de bem-estar social, uma forma de
capitalismo abrandado, que se fortaleceu no pós-guerra e vem sendo
destruído pelas práticas neoliberais.
Os
partidos de esquerda tem propostas de fortalecimento dos serviços
essenciais do Estado e assim agem em cumprimento à nossa
Constituição, que é nitidamente alinhada às políticas de
bem-estar social. Um leitura das propostas da esquerda e das normas
constitucionais deixa isso muito claro.
E
essa ideia de serviços essenciais e de qualidade prestados
diretamente pelo Estado é algo adotado em muitos países
capitalistas desenvolvidos, como vemos na Europa e até nos EUA, onde
a educação pública básica é frequentada também pela classe
média, embora lá a saúde esteja privatizada e com acesso restrito.
Os
partidos à direita - aqui e no resto do mundo - tem uma visão de
redução do Estado, atingindo os serviços essenciais. Numa
perspectiva de globalização, a direita quer fazer de tudo para
reduzir o estado, a proteção dos trabalhadores, a tributação que
mantém os serviços essenciais, e assim atrair as grandes empresas,
que se instalam onde houver mais facilidades, menos custos. A nossa diferença é que muitas das empresas da elite brasileira obtém privilégios do Poder Público.
E a
direita sabe da importância de dominar também o Poder Judiciário,
porque é dele palavra final sobre a interpretação das normas
constitucionais. Com a nossa atual Constituição, fica complicado
impor o estado mínimo e é por isso que os governos de direita fazem
emendas e contam com a atuação do STF para esvaziar o conteúdo dos
direitos assegurados na Lei Maior.
O
mais curioso é que muitas pessoas que votam nos partidos de direita
querem passar em concursos públicos e fazem uso dos serviços
públicos de excelência, como nossas universidades e alguns órgãos
ligados à saúde. E também pagam caro escolas particulares e planos
de saúde, que muitas vezes oferecem serviços ruins.
Nossa tributação é injusta, mal feita, onera demais os mais pobres e a
classe média, há muita sonegação, facilita pros ricos, e a
arrecadação é baixa, comparada com outros Estados. Vale a pena
pesquisar e se informar sobre o assunto. O discurso da grande mídia
e da direita não aborda isso, defende cortes nos serviços, nos
tributos e não uma reforma que promova justiça, melhor arrecadação
e qualidade nos serviços. Na verdade, é a esquerda que tem
defendido essa pauta e tem sido atacada com argumentos que não
correspondem à realidade.
Na
década de 1950, quando o Brasil era muito menos desenvolvido, era
comum as pessoas de classe média estudarem em escolas públicas,
junto dos mais pobres. Nas últimas décadas só os mais pobres
permaneceram no ensino público. A classe média está pagando caro
por ensino privado. Não seria mais justo pagar menos mensalidades,
ter uma tributação mais justa e promover um ensino público de
qualidade?
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016
PEC 241 passa pela Câmara: inverno fora de época
Ontem o segundo passo foi dado pela Câmara dos Deputados; segundo passo para impor o congelamento, a absurda restrição. A maioria dos deputados, os mesmos que apoiaram o golpe, votou pela imposição de corte. Por vinte anos. Limitada à inflação. Nunca nenhum estado fez isso. A verdade é que os EUA na crise de 1929 e na mais recente usaram muito dinheiro público para sair ou abrandar efeitos nocivos do capitalismo. Aqui é inconstitucional, tendo em vista as disposições sobre o orçamento bem como serviços essenciais, além de ultrapassar o período de governo. Trata-se do congresso mais conservador desde 1964. Inverno fora de época. Afastaram a centro-esquerda e estão com toda força para acabar com direitos, dizimar o Estado. Só a esquerda foi pras ruas. Mais de mil instituições de ensino ocupadas. As grandes empresas de mídia pouco falam sobre os protestos e defendem a PEC descaradamente. Ninguém bateu panelas. Silêncio. E mais votações foram e serão feitas, contra aposentados, contra os mais pobres. A desigualdade está aumentando.
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terça-feira, 25 de outubro de 2016
Contra a PEC 241
Não
é reduzindo o estado ou congelando gastos públicos que os problemas
serão resolvidos. Pelo contrário: isso vai piorar as coisas. A tributação no Brasil é extremamente injusta,
sobrecarrega os mais pobres, a classe média, os pequenos empresários
e facilita muito pros ricos, pras grandes empresas. Pode pesquisar
sobre os principais beneficiários do nosso sistema, que arrecada mal
e das pessoas erradas. E mais: serviços públicos de qualidade, para
todos, liberariam a classe média dos gastos com planos de saúde e
colégios particulares.
Até
meados do século passado, quando o Brasil era bem mais agrário,
tínhamos educação pública de melhor qualidade para crianças e
adolescentes. E ainda hoje há excelência no serviço público, como
o Colégio Pedro II, instituições estaduais, Universidades Públicas
etc. Há um sistema de tributação falho e também muita, mas muita
sonegação. Não defendo o simples aumento dos tributos atuais: é
necessário reformar o sistema e cobrar mais de quem tem mais.
Falta mobilização popular, coletiva, exercício da cidadania, para que os prejudicados se unam por uma tributação mais justa, mais fiscalização, e uma atuação melhor do estado. Grande parte da esquerda brasileira tem apenas propostas que permitiriam uma aproximação do estado de bem-estar social, que não deixa de ser capitalismo. Países capitalistas oferecem os serviços essenciais aos cidadãos. Vale a pena pesquisar e analisar outros sistemas. É certo que nenhum tem um plano de congelamento como este que estão tentando impor.
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terça-feira, 13 de setembro de 2016
Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era
Lançado em 2016, o filme Aquarius, do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a empreiteira Bonfim, que pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa.
Para mim, Clara é como uma representação humana da cidade, com suas histórias, estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades sem negar seu passado e suas cicatrizes.
Mas há uma cisão entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente - o que se vê na cena em que Clara explica que ouve música de várias formas, antigas (LPs) e novas (streaming, mp3) - a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos como ninhos de cupim.
Aquarius - prédio que integra o corpo de Recife - é atacado pela construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos prédios são importantes e necessários, mas a atuação das empresas não deve ser desordenada como um câncer.
Não vemos nenhum representante do poder público para regular a atividade da construtora Bonfim, cujo nome soa sarcástico, se considerarmos o fim que a empresa quer impor ao lar da protagonista. O conflito se dá entre uma empresa e uma mulher de classe média. Não há ninguém para fiscalizar, controlar e exigir equilíbrio.
Muitos parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada vez mais afastadas.
A música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa, tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das grandes empresas.
O discurso neoliberal defende a redução do Estado, a desregulamentação e o filme mostra algumas das consequências da adoção destas posturas. Na trama, também se observa a mídia comprada pelo dinheiro das contas de publicidade. O jornal da cidade tem informações que se recusa a divulgar para não perder anunciantes. Uma espécie de censura realizada pelo poder econômico.
Defender o edifício Aquarius é mais que defender o lar de uma pessoa, o abrigo da história de uma família etc. É como defender uma era, uma época, a história, a integração do passado com o presente, o equilíbrio entre o que foi e o que virá.
A cidade se ama, como Clara. A cidade luta, como a protagonista no filme e na realidade, como o Movimento Ocupe Estelita em Recife. O filme mostra que a classe média passou a ter o dever de viver (ou seria morrer?) em arranha-céus com grades, cercas elétricas e câmeras. (Se a classe média sofre pressões desse tipo, imaginem os mais pobres?).
É fato que o excesso de liberdade (e poder) das grandes empresas afeta a liberdade das pessoas. O medo dos ladrões de coisas pequenas ofusca os medos e as imposições maiores. Há muita desigualdade, nenhum equilíbrio. O discurso tem sido algo como: aos pobres, punição; aos ricos, desregulamentação.
No filme, vemos placas alertando para ataques de tubarões na praia em frente ao edifício Aquarius. Segundo ambientalistas, essa ameaça surgiu na praia de Boa Viagem depois da construção do Porto de Suape, que afetou o ecossistema local. Outro caso de desequilíbrio em que o poder econômico impôs suas vontades, suas exigências, sem debate, de modo antidemocrático, demolindo a cidadania.
Quando ações desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado, as consequências atingem não só o morador do local mas a todos, pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
______________________________________
PS. Pra quem curtiu "Aquarius", vale a pena assistir a outros filmes do mesmo diretor, como os longas "Som ao redor" (disponível na Netflix) e "Bacurau", além do curta "Recife frio".
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