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quinta-feira, 4 de junho de 2026

TRAINSPOTTING

Baseado no livro Trainspotting, de Irvine Welsh, e adaptado para o cinema por Danny Boyle, Trainspotting é muito mais do que uma história sobre dependência química. É um retrato brutal de uma geração sem perspectivas, mergulhada no desemprego, na exclusão social e no desencanto com as promessas do capitalismo contemporâneo. A famosa fala “Choose Life” (“Escolha a Vida”) não é um convite à esperança, mas uma ironia. O filme questiona a ideia de que felicidade significa consumir, trabalhar, comprar e repetir um roteiro pré-fabricado. Para Renton e seus amigos, a heroína surge como uma fuga desesperada de uma realidade que parece tão vazia quanto o próprio vício. O grande mérito da obra é não transformar seus personagens em monstros nem em heróis. O vício aparece como sintoma de uma sociedade adoecida, marcada pela desigualdade, pelo abandono e pela falta de sentido. Em vez de moralismo, encontramos humanidade, contradições e tragédias profundamente reais. Trinta anos depois, Trainspotting continua atual. Talvez porque as drogas tenham mudado de forma: além das substâncias químicas, vivemos cercados por vícios em consumo, tecnologia, apostas e validação social. A pergunta permanece a mesma: o que estamos escolhendo quando dizemos que escolhemos a vida? Indicação obrigatória para quem gosta de obras que provocam desconforto e reflexão, mostrando que o problema nunca foi apenas a droga, mas também o mundo que a torna tão atraente.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Afinal, quem são os parasitas?


[Análise com spoilers] A malandragem não é um fenômeno apenas brasileiro; pode ser sul-coreano, como mostra o filme Parasitas, do cineasta Bong Joon Ho. O filme expõe como a globalização torna parecidas pessoas de qualquer grande cidade do mundo dominado pelo capitalismo. A família rica sul-coreana poderia ser carioca, do Leblon, bairro nobre da zona sul do Rio: não só em relação ao emprego, à mansão, aos padrões de consumo, modo de se vestir, mas também nos trejeitos, como se o “american way of life” fosse a única maneira de ser um vencedor ou, pelo menos, de exteriorizar esse sucesso – talvez em virtude do consumo em massa dos filmes e séries estadunidenses pelo mundo afora. É como se a ideologia dominante - a que por estarmos imersos sequer percebemos – se sustentasse no modo que os estadunidenses representam as pessoas nos seus produtos exportados pro resto do planeta, como séries e filmes, por exemplo.

E o que é malandragem? É esse jeitinho, muitas vezes talentoso, de se dar bem, de persuadir os outros a entregar algo desejado, de criar uma suposta relação de confiança, quando, na verdade, o objetivo principal é de interesse pessoal e material por parte do malandro. Em estruturas de desigualdade socioeconômica, as pessoas mais pobres lançam mão dos recursos de que dispõem para acessar aquilo que os mais ricos têm de sobra: dinheiro e tudo o que ele pode proporcionar em sociedades como a nossa. E agem assim sem usar violência, que é outro meio comum para conseguir bens necessários e/ou desejados em contextos de desigualdade.

No Brasil - último país do ocidente a acabar com a escravidão, figurando entre os 10 estados com maior desigualdade no mundo [1] -, a malandragem se tornou parte da cultura. Porém, com o crescimento da desigualdade causada pela adesão de vários países às políticas neoliberais [2], estas maneiras transversas, criativas e ardilosas de obter recursos parecem ter se espalhado por diferentes culturas. Da mesma forma que a globalização atingiu diferentes sociedades, alterando relações de produção e consumo, também parece ter influenciado o modo de agir e os princípios das pessoas envolvidas neste processo.

Também penso ser importante frisar algo curioso acerca da ideia de malandragem: de acordo com o que vejo (senso comum) sobre o fenômeno, é que malandros geralmente são representados como pessoas despossuídas e espertas o bastante para enganar e se dar bem. Mas será que a classe dominante não é malandra, ao fingir gentileza e civilidade diante dos explorados e ao criar e reforçar discursos como o da meritocracia, por exemplo, nos quais a desigualdade estrutural e sistêmica é atribuída à ausência de esforço dos mais pobres? Ou mesmo a ideia de bom funcionamento das leis e do “Estado democrático”, muito úteis para dar uma aparência de justiça e igualdade, bem como para manutenção de um status quo bastante desigual que lhes beneficia? Parece-me que a malandragem institucionalizada não recebe o devido nome, talvez por ser um fundamento da ideologia dominante, a qual passa despercebida da maioria que por estar imersa nela não a enxerga.

A narrativa cinematográfica apresenta duas famílias: uma pobre e outra rica, as duas formadas por quatro pessoas: pais que moram com um casal de filhos, sendo os pobres um pouco mais velhos que os ricos. Junto com uma pedra relativamente grande oferecida de presente como um amuleto de riqueza/prosperidade ao filho do núcleo despossuído/mais carente, o amigo universitário lhe faz uma proposta: como vai estudar no exterior, pretende indicar o amigo pobre para dar aulas particulares de inglês à filha adolescente da família abastada. E aqui já é exigido um desvio ético, pois terá que se apresentar como universitário, mesmo sem ter passado no vestibular, que tenta há anos. Desempregado, como o resto de sua família que vive de trabalhos informais e temporários, o jovem aceita a indicação e, com um falso documento feito por sua sagaz irmã, se apresenta à família rica.

Em contraposição ao seu lar apertado e localizado numa espécie de porão devassado e alvo de bêbados que ali urinam, o jovem pobre vai para um bairro de ricos, onde é recebido por uma empregada/governanta numa mansão espaçosa, iluminada e arejada, com um belo jardim. Enquanto sua casa fica num subsolo, obrigando-o a descer para poder entrar, a mansão fica no alto, simbolizando o patamar dos vencedores, dos bem-sucedidos e também um local aberto, claro e limpo, diferente daqueles que costumam abrigar insetos asquerosos como baratas.

Acerca da disparidade entre a altura das moradias, revelando a desigualdade socioeconômica, ao colocar os ricos no alto e os pobres sempre abaixo, merece destaque a cena em que, sob um temporal, três dos empregados são forçados a fugir da mansão e, a caminho de casa, descem muito, como a água da chuva que escorre para os bueiros, e ao chegarem ao porão, que está alagado. Ainda sobre a altura, chama atenção a localização de um objeto específico na casa dos pobres: o vaso sanitário, que fica em um patamar mais próximo do nível da rua, acima dos moradores, reforçando o rebaixamento deles, talvez para o esgoto.

Também há distinção nos sons, que na casa dos trabalhadores é abafado e cheio de ruídos – a denotar agitação e uma certa sensação de confusão -, enquanto na mansão os sons são mais puros e se percebem inclusive silêncios, a evidenciar tranquilidade, inexistente no porão dos empregados. Também há diferença nas cores predominantes em cada uma das residências, como apontou o youtuber Bruno Albuquerque [3], que destacou o uso de cores quentes na mansão e de cores frias na residência pobre. Durante todo o filme, há imagens e diálogos que fazem referência/s a parasitas, geralmente bem evidentes (o que torna desnecessário comentar a maioria deles) e associados à família pobre, ao menos numa análise mais superficial.

A malandragem pauta toda a relação desenvolvida entre os núcleos, desde a apresentação como universitário até as manipulações usadas para fazer com que toda a família do professor particular de inglês recém-contratado venha a assumir todas as vagas de emprego para servir a família rica. E isto implica forjar situações para causar a demissão do motorista e da governanta e indicar de forma ardilosa os novos ocupantes das vagas criadas.

Neste processo, é interessante destacar uma estratégia da família pobre que se assemelha ao que alguns insetos fazem para sobreviver na natureza e que pode passar despercebida no filme: a mimetização, que é a capacidade de copiar hábitos, cores ou formas de outro organismo ou ambiente para se proteger; uma espécie de imitação ou camuflagem. E neste ponto, creio que haja uso de metalinguagem, pois os atores representam personagens que fingem ser outras pessoas (com formações, origens e experiências distintas) por meio de atuação, havendo uma cena em que os malandros repassam as falas de um roteiro criado para o pai, num claro ensaio da dramatização arquitetada para enganar os ricos e convencê-los a satisfazer os interesses da trupe teatral.

E a ideia de mostrar as personagens da trama como animais irracionais (insetos, parasitas), animalizando seres humanos, se faz presente de várias formas, inclusive no uso do olfato como meio de se perceber a diferença entre os “bichos” de diferentes classes. Não é nada comum que pessoas - ainda mais habitantes de cidades grandes - usem o olfato para analisar e (re)conhecer outros indivíduos no convívio social. E é justamente o cheiro e a reação que ele provoca que denuncia as diferenças essenciais entre os núcleos e estabelece o maior conflito exposto na narrativa. Mesmo que camuflados em personagens bem construídos para ludibriar os ricos, os pobres não conseguem disfarçar o “fedor” inerente à sua condição precária e subalterna, nem o vínculo familiar que os une. O cheiro que exalam é igual, segundo constata o filho caçula dos abastados, e o “fedor” do motorista (pai “fracassado”) ultrapassa os limites tão caros ao pai bem-sucedido.

E é por este destaque no ato de farejar da família rica – que, a princípio, pode parece ser mais humana e atuar como hospedeira, não parasitária, pois apresenta modos limpos, belos, gentis e desenvolvidos - e também pelo ato violento do pai pobre - que acaba matando o rico, reagindo à expressão de nojo que este faz ao mover o corpo de outro despossuído -, além de todo o contexto de relativo ócio do núcleo abastado e, ainda, a evidente superioridade da inteligência/perspicácia da família pobre que subjuga a outra, muito ingênua e fraca em suas defesas ao espaço extremamente importante e vulnerável do lar; é por tudo isto que ocorre uma inversão (ou, pelo menos, uma aproximação ou ressignificação) sobre o papel de cada família na trama, com uma mudança fundamental no enquadramento de parasita/hospedeiro.

Isto porque um ser parasitário não é capaz de matar o hospedeiro de forma rápida e atuando individualmente, como fez o pai pobre e mais: o motorista agiu como predador, que nunca se confunde com o parasita, que suga mas preserva o hospedeiro, até porque depende da vida dele para sobreviver; entre humanos e animais irracionais, o ato de farejar pertence aos bichos, menos desenvolvidos nos outros sentidos e estratégias sócio-culturais avançadas; a supremacia dos meios ardilosos decorre da astúcia refinada dos pobres que invadiram com facilidade o lar dos abastados, que não foram nada inteligentes ao permitir o acesso de estranhos ao local de habitação, tão vulnerável. Tanto é assim que os ricos já haviam permitido a invasão do marido da ex-governanta ao seu lar e o pai vencedor acabou assassinado pelo empregado que ele mesmo admitiu para que o servisse de perto, numa proximidade física extrema, mas que no nível simbólico entendia como bem afastada, apesar do fedor que desrespeitava as fronteiras defendidas pelo patrão.

Todas estas evidências provam que os verdadeiros parasitas são os ricos, embora também possa se interpretar as situações destacadas como uma espécie de jogo de equiparação entre os núcleos, os quais, cada um à sua maneira, interagem como parasitas e hospedeiros um do outro, diante da dinâmica da apropriação dos recursos de que dispõem: mão de obra dos despossuídos e “capital” dos bem-sucedidos, no fim a contraposição de classes, proletários e burguesia. Coloco o termo contraposição, pois não há luta coletiva e engajada, apenas revoltas individuais, sem qualquer consciência de classe e organização coletiva.

E esta inversão sobre quais as personagens que representam os verdadeiros parasitas lembra “A metamorfose”, de F. Kafka, porque, na novela, aquele que se transforma em inseto é justamente a personagem Gregor Samsa, o filho que se sacrificava trabalhando numa função exaustiva e marcada por sua exploração para pagar uma dívida dos seus pais e sustentar a família, a qual tem a mesma composição daquelas mostradas no filme: mãe, pai e casal de irmãos.

Na minha interpretação desta obra literária, suponho que Gregor contrai uma doença grave - tuberculose, talvez - e por isso é forçado a parar de trabalhar, motivo pelo qual passa a se ver e a ser visto como um inseto, um parasita. Esta leitura se baseia no fato de que Gregor não se preocupa com sua transformação, mas, sim, com o seu atraso para o trabalho, além de o protagonista considerar a ideia de justificar sua ausência dizendo ao seu empregador que estava doente [4]; isso sem mencionar outros trechos da obra que indicam se tratar de uma enfermidade grave, progressiva e possivelmente contagiosa. Tudo a resultar numa reificação de Gregor, que somente poderia ser considerado humano, se fosse produtivo, capaz de trabalhar.

Também vejo uma inversão nesta novela de Kafka, tendo em vista que, embora o filho se transforme em inseto, são os pais que atuavam como parasitas ao se beneficiarem, ou melhor, dependerem totalmente da exploração do trabalho de Gregor que, mesmo metamorfoseado (ou gravemente doente), parece mais sensível e humano, se comparado com as outras personagens, mostrando-se até capaz de se comover diante da música executada por sua irmã no violino e se revoltar com os modos rudes dos inquilinos durante a bela apresentação, tolerados por seus pais que priorizavam os aluguéis pagos pela locação de um quarto na casa. [5]

Outra semelhança entre as narrativas é o uso de frutas como se fossem armas para atingir e causar danos a certas personagens. No filme, a família pobre usa pêssegos contra a ex-governanta, extremamente alérgica a esta fruta, cujo pó da casca foi usado, de modo eficaz, para causar sua demissão e também para enfraquecê-la numa briga, ou seja, o fruto foi utilizado como uma arma a fim de repelir uma pessoa indesejada. Na novela, Gregor-inseto é atingido por uma maçã que, atirada por seu pai para afastá-lo, acaba por penetrar nas suas costas, causando um sofrimento duradouro ao protagonista, já que esta grave ferida é abordada diversas vezes na trama.

Este deslocamento em relação à função principal e ordinária de alguns objetos também aparece noutra cena de “Parasita”, na qual um espeto de churrasco, com carnes nele enfiadas, é usado como uma espécie de punhal para ferir uma personagem. Do mesmo modo, uma lâmpada da mansão serve como meio de envio de mensagens em código morse; a privada situada no alto do banheiro dos empregados acaba servindo como refúgio no momento da enchente; e a pedra, recebida como um amuleto de prosperidade, transforma-se num instrumento contundente usado numa tentativa de homicídio.

Assim, tal como as frutas (maçã e pêssego) deveriam servir como alimento e acabam deslocados para dar vazão ao ódio e ferir pessoas, vários outros objetos são transformados (deslocados) de forma bastante peculiar e por isso inesperada, de modo que se pode observar uma relação direta com a metamorfose (desvio) dos personagens no decorrer da trama: como a maioria dos objetos citados, os empregados acabam relacionados a atos de violência, o que parece impossível até a metade do filme.

E esta desfiguração também acontece com as risadas no longa: depois de se recuperar dos ferimentos na cabeça, o jovem pobre passa a rir de tudo, inclusive de tragédias, soltando risadas inadequadas e anacrônicas que me fizeram lembrar do filme “Coringa”(Todd Phillips, 2019), no qual também se veem muitos risos e gargalhadas da mesma natureza, sofridas por uma personagem também marginalizada. Pessoas em dificuldade que riem sem razão pra rir; e o riso exigido dos pobres (empregados), como na cena da festa de aniversário do menino rico, em que o patrão faz o motorista se fantasiar de índio e, ainda, exige que o empregado sorria, finja estar contente com a surpresa planejada para animar o filho caçula de seus patrões. Diante da seriedade do empregado (cuja casa foi inundada na noite anterior), que não sorri nem entra no clima da brincadeira imposta, o rico fica incomodado e, deixando a gentileza de lado, diz ao empregado que ele está sendo pago pra fazer aquilo. Não são só as coisas e personagens que se deslocam e transmutam, mas também o riso. Em síntese, personagens que representam pessoas objetificadas acabam lançando mão de atos agressivos, nos quais usam coisas ou mesmo expressões - algumas até um tanto personificadas - desvirtuadas de seus atributos essenciais.

Outro ponto a se destacar é a descoberta de que o marido da ex-governanta vive numa espécie de bunker desprezado pelos ricos, diante da história que revela medo e covardia que levaram à construção do esconderijo, à época valorizado e, atualmente, motivo de vergonha. A trama surpreende ao revelar que a ex-governanta, mostrada como uma empregada muito eficiente e profissional, esconde seu marido dentro da casa dos patrões. Esta surpresa, que poderia unir os trabalhadores pobres e subalternizados, não tem este efeito agregador, que se prendem às diferenças, ainda que irrelevantes, e entram em conflito, demonstrando a divisão e desorganização que esvaziam a possibilidade da ação coletiva de classe capaz de alterar a estrutura do sistema. Mais uma vez prevalece o individualismo, sem dúvida um reflexo do acontece na prática, diante da ideologia capitalista em que as personagens estão imersas.

De qualquer modo, é bastante relevante no simbolismo da narrativa que o menino rico veja o miserável morador do seu porão como um fantasma: numa estrutura de desigualdade e concentração de renda e patrimônio, os miseráveis – os despossuídos alijados à marginalização - assombram aqueles que detém riquezas e vivem na fartura. A cena da aparição fantasmagórica é emblemática, já que a criança estava se lambuzando ao comer um bolo de aniversário de madrugada (uma refeição farta e fora do horário regular) degustada sob a luz forte que emana da geladeira lotada de alimentos de todo tipo e este menino rico é assombrado por aquele ser esquálido que surge de um patamar inferior e da escuridão. A mensagem parece clara: os poucos vencedores que vivem na fartura serão sempre assombrados pela massa de perdedores miseráveis.

Não há como deixar de mencionar a explicação que o pai pobre dá ao seu filho quando questionado sobre o plano que alegou ter pra lidar com a situação de conflito com a ex-governanta e o marido no bunker: “meu plano é não ter plano, porque aí nada pode dar errado, já que não há nada arquitetado, e você pode fazer o for necessário na hora que a situação se apresentar - pode fazer qualquer coisa -, sem se preocupar com regras e princípios preestabelecidos.” Parece uma estratégia de agir sem considerar princípios éticos e que acaba por fazer prevalecer a emoção e os instintos (animalescos) de sobrevivência sobre a razão, soando como um discurso de desespero de alguém que já desistiu de pensar e se preparar, diante de muitos planos frustrados. Eles fizeram um plano para iludir os ricos mas, ao surgirem imprevistos, o pai afirma que é melhor não ter planos.

As perguntas íntimas e um tanto ousadas, considerando a relação recente e de subordinação, que o motorista faz para seu chefe, indagando diretamente sobre o amor do patrão por sua mulher, podem ser interpretadas como uma curiosidade acerca dos sentimentos do jovem rico, no intuito de encontrar alguma identificação (ou sinal de vida real a gerar empatia) no representante de uma classe tão distinta e talvez isenta de emoções, dada a ausência de expressão dos sentimentos. A distância imposta pelo patrão no âmbito social, que revela uma tentativa de total impessoalidade, choca-se com a proximidade física e a convivência constante, dois elementos que seriam suficientes para motivar mais diálogos e, consequentemente, a revelação gradual de pensamentos e sentimentos entre indivíduos de uma mesma classe, ainda que tal exteriorização da intimidade pudesse ocorrer por vias indiretas e/ou por meio da percepção de outros sinais, subjacentes ao conteúdo literal das frases trocadas.

No entanto, a proibição às conversas, mesmo que tácita, acaba ensejando o questionamento direto feito pelo empregado com o objetivo de descobrir se o vínculo do casal de patrões se baseia no amor, o qual depende da sensibilidade inerente às elevadas capacidades humanas. O interesse no amor também reforça a natureza de hospedeiros dos despossuídos. Os ricos parasitas, ao menos superficialmente, parecem ter uma vida tão estável, confortável e perfeita, que nem parecem gente de verdade aos olhos dos mais pobres, que enfrentam inúmeras dificuldades inerentes à sua condição. Mais um elemento a indicar que os pobres seriam mais humanos, reais e vivos que os endinheirados, mas não pela animalização destes e sim por sua metamorfose em algo semelhante a robôs.

Nesse contexto interpretativo, a ação parasitária dos integrantes da classe dominante - com todas as nuances de distanciamento e impessoalidade ressaltadas - se apresenta como um mecanismo automático de caráter desumano que reforça a falta de empatia entre membros de diferentes classes. Ou seja, para que se preserve a situação de desigualdade e exploração faz-se necessário deixar bem claros os limites - tão defendidos pelo patrão, que não tolera qualquer invasão, nem pelo cheiro -, de modo a marcar a distinção entre as classes, negando-se aos subalternizados quaisquer elementos que pudessem torná-los de algum modo semelhantes aos exploradores, o que poderia se tornar uma ameaça ao status quo. Mesmo quando o patrão responde que ama sua esposa ao motorista, este parece não se convencer sobre a veracidade do conteúdo da resposta, pois refaz a pergunta em outra oportunidade, evidenciando-se a dificuldade de identificação e empatia, assim como a clara distinção entre parasitas e hospedeiros tão relevante à narrativa do filme.

E o bloqueio às conversas parece ser reforçado pelo modo como é usado o código morse no filme: a partir do esconderijo (quase prisão) no bunker, os homens pobres, que de algum modo violaram as leis do sistema - seja por não conseguir pagar os empréstimos (marido da ex-governanta) ou por ter matado um homem (pai e motorista) , mandam mensagens por meio de código morse, piscando lâmpadas na mansão. Agradecimentos, explicações e até pedido de socorro, e se trata de uma tentativa de comunicação sem ter meios de receber respostas ou sequer saber se alguém viu e entendeu o que foi dito, tudo a demonstrar a dificuldade ou até mesmo impossibilidade de comunicação e diálogo. A diferença social é tão grande que já não há como dialogar, então mensagens em código morse são enviadas de baixo, do fundo, e ignoradas pelos mais ricos, como o pedido de socorro feito pelo marido da ex-governanta que, embora visto e decodificado pelo filho caçula abastado, não provoca qualquer reação.

Por tudo isso, vemos que a narrativa do filme se aproxima bastante da novela de Kafka (publicada em 1915), diante das metamorfoses, da impossibilidade dos diálogos, das inversões e dos deslocamentos. E o mais intrigante é observar como os finais se parecem: em ambos ocorre a morte de um membro da família e, não muito tempo depois, as personagens sobreviventes se entregam ao sonho de alcançar prosperidade financeira para conseguir uma moradia melhor. O sonho da casa própria, o sonho da prosperidade, o sonho de ascender para a classe rica; o “sonho” que é de reprodução do sistema e não de rompimento. Um “sonho” nada original, individual e com roteiro (previamente) elaborado de acordo com a malandragem dominante, sonhado por aqueles que dormem nela imersos: o “sonho” de passar de hospedeiro, explorado, a parasita, sem arranhar as estruturas.


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Notas e referências:




[4] KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. 11ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1991. Páginas 7/11.

[5] KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. 11ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1991. Páginas 73/75.

Reportagens sobre a Coreia do Sul:








quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Eles não ligam pra gente


Minha intenção neste texto é destacar alguns pontos da bela e poderosa música “They don´t care about us” (Michael Jackson, 1995), seus videoclipes e algumas curiosidades. Mais uma vez me impressionei com trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia (e no caso dos videoclipes do astro, ainda há a dança, a fotografia etc., que ofuscam ainda mais a letra, a mensagem).

A música fala de racismo, autoritarismo, violência - especialmente a policial -, política, consumismo, desigualdade, e até do que atualmente chamam de pós-verdade. E é muito atual, encaixa-se perfeitamente à nossa realidade. Em 1995, Michael Jackson cantou sobre a ascensão da violência, denunciando uma situação já crítica, mas que ao longo dos anos ainda piorou e, infelizmente, a resposta a todo discurso de medo e incertezas tem sido mais repressão e violência - e não as saídas indicadas pelo Rei do Pop na sua poesia.

Os versos são diretos, não usam muitas metáforas, dizem logo a que vieram: denunciar o descaso dos poderosos em relação aos marginalizados: they don´t care about us - eles não ligam para a gente (nós), frase que em português pode se desdobrar para o sentido de que eles não ligam pra gente, eles não se importam com pessoas, seres humanos. Descreve claramente como o Estado foi reduzido ao seu papel repressor, abandonando as políticas públicas mais ativas, inclusive (e principalmente) as de promoção de igualdade. E o mais incrível é que ele avisou há mais de 20 anos sobre os riscos e consequências do abandono e marginalização.

A letra já começa falando de “cabeça raspada”, em clara alusão aos skinheads, mas também ao militarismo, porque os soldados também tem o cabelo assim, rente. Ainda na primeira estrofe, acusa o aumento da maldade, além de ressaltar a confusão dos discursos, denunciando um afastamento dos fatos (verdade), em que todos justificam seus atos (inclusive violentos) da maneira que quiserem, criando suas versões, daí a pós-verdade.

E sobre a verdade - prestando bastante atenção ao início dos videoclipes -, ouvimos, no meio do coro infantil que canta o refrão, a voz de menina que se ergue pra dizer: “não importa o que as pessoas digam, a verdade está com a gente.” Num mundo cheio de medo e especulações - como é dito na letra - uma criança defende o seu ponto de vista, que é o da mensagem da música: eles realmente não ligam pra gente. Porque se ligassem pelo menos um pouco, não haveria tanta discriminação e violência, como a letra destaca.

É uma poesia de cunho crítico e politizada: menciona duas figuras históricas, Roosevelt e Martin Luther King, dizendo que se eles tivessem vivos, não deixariam esses absurdos acontecerem. A crítica às políticas neoliberais de redução do Estado não poderia ser mais clara, tendo em vista que o democrata Franklin Delano Roosevelt (FRD) promoveu políticas públicas de inclusão, usando ativamente o Estado de caráter interventor, para atenuar a devastação causada pela crise do capitalismo de 1929. Luther King era um pastor protestante que se tornou um dos líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com uma campanha de não-violência.

Michael Jackson denuncia o descaso dos poderosos, com a amputação do braço protetor do Estado, que atualmente segue apenas com o braço hipertrofiado da repressão, o qual se volta com mais força e frequência contra aos historicamente marginalizados, os “invisíveis” e sem direitos, como diz a letra. E pra quem acha que a divisão da sociedade e a polarização são fenômenos recentes, taí uma música de 1995 que deixa tudo bem claro. Antes, em 1980, Bob Marley já falava desta divisão quando lançou "We and them". E pra citar um exemplo de lucidez nacional, em 1997 veio à luz o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC´s, que até no título expõe a divisão social, e nas músicas descreve uma realidade dura, marcada pela desigualdade e segregação, como nos versos de “Diário de um detento": “Cadeia? Guarda o que sistema não quis/ Esconde o que a novela não diz.”

A divisão social é clara há muito tempo; a polarização ficou mais evidenciada quando a extrema direita saiu do armário empurrada pelo discurso de medo e pela decadência da classe média, também ferida pelo neoliberalismo. Alguns dos fundamentos do conceito de classe média são a maior estabilidade do grupo e seu poder aquisitivo razoável, a ponto de suprir com algum conforto as necessidades básicas (sobrevivência) e ainda ter um excedente para atividades culturais e de lazer.


A redução do Estado - com a privatização da educação, da saúde e até da segurança, além do corte de direitos -  tem esgotado os recursos excedentes: daí resta trabalhar para sobreviver, pra pagar plano de saúde, escola particular, sistema de vigilância em condomínios gradeados, cujos apartamentos (moradia), inflacionados pela especulação, vêm com os juros altos do financiamento. Compras a prazo, cartão de crédito, dívidas: com juros que engordam os lucros dos bancos. O básico agora tem preço, e é caro. O mercado, desregulamentado, cada vez mais livre pra explorar e descartar, não garante estabilidade. A ideologia dominante cega por imersão e direciona o medo - e o ódio - para mais pobres, para os imigrantes (retirantes), tachando de inimigos as maiores vítimas do próprio sistema, aqueles que sofrem duplamente: com a omissão (abandono) e a repressão (violência) do poder público.


E eles ("they") lucram no processo inteiro: menos Estado, menos impostos; menos direitos trabalhistas, menos gastos, menos deveres legais em relação a pessoas; menos serviços públicos gratuitos, mais espaço pra "empreender" e vender até o mínimo essencial; mais dívidas, mais juros; mais crimes (e a elite define que tipo de atividades e substâncias são ilegais), mais armas, produzidas em países desenvolvidos; mais prisões, mais trabalho precarizado e expansão dos negócios com a privatização das cadeias; os jornais reforçam o discurso de medo nos artigos e reportagens ao mesmo tempo que - reféns das verbas de publicidade - anunciam unidades em condomínios clubes-fortalezas, empréstimos,  seguros pra tudo (os riscos são enormes); carros novos condicionados ao pagamento de "suaves" prestações.

O sistema cria guerras e vende as armas (pros dois lados); sucateia o transporte público e vende carros e motos, "soluções" individualistas que engrossam os engarrafamentos, onde os potentes veículos se travam pelo excesso: encarcerados nos carros parados e por isso mais vulneráveis, cidadãos de bem temem ladrões violentos e armados enquanto alimentam, acordados, o sonho da arma própria e legalizada, pra poder "empreender" em sua própria segurança pessoal e patrimonial. Mais consumo e privatização (até do conflito armado), mais lucros.

Pode ser que o mesmo conglomerado empresarial venda armas pro ladrão e pro bom cidadão, além de seguros, blindagem, alarmes, filmes de ação com heróis armados (entretenimento motivacional de guerra que banaliza a violência: cortas as cenas de sexo, mas mostra com detalhes pessoas morrendo metralhadas; censura gemidos de prazer e corpos nus, mas não o som dos disparos e os cadáveres estraçalhados), e pode ganhar uma grana até com o serviço de atendimento de urgência - SAMU (também privatizado), se sobrarem feridos, e também com os remédios de um eventual tratamento médico. 


Além dos versos fortes, os videoclipes de "They don´t care about us" também transgridem e protestam. Neles, o ícone do entretenimento canta e expõe verdades inconvenientes e como cidadão da chamada “Terra da liberdade” grita por liberdade - exige o cumprimento da promessa -, expondo o real pesadelo que na prática contrapõe ao “sonho americano”. Atrelados ao avanço das políticas neoliberais vieram a maior concentração de renda e o aumento da desigualdade.


Os cenários dos videoclipes não poderiam ser mais adequados à mensagem da letra: dirigida por ninguém menos que Spike Lee, a versão filmada no Brasil foi gravada numa favela (Santa Marta, zona sul do Rio) e no Pelourinho (Salvador, Bahia). Já na versão realizada nos EUA, Michael canta e dança dentro de um presídio, encarcerado. A prisão tem sido uma das principais respostas repressivas do Estado, cada vez mais “policial” e menos preocupado com o “bem-estar social”.[1]

E quando a resposta não é criminalização e prisão, pode ser fatal: o Estado mata, como aconteceu com as crianças vitimadas este ano (e nos anteriores também) e com o homem desarmado e acompanhado da família (inclusive uma criança de 7 anos) que foi fuzilado com mais de 80 tiros por soldados do exército. [2] Preciso mencionar a cor do homem executado? E a cor e classe social das crianças assassinadas? Preciso dizer? Preciso relembrar o massacre do Carandiru, em que a prisão não foi suficiente, e 111 homens encarcerados foram mortos?

Escolher o Brasil, país marcado pela desigualdade, e fazer uma parceria com o Olodum tornam a obra ainda mais fantástica. Ele veio cantar e dançar com os excluídos o arranjo é lotado de percussão brasileira, numa pegada meio Rap e Hip hop, sons da periferia. O músico estava a frente de seu tempo: numa época que ainda não se falava muito sobre lugar de fala e representatividade, ele deu seu recado da melhor forma possível. Não bastou fazer uma música de protesto, ele veio aqui, contou com o talento do Olodum, mostrou a favela, a periferia dentro de um periférico país da América Latina, onde o “sonho americano” só passa na TV e às vezes falta tempo pra assistir.



A letra anuncia o caos, a loucura, e expõe os pesadelos bastante reais de muitos, pesadelos que não deixam de ser o preço, o efeito colateral, dos sonhos de alguns. E a obra incomodou: criaram polêmicas em torno da letra, há rumores de que autoridades brasileiras tentaram impedir a gravação para não expor a pobreza e as falhas do governo, além das críticas à negociação de Spike Lee com o chefe do tráfico à época. [3] Isto sem falar na restrição à exibição do clipe na prisão, que só podia ser veiculado depois das 21 horas, sob a alegação de que expunha violência. Sim, há cenas reais de violência, porém não mais que qualquer telejornal ou filme de ação. Ao que parece muita gente queria ver Michael cantar e dançar, mas com temas leves e frívolos, não com um protesto claro, direto e cheio de verdades geralmente negadas, caladas, reprimidas, jogadas pra margem. O incômodo e reações me parecem exagerados: a solução indicada na canção não é uma revolução sangrenta: ao citar Roosevelt e M. Luther King, o compositor enaltece o capitalismo superficialmente brando do Estado de bem-estar social e as vias pacíficas para chegar (voltar) a ele. 



A música e os videoclipes têm muitos aspectos que merecem destaque - como a cena de abertura do clipe da prisão, a mulher brasileira dizendo “Michael, eles não ligam pra gente” logo no início, o barulho de disparo de arma de fogo no meio da música, as mulheres que pra abraçar o astro furam o cordão de isolamento da polícia, as imagens que destacam a bateria do Olodum e seus componentes -, mas quero concluir chamando a atenção pros gritos do cantor. Michael costumava soltar uns gritos em suas músicas, o que se tornou uma de suas marcas. No entanto, em “They don´t care about us”, seus berros são bem diferentes dos demais: são mais ásperos, graves, caóticos, parecem expressar raiva e desespero; e a música se encerra numa espécie de urro de dor. A situação vem se agravando e os sentimentos predominantes ainda são os mesmos mais de duas décadas depois. “Eles não ligam pra gente”.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Medo deslocado



A foto de um funcionário de escritório trabalhando de capacete incomoda pelo deslocamento. O capacete sobra, se mostra excessivo, desnecessário, até ridículo. Mas a imagem suscita a discussão do deslocamento, da coisa fora de lugar. E isso acontece com o medo. Bauman defende a ideia de que as pessoas em geral não conhecem a causa da sua insegurança, direcionando o discurso de reação a fatores que nada tem a ver com a causa real do medo. Segundo Bauman, enquanto a maioria das pessoas acha que o medo vem de crimes brutais noticiados a toda hora pela mídia (e aí a culpa recai sobre grupos de supostos "diferentes", caso dos imigrantes na Europa e dos mais pobres e excluídos no Brasil), a causa real é estrutural e diz respeito ao fim do estado de bem-estar social, ao avanço neoliberal, lançando as pessoas à própria sorte e recursos particulares, em sociedades historicamente desiguais. No fim, o medo e a reação são direcionados a outras vítimas e não à causa real. Se acha o medo do funcionário da foto ridículo, talvez possa se indagar sobre o seu.    

sábado, 28 de janeiro de 2017

Ninguém liga pro Daniel Blake (Ken Loach, 2016)

O filme começa com palavras num fundo negro: apenas um diálogo. Um homem e uma mulher falam sobre o questionário para obter benefício previdenciário. Muitas frases são ditas antes que as imagens venham à luz. O diretor é um parteiro de imagens sóbrias, realistas, em tons azuis acinzentados e focos originais. O filme tem cortes bem marcados de tempos em tempos, indicando a passagem de períodos: segundos de tela negra e silêncio destacam trechos da obra.

A narrativa mira a burocracia, a frieza, a falta de humanidade, o despreparo programado dos técnicos, que negam benefícios vitais para pessoas mais pobres, numa sociedade claramente desigual. Mira, sobretudo, o estado, a máquina pública e os vilões são os gerentes do instituto de previdência britânico. Daniel Blake, carpinteiro há mais de 40 anos, viúvo, morador de uma cidade média, sofreu um infarto, quase morreu. Sua médica o proibiu de trabalhar. Porém, mesmo com o laudo, o benefício lhe foi negado. Daniel não é um homem paciente, submisso; é um homem ciente dos seus direitos, astuto, tem o dom da ironia, a simpatia de um homem experiente, que convive em harmonia com vizinhos pobres, imigrantes.

A trama pode lembrar “o processo” de Kafka, mas é muito mais realista, embora as exigências e a falta de abertura ao diálogo nos deixem mareados, enjoados, irritados, tensos. Blake tenta, fala, grita e, ao presenciar o absurdo da negativa de atendimento a uma mulher jovem com duas crianças, toma partido, em defesa da mãe desnorteada. Ambos terminam expulsos da unidade, agressivamente. E daí começam uma amizade.

Há cenas que expõem a globalização, quando um vizinho de Daniel recebe pares de tenis da china para revender na cidade, e também com a multietnicidade das personagens, além da conversa por vídeo com o chinês apaixonado por futebol. O filme revela a vida, os impasses, os dramas de Daniel e Katie, que está longe da família e sem dinheiro. O filme é realista e delicado.

A narrativa tem sua poesia, com os dons artísticos do senhor solitário que faz peixinhos de madeira para pendurar no teto, rendendo belas imagens dos bichinhos contra a luz da janela, por onde entra alguma luz para aquecer a casa e a vida em crise de pessoas que estão isoladas e sem meios de subsistência. Os peixinhos de madeira me lembraram os de ouro de Aureliano Buendia (Cem anos de Solidão). 

E a trama remete também a outra obra de  Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana. 

Blake lembra também a Clara de Aquarius: um homem com dignidade, força, história e uma disposição de lutar, mesmo que o coração já esteja enfraquecido. Nenhum dos dois se submete. Uma das cenas mais marcantes é quando Daniel inscreve seu recurso fora do lugar, numa superfície pública, aberta. O fato de escrever diz muito. A palavra. Mais uma vez. Se o diálogo inaugural tinha o fundo negro, agora a palavra se expõe aberta. Um homem pobre, um homem machucado pela vida, com roupas velhas, bêbado começa a defender Daniel e faz um belo discurso, se identificando também como uma vítima do governo, “dos gordos com suas taxas”.

Em tempos de governantes que apagam arte, pichar pode ser um meio de dizer (qual o lugar da arte?). E qual o lugar do poder econômico? O filme é magnífico, o diretor Ken Loach faz um trabalho excelente, porém penso que a narrativa poderia abordar mais a vinculação do poder privado ao público, as relações econômicas capitalistas que criam e reproduzem a desigualdade, a exploração, a negação da dignidade de forma sistemática. Os vilões do filme, burocratas do estado, só fazem o trabalho sujo para os empresários ricos.

E a palavra, ao final, surge com um discurso deslocado, agora não de superfície mas de personagem, um discurso que vai além. Um recurso/discurso que é escrito e acaba lido fora da repartição, longe do seu lugar, um recurso que lembra a carta não enviada, que segundo Lacan seria para o grande Outro. O filme é como a mensagem, e lá como aqui vemos idosos tendo que trabalhar, mesmo doentes, para sobreviver e todo avanço neoliberal de privatização, redução do estado. Pode ser que amanhã ninguém nos escreva. 



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Filme: "Eu, Daniel Blake"
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Lucros ou impostos?

A elite, o poder econômico se escondem atrás do discurso ideológico de que são impostos que encarecem tudo, culpando o Estado. A direita fala da necessidade de cortar direitos, flexibilizar, reduzir encargos, "enxugar a máquina pública". Mas a margem de lucro no Brasil é uma das maiores do mundo e é bastante comum os estados concederem isenção fiscal, como no caso do Rio, que deixou de arrecadar algo em torno de 200 bilhões nos últimos anos. As empresas abusam e a conta é jogada pro povo. Capitalismo atuando. Vale muito a leitura dos textos da Carta e do Justificando:   


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Partidos de esquerda no Brasil

Já escrevi algumas vezes sobre a crise de cidadania, a falta de participação das pessoas nos processos coletivos, na construção dos partidos e na atuação dos governos. Tudo isso ligado ao discurso de falência da política que prevalece na grande mídia, ao qual me contraponho. Agora, vou falar um pouco sobre nossos partidos de esquerda (ou que são chamados assim), que também tem sido atacados pela retórica antipolítica.

Pra começar, nossos partidos à esquerda não são comunistas nem revolucionários. Os fatos de serem partidos na ordem jurídica vigente já os colocam como reformistas e com a nossa Constituição de 1988, que é capitalista e protetora da propriedade privada, não há como instaurar um regime comunista. Nossa esquerda partidária está mais para defensora do estado de bem-estar social, uma forma de capitalismo abrandado, que se fortaleceu no pós-guerra e vem sendo destruído pelas práticas neoliberais.

Os partidos de esquerda tem propostas de fortalecimento dos serviços essenciais do Estado e assim agem em cumprimento à nossa Constituição, que é nitidamente alinhada às políticas de bem-estar social. Um leitura das propostas da esquerda e das normas constitucionais deixa isso muito claro.

E essa ideia de serviços essenciais e de qualidade prestados diretamente pelo Estado é algo adotado em muitos países capitalistas desenvolvidos, como vemos na Europa e até nos EUA, onde a educação pública básica é frequentada também pela classe média, embora lá a saúde esteja privatizada e com acesso restrito.

Os partidos à direita - aqui e no resto do mundo - tem uma visão de redução do Estado, atingindo os serviços essenciais. Numa perspectiva de globalização, a direita quer fazer de tudo para reduzir o estado, a proteção dos trabalhadores, a tributação que mantém os serviços essenciais, e assim atrair as grandes empresas, que se instalam onde houver mais facilidades, menos custos. A nossa diferença é que muitas das empresas da elite brasileira obtém privilégios do Poder Público.  

E a direita sabe da importância de dominar também o Poder Judiciário, porque é dele palavra final sobre a interpretação das normas constitucionais. Com a nossa atual Constituição, fica complicado impor o estado mínimo e é por isso que os governos de direita fazem emendas e contam com a atuação do STF para esvaziar o conteúdo dos direitos assegurados na Lei Maior.

O mais curioso é que muitas pessoas que votam nos partidos de direita querem passar em concursos públicos e fazem uso dos serviços públicos de excelência, como nossas universidades e alguns órgãos ligados à saúde. E também pagam caro escolas particulares e planos de saúde, que muitas vezes oferecem serviços ruins.

Nossa tributação é injusta, mal feita, onera demais os mais pobres e a classe média, há muita sonegação, facilita pros ricos, e a arrecadação é baixa, comparada com outros Estados. Vale a pena pesquisar e se informar sobre o assunto. O discurso da grande mídia e da direita não aborda isso, defende cortes nos serviços, nos tributos e não uma reforma que promova justiça, melhor arrecadação e qualidade nos serviços. Na verdade, é a esquerda que tem defendido essa pauta e tem sido atacada com argumentos que não correspondem à realidade.

Na década de 1950, quando o Brasil era muito menos desenvolvido, era comum as pessoas de classe média estudarem em escolas públicas, junto dos mais pobres. Nas últimas décadas só os mais pobres permaneceram no ensino público. A classe média está pagando caro por ensino privado. Não seria mais justo pagar menos mensalidades, ter uma tributação mais justa e promover um ensino público de qualidade?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PEC 241 passa pela Câmara: inverno fora de época

Ontem o segundo passo foi dado pela Câmara dos Deputados; segundo passo para impor o congelamento, a absurda restrição. A maioria dos deputados, os mesmos que apoiaram o golpe, votou pela imposição de corte. Por vinte anos. Limitada à inflação. Nunca nenhum estado fez isso. A verdade é que os EUA na crise de 1929 e na mais recente usaram muito dinheiro público para sair ou abrandar efeitos nocivos do capitalismo. Aqui é inconstitucional, tendo em vista as disposições sobre o orçamento bem como serviços essenciais, além de ultrapassar o período de governo. Trata-se do congresso mais conservador desde 1964. Inverno fora de época. Afastaram a centro-esquerda e estão com toda força para acabar com direitos, dizimar o Estado. Só a esquerda foi pras ruas. Mais de mil instituições de ensino ocupadas. As grandes empresas de mídia pouco falam sobre os protestos e defendem a PEC descaradamente. Ninguém bateu panelas. Silêncio. E mais votações foram e serão feitas, contra aposentados, contra os mais pobres. A desigualdade está aumentando.         

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Contra a PEC 241

Não é reduzindo o estado ou congelando gastos públicos que os problemas serão resolvidos. Pelo contrário: isso vai piorar as coisas. A tributação no Brasil é extremamente injusta, sobrecarrega os mais pobres, a classe média, os pequenos empresários e facilita muito pros ricos, pras grandes empresas. Pode pesquisar sobre os principais beneficiários do nosso sistema, que arrecada mal e das pessoas erradas. E mais: serviços públicos de qualidade, para todos, liberariam a classe média dos gastos com planos de saúde e colégios particulares.

Até meados do século passado, quando o Brasil era bem mais agrário, tínhamos educação pública de melhor qualidade para crianças e adolescentes. E ainda hoje há excelência no serviço público, como o Colégio Pedro II, instituições estaduais, Universidades Públicas etc. Há um sistema de tributação falho e também muita, mas muita sonegação. Não defendo o simples aumento dos tributos atuais: é necessário reformar o sistema e cobrar mais de quem tem mais.

Falta mobilização popular, coletiva, exercício da cidadania, para que os prejudicados se unam por uma tributação mais justa, mais fiscalização, e uma atuação melhor do estado. Grande parte da esquerda brasileira tem apenas propostas que permitiriam uma aproximação do estado de bem-estar social, que não deixa de ser capitalismo. Países capitalistas oferecem os serviços essenciais aos cidadãos. Vale a pena pesquisar e analisar outros sistemas. É certo que nenhum tem um plano de congelamento como este que estão tentando impor. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era




Lançado em 2016, o filme Aquarius, do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a empreiteira Bonfim,  que pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa.

Para mim, Clara é como uma representação humana da cidade, com suas histórias, estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades sem negar seu passado e suas cicatrizes.

Mas há uma cisão entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente - o que se vê na cena em que Clara explica que ouve música de várias formas, antigas (LPs) e novas (streaming, mp3) - a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos como ninhos de cupim. 

Aquarius - prédio que integra o corpo de Recife - é atacado pela construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos prédios são importantes e necessários, mas a atuação das empresas não deve ser desordenada como um câncer. 

Não vemos nenhum representante do poder público para regular a atividade da construtora Bonfim, cujo nome soa sarcástico, se considerarmos o fim que a empresa quer impor ao lar da protagonista. O conflito se dá entre uma empresa e uma mulher de classe média. Não há ninguém para fiscalizar, controlar e exigir equilíbrio. 

Muitos parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada vez mais afastadas.

A música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa, tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das grandes empresas.

O discurso neoliberal defende a redução do Estado, a desregulamentação e o filme mostra algumas das consequências da adoção destas posturas. Na trama, também se observa a mídia comprada pelo dinheiro das contas de publicidade. O jornal da cidade tem informações que se recusa a divulgar para não perder anunciantes. Uma espécie de censura realizada pelo poder econômico.

Defender o edifício Aquarius é mais que defender o lar de uma pessoa, o abrigo da história de uma família etc. É como defender uma era, uma época, a história, a integração do passado com o presente, o equilíbrio entre o que foi e o que virá. 

A cidade se ama, como Clara. A cidade luta, como a protagonista no filme e na realidade, como o Movimento Ocupe Estelita em Recife. O filme mostra que a classe média passou a ter o dever de viver (ou seria morrer?) em arranha-céus com grades, cercas elétricas e câmeras. (Se a classe média sofre pressões desse tipo, imaginem os mais pobres?).

É fato que o excesso de liberdade (e poder) das grandes empresas afeta a liberdade das pessoas. O medo dos ladrões de coisas pequenas ofusca os medos e as imposições maiores. Há muita desigualdade, nenhum equilíbrio. O discurso tem sido algo como: aos pobres, punição; aos ricos, desregulamentação.

No filme, vemos placas alertando para ataques de tubarões na praia em frente ao edifício Aquarius. Segundo ambientalistas, essa ameaça surgiu na praia de Boa Viagem depois da construção do Porto de Suape, que afetou o ecossistema local. Outro caso de desequilíbrio em que o poder econômico impôs suas vontades, suas exigências, sem debate, de modo antidemocrático, demolindo a cidadania. 

Quando ações desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado, as consequências atingem não só o morador do local mas a todos, pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
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PS. Pra quem curtiu "Aquarius", vale a pena assistir a outros filmes do mesmo diretor, como os longas "Som ao redor" (disponível na Netflix) e "Bacurau", além do curta "Recife frio".