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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Eles não ligam pra gente


Minha intenção neste texto é destacar alguns pontos da bela e poderosa música “They don´t care about us” (Michael Jackson, 1995), seus videoclipes e algumas curiosidades. Mais uma vez me impressionei com trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia (e no caso dos videoclipes do astro, ainda há a dança, a fotografia etc., que ofuscam ainda mais a letra, a mensagem).

A música fala de racismo, autoritarismo, violência - especialmente a policial -, política, consumismo, desigualdade, e até do que atualmente chamam de pós-verdade. E é muito atual, encaixa-se perfeitamente à nossa realidade. Em 1995, Michael Jackson cantou sobre a ascensão da violência, denunciando uma situação já crítica, mas que ao longo dos anos ainda piorou e, infelizmente, a resposta a todo discurso de medo e incertezas tem sido mais repressão e violência - e não as saídas indicadas pelo Rei do Pop na sua poesia.

Os versos são diretos, não usam muitas metáforas, dizem logo a que vieram: denunciar o descaso dos poderosos em relação aos marginalizados: they don´t care about us - eles não ligam para a gente (nós), frase que em português pode se desdobrar para o sentido de que eles não ligam pra gente, eles não se importam com pessoas, seres humanos. Descreve claramente como o Estado foi reduzido ao seu papel repressor, abandonando as políticas públicas mais ativas, inclusive (e principalmente) as de promoção de igualdade. E o mais incrível é que ele avisou há mais de 20 anos sobre os riscos e consequências do abandono e marginalização.

A letra já começa falando de “cabeça raspada”, em clara alusão aos skinheads, mas também ao militarismo, porque os soldados também tem o cabelo assim, rente. Ainda na primeira estrofe, acusa o aumento da maldade, além de ressaltar a confusão dos discursos, denunciando um afastamento dos fatos (verdade), em que todos justificam seus atos (inclusive violentos) da maneira que quiserem, criando suas versões, daí a pós-verdade.

E sobre a verdade - prestando bastante atenção ao início dos videoclipes -, ouvimos, no meio do coro infantil que canta o refrão, a voz de menina que se ergue pra dizer: “não importa o que as pessoas digam, a verdade está com a gente.” Num mundo cheio de medo e especulações - como é dito na letra - uma criança defende o seu ponto de vista, que é o da mensagem da música: eles realmente não ligam pra gente. Porque se ligassem pelo menos um pouco, não haveria tanta discriminação e violência, como a letra destaca.

É uma poesia de cunho crítico e politizada: menciona duas figuras históricas, Roosevelt e Martin Luther King, dizendo que se eles tivessem vivos, não deixariam esses absurdos acontecerem. A crítica às políticas neoliberais de redução do Estado não poderia ser mais clara, tendo em vista que o democrata Franklin Delano Roosevelt (FRD) promoveu políticas públicas de inclusão, usando ativamente o Estado de caráter interventor, para atenuar a devastação causada pela crise do capitalismo de 1929. Luther King era um pastor protestante que se tornou um dos líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com uma campanha de não-violência.

Michael Jackson denuncia o descaso dos poderosos, com a amputação do braço protetor do Estado, que atualmente segue apenas com o braço hipertrofiado da repressão, o qual se volta com mais força e frequência contra aos historicamente marginalizados, os “invisíveis” e sem direitos, como diz a letra. E pra quem acha que a divisão da sociedade e a polarização são fenômenos recentes, taí uma música de 1995 que deixa tudo bem claro. Antes, em 1980, Bob Marley já falava desta divisão quando lançou "We and them". E pra citar um exemplo de lucidez nacional, em 1997 veio à luz o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC´s, que até no título expõe a divisão social, e nas músicas descreve uma realidade dura, marcada pela desigualdade e segregação, como nos versos de “Diário de um detento": “Cadeia? Guarda o que sistema não quis/ Esconde o que a novela não diz.”

A divisão social é clara há muito tempo; a polarização ficou mais evidenciada quando a extrema direita saiu do armário empurrada pelo discurso de medo e pela decadência da classe média, também ferida pelo neoliberalismo. Alguns dos fundamentos do conceito de classe média são a maior estabilidade do grupo e seu poder aquisitivo razoável, a ponto de suprir com algum conforto as necessidades básicas (sobrevivência) e ainda ter um excedente para atividades culturais e de lazer.


A redução do Estado - com a privatização da educação, da saúde e até da segurança, além do corte de direitos -  tem esgotado os recursos excedentes: daí resta trabalhar para sobreviver, pra pagar plano de saúde, escola particular, sistema de vigilância em condomínios gradeados, cujos apartamentos (moradia), inflacionados pela especulação, vêm com os juros altos do financiamento. Compras a prazo, cartão de crédito, dívidas: com juros que engordam os lucros dos bancos. O básico agora tem preço, e é caro. O mercado, desregulamentado, cada vez mais livre pra explorar e descartar, não garante estabilidade. A ideologia dominante cega por imersão e direciona o medo - e o ódio - para mais pobres, para os imigrantes (retirantes), tachando de inimigos as maiores vítimas do próprio sistema, aqueles que sofrem duplamente: com a omissão (abandono) e a repressão (violência) do poder público.


E eles ("they") lucram no processo inteiro: menos Estado, menos impostos; menos direitos trabalhistas, menos gastos, menos deveres legais em relação a pessoas; menos serviços públicos gratuitos, mais espaço pra "empreender" e vender até o mínimo essencial; mais dívidas, mais juros; mais crimes (e a elite define que tipo de atividades e substâncias são ilegais), mais armas, produzidas em países desenvolvidos; mais prisões, mais trabalho precarizado e expansão dos negócios com a privatização das cadeias; os jornais reforçam o discurso de medo nos artigos e reportagens ao mesmo tempo que - reféns das verbas de publicidade - anunciam unidades em condomínios clubes-fortalezas, empréstimos,  seguros pra tudo (os riscos são enormes); carros novos condicionados ao pagamento de "suaves" prestações.

O sistema cria guerras e vende as armas (pros dois lados); sucateia o transporte público e vende carros e motos, "soluções" individualistas que engrossam os engarrafamentos, onde os potentes veículos se travam pelo excesso: encarcerados nos carros parados e por isso mais vulneráveis, cidadãos de bem temem ladrões violentos e armados enquanto alimentam, acordados, o sonho da arma própria e legalizada, pra poder "empreender" em sua própria segurança pessoal e patrimonial. Mais consumo e privatização (até do conflito armado), mais lucros.

Pode ser que o mesmo conglomerado empresarial venda armas pro ladrão e pro bom cidadão, além de seguros, blindagem, alarmes, filmes de ação com heróis armados (entretenimento motivacional de guerra que banaliza a violência: cortas as cenas de sexo, mas mostra com detalhes pessoas morrendo metralhadas; censura gemidos de prazer e corpos nus, mas não o som dos disparos e os cadáveres estraçalhados), e pode ganhar uma grana até com o serviço de atendimento de urgência - SAMU (também privatizado), se sobrarem feridos, e também com os remédios de um eventual tratamento médico. 


Além dos versos fortes, os videoclipes de "They don´t care about us" também transgridem e protestam. Neles, o ícone do entretenimento canta e expõe verdades inconvenientes e como cidadão da chamada “Terra da liberdade” grita por liberdade - exige o cumprimento da promessa -, expondo o real pesadelo que na prática contrapõe ao “sonho americano”. Atrelados ao avanço das políticas neoliberais vieram a maior concentração de renda e o aumento da desigualdade.


Os cenários dos videoclipes não poderiam ser mais adequados à mensagem da letra: dirigida por ninguém menos que Spike Lee, a versão filmada no Brasil foi gravada numa favela (Santa Marta, zona sul do Rio) e no Pelourinho (Salvador, Bahia). Já na versão realizada nos EUA, Michael canta e dança dentro de um presídio, encarcerado. A prisão tem sido uma das principais respostas repressivas do Estado, cada vez mais “policial” e menos preocupado com o “bem-estar social”.[1]

E quando a resposta não é criminalização e prisão, pode ser fatal: o Estado mata, como aconteceu com as crianças vitimadas este ano (e nos anteriores também) e com o homem desarmado e acompanhado da família (inclusive uma criança de 7 anos) que foi fuzilado com mais de 80 tiros por soldados do exército. [2] Preciso mencionar a cor do homem executado? E a cor e classe social das crianças assassinadas? Preciso dizer? Preciso relembrar o massacre do Carandiru, em que a prisão não foi suficiente, e 111 homens encarcerados foram mortos?

Escolher o Brasil, país marcado pela desigualdade, e fazer uma parceria com o Olodum tornam a obra ainda mais fantástica. Ele veio cantar e dançar com os excluídos o arranjo é lotado de percussão brasileira, numa pegada meio Rap e Hip hop, sons da periferia. O músico estava a frente de seu tempo: numa época que ainda não se falava muito sobre lugar de fala e representatividade, ele deu seu recado da melhor forma possível. Não bastou fazer uma música de protesto, ele veio aqui, contou com o talento do Olodum, mostrou a favela, a periferia dentro de um periférico país da América Latina, onde o “sonho americano” só passa na TV e às vezes falta tempo pra assistir.



A letra anuncia o caos, a loucura, e expõe os pesadelos bastante reais de muitos, pesadelos que não deixam de ser o preço, o efeito colateral, dos sonhos de alguns. E a obra incomodou: criaram polêmicas em torno da letra, há rumores de que autoridades brasileiras tentaram impedir a gravação para não expor a pobreza e as falhas do governo, além das críticas à negociação de Spike Lee com o chefe do tráfico à época. [3] Isto sem falar na restrição à exibição do clipe na prisão, que só podia ser veiculado depois das 21 horas, sob a alegação de que expunha violência. Sim, há cenas reais de violência, porém não mais que qualquer telejornal ou filme de ação. Ao que parece muita gente queria ver Michael cantar e dançar, mas com temas leves e frívolos, não com um protesto claro, direto e cheio de verdades geralmente negadas, caladas, reprimidas, jogadas pra margem. O incômodo e reações me parecem exagerados: a solução indicada na canção não é uma revolução sangrenta: ao citar Roosevelt e M. Luther King, o compositor enaltece o capitalismo superficialmente brando do Estado de bem-estar social e as vias pacíficas para chegar (voltar) a ele. 



A música e os videoclipes têm muitos aspectos que merecem destaque - como a cena de abertura do clipe da prisão, a mulher brasileira dizendo “Michael, eles não ligam pra gente” logo no início, o barulho de disparo de arma de fogo no meio da música, as mulheres que pra abraçar o astro furam o cordão de isolamento da polícia, as imagens que destacam a bateria do Olodum e seus componentes -, mas quero concluir chamando a atenção pros gritos do cantor. Michael costumava soltar uns gritos em suas músicas, o que se tornou uma de suas marcas. No entanto, em “They don´t care about us”, seus berros são bem diferentes dos demais: são mais ásperos, graves, caóticos, parecem expressar raiva e desespero; e a música se encerra numa espécie de urro de dor. A situação vem se agravando e os sentimentos predominantes ainda são os mesmos mais de duas décadas depois. “Eles não ligam pra gente”.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Medo deslocado



A foto de um funcionário de escritório trabalhando de capacete incomoda pelo deslocamento. O capacete sobra, se mostra excessivo, desnecessário, até ridículo. Mas a imagem suscita a discussão do deslocamento, da coisa fora de lugar. E isso acontece com o medo. Bauman defende a ideia de que as pessoas em geral não conhecem a causa da sua insegurança, direcionando o discurso de reação a fatores que nada tem a ver com a causa real do medo. Segundo Bauman, enquanto a maioria das pessoas acha que o medo vem de crimes brutais noticiados a toda hora pela mídia (e aí a culpa recai sobre grupos de supostos "diferentes", caso dos imigrantes na Europa e dos mais pobres e excluídos no Brasil), a causa real é estrutural e diz respeito ao fim do estado de bem-estar social, ao avanço neoliberal, lançando as pessoas à própria sorte e recursos particulares, em sociedades historicamente desiguais. No fim, o medo e a reação são direcionados a outras vítimas e não à causa real. Se acha o medo do funcionário da foto ridículo, talvez possa se indagar sobre o seu.    

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Amor, liberdade e segurança

Segundo Bauman, “para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. [...] Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo".

O sociólogo conhecido pelo termo “modernidade líquida”, ator de diversas obras sobre a fluidez da pós-modernidade, critica nossos tempos de total liberdade, na qual os laços são frouxos, abertos, além da reprodução das práticas de consumo nas relações pessoais, reificando humanos. No entanto, na minha interpretação, vejo Bauman como um saudosista, de certo modo conservador, tanto nos costumes quanto nas questões de estado e economia. Ele defende o Estado de bem-estar social pós-guerra, diante das suas experiência europeias, desconsiderando outros países e cenários periféricos numa visão eurocêntrica.

É claro que gosto muito do autor e mantenho minha admiração, especialmente nas críticas ao neoliberalismo e consumismo e também na cidadania, mas num aprofundamento não posso deixar de divergir, já que em uma sociedade patriarcal nunca houve igualdade de gêneros nem exclusividade imposta ao homem. Bauman critica a fluidez, mas é essa liberdade que reflete uma evolução no sentido de as pessoas não se submeterem a relações opressivas e expandir a capacidade de amar e construir novas formas mais abertas, como o poliamor. A questão é viver isso sem reificar. Bauman condena a liberdade, é um nostálgico dos laços perenes e exclusivistas.

Uma leitura do filme Her (2013, S. Jonze), numa perspectiva baumaniana, atinge “o paradigma de que são apenas as relações carnais que estão perdendo a força. Ao se apaixonar por um sistema operacional, Theodore parece suprir todas as suas necessidades dentro de um relacionamento. A forma virtual de se relacionar é a maneira que o protagonista tem de encontrar aquilo que realmente procura e idealiza, pois o sistema operacional se adapta cada vez mais às suas satisfações, tornando-se uma complementação do usuário.1

Nessa visão crítica da superficialidade virtual Bauman acerta em cheio, mas a verdade é que o filme não reflete a realidade, é uma hipérbole. Hoje ainda há pessoas por trás das máquinas, celulares e aplicativos: mensagens trocadas geram encontro entre pessoas reais. Desse modo, a internet e outras tecnologias não acabam com as relações.

Aqui proponho um diálogo entre o que colocações de Bauman e da psicanalista Regina Navarro Lins. Enquanto o sociólogo se fecha no passado, Navarro Lins já enxerga mudanças positivas e um futuro com outras configurações afetivas e familiares. Segundo a psicanalista “poliamor é a tradução livre para a língua portuguesa da palavra polyamory (Polyamory é uma palavra híbrida: poly é grego, e significa muitos , e amor vem do latim), que descreve relações interpessoais amorosas que recusam a monogamia como princípio ou necessidade. Por outras palavras, o poliamor como opção ou modo de vida defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com várias/os parceiras/os simultaneamente.”2

Regina Navarro Lins compreende a liberdade e a abraça; Z. Bauman vê com desconfiança, dando maior ênfase à defesa da segurança. Só tempo vai mostrar como a sociedade vai desenvolver o modo de se relacionar, mas desde já se veem novas modalidade de relacionamentos mais complexos. Na dança da vida, entre a liberdade e a segurança, as pessoas vão descobrir como querem amar.
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2 blogosfera.uol.com.br/2016/08/06/da-monogamia-ao-poliamor/

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Calçadas, espaços e poder



Que tal pensarmos sobre calçadas? Sobre o espaço que temos pra andar nas calçadas? Você, leitor, já deve ter passado por um momento em que viu a calçada cheia e teve dificuldade de passar, de caminhar livremente, de seguir seu caminho no seu ritmo pela calçada. E isso pode ter acontecido pelos mais diversos motivos: um casal com um cachorro com a guia esticada; uma família numerosa que anda lentamente como se não existisse mais ninguém querendo passar por ali; um grupo de jovens conversando em voz alta e vindo em bloco no sentido contrário sem sequer perceber que esmaga pessoas que estão tentando caminhar, em festas populares etc.
O que você faz quando se vê numa situação assim? Pede licença? Vai pela rua, se arriscando? Tenta passar pelo cantinho, meio que esmagado? Como faz? Bom, essa é uma situação comum, em que o espaço nas ruas, o espaço público (físico) parece ser disputado entre as pessoas, cada uma delas com interesses diferentes, com ritmos, necessidades e intenções diversas. Na verdade, uma mesma pessoa pode apresentar interesses diferentes a cada dia: pode ser que um dia esteja caminhando lentamente com os avós e em outro queira correr, na mesma calçada.
A pergunta que faço é: como conciliar esses interesses diferentes e por vezes contrários? Como conviver naquele mesmo espaço, na calçada? Como andar a cada dia por ali sem se submeter aos interesses de grupos maiores, mais fortes, nem impor aos demais os seus interesses, suprimindo os direitos alheios? É a lei do mais forte que dever prevalecer? Como fazer no dia em que você estiver sozinho e um grupo grande o empurrar para a rua, pra cima dos carros em alta velocidade?
Fiz muitas perguntas. Pense nas respostas antes de prosseguir a leitura do texto. Tente refletir sobre essas situações: como você deve agir quando está num grupo grande e também quando está só, diante de um monte de pessoas que seguem pela calçada, criando um muro e sem perceber sua presença.
Pois bem. Isso foi uma metáfora para o fascismo, sobre o exercício do poder. Qual o critério estabelecer para definir quem terá prevalência sobre o espaço na calçada, na política, nos governos, na definição das normas, nas determinações do poder econômico? Na vida há grupos que esmagam outros. Há aqueles que são donos de espaços, que compram e dominam vastas extensões, oprimindo os mais pobres. E são eles que pedem menos ou nenhuma regulamentação, que pedem um estado mais fraco, reduzido, mínimo. A desigualdade ainda é imensa, mesmo com a retirada de milhões de pessoas da miséria.
A imposição de medidas neoliberais só aprofundam a desigualdade. Piketty demonstra a concentração de renda e patrimônio para um percentual mínimo da população, em detrimento das maiorias cada vez mais pobres (veja link abaixo). Com a ausência de regulamentação, não existiria calçadas, seria tudo propriedade privada, como já é no asfalto.
O foco da mídia e do senso comum geralmente se atem ao poder político, nada fala sobre o poder econômico. Vemos prevalecer o discurso de que os políticos são todos iguais, a retórica da corrupção generalizada, sem vinculá-la ao capitalismo. E no assassinato da política vemos mãos fascistas. O momento é de luta. As ocupações e manifestações estão aí.



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Partidos de esquerda no Brasil

Já escrevi algumas vezes sobre a crise de cidadania, a falta de participação das pessoas nos processos coletivos, na construção dos partidos e na atuação dos governos. Tudo isso ligado ao discurso de falência da política que prevalece na grande mídia, ao qual me contraponho. Agora, vou falar um pouco sobre nossos partidos de esquerda (ou que são chamados assim), que também tem sido atacados pela retórica antipolítica.

Pra começar, nossos partidos à esquerda não são comunistas nem revolucionários. Os fatos de serem partidos na ordem jurídica vigente já os colocam como reformistas e com a nossa Constituição de 1988, que é capitalista e protetora da propriedade privada, não há como instaurar um regime comunista. Nossa esquerda partidária está mais para defensora do estado de bem-estar social, uma forma de capitalismo abrandado, que se fortaleceu no pós-guerra e vem sendo destruído pelas práticas neoliberais.

Os partidos de esquerda tem propostas de fortalecimento dos serviços essenciais do Estado e assim agem em cumprimento à nossa Constituição, que é nitidamente alinhada às políticas de bem-estar social. Um leitura das propostas da esquerda e das normas constitucionais deixa isso muito claro.

E essa ideia de serviços essenciais e de qualidade prestados diretamente pelo Estado é algo adotado em muitos países capitalistas desenvolvidos, como vemos na Europa e até nos EUA, onde a educação pública básica é frequentada também pela classe média, embora lá a saúde esteja privatizada e com acesso restrito.

Os partidos à direita - aqui e no resto do mundo - tem uma visão de redução do Estado, atingindo os serviços essenciais. Numa perspectiva de globalização, a direita quer fazer de tudo para reduzir o estado, a proteção dos trabalhadores, a tributação que mantém os serviços essenciais, e assim atrair as grandes empresas, que se instalam onde houver mais facilidades, menos custos. A nossa diferença é que muitas das empresas da elite brasileira obtém privilégios do Poder Público.  

E a direita sabe da importância de dominar também o Poder Judiciário, porque é dele palavra final sobre a interpretação das normas constitucionais. Com a nossa atual Constituição, fica complicado impor o estado mínimo e é por isso que os governos de direita fazem emendas e contam com a atuação do STF para esvaziar o conteúdo dos direitos assegurados na Lei Maior.

O mais curioso é que muitas pessoas que votam nos partidos de direita querem passar em concursos públicos e fazem uso dos serviços públicos de excelência, como nossas universidades e alguns órgãos ligados à saúde. E também pagam caro escolas particulares e planos de saúde, que muitas vezes oferecem serviços ruins.

Nossa tributação é injusta, mal feita, onera demais os mais pobres e a classe média, há muita sonegação, facilita pros ricos, e a arrecadação é baixa, comparada com outros Estados. Vale a pena pesquisar e se informar sobre o assunto. O discurso da grande mídia e da direita não aborda isso, defende cortes nos serviços, nos tributos e não uma reforma que promova justiça, melhor arrecadação e qualidade nos serviços. Na verdade, é a esquerda que tem defendido essa pauta e tem sido atacada com argumentos que não correspondem à realidade.

Na década de 1950, quando o Brasil era muito menos desenvolvido, era comum as pessoas de classe média estudarem em escolas públicas, junto dos mais pobres. Nas últimas décadas só os mais pobres permaneceram no ensino público. A classe média está pagando caro por ensino privado. Não seria mais justo pagar menos mensalidades, ter uma tributação mais justa e promover um ensino público de qualidade?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PEC 241 passa pela Câmara: inverno fora de época

Ontem o segundo passo foi dado pela Câmara dos Deputados; segundo passo para impor o congelamento, a absurda restrição. A maioria dos deputados, os mesmos que apoiaram o golpe, votou pela imposição de corte. Por vinte anos. Limitada à inflação. Nunca nenhum estado fez isso. A verdade é que os EUA na crise de 1929 e na mais recente usaram muito dinheiro público para sair ou abrandar efeitos nocivos do capitalismo. Aqui é inconstitucional, tendo em vista as disposições sobre o orçamento bem como serviços essenciais, além de ultrapassar o período de governo. Trata-se do congresso mais conservador desde 1964. Inverno fora de época. Afastaram a centro-esquerda e estão com toda força para acabar com direitos, dizimar o Estado. Só a esquerda foi pras ruas. Mais de mil instituições de ensino ocupadas. As grandes empresas de mídia pouco falam sobre os protestos e defendem a PEC descaradamente. Ninguém bateu panelas. Silêncio. E mais votações foram e serão feitas, contra aposentados, contra os mais pobres. A desigualdade está aumentando.         

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Contra a PEC 241

Não é reduzindo o estado ou congelando gastos públicos que os problemas serão resolvidos. Pelo contrário: isso vai piorar as coisas. A tributação no Brasil é extremamente injusta, sobrecarrega os mais pobres, a classe média, os pequenos empresários e facilita muito pros ricos, pras grandes empresas. Pode pesquisar sobre os principais beneficiários do nosso sistema, que arrecada mal e das pessoas erradas. E mais: serviços públicos de qualidade, para todos, liberariam a classe média dos gastos com planos de saúde e colégios particulares.

Até meados do século passado, quando o Brasil era bem mais agrário, tínhamos educação pública de melhor qualidade para crianças e adolescentes. E ainda hoje há excelência no serviço público, como o Colégio Pedro II, instituições estaduais, Universidades Públicas etc. Há um sistema de tributação falho e também muita, mas muita sonegação. Não defendo o simples aumento dos tributos atuais: é necessário reformar o sistema e cobrar mais de quem tem mais.

Falta mobilização popular, coletiva, exercício da cidadania, para que os prejudicados se unam por uma tributação mais justa, mais fiscalização, e uma atuação melhor do estado. Grande parte da esquerda brasileira tem apenas propostas que permitiriam uma aproximação do estado de bem-estar social, que não deixa de ser capitalismo. Países capitalistas oferecem os serviços essenciais aos cidadãos. Vale a pena pesquisar e analisar outros sistemas. É certo que nenhum tem um plano de congelamento como este que estão tentando impor. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Aquarius: poder econômico e golpe (outra leitura)



Numa primeira leitura que fiz do filme Aquarius*, do cineasta Kleber Mendonça Filho, vi Clara (a protagonista interpretada por Sonia Braga) como a própria cidade que luta contra o poder econômico desregulamentado, representado por uma empreiteira inescrupulosa. Ou seja, uma visão sobre a atual predominância das práticas neoliberais.

Todavia, o filme é muito rico e uma outra leitura pode ser feita: a de que Clara seria uma representante do poder político lutando contra as imposições do poder econômico, talvez como a ex-presidente Dilma Rousseff, tendo em vista os pactos realizados para que chegasse a chefe do executivo federal (uns dizem que é como a política funciona por aqui) e por sua tentativa de impor reajuste fiscal em prejuízo dos mais pobres.

Mesmo havendo dúvidas, podemos ver algumas semelhanças entre Clara e Dilma. A primeira é que ambas são mulheres fortes, dispostas a lutar. O filme começa nos anos oitenta, mostrando Clara mais jovem, com os filhos ainda pequenos e pouco depois de vencer um câncer. Dilma lutou contra a ditadura militar e foi nos anos oitenta que houve a redemocratização no Brasil; assim, poderíamos ver o câncer da personagem como uma representação do regime militar, que teve vínculos estreitos com o poder econômico. Dilma e Clara carregam cicatrizes desta mesma época.

Nesse contexto, podemos enxergar o edifício Aquarius como o Brasil. Aqui preciso dizer que não gosto da comparação que muitos fazem entre Estado e condomínio, porque a complexidade do primeiro não se encaixa no modelo do segundo. Porém, para efeito de interpretação deste longa, creio que se possa admitir essa correspondência.

Sendo assim, ao vermos Clara já com mais de sessenta anos e lutando praticamente sozinha contra a grande construtora, percebemos que atualmente o poder econômico não precisa mais instaurar uma ditadura para impor suas exigências. Com o fim da guerra fria e o avanço do capitalismo neoliberal e da globalização, houve uma sofisticação dos meios pelos quais o poder econômico controla os Estados.

Com as transnacionais e o fortalecimento do capital financeiro e especulativo, o controle dos Estados se dá por meio da retirada de investimentos, além do uso das grandes empresas de mídia. O poder econômico força a desregulamentação e a corrosão dos direitos de índole social e protetiva (trabalhistas, previdenciários, ambientais etc.), transferindo, ou ameaçando transferir, a produção para Estados com menos barreiras para exploração em larga escala. Como exemplo deste processo, vimos grandes fábricas se deslocarem para países asiáticos e africanos onde exploram trabalho escravo e degradam o meio ambiente sem sofrerem quaisquer sanções.

Diante deste quadro, como agem os partidos à esquerda? O que pode fazer um partido de esquerda quando chega ao poder? E é importante compreender que ter a chefia do poder executivo não significa amplos poderes, já que praticamente tudo tem que passar pelo legislativo, composto por representantes com interesses diversos e muitas vezes contrários, o que é normal e saudável numa democracia. 

No caso do Brasil, o congresso eleito em 2014 - com o enorme financiamento empresarial permitido à época - é considerado o mais conservador desde 1964, quando houve o golpe civil-militar que instaurou uma ditadora de duas décadas. Não custa lembrar a sensacionalista e duvidosa operação Lava Jato e as muitas notícias sobre doações ilegais  de grandes empreiteiras (como a do filme) a partidos políticos. E foi esse congresso que decidiu pelo afastamento da presidente, que havia se posicionado contra o financiamento empresarial. É muito provável que por trás do golpe estejam articulações para voltar com tais doações.

Feitas essas observações, a comparação entre Clara e Dilma sugere que ambas ficaram isoladas num contexto em que os demais se entregaram sem ressalvas ao poder econômico. Clara é a última proprietária de uma unidade no antigo edifício Aquarius; todos os demais já assinaram contratos com a empreiteira e estão só aguardando que a personagem de Sonia Braga se entregue também. Mas, para surpresa e insatisfação deles, Clara resiste.

É interessante um trecho do filme em que Clara decide pintar o prédio inteiro por conta própria. Quando ela age assim, comete uma irregularidade, pois é um condomínio e todas as outras unidades estão nas mãos da empreiteira. Um condômino sozinho não pode fazer o que quiser com o prédio, mesmo que tenha a melhor das intenções.

Essa conduta de Clara pode ser interpretada como algo semelhante às “pedaladas fiscais” e abertura de crédito suplementar, que serviram de base para o golpe disfarçado de impeachment, embora tais práticas venham se repetindo desde o governo de FHC, passando pelos mandatos de Lula, sendo comuns também nos estados e, na minha visão, não configuram crime de responsabilidade.

Isolada, sozinha, abandonada por seus antigos vizinhos (no caso de Dilma, traída por parlamentares que eram da base do governo, principalmente os do MDB, legenda do seu vice) e lutando contra o poder econômico, ela faz o possível para tentar melhorar as coisas, mesmo que seja só superficialmente. Como pintar a fachada do prédio. Porém, qualquer erro, por mais banal que seja, pode servir como justificativa para tentar forçar sua expulsão.

Essa é a segunda interpretação que faço de Aquarius. Possivelmente o cineasta não pensou nisso quando elaborou o enredo, uma vez que o processo de impeachment veio a se consolidar depois da produção do filme. Porém, a meu ver, a obra é aberta: uma vez que exposta ao público, a interpretação é livre. Aquarius é muito mais que isso e vale por tudo: pela trama, pelos personagens, pela forma, pelas grandes atuações, pela trilha sonora. Vendo e revendo o longa muitas outras leituras poderão surgir. 
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*Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era, no link: https://ecosprosaicos.blogspot.com/2016/09/aquarius-uma-mulher-uma-cidade-uma-era.html

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era




Lançado em 2016, o filme Aquarius, do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a empreiteira Bonfim,  que pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa.

Para mim, Clara é como uma representação humana da cidade, com suas histórias, estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades sem negar seu passado e suas cicatrizes.

Mas há uma cisão entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente - o que se vê na cena em que Clara explica que ouve música de várias formas, antigas (LPs) e novas (streaming, mp3) - a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos como ninhos de cupim. 

Aquarius - prédio que integra o corpo de Recife - é atacado pela construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos prédios são importantes e necessários, mas a atuação das empresas não deve ser desordenada como um câncer. 

Não vemos nenhum representante do poder público para regular a atividade da construtora Bonfim, cujo nome soa sarcástico, se considerarmos o fim que a empresa quer impor ao lar da protagonista. O conflito se dá entre uma empresa e uma mulher de classe média. Não há ninguém para fiscalizar, controlar e exigir equilíbrio. 

Muitos parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada vez mais afastadas.

A música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa, tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das grandes empresas.

O discurso neoliberal defende a redução do Estado, a desregulamentação e o filme mostra algumas das consequências da adoção destas posturas. Na trama, também se observa a mídia comprada pelo dinheiro das contas de publicidade. O jornal da cidade tem informações que se recusa a divulgar para não perder anunciantes. Uma espécie de censura realizada pelo poder econômico.

Defender o edifício Aquarius é mais que defender o lar de uma pessoa, o abrigo da história de uma família etc. É como defender uma era, uma época, a história, a integração do passado com o presente, o equilíbrio entre o que foi e o que virá. 

A cidade se ama, como Clara. A cidade luta, como a protagonista no filme e na realidade, como o Movimento Ocupe Estelita em Recife. O filme mostra que a classe média passou a ter o dever de viver (ou seria morrer?) em arranha-céus com grades, cercas elétricas e câmeras. (Se a classe média sofre pressões desse tipo, imaginem os mais pobres?).

É fato que o excesso de liberdade (e poder) das grandes empresas afeta a liberdade das pessoas. O medo dos ladrões de coisas pequenas ofusca os medos e as imposições maiores. Há muita desigualdade, nenhum equilíbrio. O discurso tem sido algo como: aos pobres, punição; aos ricos, desregulamentação.

No filme, vemos placas alertando para ataques de tubarões na praia em frente ao edifício Aquarius. Segundo ambientalistas, essa ameaça surgiu na praia de Boa Viagem depois da construção do Porto de Suape, que afetou o ecossistema local. Outro caso de desequilíbrio em que o poder econômico impôs suas vontades, suas exigências, sem debate, de modo antidemocrático, demolindo a cidadania. 

Quando ações desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado, as consequências atingem não só o morador do local mas a todos, pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
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PS. Pra quem curtiu "Aquarius", vale a pena assistir a outros filmes do mesmo diretor, como os longas "Som ao redor" (disponível na Netflix) e "Bacurau", além do curta "Recife frio".