Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
Mostrando postagens com marcador desigualdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desigualdade. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Indicação de leitura e audição: Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC's
Poucas obras brasileiras conseguiram retratar com tanta força, lucidez e impacto a realidade social do país quanto o álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's. Lançado em 1997, o disco tornou-se um marco da cultura brasileira ao narrar a violência policial, o racismo estrutural, a desigualdade social, a exclusão das periferias e os dilemas da juventude negra com uma linguagem direta, poética e profundamente crítica.
O que impressiona não é apenas o que os Racionais disseram, mas como disseram. Em vez de falar sobre a periferia de fora para dentro, o grupo fala a partir dela, transformando experiências frequentemente invisibilizadas em arte de enorme potência estética e política. Faixas como Diário de um Detento e Capítulo 4, Versículo 3 permanecem atuais porque revelam problemas que continuam presentes no Brasil contemporâneo.
A importância cultural da obra foi reconhecida quando o álbum ganhou uma edição em livro e passou a integrar listas de leitura obrigatória de importantes vestibulares, um reconhecimento raro para uma obra originalmente musical. Esse movimento ajudou a consolidar os Racionais como autores fundamentais para compreender a sociedade brasileira das últimas décadas.
Mais do que um disco de rap, Sobrevivendo no Inferno é um documento histórico, uma denúncia social e uma reflexão sobre sobrevivência, dignidade e resistência. É uma obra que dialoga com a literatura, a sociologia, a história e os estudos sobre raça e classe no Brasil.
Indicação: leitura e audição obrigatórias para quem deseja compreender o Brasil para além das versões oficiais. Uma obra que continua provocando, questionando e ensinando quase trinta anos após seu lançamento.
Indicação de Leitura: A Elite do Atraso
Em A Elite do Atraso, o sociólogo Jessé Souza apresenta uma crítica contundente às interpretações tradicionais sobre a formação social brasileira. Contrapondo-se a leituras clássicas que atribuem nossos problemas à suposta corrupção cultural do povo ou ao patrimonialismo herdado da colonização, o autor sustenta que a desigualdade brasileira é resultado da ação histórica de elites econômicas e políticas que preservam privilégios e concentram poder.
O livro questiona explicações consideradas simplificadoras ou conservadoras sobre o Brasil, propondo uma análise centrada na exploração, na exclusão social e na reprodução das desigualdades. Concorde-se ou não com suas conclusões, trata-se de uma obra provocadora, capaz de estimular um debate profundo sobre democracia, cidadania e justiça social.
Para quem deseja compreender as disputas de interpretação sobre o país, A Elite do Atraso é uma leitura fundamental.
Outras obras importantes de Jessé Souza:
• A Ralé Brasileira
• A Classe Média no Espelho
• A Tolice da Inteligência Brasileira
• Como o Racismo Criou o Brasil
Uma leitura indispensável para quem busca compreender o Brasil para além dos clichês e das explicações fáceis.
domingo, 5 de abril de 2020
Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015): um lindo tapa na cara.
Há muitos anos uma mulher, Val, interpretada por Regina Casé, saiu de pernambuco e foi pra São Paulo trabalhar como empregada doméstica numa casa de sudestinos com grana.
O filme aborda as complicações e superações relativas à vinda da filha da Val, Jéssica, para prestar vestibular. O longa é muito bem executado, com ótimas atuações e, a meu ver, dá um lindo tapa na cara da classe média abastada, individualista e hipócrita.
Recomendo demais esse filme da grande diretora Anna Muylaert. Também gosto de outros trabalhos da cineasta, como Durval Discos (2002) e Mãe Só Há Uma (2016).
sábado, 4 de abril de 2020
Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989): minorias, maiorias, amor e ódio.
Dança e luta abrem o filme. A música é forte, os movimentos, também. O locutor da rádio local avisa que vai esquentar e que a cor do dia é preto. E a trama esquenta mesmo, como a temperatura.
Na pizzaria do ítalo-americano Sal, encravada num bairro de maioria afro-americana, há vários retratos de celebridades brancas de origem italiana na parede. Um dia um cliente negro questiona a inexistência de retratos de negros ali. É expulso com agressividade. Daí em diante o calor aumenta ainda mais.
A meu ver, o filme é uma metáfora muito bem realizada sobre a concentração de poder nas mãos de poucos, que fazem o que bem entendem, desconsiderando o que sentem e pensam a maior parte das pessoas, alijadas do poder como minorias com baixa representatividade.
A narrativa mostra personagens interessantes. Sal, por exemplo, o dono da pizzaria, não é um vilão que só faz maldade. Mas reforça uma estrutura racista e excludente, defendendo que o direito de propriedade prevalece - no seu restaurante ele faz o que bem entender.
Além de Faça a Coisa Certa, Spike Lee tem outros trabalhos muito legais, como o recente Infiltrado na Klan, Malcolm X, O Verão de Sam, O Plano Perfeito, entre outros longas, além de clipes, como They Don't Care About Us do Michael Jackson, e séries.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
A voz da gente (Mangueira, 2020)
Não
sei qual é o melhor modo de medir a redução das desigualdades, de
verificar como estamos lidando com os abismos históricos. Mas penso
que a capacidade de falar, de se expressar e, mais importante, de
narrar, contar sua visão, e ser ouvido, é um bom critério. Se
houver só uma história, reproduzida por todos, é sinal de que
apenas um narrador prevaleceu, volume máximo, outras vozes abafadas,
caladas, esquecidas, inaudíveis.
Mesmo
que o narrador branco, rico e velho continue falando bastante
e
alto nas TVs,
rádios, grandes empresas, gabinetes, jornais etc.,
um pancadão (ou
batuquejê)
toma força, ganha volume, e
interrompe
o discurso do coroa. No meio da prosa monótona, burocrática,
arcaica, ouvimos música, poesia, vemos
dança, arte e
outras
versões da história, contadas como “o
avesso do mesmo lugar”.
“Favela,
pega a visão” (e
a
bateria vira de samba pra funk), fala a Mangueira. Canta,
dança, atravessa a avenida, a cidade, os
noticiários.
Não é de hoje que vozes se destacam, mas de 2015 pra cá, a Estação
Primeira se fez ouvir quando c(a/o)ntou “Brasis”, “a história
que a história não conta”, com “rosto negro, sangue índio,
corpo de mulher”. Se agora (2020) os versos trouxeram o evangelho
segundo o pessoal do buraco quente, há 5
anos eles
avisaram que “a nossa Maria não é brincadeira/ É raça, é
fibra, é jequitibá!”.
Como
no “Auto da compadecida” (A. Suassuna), a Mangueira,
em
2015, chama a mulher, “rainha”, “guerreira”, “vovó”,
“mãe
do samba que
dança pro seu orixá”, citando
D.
Neuma e D. Zica. Como sempre, dá
um
salve pras
baianas,
saravá! Tá na história do samba: as baianas lá
da
origem, como as ganhadeiras, que lavaram a alma da Viradouro
este ano.
Nos
anos seguintes, até o “Jesus da Gente”,
cantou
sobre M. Bethânia, sincretismo
religioso, avisou que “com ou sem dinheiro” ia brincar e, ainda,
deu
a letra sobre o
“sangue retinto pisado / atrás do herói emoldurado.” Não é só
uma voz. É pegar a narrativa, é falar dos seus “heróis dos
barracões”, “um país de Lecis, Jamelões”. “Brasil, meu
nego,” ouça o que a Mangueira tem pra contar…
Marcadores:
arte,
Bahia,
baianas,
candomblé,
desigualdade,
escolas de samba,
favela,
G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira,
história,
música,
narradores,
narrativa,
samba,
sambódromo,
sincretismo religioso
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Coringa (2019): risadas em busca de um corpo
O
filme
“Coringa” (Todd
Phillips,
2019)
começa
mostrando
Arthur
Fleck,
que
sofre com
gargalhadas dissonantes
dos
seus sentimentos e
sobre
as quais não tem controle.
Explicadas
como consequência de uma condição médica num
cartão que Arthur entrega a
seus interlocutores, suas
risadas são incômodas
principalmente para ele mesmo, que
passa por
dificuldades
em relação ao emprego e ao
serviço público e gratuito onde
recebe tratamento.
Lembrando
“Alice no País das
Maravilhas” (Lewis Carrol), o riso,
no filme,
é deslocado, como o do Gato
de Cheshire que,
antes de virar um sorriso
sem corpo,
explica à Alice que são
“todos loucos. Eu sou louco. Você é louca.” Na minha leitura
do longa,
as risadas - que se
precipitam fora do lugar e
anacrônicas para
Arthur - desaguarão no
Coringa, cuja loucura lhes
dá espaço e algum
sentido, ainda
que subversivo
e violento.
Como
palhaço ou comediante, os risos de Arthur soam anacrônicos e
tristes, sem ecoar
naqueles que o cercam.
Todavia
são os risos
que acabam criando um corpo (persona) para os
encarnar
e gozar.
O que Fleck não conseguiu
nas profissões,
o Coringa encontra
na subversão, já sem
se preocupar com o riso ou a empatia dos
outros.
Se
Arthur
era uma vítima (paciente) sem razões para sorrir, o
Coringa torna-se agente do
caos, e solta
gargalhadas, sem se
constranger, expressando seu
sentimento de alegria ao agir (reagir) com violência. Em
vez de implodir, ele explode; sem medo
ou vergonha,
ele dança e
se diverte no
caos; seu
riso
agora vem
de dentro e
ecoa,
violento
e destrutivo,
entre os marginalizados.
Arthur
é ridicularizado
ao se
tornar uma piada. Já
o Coringa conta
suas próprias “piadas”,
agressivas e fatais.
No início,
opostas
aos sentimentos do
“paciente” sob controle,
suas
risadas acabam
se transformando em manifestações coerentes com o interior
da
personagem descontrolada.
As gargalhadas
perturbadoras persistem,
porém o incômodo se desloca do
protagonista para seus
interlocutores. O algoz
fantasiado confessa
seus crimes
e ri,
loucamente. A plateia se
divide, uns com medo, outros com raiva. Agora é a sua vez de rir, e
ele gargalha.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Eles não ligam pra gente
Minha intenção neste texto é destacar alguns pontos da bela e poderosa música “They don´t care about us” (Michael Jackson, 1995), seus videoclipes e algumas curiosidades. Mais uma vez me impressionei com trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia (e no caso dos videoclipes do astro, ainda há a dança, a fotografia etc., que ofuscam ainda mais a letra, a mensagem).
A música fala de racismo, autoritarismo, violência - especialmente a policial -, política, consumismo, desigualdade, e até do que atualmente chamam de pós-verdade. E é muito atual, encaixa-se perfeitamente à nossa realidade. Em 1995, Michael Jackson cantou sobre a ascensão da violência, denunciando uma situação já crítica, mas que ao longo dos anos ainda piorou e, infelizmente, a resposta a todo discurso de medo e incertezas tem sido mais repressão e violência - e não as saídas indicadas pelo Rei do Pop na sua poesia.
Os versos são diretos, não usam muitas metáforas, dizem logo a que vieram: denunciar o descaso dos poderosos em relação aos marginalizados: they don´t care about us - eles não ligam para a gente (nós), frase que em português pode se desdobrar para o sentido de que eles não ligam pra gente, eles não se importam com pessoas, seres humanos. Descreve claramente como o Estado foi reduzido ao seu papel repressor, abandonando as políticas públicas mais ativas, inclusive (e principalmente) as de promoção de igualdade. E o mais incrível é que ele avisou há mais de 20 anos sobre os riscos e consequências do abandono e marginalização.
A letra já começa falando de “cabeça raspada”, em clara alusão aos skinheads, mas também ao militarismo, porque os soldados também tem o cabelo assim, rente. Ainda na primeira estrofe, acusa o aumento da maldade, além de ressaltar a confusão dos discursos, denunciando um afastamento dos fatos (verdade), em que todos justificam seus atos (inclusive violentos) da maneira que quiserem, criando suas versões, daí a pós-verdade.
E sobre a verdade - prestando bastante atenção ao início dos videoclipes -, ouvimos, no meio do coro infantil que canta o refrão, a voz de menina que se ergue pra dizer: “não importa o que as pessoas digam, a verdade está com a gente.” Num mundo cheio de medo e especulações - como é dito na letra - uma criança defende o seu ponto de vista, que é o da mensagem da música: eles realmente não ligam pra gente. Porque se ligassem pelo menos um pouco, não haveria tanta discriminação e violência, como a letra destaca.
É uma poesia de cunho crítico e politizada: menciona duas figuras históricas, Roosevelt e Martin Luther King, dizendo que se eles tivessem vivos, não deixariam esses absurdos acontecerem. A crítica às políticas neoliberais de redução do Estado não poderia ser mais clara, tendo em vista que o democrata Franklin Delano Roosevelt (FRD) promoveu políticas públicas de inclusão, usando ativamente o Estado de caráter interventor, para atenuar a devastação causada pela crise do capitalismo de 1929. Luther King era um pastor protestante que se tornou um dos líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com uma campanha de não-violência.
Michael Jackson denuncia o descaso dos poderosos, com a amputação do braço protetor do Estado, que atualmente segue apenas com o braço hipertrofiado da repressão, o qual se volta com mais força e frequência contra aos historicamente marginalizados, os “invisíveis” e sem direitos, como diz a letra. E pra quem acha que a divisão da sociedade e a polarização são fenômenos recentes, taí uma música de 1995 que deixa tudo bem claro. Antes, em 1980, Bob Marley já falava desta divisão quando lançou "We and them". E pra citar um exemplo de lucidez nacional, em 1997 veio à luz o álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais MC´s, que até no título expõe a divisão social, e nas músicas descreve uma realidade dura, marcada pela desigualdade e segregação, como nos versos de “Diário de um detento": “Cadeia? Guarda o que sistema não quis/ Esconde o que a novela não diz.”
A divisão social é clara há muito tempo; a polarização ficou mais evidenciada quando a extrema direita saiu do armário empurrada pelo discurso de medo e pela decadência da classe média, também ferida pelo neoliberalismo. Alguns dos fundamentos do conceito de classe média são a maior estabilidade do grupo e seu poder aquisitivo razoável, a ponto de suprir com algum conforto as necessidades básicas (sobrevivência) e ainda ter um excedente para atividades culturais e de lazer.
A redução do Estado - com a privatização da educação, da saúde e até da segurança, além do corte de direitos - tem esgotado os recursos excedentes: daí resta trabalhar para sobreviver, pra pagar plano de saúde, escola particular, sistema de vigilância em condomínios gradeados, cujos apartamentos (moradia), inflacionados pela especulação, vêm com os juros altos do financiamento. Compras a prazo, cartão de crédito, dívidas: com juros que engordam os lucros dos bancos. O básico agora tem preço, e é caro. O mercado, desregulamentado, cada vez mais livre pra explorar e descartar, não garante estabilidade. A ideologia dominante cega por imersão e direciona o medo - e o ódio - para mais pobres, para os imigrantes (retirantes), tachando de inimigos as maiores vítimas do próprio sistema, aqueles que sofrem duplamente: com a omissão (abandono) e a repressão (violência) do poder público.
E eles ("they") lucram no processo inteiro: menos Estado, menos impostos; menos direitos trabalhistas, menos gastos, menos deveres legais em relação a pessoas; menos serviços públicos gratuitos, mais espaço pra "empreender" e vender até o mínimo essencial; mais dívidas, mais juros; mais crimes (e a elite define que tipo de atividades e substâncias são ilegais), mais armas, produzidas em países desenvolvidos; mais prisões, mais trabalho precarizado e expansão dos negócios com a privatização das cadeias; os jornais reforçam o discurso de medo nos artigos e reportagens ao mesmo tempo que - reféns das verbas de publicidade - anunciam unidades em condomínios clubes-fortalezas, empréstimos, seguros pra tudo (os riscos são enormes); carros novos condicionados ao pagamento de "suaves" prestações.
O sistema cria guerras e vende as armas (pros dois lados); sucateia o transporte público e vende carros e motos, "soluções" individualistas que engrossam os engarrafamentos, onde os potentes veículos se travam pelo excesso: encarcerados nos carros parados e por isso mais vulneráveis, cidadãos de bem temem ladrões violentos e armados enquanto alimentam, acordados, o sonho da arma própria e legalizada, pra poder "empreender" em sua própria segurança pessoal e patrimonial. Mais consumo e privatização (até do conflito armado), mais lucros.
Pode ser que o mesmo conglomerado empresarial venda armas pro ladrão e pro bom cidadão, além de seguros, blindagem, alarmes, filmes de ação com heróis armados (entretenimento motivacional de guerra que banaliza a violência: cortas as cenas de sexo, mas mostra com detalhes pessoas morrendo metralhadas; censura gemidos de prazer e corpos nus, mas não o som dos disparos e os cadáveres estraçalhados), e pode ganhar uma grana até com o serviço de atendimento de urgência - SAMU (também privatizado), se sobrarem feridos, e também com os remédios de um eventual tratamento médico.
Além dos versos fortes, os videoclipes de "They don´t care about us" também transgridem e protestam. Neles, o ícone do entretenimento canta e expõe verdades inconvenientes e como cidadão da chamada “Terra da liberdade” grita por liberdade - exige o cumprimento da promessa -, expondo o real pesadelo que na prática contrapõe ao “sonho americano”. Atrelados ao avanço das políticas neoliberais vieram a maior concentração de renda e o aumento da desigualdade.
Os cenários dos videoclipes não poderiam ser mais adequados à mensagem da letra: dirigida por ninguém menos que Spike Lee, a versão filmada no Brasil foi gravada numa favela (Santa Marta, zona sul do Rio) e no Pelourinho (Salvador, Bahia). Já na versão realizada nos EUA, Michael canta e dança dentro de um presídio, encarcerado. A prisão tem sido uma das principais respostas repressivas do Estado, cada vez mais “policial” e menos preocupado com o “bem-estar social”.[1]
E quando a resposta não é criminalização e prisão, pode ser fatal: o Estado mata, como aconteceu com as crianças vitimadas este ano (e nos anteriores também) e com o homem desarmado e acompanhado da família (inclusive uma criança de 7 anos) que foi fuzilado com mais de 80 tiros por soldados do exército. [2] Preciso mencionar a cor do homem executado? E a cor e classe social das crianças assassinadas? Preciso dizer? Preciso relembrar o massacre do Carandiru, em que a prisão não foi suficiente, e 111 homens encarcerados foram mortos?
Escolher o Brasil, país marcado pela desigualdade, e fazer uma parceria com o Olodum tornam a obra ainda mais fantástica. Ele veio cantar e dançar com os excluídos o arranjo é lotado de percussão brasileira, numa pegada meio Rap e Hip hop, sons da periferia. O músico estava a frente de seu tempo: numa época que ainda não se falava muito sobre lugar de fala e representatividade, ele deu seu recado da melhor forma possível. Não bastou fazer uma música de protesto, ele veio aqui, contou com o talento do Olodum, mostrou a favela, a periferia dentro de um periférico país da América Latina, onde o “sonho americano” só passa na TV e às vezes falta tempo pra assistir.
A letra anuncia o caos, a loucura, e expõe os pesadelos bastante reais de muitos, pesadelos que não deixam de ser o preço, o efeito colateral, dos sonhos de alguns. E a obra incomodou: criaram polêmicas em torno da letra, há rumores de que autoridades brasileiras tentaram impedir a gravação para não expor a pobreza e as falhas do governo, além das críticas à negociação de Spike Lee com o chefe do tráfico à época. [3] Isto sem falar na restrição à exibição do clipe na prisão, que só podia ser veiculado depois das 21 horas, sob a alegação de que expunha violência. Sim, há cenas reais de violência, porém não mais que qualquer telejornal ou filme de ação. Ao que parece muita gente queria ver Michael cantar e dançar, mas com temas leves e frívolos, não com um protesto claro, direto e cheio de verdades geralmente negadas, caladas, reprimidas, jogadas pra margem. O incômodo e reações me parecem exagerados: a solução indicada na canção não é uma revolução sangrenta: ao citar Roosevelt e M. Luther King, o compositor enaltece o capitalismo superficialmente brando do Estado de bem-estar social e as vias pacíficas para chegar (voltar) a ele.
A música e os videoclipes têm muitos aspectos que merecem destaque - como a cena de abertura do clipe da prisão, a mulher brasileira dizendo “Michael, eles não ligam pra gente” logo no início, o barulho de disparo de arma de fogo no meio da música, as mulheres que pra abraçar o astro furam o cordão de isolamento da polícia, as imagens que destacam a bateria do Olodum e seus componentes -, mas quero concluir chamando a atenção pros gritos do cantor. Michael costumava soltar uns gritos em suas músicas, o que se tornou uma de suas marcas. No entanto, em “They don´t care about us”, seus berros são bem diferentes dos demais: são mais ásperos, graves, caóticos, parecem expressar raiva e desespero; e a música se encerra numa espécie de urro de dor. A situação vem se agravando e os sentimentos predominantes ainda são os mesmos mais de duas décadas depois. “Eles não ligam pra gente”.
____________________________
Notas, referências e os dois videoclipes:
[1]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1941685-brasil-ultrapassa-russia-e-agora-tem-3-maior-populacao-carceraria-do-mundo.shtml
[2] https://www.causaoperaria.org.br/rj-solados-do-exercito-dispara-80-tiros-contra-carro-com-familia-e-assassinam-musico-negro/
[3] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/12/cotidiano/3.html
https://mjbeats.com.br/o-lan%C3%A7amento-do-single-they-dont-care-about-us-e096b2672057
https://pt.wikipedia.org/wiki/They_Don%27t_Care_About_Us
[1]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1941685-brasil-ultrapassa-russia-e-agora-tem-3-maior-populacao-carceraria-do-mundo.shtml
[2] https://www.causaoperaria.org.br/rj-solados-do-exercito-dispara-80-tiros-contra-carro-com-familia-e-assassinam-musico-negro/
[3] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/12/cotidiano/3.html
https://mjbeats.com.br/o-lan%C3%A7amento-do-single-they-dont-care-about-us-e096b2672057
https://pt.wikipedia.org/wiki/They_Don%27t_Care_About_Us
Marcadores:
arte,
capitalismo,
desigualdade,
Estado,
Martin Luther King,
Michael Jackson,
música,
neoliberalismo,
pobreza,
política,
They don´t care about us,
violência
sábado, 5 de outubro de 2019
Aquarius: a cidade-mulher e o câncer imobiliário (relação com a trilogia)
Aquarius
(2016), do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a
jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a construtora que
pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um
arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é
a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa. Trata-se
do segundo longa da trilogia que se iniciou em 2013 com O som ao
redor e terminou em 2019 com Bacurau, havendo forte ligação entre os filmes, como será demonstrado adiante.
Clara
é uma representação humana da cidade, com suas histórias,
estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se
e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma
humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas
diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma
destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades
sem negar seu passado e suas cicatrizes.
No entanto, há uma cisão evidente entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente, a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos, como ninhos de cupim.
No entanto, há uma cisão evidente entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente, a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos, como ninhos de cupim.
"Aquarius" - prédio que integra o corpo de Recife – é atacado pela
construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença
em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções
de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em
harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos
prédios são importantes e necessários, mas a atuação das
empresas não deve ser desordenada como um câncer; caso contrário, a história, as memórias e a própria identidade local estarão em risco.
Muitos
parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa
privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado
da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado
para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente
só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários
como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada
vez mais afastadas. A
música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa,
tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da
ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das
grandes empresas.
Também é
interessante mencionar a relação de Aquarius (2016) com
os outros dois longas que fazem parte da trilogia do cineasta Kleber
Mendonça Filho: O som ao
redor (2013) e Bacurau (2019). Na
minha leitura do conjunto da obra, penso que o primeiro filme
lançado trata do passado (resgate de uma violência
sofrida anteriormente); o segundo (tema deste
texto), aborda o presente (resistência
individualizada/atomizada a uma agressão atual – ataque e
contra-ataque simultâneos); e o terceiro - lançado neste ano
-, vai ao futuro (resistência organizada coletivamente para
lutar contra uma violência que ainda virá).
Comparando
Clara com os protagonistas dos outros dois filmes, percebe-se o
isolamento da heroína de Aquarius: ela age de forma atomizada - não
em grupo, como em O som ao redor, nem em comunidade (Bacurau) -
e, a meu ver, isto ocorre justamente porque ela representa uma
integrante da classe média, talvez até alguém que tenha "ascendido" de uma origem pobre, como sugere um diálogo racista no filme.
Neste
contexto, Clara parece mostrar a solidão daqueles que,
excepcionalmente, conseguiram algum espaço numa classe intermediária
entre os mais pobres e as elites, sendo capazes de lutar - de forma
isolada - apenas por seu restrito espaço individual
(apartamento/prédio/suas memórias afetivas/história pessoal e
familiar), sem enxergar e sequer arranhar o sistema, até porque a jornalista aposentada não deixa de ser uma “vencedora” - singular e rara - dentro da estrutura e de acordo com "discurso de meritocracia” (falacioso num país onde a desigualdade é histórica e imensa, com extrema desvantagem para a classe marginalizada).
A
classe média brasileira - mesmo a parcela mais progressista - parece
não ter muita consciência de classe nem, muito menos, organização,
tampouco identificação com os mais pobres; pelo contrário, tudo
indica que se ilude com quaisquer “proximidades” com as elites,
de modo a superestimar eventuais semelhanças com os mais ricos
(acesso a viagens, modelos de carros, locais etc. dos mais ricos) e subestimar -
ou até negar - possíveis afinidades com os menos favorecidos.
De
qualquer forma, fica evidenciado nos três longas uma certa
equivalência entre as pessoas mais pobres e as de classe média:
ambas são (foram ou serão) atacadas pelas elites, donas do(s)
poder(es) político e/ou econômico. Porém, de acordo com as três
narrativas cinematográficas, é a organização coletiva (comunitária,
criativa, a ser construída) que se destaca como melhor solução,
frisando-se que esta se baseia na ação, e não nas meras reações que se
veem nos dois primeiros filmes.
Por
fim, voltando a “Aquarius”, certo é que, quando ações
desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e
lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar
totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado,
as consequências atingem não só o morador do local, mas a todos,
pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando
irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
_______________________________
PS.
Outra leitura de Aquarius, relacionando-o ao golpe sofrido por
Dilma/PT no
link: https://ecosprosaicos.blogspot.com/2016/09/aquarius-poder-economico-e-impeachment.html
Marcadores:
aquarius,
cinema,
desigualdade,
Estado,
filme,
Kleber Mendonça Filho,
Nordeste,
pobreza,
poder econômico,
política,
Recife,
violência
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Bacurau: uma cidade a um “17” de distância do “sul maravilha” (sem spoilers)
(Sem
spoilers) Criado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o
filme Bacurau é sobre um “novo” oeste, ou melhor, um oeste de um futuro
próximo, com muitas referências ao faroeste - western ou “nordestern” -, sem
deixar de enveredar por outros gêneros, como suspense, ação, gore etc. “Definir
é limitar” e o longa está além destas classificações mais comuns.
Na tela, a protagonista é a cidade de Bacurau, onde observamos quem ali vive, convive e resiste. O lugarejo do longa não existe, mas a cidade de Barra/RN, sim, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Por isso, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais, apresentando personagens de todas as cores e orientações sexuais.
O filme consegue colocar Bacurau como personagem, coletivamente, o que o distingue das grandes produções enlatadas, que costumam dar destaque a heróis considerados individualmente. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama não apresenta um herói (indivíduo). Pelo contrário, o tempo todo se evidencia a ação coletiva, deixando claro que a união do povoado é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.
Logo no início do filme, vemos a estrada que leva ao povoado e há um “close” numa placa, onde se lê: “BACURAU, 17 KM, SE FOR, VÁ NA PAZ”. Surge a dúvida: Bacurau está à distância daqueles habitantes do “sul maravilha”[1] que apertaram nas urnas o número 17, do partido do atual presidente do Brasil? Ou foi só uma distância qualquer, sem outras intenções?
O fato é que até no trailer a placa aparece em destaque e mostra um número que marcou a polarização política e regional nas eleições de 2018, não custando lembrar que o Nordeste foi a região que onde o presidente de extrema direita teve menos votos.[2]
E a mensagem da placa tem muito a ver com o enredo do filme, que mostra a cisão entre as regiões do Brasil e os preconceitos daí decorrentes, assim como a relação dos brasileiros com estrangeiros. Tudo isso numa espécie de jogo (game) bastante simbólico.
Filme espetacular. Recomendo demais.
PS. Para quem já assistiu, deixo aqui o link para minha análise mais completa sobre o filme: http://ecosprosaicos.blogspot.com/2019/10/lunga-vive-novo-oeste-na-caatinga-uma.html
Na tela, a protagonista é a cidade de Bacurau, onde observamos quem ali vive, convive e resiste. O lugarejo do longa não existe, mas a cidade de Barra/RN, sim, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Por isso, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais, apresentando personagens de todas as cores e orientações sexuais.
O filme consegue colocar Bacurau como personagem, coletivamente, o que o distingue das grandes produções enlatadas, que costumam dar destaque a heróis considerados individualmente. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama não apresenta um herói (indivíduo). Pelo contrário, o tempo todo se evidencia a ação coletiva, deixando claro que a união do povoado é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.
Logo no início do filme, vemos a estrada que leva ao povoado e há um “close” numa placa, onde se lê: “BACURAU, 17 KM, SE FOR, VÁ NA PAZ”. Surge a dúvida: Bacurau está à distância daqueles habitantes do “sul maravilha”[1] que apertaram nas urnas o número 17, do partido do atual presidente do Brasil? Ou foi só uma distância qualquer, sem outras intenções?
O fato é que até no trailer a placa aparece em destaque e mostra um número que marcou a polarização política e regional nas eleições de 2018, não custando lembrar que o Nordeste foi a região que onde o presidente de extrema direita teve menos votos.[2]
E a mensagem da placa tem muito a ver com o enredo do filme, que mostra a cisão entre as regiões do Brasil e os preconceitos daí decorrentes, assim como a relação dos brasileiros com estrangeiros. Tudo isso numa espécie de jogo (game) bastante simbólico.
Filme espetacular. Recomendo demais.
PS. Para quem já assistiu, deixo aqui o link para minha análise mais completa sobre o filme: http://ecosprosaicos.blogspot.com/2019/10/lunga-vive-novo-oeste-na-caatinga-uma.html
________________________________
Notas e
referências:
[1] “Sul
maravilha” é uma expressão usada por Henfil em sua obra. Segundo Seixas (1996), “’sul-maravilha’
é apenas mencionado pelos personagens, sem ter existência real nas histórias:
assim como o Brasil divulgado pela grande imprensa era apenas uma fantasia,
para o homem do interior brasileiro as cidades grandes de Rio e São Paulo
configuravam-se como um sonho distante e inalcançável ou então como uma
realidade sufocante e esmagadora”.
Ficha
técnica do filme:
Nome Original: Bacurau
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil e França
Ano de produção: 2014
Gênero: ação / suspense / western
Duração: 132 min.
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Marcadores:
arte,
Bacurau,
cinema,
desigualdade,
ficção,
filme,
Henfil,
interpretação,
Juliano Dornelles,
Kleber Mendonça Filho,
narrativa,
Nordeste,
Pernambuco,
Silvero Pereira,
violência
Assinar:
Postagens (Atom)






