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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Indicação de Leitura: A Madona de Cedro, de Antônio Callado

"A Madona de Cedro" é um daqueles romances brasileiros que conseguem unir crítica social, humor, ironia e aventura em uma narrativa extremamente fluida e envolvente. A trama acompanha Delfino Montiel, um homem simples do interior de Minas Gerais que se vê envolvido no roubo de uma imagem sacra de grande valor histórico e artístico. A partir desse acontecimento, Antônio Callado constrói uma história que mistura religião, poder, interesses econômicos, contradições morais e a própria formação cultural brasileira. O grande mérito do romance está na forma como Callado utiliza a ironia para questionar instituições, crenças e comportamentos. O aspecto cômico surge não apenas nas situações inusitadas, mas também na maneira como os personagens revelam suas fraquezas, ambições e hipocrisias. O humor nunca é gratuito: ele funciona como instrumento de crítica social. A narrativa é leve e dinâmica, com diálogos ágeis e uma escrita que faz a leitura avançar naturalmente. Mesmo tratando de temas profundos, o autor evita o tom excessivamente solene, tornando o livro acessível e prazeroso. 📖 Por que ler? ✔️ Romance inteligente e divertido. ✔️ Excelente exemplo da ironia na literatura brasileira. ✔️ Crítica social feita com humor e sutileza. ✔️ Narrativa fluida e envolvente. ✔️ Uma das obras mais acessíveis de Antônio Callado. ⭐ A Madona de Cedro mostra que a literatura pode ser ao mesmo tempo divertida, crítica e profundamente brasileira. Uma leitura que combina reflexão, aventura e boas doses de humor, confirmando o talento de Antônio Callado para retratar as contradições do país.

Indicação de Álbum: AmarElo (2019), de Emicida

AmarElo não é apenas um álbum de rap. É um manifesto sobre sobrevivência, afeto, ancestralidade e esperança em tempos difíceis. Lançado em 2019, o disco marcou uma nova fase artística de Emicida, ampliando os limites do hip-hop ao dialogar com MPB, samba, música africana e poesia brasileira. A grande força do álbum está na sua capacidade de fazer crítica social sem abrir mão da ternura. Em vez de apostar apenas na denúncia, Emicida propõe o afeto como forma de resistência. Racismo, desigualdade, saúde mental e identidade negra aparecem lado a lado com temas como amizade, amor e solidariedade. Faixas como Principia, Ismália e a própria AmarElo mostram um artista maduro, que transforma experiências individuais em reflexões coletivas. O famoso verso de Belchior sampleado na faixa-título se tornou um símbolo de resiliência para milhares de pessoas. Há quem critique o álbum por se afastar do rap mais tradicional e adotar uma sonoridade mais acessível, mas justamente essa abertura ajudou a levar suas mensagens para um público muito maior. O consenso entre críticos e muitos ouvintes é que AmarElo está entre os trabalhos mais importantes da música brasileira recente. Vale ouvir porque: mostra que a arte pode ser crítica sem ser desesperançosa. Em tempos de ódio e polarização, Emicida escolheu construir pontes.

A Hora da Estrela. Clarice Lispector, 1977.

Publicado em 1977, o último romance de Clarice Lispector é uma das obras mais impactantes da literatura brasileira. A história acompanha Macabéa, uma jovem nordestina pobre e invisibilizada pela sociedade, que tenta sobreviver em uma grande cidade sem compreender plenamente a violência simbólica e material que a cerca. Em 1985, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Suzana Amaral, considerada um clássico do cinema nacional. A interpretação de Marcélia Cartaxo transformou Macabéa em uma das personagens mais marcantes das telas brasileiras, rendendo reconhecimento internacional ao filme. Mais do que a trajetória de uma personagem, A Hora da Estrela é uma denúncia da desigualdade social brasileira. Clarice nos obriga a olhar para aqueles que costumam ser ignorados: os pobres, os migrantes, os invisíveis. A escrita aparentemente simples esconde uma reflexão profunda sobre identidade, exclusão e humanidade. Uma obra que continua atual e necessária. Ler o livro e assistir ao filme é encarar uma pergunta desconfortável: quantas Macabéas ainda passam despercebidas todos os dias? Livro: 1977 Filme: 1985 Uma das leituras mais importantes da literatura brasileira e uma adaptação à altura de seu legado.

O Céu da Língua e Aos Pés da Letra. Gregorio Duvivier.

Se você ama a língua portuguesa, suas contradições, belezas e mistérios, vale a pena conhecer a peça O Céu da Língua e o livro Aos Pés da Letra, ambos de Gregorio Duvivier. Na peça, Duvivier transforma a língua em protagonista. Com humor, poesia e reflexão, ele mostra como as palavras moldam nossa forma de pensar, sentir e enxergar o mundo. O espetáculo conquistou mais de 200 mil espectadores e se tornou uma verdadeira declaração de amor ao idioma. Já em Aos Pés da Letra, nascido do mesmo processo criativo da peça, o autor amplia essa investigação sobre as palavras, suas origens, sons, ambiguidades e significados. Com erudição acessível e muito humor, o livro convida o leitor a redescobrir a língua portuguesa como um território vivo, surpreendente e cheio de histórias. Em tempos de comunicação acelerada e superficial, a obra de Gregorio nos lembra que as palavras não são apenas instrumentos: elas constroem identidades, preservam memórias e dão forma à nossa experiência no mundo. Ler e assistir a essas obras é reaprender a olhar para aquilo que usamos todos os dias, mas raramente observamos com atenção. Uma celebração da língua portuguesa para quem acredita que as palavras podem ser tão fascinantes quanto as histórias que contam.

Carandiru. Héctor Babenco, 2003.

Baseado no livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella, o filme Carandiru retrata a realidade da maior casa de detenção da América Latina, localizada em São Paulo. A trama acompanha o trabalho do médico voluntário que entra no presídio para realizar ações de prevenção à AIDS e, ao longo dessa experiência, conhece as histórias, dramas, sonhos e conflitos dos detentos. Dirigido por Hector Babenco, o longa apresenta um retrato humano e impactante do sistema prisional brasileiro, culminando na reconstituição do trágico episódio conhecido como Massacre do Carandiru. Uma obra forte, emocionante e necessária para refletir sobre desigualdade, violência, justiça e a complexidade das relações humanas dentro do cárcere. Vale a indicação para quem gosta de filmes baseados em fatos reais e de produções que provocam reflexão muito além dos créditos finais. #Carandiru #CinemaBrasileiro #DrauzioVarella #FilmesBaseadosEmFatosReais #DicaDeFilme

domingo, 5 de abril de 2020

Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015): um lindo tapa na cara.

Há muitos anos uma mulher, Val, interpretada por Regina Casé, saiu de pernambuco e foi pra São Paulo trabalhar como empregada doméstica numa casa de sudestinos com grana.

O filme aborda as complicações e superações relativas à vinda da filha da Val, Jéssica, para prestar vestibular. O longa é muito bem executado, com ótimas atuações e, a meu ver, dá um lindo tapa na cara da classe média abastada, individualista e hipócrita. 

Recomendo demais esse filme da grande diretora Anna Muylaert. Também  gosto de outros trabalhos da cineasta, como Durval Discos (2002) e Mãe Só Há Uma (2016).






quinta-feira, 24 de outubro de 2019

“Que país é esse?” É um “Faroeste caboclo”, uma odisseia brasileira

Não tenho a pretensão de fazer uma análise profunda da letra de “Faroeste caboclo”, música composta por Renato Russo em 1979 e lançada no álbum da Legião Urbana “Que país é este” em 1987. A letra da canção é comprida, sem refrões ou repetições, e conta a incrível história de João de Santo Cristo, de uma forma bem interessante.

Minha intenção neste texto é apenas destacar alguns pontos da narrativa desta canção, trechos que ouvi muitas vezes sem prestar atenção - o que é comum em letras de música, já que a melodia costuma tirar a atenção da poesia -, mas que agora me tocam demais, até porque vão além da saga da personagem ao mostrar fatos históricos e que fazem parte da vida de muita gente. É claro que não vou recontar a história toda, o que é desnecessário ao meu propósito e tornaria o texto prolixo e entediante; para quem deseja conhecer a história completa, sugiro ouvir a música e, principalmente, ler o texto, a letra.

A odisseia do título não é à toa: é uma referência direta ao poema épico da Grécia antiga atribuído a Homero, que narra o retorno de Odisseu à sua terra natal e sua amada, Penélope, depois de lutar na guerra de Troia. João de Santo Cristo é nosso Odisseu, cuja saga da vida é contada do início ao fim em “Faroeste cabloco”, com viagens, retornos e um grande amor. É claro que há mil diferenças entre as narrativas de Renato Russo e Homero, mas as duas, na essência, contam em versos a história (ou parte dela) dos protagonistas, e isto muito é fantástico, poético e merece destaque.

Na minha visão, João de Santo Cristo é uma personagem que em sua saga individual mostra o que acontece com muitas pessoas no Brasil, ou seja, é um indivíduo que representa muito bem uma coletividade. Da mesma forma, sua história pessoal, individual, também expõe marcas da História do país.

Pra começar, é importante saber as origens e algumas características essenciais de João de Santo Cristo. E o interessante - e digno de elogio - é que a letra não diz tudo de forma direta, o que deixa espaço pra interpretação e exige uma atenção maior pra perceber certos aspectos, alguns muito relevantes.

A meu ver, se a letra fosse direta e prosaica, descreveria o herói assim: João era negro, sagaz (“até o professor com ele aprendeu”), embrutecido, sensível, nascido numa família pobre (talvez miserável) em alguma cidade do sertão da Bahia, revoltado (com causa), só, forte, corajoso (“temido e destemido”), discriminado por “sua classe e sua cor”, bom e digno (respeitava uma ética bastante lógica dentro do contexto de sua vida), não ligava pra religião institucionalizada (“ia pra igreja só pra roubar o dinheiro”) e idealista (num sentido meio romântico e de alguém que, apesar de tudo, ainda nutria esperanças).

Dito isto, passo a justificar minha descrição simplificada mencionando trechos canção (alguns eu já coloquei acima, entre aspas).

A letra diz que ele “deixou pra trás todo o marasmo da fazenda” e, em sua primeira viagem, “foi direto a Salvador”, capital do estado situada no litoral, destino mais próximo e barato para aqueles que querem sair do interior do estado pra tentar vida nova. Era forte, porque se virava e seguia em frente, apesar de tudo. Revoltado e embrutecido, pela vida difícil e violências que sofreu, a começar pelo assassinato do pai, ainda na infância, e o reformatório, aos quinze, “onde aumentou seu ódio diante de tanto terror”.

Era também sensível, capaz de admirar a beleza de Brasília enfeitada com luzes de natal e de amar Maria Lúcia a ponto de se arrepender “de todos os seus pecados”, prometer a ela o seu coração e voltar a ser carpinteiro, abrindo mão da grana alta dos crimes. Este amor, com promessa de eternidade e desejo formar família, assim como seu desejo de falar pro presidente “pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer” mostram seu idealismo, sua esperança e sua bondade. Sua dignidade e ética aparecem em vários de seus atos: mesmo colocando em risco sua vida, João recusa a proposta lucrativa e indecorosa feita por “um senhor de alta classe”; a decisão de não usar sua arma contra Jeremias antes que o desafeto começasse a brigar; não atirar pelas costas; e até sua morte, santificada pelo povo.

E este João, pobre, forte, negro, do sertão do Nordeste, retirante que acaba indo parar numa periferia da capital, sofreu desde cedo e ao longo da vida duros golpes do braço violento, repressor e discriminatório do Estado: o soldado que matou seu pai, suas passagens pelo reformatório e pela prisão, além da omissão da polícia, que nada fez pra impedir o duelo noticiado com antecedência na TV (talvez porque a morte daqueles marginais fosse mesmo desejada pelas autoridades e também um entretenimento para os cidadãos de bem, para as pessoas que não estão à margem). E parece ter se beneficiado muito pouco do braço protetor do Estado (talvez só a escola pública em sua infância). Esta cruel oposição entre abandono e perseguição, omissão e punição, exposta na narrativa da canção, representa a realidade de muitas pessoas no nosso país.

Em sua trajetória individual, o herói conta um pouco da História do Brasil, que foi o último país da América a abolir a escravidão e, quando o fez, largou os ex-escravizados à própria sorte, sem quebrar as velhas e pesadas correntes de racismo, discriminação e pobreza, presentes na vida sofrida de João; que inventou sua Capital e depois a ergueu no planalto central com o suor de retirantes explorados, que foram tentar melhorar de vida em Brasília e acabaram relegados às periferias, ao “Quarto de despejo” (como dizia Maria Carolina de Jesus), às cidades-satélites, como as citadas na letra (Taguatinga e Ceilândia); que foi submetido a uma ditadura militar com apoio da elite, parceria que é exposta no trecho em que Santo Cristo recebe a “proposta indecorosa” do senhor rico que vai até sua casa para tentar encomendar dele um atentado terrorista - colocar bomba em banca de jornal e colégio -, que recusa e ainda diz “não protejo general de dez estrelas/ que fica atrás da mesa com o cu na mão” (documentos oficiais provam que a direita paramilitar ligada à linha dura do regime autoritário cometeu atentados terroristas que, atribuídos erroneamente a grupos armados da esquerda, serviram de pretexto para recrudescer a ditadura).[1]

Há também na canção muitas referências religiosas, sobretudo cristãs, que fazem parte da nossa cultura. João de Santo Cristo tem um nome religioso em todos os termos e sua trajetória - cheia de injustiças, impasses, dores e provações - remete às vidas de sacrifícios dos santos, posto ao qual o herói, no final, é alçado pelo povo. Como José, pai de Jesus, João era carpinteiro; e como Cristo, perdoou seu algoz e sofreu seu martírio, no fim transformado num espetáculo televisionado (reality show de um duelo de faroeste tropical e marginal), sobre o qual ele - “sentindo o sangue na garganta” e após olhar “pras câmeras” - arremata: “se a via crucis virou circo, estou aqui”. Este belo verso - talvez o mais fantástico da letra - tem uma profundidade abismal: expõe a bestificação contraposta à beatificação de João, assim como a profanação televisiva do seu sacrifício sagrado. Este ato, e a interpretação que cada classe social fez dele, revela nossa polarização, bastante clara e nada recente. O povo viu de perto, sentiu e teve tanta fé que o transformou em santo; a elite, à distância, nem acreditou:

“E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV”

“Faroeste caboclo” talvez seja uma resposta à música “Que país é esse?” (ambas lançadas no meu álbum): um país com soldados que matam pais de família; um país com muita desigualdade e pobreza; um país que oferece pouca educação, mas muita punição, especialmente aos mais pobres; um país com muito racismo e discriminação; um país com gente de “alta classe” que tenta - por covardia e medo de meter a mão diretamente no sangue - corromper os mais pobres a praticar atos cruéis em troca de dinheiro.

O curioso e até estranho é que, no campo da política, muitas pessoas de direita (até da extrema) se apropriaram da música “Que paz é esse?” como um hino raivoso contra “tudo isso que está aí”, frase que a partir das manifestações de 2013 e, em seguida, durante a operação Lava Jato (lançada no início de 2014) e o golpe que derrubou a Dilma (instaurado no final de 2015), era proferida contra especialmente contra o PT (tachado por eles de partido corrupto como se fosse o único), e também abrangia um sentido de insatisfação geral com a política, com nuances antipolíticas fascistoides, com ostentação em suas manifestações de alguns cartazes pedindo a volta da ditadura.

Penso que a apropriação de “Que país é esse?” pela direita é estranha e incoerente pelo teor da própria letra da música, para não falar no Renato Russo e no conjunto de sua obra. Tudo - o compositor, o contexto da criação e a letra - contradiz as ideologias da maioria da direita.

Talvez eles não entendam o caráter de crítica ou só prestem atenção ao refrão, e não nos versos que mencionam: que “ninguém respeita a Constituição” (base normativa dos direitos humanos, bastante criticados por parte da direita); “Araguaia-ia-ia” (onde ocorreu uma guerrilha durante a ditadura); “tudo em paz” (expressão carregada de ironia ao referir-se à baixada fluminense, Araguaia e outros lugares do país); “o sangue anda solto/ Manchando os papéis/ Documentos fiéis/ Ao descanso do patrão” (o empresário empregador - tão defendido e até vitimizado no discurso de boa parte da direita - não parece um cidadão de bem nestes versos); “Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/ Dos nossos índios num leilão” (talvez eles entendam estes versos não como uma crítica, mas como proposta de um negócio lucrativo, pois votaram num presidente que ataca as reservas indígenas).

Além disso, a música foi criada em 1978 - antes do PT, fundado em 1980 - e ao falar em “sujeira” no Senado parecia se referir ao regime vigente à época, a ditadura militar (defendida por parte da direita, inclusive pelo atual presidente), que, inclusive, censurou a canção, em virtude do seu conteúdo questionador. Por tudo isso, fico realmente perplexo quando pessoas de direita gritam “que país é esse”. Não é que eu queira reivindicar a música para a esquerda ou censurar o uso pela direita (defendo a liberdade, cada um canta o que quiser), mas não tenho dúvida de que é um paradoxo; e torço, sinceramente, para que ouçam a letra e possam se transformar, nem que seja pra abraçar, pelo menos, o caráter de indagação, deixando pra trás suas certezas rígidas e mortas; nem que seja para considerar, por um breve momento, que “Faroeste caboclo” pode ser uma resposta interessante para “Que país é esse?; nem que seja para desconfiar que existe um monte de gente real muito parecida com João de Santo Cristo.

_________________________
Nota:
[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538488463_222527.html


                        

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Lunga vive! Novo oeste na caatinga: uma leitura do filme Bacurau (contém spoilers)



[Contém spoilers, revelações da trama, inclusive do final] Criado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme Bacurau é sobre um “novo” oeste, ou melhor, um oeste de um futuro próximo, "daqui a alguns anos" na frase que surge na tela, com muitas referências ao faroeste - western ou ainda “nordestern” -, sem deixar de enveredar por outros gêneros, como suspense e ação, que cito apenas a título de exemplo, porque a obra se expande e surpreende, ultrapassando limites e definições.

A narrativa cinematográfica ocorre e se fundamenta num oeste da caatinga, pernambucano, no sertão do Nordeste brasileiro, com tudo que isso implica: falta d`água (má distribuição de recursos em geral), força, cangaceiros, tecnologia, união, armas, politicagem, tiroteios, comunidade, política, pobreza, coragem, desigualdade e violência.

No início, mostra-se o caminhão-pipa seguindo por uma estrada e o velório de Carmelita (interpretada por Lia de Itamaracá), uma senhora negra importante no povoado de Bacurau, que é o grande protagonista da narrativa do filme. A região sofre com a falta d`água e durante toda a história as câmeras acompanham o ir e vir do caminhão-pipa que abastece a cidade. Esse ir e vir também representa a história de muitas das pessoas nascidas no povoado, que vão para outras cidades, estados e países (para estudar, se formar, arrumar empregos etc.), e depois retornam a Bacurau, pelos mais variados motivos.

E, em destaque, no caminho que leva ao povoado, vemos a placa envelhecida à beira da estrada, onde se lê: “Bacurau, 17 km, Se for, vá na paz”. A pergunta que fica é: estará Bacurau à distância daqueles que apertaram nas urnas o número “17”, o mesmo do partido do atual presidente do Brasil? Ou 17 km foi apenas uma distância qualquer exposta na placa? Não há como saber. Mas é interessante ressaltar que a placa aparece na tela e muitos dos telespectadores do filme estão nas regiões mais ao sul do Brasil e votaram “17”, de algum modo se afastando do Nordeste, que foi a região que menos deu votos ao candidato da extrema direita. São apenas suposições minhas na tentativa de interpretar a obra.

O filme é dividido em três atos bem marcados na história contada na tela.

As primeiras cenas mostram um caminhão-pipa, dirigido por Erivaldo (Rubens Santos), indo para Bacurau; um senhor que coloca uma semente - um psicotrópico que é dado como uma hóstia - na boca de Teresa (Bárbara Colen), neta da falecida que acabou de chegar (voltar) a sua cidade natal; o velório e o cortejo fúnebre da matriarca Carmelita, entre outras cenas que descrevem o cotidiano do povo de Bacurau. Percebemos, rapidamente, que a comunidade é bastante unida e toma decisões coletivamente, na praça, e vive bem desta maneira democrática, autônoma (em tudo que consegue) e auto-organizada, apesar das dificuldades.

Ou seja, o primeiro ato apresenta o(s) protagonista(s): a cidade e as pessoas que ali vivem, convivem e resistem. Personagens de todas as cores e orientações sexuais, é importante dizer, destacando que a produção contou com a participação de pessoas de povoados locais do sertão do Nordeste. Bacurau é fictícia, mas a cidade de Barra/RN[1] existe, no mapa e na realidade, e é de lá que vieram muitas das pessoas que aparecem no filme. Deste modo, e também pela escolha dos atores principais, a produção conseguiu respeitar a representatividade bem como os tons, os sotaques e a linguagem locais.


O segundo ato - cujo início se dá com a chegada de cavalos desgovernados a Bacurau - expõe o começo do conflito: para surpresa de seus habitantes, o povoado some do mapa, e chegam ali forasteiros das regiões Sudeste e Sul, com roupas coloridas e pilotando motos de trilha com a intenção de preparar o terreno para o “jogo” de sangue e morte que será disputado na cidade.
  
Não vou descrever tudo, é claro, mas chamo a atenção para o diálogo sobre o nome “Bacurau”, no qual uma de suas habitantes explica que o nome refere-se a um pássaro, e não a um passarinho, que é menor, respondendo à carioca invasora. E, no mesmo botequim, ouvindo a pergunta da turista sobre quem nasce em naquele lugar (´"Bacurauense?"), uma criança arremata, "É gente!". Também merecem realce os insistentes convites dos habitantes dali para os forasteiros conhecerem o museu, o que os “sudestinos” rejeitam, mas que poderia ajudá-los a perceber o que os esperava adiante.

Não dá pra deixar de mencionar o violeiro do lugarejo, que canta um repente para os forasteiros e os provoca, zomba mesmo - até chama São Paulo de paiol num verso -, e recusa a oferta de dinheiro, que representa perfeitamente o que muitos habitantes do Sudeste e do Sul entendem como forma de lidar com o Nordeste e seu povo. A mensagem é clara: o violeiro não quer grana, mas, sim, rir da cara desse povo arrogante e ridículo do “sul maravilha” (v. Henfil)[2].

É no segundo ato que a violência explode. Cenas de assassinatos, muitas armas, pessoas mortas, tiros no caminhão-pipa que vaza água pelos furos de bala. E se descobre que há um grupo de turistas assassinos que foi a Bacurau para caçar habitantes daquele povoado. Sim, caçadores de pessoas, seres humanos; barbárie pura e intensa, praticada por homens e mulheres brancos, de países supostamente civilizados, como Alemanha e EUA. A História é pródiga em registros de atos bárbaros cometidos por instituições e pessoas de países “civilizados”.

O grupo de estrangeiros pretende usar armas antigas (“vintage”) para promover a chacina dos habitantes de Bacurau e conta com a ajuda dos “sudestinos” motoqueiros, que acabam sendo executados pelos turistas caçadores, porque não são tão brancos e diferentes dos nordestinos, como imaginavam. Vale muito a pena o diálogo em que os sudestinos colaboracionistas são confrontados com a realidade de que, para os estrangeiros, são brasileiros, miscigenados, latinos, e foram apenas usados no jogo.

A “aventura” dos turistas estrangeiros é um jogo (“game”) de sangue e morte. Um “drone” interativo - em formato de disco voador, numa referência intencionalmente cômica - filma o povoado, os assassinatos, além de orientar os turistas participantes, que seguem regras e se submetem um sistema de pontuação para cada execução, na caça de pessoas.

Se do lado dos turistas “caçadores” há organização, planejamento, tecnologia e muitas armas; do lado da resistência de Bacurau, aparece Lunga (vivido por Silverio Pereira), uma espécie de cangaceira(o) pós-gênero futurista, uma guerreira “queer” ou “drag queen”, que é um(a) criminoso(a) procurado(a) pela polícia.

E por falar em polícia, é icônica a cena que mostra uma viatura policial enferrujada e crivada de balas, abandonada no mato com outras sucatas de carros. As personagens deixam claro que não há qualquer autoridade policial institucionalizada em Bacurau. É a própria comunidade que se organiza e se protege, diante do descaso do poder público.

Quando Lunga chega (volta, como muitas das personagens) a Bacurau - com cabelos longos e roupa estilosa - uma senhora pergunta algo mais ou menos assim: “mas que roupa é essa, menino?”. É um dos trechos engraçados do filme, que também tem outras cenas e tiradas bem-humoradas, aliviando um pouco a tensão e o suspense da trama. O filme apresenta muitas frases de efeito e encanta também pelos diálogos.

Apesar da importância de Lunga, a trama não indica uma heroína considerada individualmente. Na verdade, várias personagens se destacam e Bacurau é a principal delas, no aspecto coletivo, o que distingue a produção de outras, enlatadas, que costumam dar destaque a heróis individualmente representados. Com homens, mulheres e uma personagem pós-gênero, a trama de Bacurau evidencia a ação do povoado como um todo, deixando claro que a união é pedra fundamental e a argamassa da história que está sendo contada. De forma bela e original, o heroísmo é atribuído ao coletivo.  

Durante o filme as personagens fazem uso de uma sementinha, que é um psicotrópico, como já citado acima. Perguntado sobre o que tem a tal “droga”, o diretor Kleber Mendonça Filho disse que a semente contém “coragem, tesão e compaixão, coisas que não faltam a milhões de brasileiros.”[3]

Merece destaque a personagem de Tony Junior (representado por Thardelly Lima), prefeito politiqueiro, almofadinha, entreguista e, claro, detestado na comunidade de Bacurau. Tony trata livros como lixo, despejando-os de um caminhão no chão de terra batida, e envia ao povoado remédios psiquiátricos que deixam as pessoas “lesas”, como revelado à população local pela médica Domingas (Sônia Braga).

O filme ataca a politicagem e o entreguismo, mas não a política, uma vez que a comunidade é bastante politizada e seus cidadãos tomam decisões coletivamente, em reuniões na praça, com ampla participação popular, a indicar uma espécie de anarquismo bem-sucedido no sertão brasileiro, já que ali as instituições do Estado parecem não chegar para resolver os problemas, mas apenas para pedir (ou tentar comprar) votos e explorar, como se vê na cena que Tony arrasta para seu carro uma mulher, que é garota de programa, contra a vontade dela e de outras mulheres que se manifestam em defesa da pessoa reduzida a objeto pelo politiqueiro.

As mulheres do filme são fortes, guerreiras, assumem todo tipo de protagonismo, na resistência armada, no sexo, na força de existir e se impor. As grandes personagens da narrativa, além de Bacurau, são mulheres ou pessoas além do enquadramento binário de gênero, como a personagem Lunga, a cangaceira drag, reiterando que o heroísmo cabe ao coletivo.

Aí vem o terceiro ato, no qual o conflito final vem à tona. Bacurau já estava fora do mapa, sem acesso a internet e, após, sem energia elétrica, que é cortada. Uma criança é assassinada friamente. Um menino que portava apenas uma lanterna é executado e o turista assassino justifica-se afirmando que a criança parecia um adolescente armado. Qualquer semelhança com as crianças e adolescentes - em sua maioria afrodescentes e pobres - que estão sendo assassinados pela polícia nas favelas não pode ser coincidência. A vítima mais recente foi Ághata Felix, de 8 anos, assassinada no Complexo do Alemão, na Cidade do Rio de Janeiro/RJ [4].

É incrível a cena em que Domingas - depois de tentar salvar a vida de uma das turistas caçadoras, resgatada pelas pessoas que havia tentado matar - recebe o líder dos turistas assassinos com suco de caju, um prato típico local e ao som da canção “True”, da banda Spandau Ballet, cuja melodia leve, lenta e harmoniosa se choca com a tensão do encontro do assassino com a médica da comunidade, o encontro daquele que mata por prazer com aquela que salva vidas, e ela indaga, singela e profundamente, "Por que vocês estão estão fazendo isso?". Para mim, esta cena representa a forma cordial e amigável com a qual os brasileiros costumam receber os estrangeiros, inclusive os bárbaros que vêm aqui explorar e massacrar.

O mais curioso é que a letra de “True”, quando traduzida para o português, tem a muito ver com a narrativa cinematográfica. Os versos da música, “I bought a ticket to the world/But now I've come back again (…) With a thrill in my head and a pill on my tongue/Dissolve the nerves that have just begun”, numa tradução livre, significam: “Eu comprei uma passagem para o mundo/Mas agora estou de volta (…) Com uma emoção na minha cabeça e uma pílula em minha língua/Dissolvo o nervosismo que acabou de começar”. Ir pro mundo e voltar bem como colocar uma pílula (semente) na língua tem tudo a ver com a história narrada. Será que os diretores pensaram até nisso? Aparentemente, sim, pois não acredito em tanta coincidência.

Em seguida, o avanço dos assassinos e a resistência do povo de Bacurau, que se organiza e luta a partir de dois locais principais: a escola e o museu. Nada mais simbólico e belo. Os habitantes do povoado - juntos com Lunga, seu bando e Pacote - matam, em legítima defesa, os turristas sanguinários. E os estrangeiros são decapitados, da mesma forma que fizeram com Lampião, Maria Bonita e outros de seu bando, numa referência ao cangaço e todo o seu peso histórico, político e social naquela região específica e no Brasil.

No final, percebe-se que a resistência usou algumas armas ainda mais “vintage” que os “jogadores” estrangeiros, e que a violência se voltou contra os turistas assassinos. As marcas de sangue deste conflito são preservadas nas paredes do museu, que incorpora esta nova violência, que representa a tentativa de invasão, assim como a luta e a resistência do povoado. Tudo coletivamente, jamais individualmente.

Com a exceção de Michael (líder forasteiro interpretado por Udo Kier), que tem a vida poupada, os demais jogadores sanguinários são mortos. Tony Junior, então, aparece com uma van para buscar os “turistas” mas, apesar de o politiqueiro tentar se desvincular dos estrangeiros, o líder dos assassinos o reconhece e chama por ele, gritando "Tony" que, como tudo indica, havia oferecido (entregado) Bacurau para o jogo de sangue e morte.

Ambos - o líder dos assassinos e Tony Junior - têm suas penas definidas e executadas nas ruas de Bacurau, com participação popular. Interessa mais comentar a punição do líder do jogo de morte: simbolicamente, ele é enjaulado vivo numa cela subterrânea, de onde ameaça ressurgir, como o fascismo que, ao longo da história foi derrotado algumas vezes, mas ainda insiste em retornar.

A ideia original para o título deste texto era “Lunga Livre”, mas pareceria um “spoiler” - que poderia sugerir uma suposta prisão de Lunga - e, por isso, o evitei. No entanto, aqui no final, além de recomendar a todos que vejam (e revejam) o filme e o interpretem como quiserem, fecho com duas frases: Lunga Vive! Lunga Livre!

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Referências e notas:

[1] Reportagem do programa Fantástico sobre a cidade de Barra/RN: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/08/25/conheca-a-cidade-que-serviu-de-cenario-para-bacurau.ghtml

[3] Explicação do diretor sobre a semente de Bacurau aos 3:55min. no vídeo: https://youtu.be/R-DX9hdBcus

Entrevistas com Silvero Pereira (a Lunga de Bacurau):

Outros textos e vídeos sobre Bacurau e o coletivo que o fez nascer:

https://youtu.be/JW9vcFmK9Fw




Ficha técnica do filme:

Nome Original: Bacurau
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil e França
Ano de produção: 2014
Gênero: ação / suspense / western
Duração: 132 min
Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Rastros de Resistência: Histórias de Luta e Liberdade do Povo Negro, de Ale Santos (@savagefiction)

Aguardo ansiosamente a chegada dos meus exemplares autografados do livro “Rastros de Resistência: Histórias de Luta e Liberdade do Povo Negro", do Ale Santos (@savagefiction). Sim, exemplares no plural, pois apoiei o projeto (kickante/pandabooks) e vou receber mais de um exemplar, e com autógrafo do autor! Acompanho há anos o incrível trabalho dele no Twitter, onde o autor publica sequências maravilhosas sobre História(s). Agora virou livro!

"Foram necessários 276 caracteres para que o autor de ficção científica Ale Santos, morador de Guaratinguetá (SP), saísse do anonimato e angariasse uma multidão seguidores no Twitter.


Quando ele escreveu uma thread (sequência de mensagens) sobre o Holocausto no Congo promovido pelo rei belga Leopoldo II (estima-se que tenham sido 10 milhões de mortos entre o final do século 19 e o início do 20), ganhou visibilidade por trazer à tona um fato histórico desconhecido por grande parte das pessoas. Só o primeiro tuíte teve 1 milhão de visualizações. 
Ele repetiu a estratégia de divulgação para outras tantas narrativas que haviam sido apagadas, crimes que foram acobertados e conquistas de heróis e heroínas esquecidos pela historiografia oficial. O trabalho de pesquisa rendeu a Santos (ou @savagefiction) espaço como colunista em diversos portais e a oportunidade de lançar um livro, neste semestre, detalhando algumas dessas narrativas.”[1]

Vale muito a pena acompanhar o trabalho do Ale Santos nas redes sociais, na mídia, em livros - onde quer que ele apareça! Lúcido, consciente, objetivo, original, realista (a lista de adjetivos é longa...), o escritor diz o que tem que dizer, resgatando histórias e personagens com "sangue retinto e pisado/ atrás do herói emoldurado".

Seguindo na bela poesia do samba-enredo de 2019 da G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira, vejo no trabalho do Ale Santos os versos:

"Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra".

E nas palavras do próprio autor:

Ser escritor negro é um ato político no Brasil, porque a gente acaba provocando discussões e desconstruindo estereótipos que são constantemente reforçados e atualizados há 400 anos.”[2]

Esse texto é só uma pequena homenagem a esse grande escritor brasileiro. Para conhecê-lo, sugiro que vocês sigam e leiam o Ale Santos, e deixem que as palavras dele contem tudo que ele é e representa.

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Notas e referências:








terça-feira, 17 de setembro de 2019

Segurança e igualdade

Segurança pública: urgente!
Não é justo que só alguns
tenham vigilância permanente.

Por uma questão de igualdade:
precisamos espalhar UPPs* 
por toda cidade: 
nos shoppings, condomínios,
bairros do asfalto,
caveirões circulando,
prontos pro assalto.

As classes média e rica -
tão sacrificadas(?) por impostos -
também merecem bem perto
a mesma polícia a postos.

Que nas ricas coberturas também
pouse o grande pássaro de metal,
ostentando sua fúria letal.

Que a polícia apure todos
os crimes e irregularidades:
dos deuses dos tribunais
aos patrões vis e covardes.

É urgente vestir de farda o cristo
e torná-lo monumento panóptico,
além de turístico,
com câmeras - mil olhos -
a nos vigiar e a revelar
todo medo místico.

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* Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) era um projeto da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro que pretendia instituir polícias comunitárias em favelas. Acerca do tema, indico o livro da Marielle Franco: "UPP: A redução da favela a três letras", de 2018. (https://www.travessa.com.br/upp-a-reducao-da-favela-a-tres-letras-uma-analise-da-politica-de-seguranca-publica-do-estado-do-rio-de-janeiro/artigo/f33e3b79-22aa-436b-a870-89016d0e6edb)



domingo, 15 de setembro de 2019

Sintonia: periferia nas telas e caixas de som (Netflix, 2019)

[Texto sem spoilers] A Netflix acertou ao fazer parceria com KondZilla, fundador do Canal de música que leva o seu nome e é o maior do Brasil no YouTube (link: https://m.youtube.com/user/CanalKondZilla).

Do Guarujá/SP e com 31 anos, Konrad Dantas é criador da série Sintonia, também atuando na direção da produção lançada recentemente, que é muito bem-feita, com um roteiro de primeira qualidade, atuações ótimas, fotografia original e uma trilha sonora incrível.

Meu objetivo aqui não é falar sobre a trama, o que eu talvez faça em outro texto com revelações (spoilers). O fato é que eu vi, gostei muito, estou revendo e recomendo demais. O que desejo nesta análise é destacar os muitos pontos altos da série Sintonia e também fazer críticas a aspectos da produção que me chamaram atenção.

O tema principal da série é a amizade - e isso é o que a trama tem de universal -, mas o que brilha nas cenas e até emociona são as  particularidades da vida numa das periferias brasileiras, a maior do país: a periferia de São Paulo. As gravações rolaram na Favela do Jaguaré, zona oeste da capital, mas na ficção a favela se chama Vila Áurea - homenagem do KondZilla à mãe dele -, localidade marginal (no sentido sociológico) onde os três amigos - dois rapazes e uma jovem mulher - vivem e compartilham seus dramas e destinos.

E as chaves da originalidade e vanguardismo da produção são justamente a coragem e a fidelidade ao retratar a vida na marginalidade, especialmente a de SP. E isso é muito interessante, porque geralmente os holofotes estão virados para as favelas cariocas e não pra periferia paulistana. As favelas do Rio merecem atenção, é claro, mas esse foco nos cariocas é desproporcional, já que, além de KondZilla, SP é a terra dos Racionais, Sabotage, Criollo, Emicida e mais uma pá de gente talentosa, formando um cenário social, cultural e artístico muito ativo, original e rico.

Sintonia tem personagens muito bem construídos e verossímeis - interpretados por atores muito talentosos que espantam pela naturalidade nos papéis -, diálogos ágeis, cheios de gírias, ritmo e  espontâneos demais, além de uma narrativa realista, forte, muito bem contada, que cresce e encaixa os caminhos dos três protagonistas. 

Os atores da série (não só os principais) são incríveis, parecem ter nascido nas personagens. E não é à toa: o elenco é formado por desconhecidos (profissionais que não estão na TV) e, pesquisando sobre a origem dos talentos, descobri que alguns dos atores são ex-detentos, que fizeram curso de teatro na prisão. Pelo resultado do trabalho, essa foi um excelente escolha dos realizadores.

Para não dar spoilers, vou dizer apenas que a trama se sustenta nas caminhadas e batalhas do trio principal: Rita (Bruna Mascarenhas), Doni (Jottapê Carvalho) e Nando (Christian Malheiros). Os amigos, cada um com seus “corres” (lutas diárias), representam o tripé que fundamenta a história narrada: a vida no crime (em facção que explora o tráfico de drogas), a aproximação com a igreja evangélica e o desejo de realizar o sonho de viver da música, de se destacar como MC.

Sintonia conta a realidade da periferia de SP e realiza muito bem esse projeto, porque tem criadores e atores que nasceram e se desenvolveram ali, dentro da favela, e por isso sabem do que estão falando. Impossível tratar de experiências na periferia brasileira sem mencionar igrejas evangélicas, tráfico de drogas, cenário musical, trabalho informal (com personagens camelôs, vendedores ambulantes), união da comunidade, violência (incluindo a doméstica), preconceitos, corrupção policial etc.  Tudo isso é abordado na série.    

Bom, agora passo às críticas sobre o que penso que pode ser aperfeiçoado. As personagens são muito boas, mas podem ser ainda melhores se o roteiro da segunda temporada se dispuser a contar mais sobre o passado de cada um dos protagonistas. Colocar alguns flashbacks da história de Rita, Doni e Nando pode dar mais profundidade às suas personalidades e também à trama como um todo.

Na minha opinião, o maior erro de Sintonia foi em relação à representatividade, especialmente no trio principal. A questão é de gênero, racial (étnica) e também passa pelo colorismo: há apenas uma mulher e somente um dos três protagonistas é negro com pele mais escura, e é justamente esse personagem que faz parte de uma facção criminosa.

No plano geral, a série consegue fugir dos estereótipos; porém, ao colocar só um negro no trio e ainda ligado ao crime, acaba reforçando uma visão menos apurada e original da favela. Conforme explica o site GELEDÉS, “de uma maneira simplificada, o termo [colorismo] quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.”[1] 

Na população brasileira em geral, segundo o IBGE, a maioria é de brancos (47,51%), seguidos de pardos (43,42%), negros (7,52%), amarelos (1,1%) e indígenas (0,42%) [2],  sendo a maioria de mulheres, que representam mais de 51% do total. Apesar de os brancos serem maioria no país, não é esta a realidade nas quebradas, nos lugares mais pobres, onde o percentual de negros supera 50%. [3] Portanto, um trio mais representativo da favela paulistana poderia ter duas mulheres negras ou dois negros, e não vincular os mais escuros a atividades ilegais. Em um país racista e desigual como o Brasil não dá pra passar pano na questão da representatividade.

As críticas - que se pretendem construtivas - não tiram o valor da série, uma das melhores já realizadas no Brasil, com temas e cenários muito ricos, belos, peculiares e geralmente mal representados em produções audiovisuais, que não respeitam o lugar de fala das pessoas da favela. Que venham mais projetos artísticos criados e produzidos por pessoas da periferia!


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Notas e referências:







terça-feira, 12 de março de 2019

As mil e uma jornadas (conto)

“Bom dia, doutora Clara”, disse o velho ascensorista à senhora que entrava no elevador.

“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E sem esperar resposta, continuou. “E então, o que aconteceu ao João da Baiana? O senhor não terminou de contar ontem...”.
“A doutora não vai acreditar. Como eu tava contando ontem, o João tava indo pra uma festa na casa de um senador, homem poderoso lá na época, e foi parado pela polícia. Quando explicou que era músico, que era do samba, acabou sendo preso! Assim, sem mais nem menos, só porque era sambista. Mas pode ser também porque era pai-de-santo, vai saber... A polícia não gostava nem de sambista nem de quem tivesse ligação com terreiro. O fato é que ele não apareceu na festa lá do político grã-fino, que sentiu falta dele (o tal senador era um fã do João da Baiana!), e quando soube da prisão, ficou foi muito bravo e mandou soltar na hora o Jão. E diz que depois disso, o tal político arrumou um jeito pra lá de criativo de garantir a liberdade do sambista. Mas isso eu deixo pra contar depois, doutora. Já tá chegando no andar da senhora e eu não vou ficar aqui atrasando seus compromissos...”
“Tá certo, seu Zé. É sempre assim, eu já até me acostumei. O melhor da história fica sempre pra depois. Bom dia pro senhor.”
“Igualmente, doutora.”

No dia seguinte, como já acontecia há muito tempo.

“Bom dia, doutora Clara”, cumprimentou o velho ascensorista. 
“Bom dia, seu Zé, como vai?”, respondeu a mulher. E prosseguiu, sem perder tempo, antes mesmo que a porta do elevador fechasse. “E então, como é que o tal senador garantiu a liberdade do João da Baiana?”
“A doutora não vai acreditar. O que dizem é que assim que o senador mandou soltar o grande sambista, também mandou que fizessem um novo pandeiro pra ele, com uma dedicatória do político, com assinatura e tudo! E era com esse pandeiro debaixo do braço que o Jão andava a cidade toda, ia a todo canto e dizem que nunca mais foi preso. Agora, veja a senhora, um pandeiro com dedicatória era o “documento” pra se livrar da perseguição da policia; e pra fazer música, ele gostava mesmo era de usar prato e faca: arrastava a faca no prato e saía samba. Pandeiro pra se identificar e prato pra tocar! Onde é que já se viu um a coisa dessas? Mas ele também arrebentava no pandeiro, não era só pra evitar cadeia, não. E não deixa de ser curioso o apelido do João: da Baiana. Mas isso fica pra outra hora, doutora, porque não vou aqui tomar seu tempo...”.
“Tá bom, seu Zé; eu tenho que ir. Mas eu quero ouvir a continuação - como sempre. Bom dia pro senhor!”
E a porta do elevador fechou, encerrando mais um capítulo.

No dia seguinte:

“Afinal, seu Zé, por que o João é da Baiana?”
“Pois então, o João é da Baiana e não é à toa; dizem que a mãe dele era uma das baianas que, como todos sabem, estão lá na raiz do samba. Já falei disso, a senhora sabe, mas não custa relembrar que a Cidade Nova, a Praça Onze foi o berço do samba e o morro da Providência, ali atrás da Central do Brasil, se confunde com a origem da favela. Pois era por ali naquela área que moravam as chamadas tias baianas, tão importantes na história do carnaval carioca. A mãe do João era uma baiana, que marcou o filho carioca com a sua origem. A mais famosa das baianas foi Tia Ciata, que era uma referência, participava ativamente, mãe espiritual do povo, fazia roupas de carnaval, cozinhava que era um absurdo e sua casa servia de sede dos sambistas, dos grandes compositores, uma casa que reunia todo mundo, uma verdadeira roda de samba. E dizem que o primeiro samba gravado (“Pelo telefone”) já rolava solto lá na casa de Tia Ciata, dizem que era folclórico e aí tem aquela polêmica, porque vieram o Donga e o Mauro e registraram a composição lá em 1916 ou 17. Esse negócio de ser dono da música dá pano pra manga não é de hoje; outra hora eu explico melhor, a doutora já chegou ao seu andar...”.
“Sempre fica um restinho de história... Bom dia pro senhor!”

A porta do elevador abria e fechava como a capa de um livro, com pequenas histórias que eram reveladas por poucos minutos a cada dia. Um narrador presente, de carne, osso e uniforme. Um narrador que contava pequenos trechos e sempre deixava um indício do que viria a revelar, a despertar curiosidade sobre o dia seguinte. Um narrador que fazia parte da história do edifício onde atualmente era o senhor e condutor do elevador. Fazia parte dessa história, porque foi um dos operários, um dos ajudantes de pedreiro que trabalhou na construção daquele prédio, muitos anos antes. E quando a obra estava quase pronta, nos últimos retoques, foi chamado para trabalhar naquele novo condomínio, como ascensorista. 
Nos primeiros tempos era empregado do condomínio e assim ficou por muitos anos. Mas depois, com a intenção de cortar gastos, o condomínio contratou uma empresa e o ascensorista passou a ser terceirizado. Foi mantido no seu posto, continuou como o senhor do sobe e desce, mas agora como empregado de uma outra empresa, com um salário mais baixo e sob a ameaça de ser mandado para qualquer outro prédio ou até demitido. Era considerado um bom funcionário desde os tempos da obra, e assim foi ficando no mesmo espaço, passando por diferentes patrões. Terceirizado, passou a ser uma mera concessão o fato de trabalhar ali e não em outro edifício, já que a empresa fornecia mão de obra a muitos condomínios pela cidade, e poderia colocá-lo onde bem entendesse. 
A empresa - bem diferente do condomínio com seu síndico - era um empregador sem cara, sem corpo, uma espécie de máquina de gestão, distante, abstrata. A pedido do condomínio, foi mantida a maioria dos antigos funcionários, entre eles o velho José; mas nada garantia sua permanência ali, pairava sobre cada jornada de trabalho a dúvida sobre a manutenção da antiga equipe. Um dos porteiros havia sido mandado para outro prédio, noutro bairro, e os faxineiros tinham sido demitidos. Não havia necessidade de tantos funcionários ali, gastos altos demais, segundo a análise da empresa. José foi mantido. Mesmo terceirizado continuou no mesmo prédio e na mesma função. 

“Bom dia, seu Zé. E a história de ontem, como continua?”
“Pois bem, doutora. A senhora sabe a confusão que é esse negócio de autoria; no samba não poderia ser diferente, né? Aquele disse me disse, as histórias que contam sobre sambistas que ouviam o samba de outro e saiam correndo pra gravar e registrar no seu nome, essa bagunça toda. Dizem que Heitor do Prazeres acusou Sinhô de roubar seus sambas, e este rebateu com a famosa frase: “samba é que nem passarinho, é de quem pegar”. E foi de intrigas como essas que vieram as “brigas musicais”, aqueles sambas em que um compositor atacava, desafiava, provocava o outro, que fazia um samba de resposta, e aí tinha réplica, tréplica, um provocando o outro, e o povo curtindo, acompanhando, com torcidas, partidários, debates de defesa e ataque de cada um dos lados. Mas isso fica pra outra hora, que a doutora tem coisa séria pra cuidar.”
“Tá bom, seu Zé, depois a gente continua...”

E as histórias continuavam...

“Pois uma das maiores brigas musicais, uma das mais conhecidas e que rendeu muitos sambas de arrasar foi a que se deu entre Noel Rosa e Wilson Batista. Noel, que na época já era reconhecido, se envolveu com tudo numa disputa com o outro, que ainda estava começando sua carreira. Tem gente que diz que por trás das letras provocativas, das batalhas de samba entre os dois, estava a disputa pela atenção de uma mulher. Pensar que “Feitiço da Vila” veio daí... A verdade é que nem importa muito os motivos, as composições é que ficaram. E mais: diferente das brigas comuns que se veem por aí - que muitas vezes terminam mal -, essa arenga de sambas, além de bem humorada e cheia de arte, foi dar até em parceria entre os dois compositores, no “Deixa de ser convencida”. Também dizem que um dos grandes professores do ex-universitário da Vila foi Cartola. A verdade é que o mestre da Mangueira foi professor de muita gente e não poderia ser diferente. Falar dele e da Estação Primeira dá pano pra manga e agora não dá mais tempo; depois eu falo mais, doutora...”  

“Sobre a Mangueira há muito do que falar e em outras ocasiões já falei um bocado, espero não estar repetindo nada. Ouvi falar que a escola surgiu do Bloco dos Arengueiros, numa reunião de seus integrantes lá no Buraco Quente, no fim da década de 20, início da de 30. Cada um diz um coisa sobre o nome, uns que foi das árvores, da fruta, outros que foi da estação de trem inaugurada lá ainda no fim do século XIX, que já levava esse nome. Cartola cantou o nome e ficou: “Chega de demanda, chega/ com esse time temos que ganhar/ somos a estação primeira/ salve o morro de mangueira.” E sobre ser a Estação Primeira também não há certeza: alguns dizem que foi a primeira parada do trem, enquanto outros dizem que foi pra se destacar como a primeira a fazer samba ou até para destacá-la como a melhor; mas isso tudo tem pouca importância perto do que a Mangueira fez no carnaval, nas composições, nos desfiles. E realmente a Mangueira se fez primeira e isso eu conto depois...”

“Como eu estava dizendo, da última vez, a Mangueira fez jus ao nome, pois foi vencedora na primeira competição entre as escolas de samba, lá em 1932 e repetiu a façanha por mais dois anos seguidos, consagrando-se como tricampeã logo de início, além dos vários títulos que veio a receber depois. Mas isso não é de se estranhar com o time que a escola tinha: além de Cartola, Carlos Cachaça, dona Neuma, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Nelson Sargento, dona Zica, Hélio Turco, e mais tarde Beth Carvalho, Lecy Brandão, Alcione, entre outros grandes integrantes, que plantaram e fizeram crescer essa bela árvore do samba carioca. Fato marcante da escola se deu no ano da criação do Sambódromo, em 1984: com o enredo de homenagem à Braguinha (rei das marchinhas), a verde-e-rosa fez algo que nunca mais se repetiu: o povo pediu bis e a escola atendeu, fazendo o caminho de volta pela Avenida. Que coisa mais linda! E pensar que a primeira “escola” recusou o título e a disputa. Mas o caso é de deixar pra falar depois...”

“A verdade é que dizem que a primeira escola de samba - 'Deixa falar' - preferiu ser rancho, que na época era mais considerado que as escolas, e se recusou a participar do primeiro desfile dos “acadêmicos”. Pelo que contam, foi a pioneira na organização dos sambistas, reunindo na sua fundação Ismael Silva, Bide, Baiaco, Brancura e outros grandes nomes. Segundo dizem por aí, o nome “escola” veio da proximidade de uma instituição de ensino “normal” no largo do Estácio. E se havia rixa com outros sambistas de outros bairros, respondia o pessoal da escola, “deixa falar! É daqui que saem os professores!”. A escola que preferiu ser rancho durou pouco e acabou no ano do primeiro desfile, mas reza a lenda que o surdo foi criação de Bide e que foi essa agremiação que introduziu a cuíca na bateria. Não dá pra negar que os desfiles, mesmo de blocos, sofriam arbitrariedades, e é curioso que o nome de uma das escolas mais tradicionais tenha surgido do abuso de poder de uma autoridade. Isso fica pra depois, doutora. Bom dia pra senhora.”

“Como eu estava dizendo, o nome de uma das escolas mais tradicionais veio de uma sugestão (ou seria melhor dizer logo imposição?) de um delegado responsável pelas autorização dos blocos na cidade. Pois é. Contam que a 'Vai como pode' foi à polícia renovar sua licença, um delegado se negou a conceder a autorização, alegando que o nome era indigno para uma agremiação; disse que era melhor adotar a denominação 'Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela', já que os sambistas se reuniam na estrada do Portela. E a sugestão da autoridade não teve rejeição popular, porque os sambistas de Oswaldo Cruz já eram conhecidos na praça Onze como pessoal da Portela. O nome hoje é mais do que consagrado e a escola, além de grande campeã, lançou muitos grandes compositores, como Candeia, Zé Queti, João Nogueira, Monarco, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não eram só das autoridades que vinham arbitrariedades, preconceitos e injustiças. Amanhã eu explico melhor...”

“Como eu estava falando, as injustiças não vinham só das autoridades. Hoje as coisas estão diferentes, mas a verdade é que por muito tempo as mulheres não podiam se assumir como compositoras; mulheres não podiam assinar suas composições, elas eram obrigadas a ficar atrás dos homens, à sombra dos homens. Um machismo danado. Foi o que aconteceu com Dona Ivone Lara, quando era ainda uma menina e passou a escrever seus primeiros sambas. Durante muito tempo, suas composições foram assinadas por seus primos, integrantes importantes do Império Serrano. Só pelo fato de ser mulher era proibida de de ingressar na alas dos compositores. Somente lá pela década de 1970 é que Dona Ivone Lara se libertou das sombras do machismo pra brilhar na avenida, nas rodas de samba e nos palcos. E o Império Serrano tem já no início de sua história outros atos revolucionários, atos que deixaram pra trás aqueles que se meteram a ditadores. Que subida rápida, a porta já tá se abrindo, o causo fica pra depois...”

 “Bom dia, doutora. A senhora se lembra como antes a subida do elevador era mais lenta? Havia mais tempo. Quando comecei aqui, era eu que fechava a porta pantográfica, com minhas mãos. Eu fazia mais coisas, quem vinha aqui dentro via mais, e não tinha essa sensação de estar preso, completamente enlatado. Mas dizem que os avanços trouxeram mais rapidez, segurança, eficiência, e assim vai indo, também nas escolas de samba, com muitos avanços tecnológicos, regras, análises técnicas. Eu confesso que sinto uma certa falta da espontaneidade de antigamente. Talvez isso explique a volta dos blocos... Bom, eu tava falando da fundação do Império Serrano, que surgiu de uma dissidência da Escola Prazer da Serrinha contra o presidente ditador que foi capaz de impor um samba diferente do criado pelos compositores . Além de ter tido um resultado horrível, num ato revolucionário os dissidentes criaram a Império Serrano, que teve como maior princípio a democracia, ali todo mundo iria participar e opinar, sem tiranos. Outras escolas revolucionaram, mas agora me falta tempo pra desenvolver... Bom dia pra senhora.”

“Pode parecer algo muito comum e natural hoje em dia, mas a senhora sabia que no passado os enredos não tratavam do negro, da cultura e da história dos negros? Pois é. Hoje a gente vê um monte de enredos assim, mas dizem que isso começou com o Salgueiro, a vermelho e branco da Tijuca. O que dizem é que na década de 1950 o Salgueiro levou pra Avenida o enredo 'Navio negreiro' e assim colocou o negro como protagonista do desfile, inaugurando novos tempos e temas. Difícil imaginar que levou mais de vinte anos para aqueles que criaram o samba, a dança e até alguns dos instrumentos de percussão fossem pra Avenida, pros desfiles, cantar sua história e cultura. Eles eram donos da música, mas não se viam como tema da festa... Algumas mudanças foram pensadas, como essa aí do Salgueiro. Mas, segundo contam por aí, outras mudanças aconteceram sem querer. A porta já está aberta. Depois eu continuo...”.

“Pois uma inovação que dizem ter acontecido sem ter sido pensada com antecedência foi a paradinha da bateria. Bom, certeza não tenho. A senhora sabe que eu falo o que escuto por aí; tenho certeza de nada não. Bom, o que dizem é que o mestre André - um dos grandes integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel - inventou a paradinha sem querer: durante um ensaio, ele escorregou, caiu e os instrumentistas pararam. Pois o mestre não perdeu tempo, já se levantou fazendo sinal pro repique, que recomeçou no ritmo, nascendo daí a paradinha da bateria que hoje várias escolas fazem questão de fazer. E assim foi, teve coisa pensada e coisa espontânea. Coisa que se desenvolveu de forma mais ou menos espontânea foram os blocos, ranchos e escolas de samba.  Mas depois acabaram pensando em construir um lugar específico pros desfiles das Escolas de samba... A porta já está abrindo; bom dia pra senhora!”

“Pelo que dizem, o desfile lá no início era realizado na praça Onze. Depois, com as obras da avenida Presidente Vargas, o desfile foi deslocado; a partir de 1947, após o fim das obras na Avenida, passou a ser lá mesmo. Depois, com os passar dos anos, começaram a montar arquibancadas e a cobrar ingressos. Então, vieram as obras do metrô e o desfile foi pra avenida Presidente Antônio Carlos e em seguida para a rua Marquês de Sapucaí, ali pertinho da praça Onze. E lá no início dos anos 80, o Brizola encomendou ao Niemeyer o projeto de um local definitivo pros desfiles,. E foi daí que surgiu o sambódromo como conhecemos hoje. Também chamam de Passarela Darcy Ribeiro, que foi um dos mentores da construção que, além de local para desfiles e eventos, também abrigava salas de aula de CIEPs, aquele projeto de educação integral que depois foi abandonado pelos governos seguintes. Isso ninguém me contou, não, isso eu vi. Pra algumas coisas sempre falta dinheiro. Andam falando muito de crise, mas parece que algumas áreas estão sempre em crise, né? Já chegamos, doutora. Bom dia!”.

José continuou contando as histórias do samba e do carnaval carioca por mais algum tempo. Ele continuou com suas histórias até o dia em que saiu de férias e ao voltar encontrou um elevador hipermoderno já instalado. O novo elevador era muito avançado, eficiente e econômico, falava, tinha câmeras e até uma TV para exibir poucas informações e muita publicidade, gerando um ganho extra com publicidade. Um boato entre os funcionários já havia indicado que a empresa pretendia investir em tecnologia e cortar gastos em outras áreas. E assim foi feito: além dos novos elevadores, instalaram muitas câmeras, travas eletrônicas e outros equipamentos de segurança, tudo para controlar à distância, tornando desnecessárias pessoas no local, demitindo também os porteiros. Agora só havia pessoas nos serviço de limpeza, que eram trocadas com frequência pela empresa terceirizada.
  No seu último dia como empregado no prédio, José trabalhou como sempre, contando suas histórias. Durante o dia, a voz metálica, monótona e repetitiva emitida pelo novo elevador competiu com a voz do ascensorista: enquanto o homem conversava, se despedia e narrava trechos de episódios do samba, a máquina limitava-se a dizer os andares ao abrir a porta. José ainda brincou com a situação, dizendo que o elevador agora colocava um ponto final em suas falas, exclamando o andar, marcando a hora de desembarcar. 

“Bom dia, doutora Clara!”
“Bom dia, seu Zé! Como o senhor está? Só fiquei sabendo hoje que o senhor está nos deixando...”
“Bom, é a vida, né? A empresa é que decidiu que é a hora de eu deixar o trabalho, e tem essa coisa da crise, né? Esse elevador aqui é muito bom, faz tudo que a senhora puder imaginar!”.
“Essa crise não tá fácil, não; esse ano nem sei se vou fazer a viagem de férias que eu tinha planejado. Esse elevador pode fazer muitas coisas, até falar, mas com certeza não conta histórias.”
“Isso é verdade, histórias não conta, não, mas é muito rápido e eficiente, tem TV e tudo. Tecnologia de ponta!”
“Décimo sexto andar”, falou a voz metálica do elevador.
“Tão rápido que a senhora já chegou, olha aí, e ele avisou. A tecnologia tá em tudo, até no carnaval, doutora. Só não fizeram ainda robô compositor e robô passista...”.
“Verdade, seu Zé, verdade. Nem robô contador de histórias. Boa sorte para o senhor. Tudo de bom!”.
“Obrigado, doutora.”