o mar pelas janelas da barca mal se vê. se vê de longe o que é tão próximo como um paradoxo dessas janelas pequenas. o mar que mal se vê é cinza como chumbo e dele se veem brotar as patas da ponte, como uma centopeia atravessando uma poça de água suja. o barulho do motor e a trepidação lembram a respiração de um bicho, que atravessa o mar meio cansado levando parasitas em sua carcaça. de longe os guindastes parecem insetos, louva-a-deus, prontos pra mexer seus braços mecânicos e carregar estômagos de navios com contêineres, parasitas a serem levados por aí, singrando o mar cinza-chumbo. já perto do destino cruza o céu um inseto branco alado e barulhento, a pousar do lado esquerdo, rápido e duro como um besouro com rodas. ao redor o mar chumbo é como uma bacia de cinzas de uma fogueira queimando há séculos. pelas pequenas janelas da barca mal se vê.
Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017
terça-feira, 7 de julho de 2009
ecos prosaicos
Ecos prosaicos é um nome auto-explicativo: ecos, porque se trata da ressonância que o mundo produz em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou; prosaicos, pelos dois sentidos sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
A idéia de criar um blog surgiu a partir do ensaio que escrevi sobre o samba "Folhas secas" de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Na verdade, o eco desta música dentro de mim obrigou-me a escrever sobre ela - há muito tempo me emocionava ao escutá-la e um dia resolvi devolver ao mundo o que "Folhas secas" me faz sentir. Publiquei o texto num site e, para minha surpresa, muitos gostaram. Resolvi, então, criar um blog, para compartilhar ecos que outras músicas, poesias, filmes e livros geram em mim.
Como eu disse em "Rumor de uma folha seca", toda prosa construída sobre uma obra - seja ela qual for - nunca superará a experiência de perscrutá-la, senti-la livremente, sem considerar qualquer interpretação que outros lhe tenham dado. Minha única pretensão é partilhar o que sinto, descrever o eco que o som do mundo produz dentro de mim.
A idéia de criar um blog surgiu a partir do ensaio que escrevi sobre o samba "Folhas secas" de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Na verdade, o eco desta música dentro de mim obrigou-me a escrever sobre ela - há muito tempo me emocionava ao escutá-la e um dia resolvi devolver ao mundo o que "Folhas secas" me faz sentir. Publiquei o texto num site e, para minha surpresa, muitos gostaram. Resolvi, então, criar um blog, para compartilhar ecos que outras músicas, poesias, filmes e livros geram em mim.
Como eu disse em "Rumor de uma folha seca", toda prosa construída sobre uma obra - seja ela qual for - nunca superará a experiência de perscrutá-la, senti-la livremente, sem considerar qualquer interpretação que outros lhe tenham dado. Minha única pretensão é partilhar o que sinto, descrever o eco que o som do mundo produz dentro de mim.
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