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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

pelas janelas da barca

o mar pelas janelas da barca mal se vê. se vê de longe o que é tão próximo como um paradoxo dessas janelas pequenas. o mar que mal se vê é cinza como chumbo e dele se veem brotar as patas da ponte, como uma centopeia atravessando uma poça de água suja. o barulho do motor e a trepidação lembram a respiração de um bicho, que atravessa o mar meio cansado levando parasitas em sua carcaça. de longe os guindastes parecem insetos, louva-a-deus, prontos pra mexer seus braços mecânicos e carregar estômagos de navios com contêineres, parasitas a serem levados por aí, singrando o mar cinza-chumbo. já perto do destino cruza o céu um inseto branco alado e barulhento, a pousar do lado esquerdo, rápido e duro como um besouro com rodas. ao redor o mar chumbo é como uma bacia de cinzas de uma fogueira queimando há séculos. pelas pequenas janelas da barca mal se vê.

terça-feira, 7 de julho de 2009

ecos prosaicos

Ecos prosaicos é um nome auto-explicativo: ecos, porque se trata da ressonância que o mundo produz em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou; prosaicos, pelos dois sentidos sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?

A idéia de criar um blog surgiu a partir do ensaio que escrevi sobre o samba "Folhas secas" de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Na verdade, o eco desta música dentro de mim obrigou-me a escrever sobre ela - há muito tempo me emocionava ao escutá-la e um dia resolvi devolver ao mundo o que "Folhas secas" me faz sentir. Publiquei o texto num site e, para minha surpresa, muitos gostaram. Resolvi, então, criar um blog, para compartilhar ecos que outras músicas, poesias, filmes e livros geram em mim.

Como eu disse em "Rumor de uma folha seca", toda prosa construída sobre uma obra - seja ela qual for - nunca superará a experiência de perscrutá-la, senti-la livremente, sem considerar qualquer interpretação que outros lhe tenham dado. Minha única pretensão é partilhar o que sinto, descrever o eco que o som do mundo produz dentro de mim.