Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
pelas janelas da barca
sábado, 10 de março de 2012
O furto
Data do fato: meados de 2008.
Depoimento do comunicante:
Não vou me resignar: houve um furto. E ainda que alguns entendam tal subtração como algo positivo - até mesmo desejável -, não tenho outro nome para lhe dar.
Como é comum, o ladrão, ao fazer sua defesa, procurou se livrar da acusação, chamando o furto de progresso - e o pior é que houve quem acreditasse! Mas o que ocorreu efetivamente foi uma lesão ao patrimônio.
Aos fatos. Moro em Niterói e trabalho no Rio, motivo pelo qual fui à estação das barcas. Para minha surpresa, quando lá cheguei, vi um painel luminoso informando que a duração da viagem era de 12 minutos. Achei que houvesse algum erro, porque a travessia sempre durou 20 minutos; pelo menos, desde que me lembro.
Depois de uns vinte minutos - é isso mesmo: o tempo da espera é maior que o da travessia! -, o portão da zona de embarque se abriu, e os passageiros, com a pressa habitual, dirigiram-se à embarcação. Esperei que os mais ansiosos passassem, como costumo fazer, e fui andando em direção à rampa de embarque. Porém não era a barca – a boa e velha barca – que estava lá, mas uma embarcação retilínea, simétrica e com duas faces idênticas – duas proas –, sem popa. Não perguntei nada; entrei e me sentei à janela, que, para minha tristeza era bem menor que a das antigas barcas.
Convenci-me de que havia sido furtado. E a lesão atingiu no mínimo dois bens de uma só vez: a duração da viagem, que foi reduzida de 20 minutos para míseros 12, e a vista da janela, que antes era maior e melhor posicionada.
O ladrão, contudo, apresentou o crime como benefício, dizendo que a nova barca era mais rápida e eficiente. Mas o fato é que não consigo mais ver o brilho do sol refletido na água, pois a janela nova, além de pequena, foi colocada nas alturas. Também fui privado do som das janelas, que trepidavam. E as cadeiras de madeira? E os minutos que eu tinha a mais? E os balcões que permitiam viajar ao ar livre?
Tenho certeza de que perdi oito minutos - dezesseis por dia, na verdade, já que sempre vou e volto -, apesar de dizerem que ganhei os tais 8 minutos. Se eu quisesse oito minutos bastava chegar mais cedo à estação. Por que não subtraíram esses dezesseis minutos da minha jornada de trabalho? Ou da viagem de ônibus? Não, os retiraram da melhor parte da viagem.
E como tenho o costume ler na barca, estes 16 minutos fazem muita diferença, principalmente nos dias de prova na faculdade; mal abro o livro e a barca já está chegando. Quando o livro é um bom romance, então, se torna ainda mais difícil desembarcar: semana passada, voltando do trabalho, absorto numa boa história, quase retornei ao Rio, em vez de desembarcar em Niterói.
A velha barca, que prefere o caminho ao fim, possui frente e verso, e, por isso, tem que dar um giro para virar sua proa para o destino. A nova tem duas proas e já abandona o cais apontando para o terminal. Perdi esta preciosa volta e, ao perdê-la, fui privado também do cálculo sobre o lado sol.
Explico: antes, quando embarcava, refletia sobre onde incidiria o sol durante o trajeto. No inverno, sentava-me no lado da sombra ao entrar, porque, depois de a lancha girar, tornava-se este o lado do sol. No verão, fazia o oposto, para ficar do lado da sombra. De dezembro a março, esquecer-se desse detalhe implicava chegar ao destino suado e irritado. Agora, infelizmente, já não penso em mais nada disso: o sol vai do início ao fim do mesmo lado, monótono e previsível.
Mas o pior foi a redução e elevação das janelas. Aposto que os engenheiros que projetaram as novas barcas moram no Rio e nunca vêm a Niterói; e mesmo que venham, devem preferir a ponte. As janelas hodiernas não permitem que se olhe o mar, parecem grades de tão pequenas; são semelhantes a janelas de ônibus, mas ainda piores, na medida em que são colocadas no alto, fora do alcance da visão. Para ver o sol refletido na superfície de água é preciso ficar de pé. Onde já se viu viajar pelo mar e não vê-lo?
E quanto aos balcões? A barca antiga possui dois balcões, um na popa e outro na proa. Havia até uma lancha mais velha, que tinha um alpendre na popa, o qual possuía bancos parecidos com os de praça mas com encostos móveis, permitindo que se escolhesse para que lado olhar durante a travessia; sem falar noutro modelo, que tinha, além dos balcões, varandas laterais com assentos - sem dúvida o melhor, na medida em que nos permitia viajar confortavelmente ao ar livre.
E para completar, não se pode deixar de falar doutra triste conseqüência do crime: a troca da saudação calorosa do comandante, feita ao vivo - ainda que algumas vezes (não poucas!) não entendêssemos nada do que falava - pela gravação de uma metálica e fria voz, que repete as mesmas insípidas advertências. Extinguiu-se a espontaneidade. Antes, o comandante podia nos desejar boa viagem, advertir sobre os perigos do mar, elogiar o céu, nos dar uma bronca, chorar etc. (embora geralmente se limitasse a nos desejar boa viagem). Mas agora só nos resta a gravação, sempre impessoal, monótona, vazia.
A evolução da barca foi acabando com as suas qualidades: a cada novidade a barca perde seu ar de passeio para se restringir somente a um meio de transporte. E ainda chamam isto de progresso! Não sou um saudosista inveterado nem um casmurro fechado às novidades: meu apego não é ao passado mas ao que é melhor. Se a nova barca tivesse grandes janelas e balcões, talvez eu até suportasse as duas proas e o furto de 16 minutos.
No entanto, o ladrão, apesar de sua crueldade, não levou tudo: durante os fins-de-semana são as barcas antigas que singram a baía de Guanabara, agradavelmente lentas e cheias de poesia. Convido, pois, os engenheiros navais, que são os autores intelectuais do furto, a viajarem, pelo menos uma vez, num domingo de sol, na vetusta e bela barca. Se eles tiverem coração, projetarão, da próxima vez, uma barca menos moderna e mais amiga da vida. Obcecados com a rapidez, os criadores da nova embarcação esqueceram-se – se é que algum dia souberam - de uma das maiores verdades: viajar de barca é como viver: o fim não é mais importante que o caminho a ser percorrido. E no que se transforma o caminho, se reduzem o seu tempo de duração e nos tiram as janelas e os balcões nos quais desfrutávamos a paisagem?
PS. O furto agora tem agravante: aumento da tarifa em 60 %.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Barcas: transporte público ou shopping?
Agora, o foco são as Barcas, que, em vez de melhorar a prestação do serviço, piora a cada dia. Embora tenham sido criadas barcas novas, mais modernas e rápidas, o tempo de espera na estação aumentou muito, visto que elas têm somente a metade da capacidade das antigas. A travessia demora 12 minutos (a barca tradicional demorava 20), mas a espera, nos horários de maior movimento, pode chegar a uma hora!
E, recentemente, para piorar, a empresa ainda substituiu algumas roletas por mesas de certa lanchonete localizada à direita - Estação Praça XV.
Como nós, usuários, ficamos esperando um tempão para embarcar, acabamos comprando lanches e outros produtos nas lojas situadas na estação; assim, ao gastarmos nosso dinheiro ali, a Barcas S/A lucra, pois, quanto mais compramos, mais valorizado se torna aquele espaço.
O consumo de produtos na estação está gerando lucro e a espera - criada pela própria empresa - beneficia esse comércio. Não é à toa que A ESTAÇÃO SE TRANSFORMOU NUM VERDADEIRO SHOPPING, com direito a propaganda em todos os lugares - nas paredes, nos bancos e até na fachada das embarcações, fazendo-as parecer um ridículo pacotão de sabão em pó!
Será que o lucro obtido dessa forma é abatido do valor da tarifa? Só quando houver transparência poderemos descobrir...
A estratégia da empresa é antiga. Vocês já devem ter reparado que os supermercados e lojas de departamento oferecem produtos baratos, de consumo imediato, situados justamente nos corredores onde se formam as filas para os caixas. Isso obviamente é feito de propósito, tendo em vista que a ansiedade da espera faz com que o consumidor gaste mais, adquirindo coisas que nem pensava em comprar quando entrou na loja - é quase um consumo automático, inconsciente. Quem nunca comeu chocolates ou balas enquanto esperava para pagar?
E o pior é que, segundo o liberalismo - opção do Estado brasileiro (ou imposição acatada) -, não existem cidadãos, há apenas consumidores. Sob essa perspectiva, não é só o transporte público que está se transformando em shopping, produto, mas também a saúde e a educação - o que é muito mais grave.
Voltando à questão do transporte, a meu ver, para demonstrar nossa insatisfação, deveríamos evitar gastar nosso dinheiro nas estações, para que nossa espera (que é cada vez maior!) não gere ainda mais lucro para a Empresa.
SE O COMÉRCIO E A PUBLICIDADE NÃO REDUZEM A TARIFA, POR QUE MANTÊ-LOS?
Nunca fui contra a beber um cafezinho, ao esperar 10 ou 15 minutos. Mas do jeito que está, a solução parece ser mesmo não consumir nada para não fomentar a indústria da espera.
Se continuarmos dando lucro fácil, a situação só vai piorar. O transporte público tem que servir ao cidadão e não se tornar fonte de exploração da iniciativa privada, que visa somente LUCRAR!

Foto da estação em 1958 - quando as barcas ainda serviam para realizar o transporte de cidadãos.