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sábado, 25 de julho de 2009

"O meu pensamento tem a cor de seu vestido"

Um amor não realizado é um dos sentimentos mais intensos que há. Perdoem-me pela frase feita, mas, tratando do tema, não consigo construir uma frase menos ordinária; talvez porque não haja de fato outra forma de falar da intensidade deste tipo de paixão.

Pode ser o mais estranho dos paradoxos, porém a verdade é que quando a paixão se realiza - quando se é correspondido - a intensidade do sentimento se transforma: as expectativas e os sonhos inerentes ao momento anterior ao início da relação perdem seu caráter místico para dar espaço à realidade.

É no momento que antecede a vivência (paixão ainda idealizada) que a intensidade e o desejo - e toda a fantasia que os acompanha - são mais fortes. Muito semelhante é o que ocorre com o amor que começou a se realizar, mas foi interrompido abruptamente na fase inicial; neste caso, é como se não houvesse realização e a fantasia preenche esta lacuna deixada pela frustração.

A dúvida é crucial neste processo. A princípio, nunca sabemos se seremos correspondidos, se o outro está sentindo o mesmo que nós; e é esta incerteza que fundamenta toda a fantasia sobre o futuro, que mais parece sonhar acordado. Esta mistura de medo e desejo é indescritível; somente a experiência da paixão é capaz de proporcionar tal sensação; as palavras (meros símbolos) ficam aquém do sentimento (como sempre); no entanto, mesmo tendo consciência da inutilidade das palavras diante da vida, insistimos em usá-las para expressar o inefável (mais um paradoxo que se impõe).

Nosso pensamento fica encharcado do intenso sentimento que o ser pelo qual estamos apaixonados provoca. Tudo nos faz lembrar dele; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício; e esta obsessão (podemos chamá-la assim) não é tanto pelo outro, mas pelo que ele (ser amado) desperta dentro de nós, o que faz da paixão algo muito próximo do narcisismo.

Com efeito, queremos encontrar o objeto da paixão a toda hora, desejamos ouvi-lo, tocá-lo, senti-lo; os limites entre nós e ele perdem-se e nossa vontade predominante é de fusão. Contudo, não é o outro em si o que desejamos em última instância; queremos sentir dentro de nós o que aquele ser desperta. Como assevera Nietzsche: “em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.”

Diante da paixão, passamos a ignorar a realidade da solidão, para acreditar que a separação (na verdade, invencível) é superável, desde que aquele ser específico nos acolha. A verdade (ou melhor, o que elegemos como verdade) torna-se o que sentimos pelo outro.

E é justamente este sofrimento, causado pela paixão idealizada, o sentimento mais utilizado pelos artistas românticos como base para sua criação. O amor deve ser refutado, a realização deve ser impossível ou pelo menos postergada ao máximo; o que importa é a paixão que antecede (que almeja, mas não alcança) a relação fantasiada.

Segundo Nietzsche, “o amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.” E, como sabemos, o filósofo destruidor de ídolos era um crítico severo do romantismo, que para ele seria a “plebe sensual”, na medida em que o artista digno não é aquele dilacerado e enfraquecido por suas paixões interiores, mas aquele que sabe cultivar “o ódio ao sentimento, à sensibilidade (...), o ódio ao que é múltiplo, incerto, vago...”.

Afirma Nietzsche que “o herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído” pela contradição de suas forças internas. A verdadeira arte para o homem que declarou o óbito de deus seria a clássica, a qual refuta as emoções sentimentais; para ele são expressões do “grande estilo” - arte, portanto - o que fizeram os gregos, na antiguidade, e os franceses, no fim do séc. XVII.* E a arte, segundo o filósofo destruidor de ídolos, é essencial: ele a classifica como “força ativa” e chega a afirmar que “sem a música [arte], a vida seria um erro”.

Minha tendência é, tal qual Nietzsche, rejeitar o romantismo. Mas confesso que, em certos momentos, me identifico com a fraqueza, o vício, a obsessão, a doença inerente aos românticos, o que faz com que meu "realismo" caia por terra. Depois, quando volto ao normal (sim, porque a paixão é tudo menos normalidade), o "realismo" retorna ao comando e passo a observar a paixão de uma distância segura, ou seja, nos outros, não mais em mim.

Sobre o amor romântico, há uma música extremamente bela que representa perfeitamente o tema:

"Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
(Márcio Borges e Lô Borges)

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"

A primeira estrofe demonstra o quanto o ser amado torna-se uma obsessão, uma vez que o Eu-lírico ao ver uma imagem da terra azul a associa ao vestido de sua amada. Como eu disse acima, “tudo nos faz lembrar dele [objeto da paixão]; na verdade, não o esquecemos um minuto sequer – é mesmo como um vício.”

E a idéia da associação de todos objetos e cores ao objeto da paixão é retomada outras vezes na música:

"O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?"

Estes versos expressam o quanto a paixão domina: nosso pensamento passa a ter a cor das vestes de quem amamos; o girassol passa a ter a cor do cabelo dela; ou seja, estamos imersos no que o objeto amado representa para nós.

Esta música tem um significado muito especial para mim, pois me lembra a época da separação dos meus pais (eu tinha uns 3 ou 4 anos), na qual imaginava que meu pai a cantava para minha mãe - o que transformou esta canção na expressão sonora do meu desejo infantil de ver meus pais unidos novamente.

Sonhava acordado com meu pai perguntando à minha mãe:

"Você ainda quer morar comigo?
(...)
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?"

E não era nada absurdo o meu sonho, pois meu pai é um poeta e ainda morava na mesma rua. Dentro deste contexto, emociono-me demais com a beleza dos versos: “Se eu cantar não chore não / É só poesia” e “Se eu morrer não chore não / É só a lua”. São perfeitos.

Já faz muito tempo que aceitei a separação dos meus pais e hoje não nutro qualquer desejo de vê-los juntos. Sei que o tempo deles passou e a vida os presenteou com outras relações, que lhes trouxeram a realização que não conseguiram juntos. Mas esta música, apesar de continuar evocando estas lembranças da infância (e nunca deixará de evocá-las), transformou-se com o tempo: eu passei a ser o Eu-lírico: não vejo mais meu pai cantando para minha mãe, mas eu mesmo cantando para minha amada:

"Você vem?
Ou será que é tarde demais?"

Nota:

* FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos; tradução Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Págs. 174 a 232.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dança de Eleanor

Há muito penso em escrever sobre a solidão; mas, por ironia do destino, quando tento me debruçar sobre o tema, alguém aparece ou algum aparelho toca. E, na verdade, pra escrever sobre a solidão,

É preciso assistir, desacompanhado,
ao ocaso;
E jantar sozinho
Num sábado.

É preciso tornar-me azul
Diante da luz que emana da televisão
Num quarto escuro.
É preciso chorar sem preocupação
De que vejam minhas lágrimas,
E rir, e ouvir minha risada
Como um som estranho e distante.

É preciso dançar só, de janelas fechadas,
E estar tão isolado a ponto de imaginar alguém
Com quem conversar;
É preciso querer sair e não encontrar forças;
E se forças encontrar,
Andar sem destino, sem hora pra voltar
E sem ninguém a me esperar.

Existem pelo menos duas espécies de solidão: a que desejamos (auto-isolamento) e a que se nos impõe, quando os outros nos esquecem, ainda que temporariamente. Confesso que, como misantropo, sou adepto da primeira modalidade: sou mestre em me isolar. E não me sinto nem um pouco mal com isso. É mais fácil irritar-me com a presença constante que com a ausência.

Minha paixão pela literatura muito tem a ver com minha propensão à solidão; não me sinto nada só quando leio ou escrevo - sinto-me, na verdade, num monólogo silencioso, que freqüentemente mais me parece um diálogo (quase uma esquizofrenia, como a descrita em "Lobo da Estepe", de H. Hesse).

A poesia acima trata da solidão imposta, aquela da qual fugimos. Confesso que é muito difícil sentir a separação completa - embora na realidade sejamos sempre solitários, quer aceitemos esse fato ou não -, em razão das várias formas de atenuar, mascarar, a inexorável solidão que nos é inerente. Ligamos o computador e, num minuto, estamos conectados a várias outras pessoas (perfis); ligamos a TV ou o rádio; o celular permite que encontremos as pessoas onde quer que estejam, ou seja, acessamos o outro na hora em que desejamos. Mas até que ponto este "contato virtual" satisfaz nossa necessidade de nos relacionar?

E não se iluda: encontrar pessoas não significa sair da solidão. No meu caso, estar no meio da multidão muita vez aumenta minha sensação de alienação. E isso também acontece com as companhias superficiais, as conversas sem atenção, as palavras sem reflexão. Na verdade, prefiro a solidão ao contato vazio.

Hoje, para ficar realmente só - ou melhor, para sentir integralmente a solidão, sem subterfúgios - é necessário se esforçar; para tanto, temos que desligar todos os aparelhos: TV, computador, mp3 player, telefones etc.

Com efeito, a rapidez de nossos tempos nos conduz a estas relações fugazes e superficiais, que se prestam a dissimular o silêncio de nossa alienação. Há muitos “perfis” (máscaras virtuais) para se conectar, mas poucas pessoas (seres humanos) para se relacionar de verdade. Como afirma Bauman, nossas relações são cada vez mais líquidas, fluidas. Impossível não concordar.

Nesse contexto, as músicas que evoco abordam o tema com uma profundidade peculiar. Uma trata das pessoas que são sozinhas; outra, das pessoas que estão sozinhas.

Quem é “Eleanor Rigby” (Beatles)?
Esta mulher que cata, sozinha, grãos de arroz depois de um casamento. Reparem na profundidade desta descrição: o casamento representa justamente a celebração da união; assim, catar, só, os grãos caídos ao chão, depois desta cerimônia é ainda mais grave, na medida em que reforça o isolamento.

“Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door”

Quem é ela? Esta mulher que vive num sonho e espera à janela, vestindo a face (ostentando a máscara) que mantém num pote perto da porta. Este verso permite diversas interpretações. Para mim, a janela representa a relação com os outros, o que permitimos que os outros vejam; desta forma, a máscara guardada no pote é a expressão que Eleanor ostenta quando se expõe.

E de onde vêm as pessoas solitárias?
E quem é o padre Mackenzie, que se dedica a elaborar um sermão que ninguém escutará? De onde ele vem? E quem se importa?

O solitário representa aquele que não interage e que, portanto, é um observador, um ser afastado, que assiste, à distância, às vidas e relações alheias. A imagem de Eleanor à janela é exatamente esta: a de alguém que observa a vida e não a vive. Não se trata de solidão-estado, mas, sim, de solidão-ser.

"Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came"

A idéia de um enterro sem qualquer pessoa é uma das imagens mais fortes que se pode ter da solidão. A morte, por si só, é separação, abandono; um velório vazio é uma morte dentro da morte. Ninguém foi ao enterro de Eleanor. O ato de velar o corpo e após enterrá-lo é um ato que celebra a extinção do eu: escondemos embaixo da terra os vestígios materiais que restam inertes. Socialmente, alguém que não se relaciona, já está morto; confirmamos amiúde nossa existência ao interagir.

Em relação à outra música, podemos refletir como seria então a “Dança da solidão”, que parece exprimir um paradoxo, pois dançar é uma manifestação social, a qual, seja numa tribo ou numa festa, envolve várias pessoas.

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura”

Segundo o Eu-lírico, a solidão petrifica, tal qual a cabeça de medusa; ela é “lava que cobre tudo”, é “amargura” na boca, tem dentes de chumbo, e cava o coração silenciosamente. Esta é a solidão que decorre da desilusão amorosa.

É interessante notar que tanto em "Eleanor Rigby" quanto em "Dança da solidão", há referência a personagens: o Eu-liríco, na segunda música, cita Camélia, a viúva; Joana, a apaixonada; e Maria, a desiludida. Penso que a idéia de criar personagens é relevante para personificar a solidão e, desta forma, provocar a identificação.

Na primeira parte da última estrofe, aborda-se o caráter criativo da solidão, “Quando vem a madrugada / Meu pensamento vagueia / Corro os dedos na viola / Contemplando a lua cheia”.

De fato, a solidão é imprescindível à criação artística. Como diz Calvino, "o temperamento saturnino [tendente ao melancólico, ao solitário] é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores (...). É certo que a literatura não existiria se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é (...)".

Outrossim, no que se refere à desilusão - pois a solidão da segunda canção decorre da frustração amorosa -, lembro-me de Pessoa a dizer que:

"Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um".

Entretanto, enquanto em “Eleanor Rigby” a solidão não encontra nenhum remédio, em "Dança da solidão", vemos que, ao fim, o Eu-lírico, que baila ao som mudo do abandono, propõe uma solução para o alheamento:

”Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura”

Esta solução pode ser interpretada de diversas formas. O que seria esta “fonte de água pura”? Pode ser a aceitação da nossa inelutável solidão, entendendo-se que esta fonte de água pura emana do nosso próprio ser, ou uma solução metafísica, caso se prefira acreditar num ser supremo e onipresente.

Podemos disfarçar a solidão, nos distrair um pouco, acreditar que o outro poderá removê-la - assim agimos ao nos apaixonarmos -, da mesma forma que é comum dissimularmos a inevitabilidade da morte - seja ignorando-a, seja preferindo acreditar num além, numa “esperança supraterrestre.” * Para mim, todavia, que não ouso “blasfemar contra a terra”, não há solução: a solidão é invencível, assim como a morte. Prefiro a realidade à ilusão.

Nota

* V. prólogo de Assim falou Zaratustra, uma das últimas obras de Nietzsche.“Eu vos conjuro, ó irmãos, permaneçam fiéis à terra e não creiam naqueles que vos falam da esperança supraterrestre. (...) De agora em diante, o crime é blasfemar contra a terra e conceder mais apreço às entranhas do inescrutável do que ao sentido da terra”.