terça-feira, 13 de setembro de 2016

Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era

O tema é Aquarius, filme do diretor Kleber Mendonça Filho, lançado recentemente. Embora não tenha revelações fundamentais, é um texto mais indicado pra quem já viu, até porque não é uma crítica ou uma resenha, mas uma interpretação pessoal, minha leitura do filme.

A sinopse indica o conflito entre Clara e uma construtora que quer construir um novo prédio no local do antigo, charmoso e pequeno Aquarius, onde a personagem interpretada por Sonia Braga mora desde a juventude. Mas o filme é muito mais que isso, a história vai muito além. Fala sobre a vida da protagonista, sua história, seu cotidiano, suas relações com as pessoas e também com o espaço.

Na minha visão, Clara é a representação humana da cidade. Clara é Recife. Ela e a cidade se confundem, misturam-se. A cidade é uma mulher com história, uma mulher de mais de sessenta anos, muito viva, forte, com cicatrizes, livros e LPs, filhos e amigos, paisagens naturais e construções, que ama o passado sem negar o presente. E nesse processo de representação não ocorre uma reificação do humano, mas uma humanização da cidade.

A cidade é viva num aspecto coletivo, de muitas pessoas diferentes que existem, atuam e interagem naquele local. O filme é um zoom em Clara, que é uma dessas vidas, e a personagem - inteira, corpo, relações, vontades - não deixa de ser a própria cidade, rejeitada pelos insensíveis às cicatrizes do passado e capaz de gozar com as novidades.

Recife (como muitas outras cidades no Brasil e no mundo) é atacada pelas grandes empreiteiras, que destroem edifícios históricos e constroem prédios enormes, desproporcionais e grotescos, como infestações de cupim. Clara é atacada por uma construtora, da mesma forma que no passado enfrentou um câncer, não por acaso uma doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As mesmas células que são parte do organismo - como as construções numa cidade - podem significar risco ao equilíbrio e à vida. Novas construções são importantes e necessárias, mas a atuação das construtoras não deve ser desordenada, sem limites, como um câncer.

Não vemos nenhum representante do poder público para regular a atividade da construtora Bonfim, cujo nome soa sarcástico, se considerarmos o fim que a empresa quer impor ao lar da protagonista. O conflito se dá entre uma empresa e uma mulher de classe média alta. Não há ninguém para fiscalizar, controlar e exigir equilíbrio, preservação. 

Em meados do século XX, as pessoas temiam o poder excessivo do Estado, mas atualmente é o enfraquecimento do poder público (em seu caráter democrático e de bem estar social) e a hegemonia das grandes empresas que nos oprimem, como afirma o sociólogo polonês Z. Bauman. No filme, a música "hoje", do Taiguara, tem tudo a ver com a violência do regime militar e também com os abusos contemporâneos das empresas, ou seja, se encaixa com perfeição às tiranias do passado e do presente.   

O discurso neoliberal defende a redução do Estado, a desregulamentação e o filme mostra algumas das consequências da adoção destas posturas. Da mesma forma que percebemos o distanciamento do Estado, vemos também a mídia comprada pelo dinheiro das contas de publicidade. O jornal da cidade tem informações que se recusa a divulgar para não perder anunciantes.

Defender o edifício Aquarius é mais que defender o lar de uma pessoa, o abrigo da história de uma família etc. É como defender uma era, uma época, a história, a integração do passado com o presente, o equilíbrio entre o que foi e o que virá. E por que não lembrar de “age of aquarius”, da montagem brasileira de “Hair”, peça em que Sonia Braga trabalhou em 1968?

A cidade se ama, como Clara. A cidade luta, como a protagonista no filme e na realidade, como o Movimento Ocupe Estelita em Recife. O filme mostra que a classe média passou a ter o dever de viver (ou seria morrer?) em arranha-céus com grades, cercas elétricas e câmeras. (Se a classe média sofre pressões desse tipo, imagine os mais pobres?) É fato que o excesso de liberdade das grandes empresas afeta a liberdade das pessoas. O medo dos ladrões de coisas pequenas ofusca os medos e as imposições maiores. Há muita desigualdade, nenhum equilíbrio. O discurso tem sido algo como: aos pobres punição, aos ricos desregulamentação.

No filme, vemos placas alertando para ataques de tubarões na praia em frente ao edifício Aquarius. Segundo ambientalistas, essa ameaça surgiu na praia de Boa Viagem depois da construção do Porto de Suape, que afetou o ecossistema local. Outro caso de desequilíbrio em que o poder econômico impôs suas vontades, suas exigências, sem debate, de modo antidemocrático, demolindo a cidadania. 

Tubarões e insetos em ambientes preservados e equilibrados não afetam humanos. Pelo contrário, têm suas vidas bem integradas em seus sistemas. Porém, quando ações desenfreadas quebram o equilíbrio e não há participação dos envolvidos, nem espaço para o diálogo, vemos como consequência a destruição. Como pragas. Como um câncer.


PS. Pra quem curtiu Aquarius, vale a pena assistir a outros trabalhos do mesmo diretor, como o longa "Som ao redor" (disponível no Netflix) e o curta "Recife frio", no Youtube - link: https://youtu.be/U9mu2TJ0scY

8 comentários:

  1. Texto sensível trazendo uma bela leitura do filme. Só teremos histórias para contar enquanto houver vida possível.

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    1. Que bom que você gostou! Me deu vontade de colocar sua frase no texto. Realmente só teremos história enquanto houver vida possível. Adorei.

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  2. "A cidade é Clara", foi uma observação tão precisa que imaginei ser o ápice do texto. Mas ele só vai ascendendo, como a força da protagonista. Catártico. Escreva mais e mais...

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Esse filme é tão rico, tem tanta coisa que chama atenção, que emociona, que dá vontade de escrever mais sobre ele. A trilha sonora, as cenas, o uso do zoom, as atuações, a divisão em partes, as metáforas... O lance é a gente ir escrevendo e compartilhando

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  3. Adorei o blog e o seu comentário sobre o filme. Estou gostando de ver várias interpretações. Esse olhar com relação à falta de regulamentação pelo Estado eu ainda não tinha visto. Aquarius é sensacional! Dá uma tese! Beijos Andreia wwww.mardevariedade.com

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    1. Dá uma tese mesmo! O filme é fabuloso. Também vi umas entrevistas incríveis com o diretor e a Sonia Braga no youtube. O filme faz a gente refletir sobre muitas coisas. O que você colocou no seu blog tem tudo a ver. Beijos

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  4. Seu texto aguçou minha vontade de assistir o filme!
    Irei hoje mesmo e, depois, tecerei meus comentários!

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    1. Se aguçou sua vontade de ir conferir já valeu! Espero seus comentários

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