quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Abraços partidos




Assisti recentemente ao último filme do Almodóvar – Abraços Partidos – e o que mais me chamou atenção foram os heterônimos, as personagens criadas pelas personagens.

Li algumas críticas do filme, mas até então não encontrei nenhuma que tratasse dessa duplicação das personagens; as que li tratam basicamente das referências, da metalinguagem e da cinefilia, características sem dúvida marcantes no filme.

Como não pretendo revelar a trama de um filme que ainda está no cinema, limitar-me-ei a advertir sobre essa peculiaridade. A estória revela três personagens que se duplicam, tornando-se, assim, seis. O mais óbvio é Harry C., pseudônimo do diretor Mateo; mas há ainda duas outras personagens que se atribuem heterônimos a fim de realizar certas façanhas ou escondê-las.

Os heterônimos, no entanto, surgem, são retomados ou se intensificam numa situação limite: a morte ou risco de morte de alguém próximo. Isso me parece bastante interessante, na medida em que a morte de outra pessoa (ou sua iminência) leva o personagem assumir outro nome, outra identidade.

A estória se desenvolve a partir de uma morte, que faz um heterônimo nascer e outro morrer: um pseudônimo é criado para perscrutar e revelar o passado do morto e outro praticamente se extingue, como se essa morte o tivesse libertado, ao lhe servir de ponto de partida para uma catártica volta ao passado.

Talvez os "abraços partidos" refiram-se mais à relação dos personagens com os seus heterônimos que às relações dos personagens entre si.

Mais não falo, agora. Não quero estragar surpresas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Tecnocracia e poesia, segundo Quintana

"Não pretendo que a poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual. Mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando assim mais próximo da natureza, mais por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia, nunca." (Quintana, Mario. A vaca e o Hipogrifo. P. 133)


sábado, 24 de outubro de 2009

Fungível

Fosse Kafka vivo, "A metamorfose" não trataria da transformação de Gregor Samsa num inseto. Gregor, após uma noite de insônia (e não de "sonhos inquietos"), transformar-se-ia numa máquina. Seu pai não sentiria repulsa, mas orgulho e, após refletir um pouco, o venderia.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Guichês e roletas: Estado mínimo, lucro máximo

De acordo com o liberalismo, os empreendimentos públicos devem buscar investimentos na iniciativa privada; desta forma, o Estado deve delegar a empresas a prestação de serviços públicos, reservando para si somente o poder de regulamentar e fiscalizar os serviços.

O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público às empresas que o exploram impede que o investimento necessário para realizar o empreendimento saia dos cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área, o que evita ou compensa os gastos públicos.

Mas não é tão simples assim. Em última instância, quem arcará com as despesas será usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão do local cobrará tarifas, a fim de cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar os gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.

E se o Estado abraçasse a atividade? Bom, nesse caso, o lucro não estaria em questão e o acesso a uma maior parcela da sociedade poderia ser viabilizado. Tratando-se do luxuoso Catamarã de Charitas (ver último post), em vez de lojas e restaurantes, poderia haver uma praça, um espaço aberto a todos, sem barreiras.

Pontes sem roletas e conseqüentemente sem tarifas (ou com tarifas baixas) não dão lucro e portanto não devem ser construídas; a iniciativa privada, patrocinadora - indispensável??? - do Poder Público (nome que parece ultrapassado – mais correto seria Poder Privado, não?), não investirá em “pontes” que não derem lucro. E, como sabemos, pontes autênticas não dão lucro: daí os muros disfarçados de pontes, com suas roletas, guichês e tarifas caras.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Muro disfarçado de ponte

Em tempos de segregação, é importante refletir sobre as ações do Estado diante do problema: o Poder Público tem construído pontes ou muros? As edificações públicas promovem a aproximação e a integração ou refletem e reforçam a discriminação? Será que as propaladas “pontes” erigidas pela Administração Pública permitem o trânsito de todos ou possuem barreiras em suas entradas e por isso funcionam, na verdade, como muros?

Parece que as pontes, os meios de ligação, possuem barreiras, as quais se abrem apenas a uma pequena parcela da população. Embora projetados pelo Estado, certos caminhos e meios de transporte públicos são inacessíveis a grande parte da coletividade. A fim de refletir sobre essa questão, analiso uma obra do Município de Niterói: a estação hidroviária de Charitas, projetada pelo aclamado Oscar Niemeyer.

Olhando a construção da calçada, veem-se as embarcações (que levam os passageiros até o centro do Rio em 15 ou 20 minutos) e o mar. Todavia, observando-a da areia, vê-se a enorme favela que se ergue no morro defronte. A pergunta que faço é a seguinte: de que maneira o dinheiro público investido nesse empreendimento beneficiou a integração e não a segregação? Os moradores da favela do Preventório, que abriga grande parte das pessoas que moram no referido bairro, têm acesso à belíssima obra de Niemeyer?


(A Estação vista da calçada)

A resposta é clara: o público da estação hidroviária não é morador de favelas. O bilhete hoje custa entre R$ 8,00 e 9,00 - mais de três vezes o valor da barca simples e quase duas vezes o valor da passagem dos ônibus que levam ao mesmo destino. Além da estação, há, no local, lojas cujo público alvo é a classe média e ainda um restaurante de luxo que ocupa o ápice da construção.

Ressalto que não sou contra a criação de novos meios para facilitar o tráfego de pessoas para o Rio; pelo contrário, reconheço a necessidade, tanto por conhecer a crise no trânsito em Niterói quanto pelo fato de que, como grande parte da população de Niterói, trabalho no Rio.

A questão é: por que o Município escolheu gastar dinheiro com esta obra específica e qual a parcela da população de Niterói é beneficiada?

Construir novas estações hidroviárias é importante, na medida em que desafoga o trânsito: as pessoas não precisam ir até o Centro de Niterói para pegar a embarcação até o Rio. Sem dúvida! Mas isso só seria relevante se o número de pessoas que os catamarãs luxuosos levam não fosse irrisório. Nos horários de pico, a barca leva 2000 pessoas e sai a cada 10 minutos. Os catamarãs levam 200 pessoas (10% da capacidade das barcas) e saem a cada 30 minutos. A viagem de uma barca equivale a 10 viagens do catamarã! Será que uma obra assinada por Niemeyer é um investimento proporcional ao ganho que de fato se obteve?

Quanto à segunda pergunta, é óbvio que o público da estação de Charitas é restrito, já que exige um gasto alto. Afinal, quem pode pagar mais que o dobro do que pagam os que vão de ônibus (pela ponte) ou barca (saindo do Centro)? Considerando que o mês possui em média 22 dias úteis (ida e volta) o valor mensal só com o catamarã - sem levar em consideração o preço do ônibus até a estação ou o estacionamento - é de R$ 396,00, ao passo que usando a barca o gasto mensal é de R$ 123,20 (e o preço da barca é caro – R$ 2,80), ou seja, menos de um terço.

Portanto, o que parece uma ponte, é na verdade um muro. Não só por essa barreira, mas também porque o ponto mais alto do prédio tem o acesso praticamente vedado àqueles que não puderem pagar caro por uma refeição. O que poderia ser um mirante, um museu, uma biblioteca pública ou uma praça - lugares acessíveis a todos -, é um restaurante de luxo. A obra é pública (seus gastos foram pagos pelo povo), mas os benefícios são privados, restritos a uma ínfima parcela dos habitantes da cidade. O engarrafamento para chegar ao Centro de Niterói piora a cada dia e as barcas populares continuam lotadas. Somente aqueles que podem pagar caro para passar pela roleta se livraram do problema. Uma "ponte" com roletas, guichês e bilhetes caros é um muro.


(O morro do Preventório visto da Estação)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Muros e pontes



Em vez de pontes, constroem-se muros. Bauman, sociólogo contemporâneo reconhecido pela profunda análise que desenvolve sobre a fluida pós-modernidade, escreve sobre a construção desses muros.

Em “Modernidade Líquida”, ao discorrer sobre “tempo/espaço”, o sociólogo descreve a cidade dos sonhos de G. Hazeldon - arquiteto inglês estabelecido na África do Sul -, a qual seria uma “versão high tech da aldeia medieval que abriga detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo”.

Qualquer semelhança com nossos condomínios não é mera coincidência: trata-se do mesmo fenômeno. Segundo o arquiteto, a principal questão hoje é a segurança; portanto, nada melhor que morar numa fortaleza segregada do mundo violento por “cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica, barreiras e guardas armados por todos os lados;” e dentro da cidade nada faltará: haverá lojas, igrejas, restaurantes teatros, áreas de lazer, florestas, playgrounds etc. e “há espaço livre suficiente para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa demandar no futuro”. É tudo bem simples: comprando uma casa no Heritage Park (nome da cidade de G. Hazeldon) ou em um supercondomínio da Barra, você viverá em paz e será feliz.

Tornar-se proprietário de uma unidade dentro desses oásis de segurança é a suposta solução para o problema. Mas de onde vem realmente a insegurança que sentimos? A solução é mesmo morar numa fortaleza, cujo acesso só é permitido a alguns? Não seria isso a redução do cidadão a mero condômino?

A “paz sem voz não é paz, é medo”. Cidadania diz respeito aos direitos políticos que permitem ao cidadão - habitante da cidade (do latim civitas) - a intervir na direção do Estado, a fazer uso da voz, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e em sua gestão. A palavra “política” origina-se do grego antigo “politeía”, que tratava dos procedimentos relativos à polis, cidade-estado da Grécia antiga.

Como já alertado por muitos, a propagação do medo - fomentada pelas notícias sobre o perigo em cada esquina - é proporcional ao vertiginoso crescimento da indústria da vigilância. Será que a causa do nosso problema é mesmo a sempre acusada violência? A violência não seria uma conseqüência, um sintoma? Toda a insegurança que sentimos vem da violência?

Ao acreditar que o problema é a insegurança (cujas causas não são analisadas com clareza pela maior parte das pessoas) e, assim, aceitar a “solução” proposta, que consiste em se proteger do mundo segregando-se voluntariamente em um “espaço seguro”, o papel de cidadão é substituído pelo de condômino. Nesse contexto, a resolução do problema, que deveria advir da política (esfera pública) - atentando-se para as verdadeiras causas da insegurança -, passa à esfera individual: basta comprar um espaço seguro. Ao adquirir um apartamento numa fortaleza posso acabar com a MINHA insegurança. (Mas a insegurança não seria NOSSA?). Os condomínios-fortaleza são uma pseudo-solução individual para um problema coletivo.

Reduzir o problema a um de seus sintomas é negar a realidade e, desta forma, obstruir o caminho que deve ser tomado para alcançar uma verdadeira mudança. O discurso de que a violência é a causa de todos os males apenas aprofunda o abismo da segregação e reforça a pseudo-solução individualista. A solução eficaz não pode ser comprada; ela não está à venda no supermercado ou no shopping: a solução está além dos muros e fossos dos condomínios; a solução é construir pontes, tarefa que só pode ser executada por cidadãos.

A primeira foto (acima) decompõe-se em duas imagens, que representam, respectivamente, a segregação voluntária (condomínios de luxo) e segregação compulsória (favela):



sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de setembro

11/09 é de fato uma data marcante.

Principalmente para os chilenos. Hoje, 11/09/2009, faz 36 anos que os EUA derrubaram Salvador Allende, promovendo a ditadura de Pinochet, que matou muito mais pessoas inocentes que o atentado de 2001. Um erro não justifica o outro; mas não devemos menosprezar os danos causados pelo terrorismo de Estado que os EUA promoveram na América Latina.

Não foi um ato isolado como o sequestro dos aviões, mas uma ditadura que durou décadas e matou e torturou os cidadãos de um Estado que até então era democrático.

Porém o 11/09/1973 foi esquecido. O terrorismo de Estado (v. Chomsky) parece não ter o mesmo efeito que o terrorismo perpetrado por grupos e pessoas.

Hoje os EUA, na posição de "vítimas" do terrorismo, justificam a invasão de outros Estados, que julgam fracassados, autoritários; o discurso que os "legitima" é a "promoção da democracia".

Lembremos que hoje faz 36 anos que os atuais "promotores mundiais da democracia" derrubaram Salvador Allende, implantando a ditadura e causando a morte de inocentes.