sábado, 31 de outubro de 2009
Tecnocracia e poesia, segundo Quintana
"Não pretendo que a poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual. Mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando assim mais próximo da natureza, mais por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia, nunca." (Quintana, Mario. A vaca e o Hipogrifo. P. 133)
sábado, 24 de outubro de 2009
Fungível
Fosse Kafka vivo, "A metamorfose" não trataria da transformação de Gregor Samsa num inseto. Gregor, após uma noite de insônia (e não de "sonhos inquietos"), transformar-se-ia numa máquina. Seu pai não sentiria repulsa, mas orgulho e, após refletir um pouco, o venderia.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
Guichês e roletas: Estado mínimo, lucro máximo
De acordo com o liberalismo, os empreendimentos públicos devem buscar investimentos na iniciativa privada; desta forma, o Estado deve delegar a empresas a prestação de serviços públicos, reservando para si somente o poder de regulamentar e fiscalizar os serviços.
O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público às empresas que o exploram impede que o investimento necessário para realizar o empreendimento saia dos cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área, o que evita ou compensa os gastos públicos.
Mas não é tão simples assim. Em última instância, quem arcará com as despesas será usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão do local cobrará tarifas, a fim de cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar os gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.
E se o Estado abraçasse a atividade? Bom, nesse caso, o lucro não estaria em questão e o acesso a uma maior parcela da sociedade poderia ser viabilizado. Tratando-se do luxuoso Catamarã de Charitas (ver último post), em vez de lojas e restaurantes, poderia haver uma praça, um espaço aberto a todos, sem barreiras.
Pontes sem roletas e conseqüentemente sem tarifas (ou com tarifas baixas) não dão lucro e portanto não devem ser construídas; a iniciativa privada, patrocinadora - indispensável??? - do Poder Público (nome que parece ultrapassado – mais correto seria Poder Privado, não?), não investirá em “pontes” que não derem lucro. E, como sabemos, pontes autênticas não dão lucro: daí os muros disfarçados de pontes, com suas roletas, guichês e tarifas caras.
O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público às empresas que o exploram impede que o investimento necessário para realizar o empreendimento saia dos cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área, o que evita ou compensa os gastos públicos.
Mas não é tão simples assim. Em última instância, quem arcará com as despesas será usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão do local cobrará tarifas, a fim de cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar os gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.
E se o Estado abraçasse a atividade? Bom, nesse caso, o lucro não estaria em questão e o acesso a uma maior parcela da sociedade poderia ser viabilizado. Tratando-se do luxuoso Catamarã de Charitas (ver último post), em vez de lojas e restaurantes, poderia haver uma praça, um espaço aberto a todos, sem barreiras.
Pontes sem roletas e conseqüentemente sem tarifas (ou com tarifas baixas) não dão lucro e portanto não devem ser construídas; a iniciativa privada, patrocinadora - indispensável??? - do Poder Público (nome que parece ultrapassado – mais correto seria Poder Privado, não?), não investirá em “pontes” que não derem lucro. E, como sabemos, pontes autênticas não dão lucro: daí os muros disfarçados de pontes, com suas roletas, guichês e tarifas caras.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Muro disfarçado de ponte
Em tempos de segregação, é importante refletir sobre as ações do Estado diante do problema: o Poder Público tem construído pontes ou muros? As edificações públicas promovem a aproximação e a integração ou refletem e reforçam a discriminação? Será que as propaladas “pontes” erigidas pela Administração Pública permitem o trânsito de todos ou possuem barreiras em suas entradas e por isso funcionam, na verdade, como muros?
Parece que as pontes, os meios de ligação, possuem barreiras, as quais se abrem apenas a uma pequena parcela da população. Embora projetados pelo Estado, certos caminhos e meios de transporte públicos são inacessíveis a grande parte da coletividade. A fim de refletir sobre essa questão, analiso uma obra do Município de Niterói: a estação hidroviária de Charitas, projetada pelo aclamado Oscar Niemeyer.
Olhando a construção da calçada, veem-se as embarcações (que levam os passageiros até o centro do Rio em 15 ou 20 minutos) e o mar. Todavia, observando-a da areia, vê-se a enorme favela que se ergue no morro defronte. A pergunta que faço é a seguinte: de que maneira o dinheiro público investido nesse empreendimento beneficiou a integração e não a segregação? Os moradores da favela do Preventório, que abriga grande parte das pessoas que moram no referido bairro, têm acesso à belíssima obra de Niemeyer?

(A Estação vista da calçada)
A resposta é clara: o público da estação hidroviária não é morador de favelas. O bilhete hoje custa entre R$ 8,00 e 9,00 - mais de três vezes o valor da barca simples e quase duas vezes o valor da passagem dos ônibus que levam ao mesmo destino. Além da estação, há, no local, lojas cujo público alvo é a classe média e ainda um restaurante de luxo que ocupa o ápice da construção.
Ressalto que não sou contra a criação de novos meios para facilitar o tráfego de pessoas para o Rio; pelo contrário, reconheço a necessidade, tanto por conhecer a crise no trânsito em Niterói quanto pelo fato de que, como grande parte da população de Niterói, trabalho no Rio.
A questão é: por que o Município escolheu gastar dinheiro com esta obra específica e qual a parcela da população de Niterói é beneficiada?
Construir novas estações hidroviárias é importante, na medida em que desafoga o trânsito: as pessoas não precisam ir até o Centro de Niterói para pegar a embarcação até o Rio. Sem dúvida! Mas isso só seria relevante se o número de pessoas que os catamarãs luxuosos levam não fosse irrisório. Nos horários de pico, a barca leva 2000 pessoas e sai a cada 10 minutos. Os catamarãs levam 200 pessoas (10% da capacidade das barcas) e saem a cada 30 minutos. A viagem de uma barca equivale a 10 viagens do catamarã! Será que uma obra assinada por Niemeyer é um investimento proporcional ao ganho que de fato se obteve?
Quanto à segunda pergunta, é óbvio que o público da estação de Charitas é restrito, já que exige um gasto alto. Afinal, quem pode pagar mais que o dobro do que pagam os que vão de ônibus (pela ponte) ou barca (saindo do Centro)? Considerando que o mês possui em média 22 dias úteis (ida e volta) o valor mensal só com o catamarã - sem levar em consideração o preço do ônibus até a estação ou o estacionamento - é de R$ 396,00, ao passo que usando a barca o gasto mensal é de R$ 123,20 (e o preço da barca é caro – R$ 2,80), ou seja, menos de um terço.
Portanto, o que parece uma ponte, é na verdade um muro. Não só por essa barreira, mas também porque o ponto mais alto do prédio tem o acesso praticamente vedado àqueles que não puderem pagar caro por uma refeição. O que poderia ser um mirante, um museu, uma biblioteca pública ou uma praça - lugares acessíveis a todos -, é um restaurante de luxo. A obra é pública (seus gastos foram pagos pelo povo), mas os benefícios são privados, restritos a uma ínfima parcela dos habitantes da cidade. O engarrafamento para chegar ao Centro de Niterói piora a cada dia e as barcas populares continuam lotadas. Somente aqueles que podem pagar caro para passar pela roleta se livraram do problema. Uma "ponte" com roletas, guichês e bilhetes caros é um muro.

(O morro do Preventório visto da Estação)
Parece que as pontes, os meios de ligação, possuem barreiras, as quais se abrem apenas a uma pequena parcela da população. Embora projetados pelo Estado, certos caminhos e meios de transporte públicos são inacessíveis a grande parte da coletividade. A fim de refletir sobre essa questão, analiso uma obra do Município de Niterói: a estação hidroviária de Charitas, projetada pelo aclamado Oscar Niemeyer.
Olhando a construção da calçada, veem-se as embarcações (que levam os passageiros até o centro do Rio em 15 ou 20 minutos) e o mar. Todavia, observando-a da areia, vê-se a enorme favela que se ergue no morro defronte. A pergunta que faço é a seguinte: de que maneira o dinheiro público investido nesse empreendimento beneficiou a integração e não a segregação? Os moradores da favela do Preventório, que abriga grande parte das pessoas que moram no referido bairro, têm acesso à belíssima obra de Niemeyer?
(A Estação vista da calçada)
A resposta é clara: o público da estação hidroviária não é morador de favelas. O bilhete hoje custa entre R$ 8,00 e 9,00 - mais de três vezes o valor da barca simples e quase duas vezes o valor da passagem dos ônibus que levam ao mesmo destino. Além da estação, há, no local, lojas cujo público alvo é a classe média e ainda um restaurante de luxo que ocupa o ápice da construção.
Ressalto que não sou contra a criação de novos meios para facilitar o tráfego de pessoas para o Rio; pelo contrário, reconheço a necessidade, tanto por conhecer a crise no trânsito em Niterói quanto pelo fato de que, como grande parte da população de Niterói, trabalho no Rio.
A questão é: por que o Município escolheu gastar dinheiro com esta obra específica e qual a parcela da população de Niterói é beneficiada?
Construir novas estações hidroviárias é importante, na medida em que desafoga o trânsito: as pessoas não precisam ir até o Centro de Niterói para pegar a embarcação até o Rio. Sem dúvida! Mas isso só seria relevante se o número de pessoas que os catamarãs luxuosos levam não fosse irrisório. Nos horários de pico, a barca leva 2000 pessoas e sai a cada 10 minutos. Os catamarãs levam 200 pessoas (10% da capacidade das barcas) e saem a cada 30 minutos. A viagem de uma barca equivale a 10 viagens do catamarã! Será que uma obra assinada por Niemeyer é um investimento proporcional ao ganho que de fato se obteve?
Quanto à segunda pergunta, é óbvio que o público da estação de Charitas é restrito, já que exige um gasto alto. Afinal, quem pode pagar mais que o dobro do que pagam os que vão de ônibus (pela ponte) ou barca (saindo do Centro)? Considerando que o mês possui em média 22 dias úteis (ida e volta) o valor mensal só com o catamarã - sem levar em consideração o preço do ônibus até a estação ou o estacionamento - é de R$ 396,00, ao passo que usando a barca o gasto mensal é de R$ 123,20 (e o preço da barca é caro – R$ 2,80), ou seja, menos de um terço.
Portanto, o que parece uma ponte, é na verdade um muro. Não só por essa barreira, mas também porque o ponto mais alto do prédio tem o acesso praticamente vedado àqueles que não puderem pagar caro por uma refeição. O que poderia ser um mirante, um museu, uma biblioteca pública ou uma praça - lugares acessíveis a todos -, é um restaurante de luxo. A obra é pública (seus gastos foram pagos pelo povo), mas os benefícios são privados, restritos a uma ínfima parcela dos habitantes da cidade. O engarrafamento para chegar ao Centro de Niterói piora a cada dia e as barcas populares continuam lotadas. Somente aqueles que podem pagar caro para passar pela roleta se livraram do problema. Uma "ponte" com roletas, guichês e bilhetes caros é um muro.
(O morro do Preventório visto da Estação)
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Muros e pontes
Em vez de pontes, constroem-se muros. Bauman, sociólogo contemporâneo reconhecido pela profunda análise que desenvolve sobre a fluida pós-modernidade, escreve sobre a construção desses muros.
Em “Modernidade Líquida”, ao discorrer sobre “tempo/espaço”, o sociólogo descreve a cidade dos sonhos de G. Hazeldon - arquiteto inglês estabelecido na África do Sul -, a qual seria uma “versão high tech da aldeia medieval que abriga detrás de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadiças uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo”.
Qualquer semelhança com nossos condomínios não é mera coincidência: trata-se do mesmo fenômeno. Segundo o arquiteto, a principal questão hoje é a segurança; portanto, nada melhor que morar numa fortaleza segregada do mundo violento por “cercas elétricas de alta voltagem, vigilância eletrônica, barreiras e guardas armados por todos os lados;” e dentro da cidade nada faltará: haverá lojas, igrejas, restaurantes teatros, áreas de lazer, florestas, playgrounds etc. e “há espaço livre suficiente para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa demandar no futuro”. É tudo bem simples: comprando uma casa no Heritage Park (nome da cidade de G. Hazeldon) ou em um supercondomínio da Barra, você viverá em paz e será feliz.
Tornar-se proprietário de uma unidade dentro desses oásis de segurança é a suposta solução para o problema. Mas de onde vem realmente a insegurança que sentimos? A solução é mesmo morar numa fortaleza, cujo acesso só é permitido a alguns? Não seria isso a redução do cidadão a mero condômino?
A “paz sem voz não é paz, é medo”. Cidadania diz respeito aos direitos políticos que permitem ao cidadão - habitante da cidade (do latim civitas) - a intervir na direção do Estado, a fazer uso da voz, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e em sua gestão. A palavra “política” origina-se do grego antigo “politeía”, que tratava dos procedimentos relativos à polis, cidade-estado da Grécia antiga.
Como já alertado por muitos, a propagação do medo - fomentada pelas notícias sobre o perigo em cada esquina - é proporcional ao vertiginoso crescimento da indústria da vigilância. Será que a causa do nosso problema é mesmo a sempre acusada violência? A violência não seria uma conseqüência, um sintoma? Toda a insegurança que sentimos vem da violência?
Ao acreditar que o problema é a insegurança (cujas causas não são analisadas com clareza pela maior parte das pessoas) e, assim, aceitar a “solução” proposta, que consiste em se proteger do mundo segregando-se voluntariamente em um “espaço seguro”, o papel de cidadão é substituído pelo de condômino. Nesse contexto, a resolução do problema, que deveria advir da política (esfera pública) - atentando-se para as verdadeiras causas da insegurança -, passa à esfera individual: basta comprar um espaço seguro. Ao adquirir um apartamento numa fortaleza posso acabar com a MINHA insegurança. (Mas a insegurança não seria NOSSA?). Os condomínios-fortaleza são uma pseudo-solução individual para um problema coletivo.
Reduzir o problema a um de seus sintomas é negar a realidade e, desta forma, obstruir o caminho que deve ser tomado para alcançar uma verdadeira mudança. O discurso de que a violência é a causa de todos os males apenas aprofunda o abismo da segregação e reforça a pseudo-solução individualista. A solução eficaz não pode ser comprada; ela não está à venda no supermercado ou no shopping: a solução está além dos muros e fossos dos condomínios; a solução é construir pontes, tarefa que só pode ser executada por cidadãos.
A primeira foto (acima) decompõe-se em duas imagens, que representam, respectivamente, a segregação voluntária (condomínios de luxo) e segregação compulsória (favela):

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
11 de setembro
11/09 é de fato uma data marcante.
Principalmente para os chilenos. Hoje, 11/09/2009, faz 36 anos que os EUA derrubaram Salvador Allende, promovendo a ditadura de Pinochet, que matou muito mais pessoas inocentes que o atentado de 2001. Um erro não justifica o outro; mas não devemos menosprezar os danos causados pelo terrorismo de Estado que os EUA promoveram na América Latina.
Não foi um ato isolado como o sequestro dos aviões, mas uma ditadura que durou décadas e matou e torturou os cidadãos de um Estado que até então era democrático.
Porém o 11/09/1973 foi esquecido. O terrorismo de Estado (v. Chomsky) parece não ter o mesmo efeito que o terrorismo perpetrado por grupos e pessoas.
Hoje os EUA, na posição de "vítimas" do terrorismo, justificam a invasão de outros Estados, que julgam fracassados, autoritários; o discurso que os "legitima" é a "promoção da democracia".
Lembremos que hoje faz 36 anos que os atuais "promotores mundiais da democracia" derrubaram Salvador Allende, implantando a ditadura e causando a morte de inocentes.
Principalmente para os chilenos. Hoje, 11/09/2009, faz 36 anos que os EUA derrubaram Salvador Allende, promovendo a ditadura de Pinochet, que matou muito mais pessoas inocentes que o atentado de 2001. Um erro não justifica o outro; mas não devemos menosprezar os danos causados pelo terrorismo de Estado que os EUA promoveram na América Latina.
Não foi um ato isolado como o sequestro dos aviões, mas uma ditadura que durou décadas e matou e torturou os cidadãos de um Estado que até então era democrático.
Porém o 11/09/1973 foi esquecido. O terrorismo de Estado (v. Chomsky) parece não ter o mesmo efeito que o terrorismo perpetrado por grupos e pessoas.
Hoje os EUA, na posição de "vítimas" do terrorismo, justificam a invasão de outros Estados, que julgam fracassados, autoritários; o discurso que os "legitima" é a "promoção da democracia".
Lembremos que hoje faz 36 anos que os atuais "promotores mundiais da democracia" derrubaram Salvador Allende, implantando a ditadura e causando a morte de inocentes.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Chuva de imagens
Italo Calvino começa sua conferência sobre a visibilidade citando um verso de Dante no “Purgatório” (XVII, 25): “Chove dentro da alta fantasia”.* Neste trecho de “A divina comédia”, a personagem percorre o círculo dos coléricos, onde “contempla imagens que se formam diretamente em seu espírito, e que representam exemplos clássicos e bíblicos de punição da ira; Dante compreende que essas imagens chovem do céu, ou seja, que Deus as envia.”
E, no começo do Canto XVII - antes da projeção direta de imagens em sua mente -, Dante descreve a cegueira causada por uma “névoa densa”, a qual teve que atravessar:
“Se alguma vez, leitor, em alguma alpina cordilheira foste surpreendido por névoa densa, através da qual não podias enxergar, igualados que ficaram teus olhos aos da toupeira, recorde-te de que ao principiar a descerrar-se a cortina úmida e espessa iam-se infiltrando débeis raios de sol.”
Esta cegueira causada pela névoa espessa - e a ansiedade de atravessá-la - seguida pela projeção de imagens assemelha-se muito ao que sinto quando vou ao cinema: a escuridão que antecede a projeção do filme é como a névoa densa, e a luz que me liberta desta cortina é a que revela as imagens na tela.
As cenas projetadas são como os pensamentos, os sonhos; o cinema tem essa capacidade de apresentar seqüências de imagens e de manipular o tempo, tal qual fazemos ao imaginarmos. Quando lembramos de algo, fantasiamos sobre um desejo ou pensamos sobre uma estória, projetam-se cenas em nossa mente. Geralmente controlamos nossos pensamentos e escolhemos por onde seguiremos. Algumas vezes, no entanto, enveredamos por caminhos que não são tão agradáveis de percorrer, mas mesmo assim seguimos, apesar do mal estar que certas cenas (que existiram de fato ou que criamos) nos causam; não é sempre que conseguimos dirigir nossos filmes internos.
Embora seja óbvio, vale a pena ressaltar que as palavras “imaginação” e “imagem” pertencem à mesma família etimológica; ou seja, a língua não ignora que fantasiamos por meio de imagens.
Quando lemos ou assistimos a um filme, aderimos à seqüência de imagens sugerida por outrem. Ao ler um romance, as palavras despertam imagens dentro de nós, a tela onde se projeta a estória é interna. Essa relação entre as imagens e as palavras é muito interessante, pois o escritor, ao descrever um fato, transforma sua representação interna em palavras, e o leitor, ao se deparar com as descrições, transforma aquelas palavras em imagens dentro de si.
O cinema, por sua vez, parte da imagem; portanto, assistir a um filme parece ser o que mais se aproxima da experiência de vislumbrar um sonho alheio. Chovem imagens na tela e as nuvens das quais elas caem são formadas pela imaginação do cineasta, que escolheu como criar as cenas; as câmeras as condensam e o projetor as precipita. A chuva de cenas irriga nossos pensamentos, desperta emoções, traz lembranças, nos leva a refletir sobre a estória, a nos identificar etc.
Ir ao cinema pode ser tão catártico como tomar um banho de chuva no verão. Quem já passou uma tarde de fevereiro brincando ao ar livre, sob o sol escaldante e, no fim da tarde, suado, foi surpreendido por uma torrencial chuva de verão, cujos primeiros pingos parecem evaporar antes mesmo de tocar o chão - você se lembra do cheiro desse vapor? -, sabe do que estou falando.
Para mim, a música que melhor representa o fascínio que o cinema pode causar é “Cinema Olympia” (Caetano), na versão de Elis, ao vivo.
“Não quero mais essas tardes mornas, normais
Não quero mais vídeo-tapes, mormaço, março, abril
Eu quero pulgas mil na geral, eu quero a geral
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar para mim, pra você
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Tom Mix, Buk Jones tela e palco
Sorvetes e vedetes socos e coladas
Espartilhos, pernas e gatilhos, atilhos e gargalhada geral
Do meio-dia até o anoitecer
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia”
Não há por que me estender em comentários sobre a letra; basta-me salientar a ligação da música com a letra: Elis começa cantando lentamente sobre as “tardes mornas” e vai acelerando, crescendo; na estrofe seguinte canta sobre o que quer a fim de fugir das “tardes normais”, e no refrão chega ao êxtase ao falar do lugar onde encontrará “gargalhada geral do meio dia até o anoitecer”. A interpretação de Elis é tão incrível que torna minhas análises sobre “Cinema Olympia” inúteis. Para sentir o deslumbramento cantado por Elis, só há uma forma: ir ao cinema e se deixar encharcar pelas imagens que chovem na tela.
Nota
* CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 97.
E, no começo do Canto XVII - antes da projeção direta de imagens em sua mente -, Dante descreve a cegueira causada por uma “névoa densa”, a qual teve que atravessar:
“Se alguma vez, leitor, em alguma alpina cordilheira foste surpreendido por névoa densa, através da qual não podias enxergar, igualados que ficaram teus olhos aos da toupeira, recorde-te de que ao principiar a descerrar-se a cortina úmida e espessa iam-se infiltrando débeis raios de sol.”
Esta cegueira causada pela névoa espessa - e a ansiedade de atravessá-la - seguida pela projeção de imagens assemelha-se muito ao que sinto quando vou ao cinema: a escuridão que antecede a projeção do filme é como a névoa densa, e a luz que me liberta desta cortina é a que revela as imagens na tela.
As cenas projetadas são como os pensamentos, os sonhos; o cinema tem essa capacidade de apresentar seqüências de imagens e de manipular o tempo, tal qual fazemos ao imaginarmos. Quando lembramos de algo, fantasiamos sobre um desejo ou pensamos sobre uma estória, projetam-se cenas em nossa mente. Geralmente controlamos nossos pensamentos e escolhemos por onde seguiremos. Algumas vezes, no entanto, enveredamos por caminhos que não são tão agradáveis de percorrer, mas mesmo assim seguimos, apesar do mal estar que certas cenas (que existiram de fato ou que criamos) nos causam; não é sempre que conseguimos dirigir nossos filmes internos.
Embora seja óbvio, vale a pena ressaltar que as palavras “imaginação” e “imagem” pertencem à mesma família etimológica; ou seja, a língua não ignora que fantasiamos por meio de imagens.
Quando lemos ou assistimos a um filme, aderimos à seqüência de imagens sugerida por outrem. Ao ler um romance, as palavras despertam imagens dentro de nós, a tela onde se projeta a estória é interna. Essa relação entre as imagens e as palavras é muito interessante, pois o escritor, ao descrever um fato, transforma sua representação interna em palavras, e o leitor, ao se deparar com as descrições, transforma aquelas palavras em imagens dentro de si.
O cinema, por sua vez, parte da imagem; portanto, assistir a um filme parece ser o que mais se aproxima da experiência de vislumbrar um sonho alheio. Chovem imagens na tela e as nuvens das quais elas caem são formadas pela imaginação do cineasta, que escolheu como criar as cenas; as câmeras as condensam e o projetor as precipita. A chuva de cenas irriga nossos pensamentos, desperta emoções, traz lembranças, nos leva a refletir sobre a estória, a nos identificar etc.
Ir ao cinema pode ser tão catártico como tomar um banho de chuva no verão. Quem já passou uma tarde de fevereiro brincando ao ar livre, sob o sol escaldante e, no fim da tarde, suado, foi surpreendido por uma torrencial chuva de verão, cujos primeiros pingos parecem evaporar antes mesmo de tocar o chão - você se lembra do cheiro desse vapor? -, sabe do que estou falando.
Para mim, a música que melhor representa o fascínio que o cinema pode causar é “Cinema Olympia” (Caetano), na versão de Elis, ao vivo.
“Não quero mais essas tardes mornas, normais
Não quero mais vídeo-tapes, mormaço, março, abril
Eu quero pulgas mil na geral, eu quero a geral
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar para mim, pra você
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Tom Mix, Buk Jones tela e palco
Sorvetes e vedetes socos e coladas
Espartilhos, pernas e gatilhos, atilhos e gargalhada geral
Do meio-dia até o anoitecer
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia
Na matiné do cinema Olympia, do cinema Olympia”
Não há por que me estender em comentários sobre a letra; basta-me salientar a ligação da música com a letra: Elis começa cantando lentamente sobre as “tardes mornas” e vai acelerando, crescendo; na estrofe seguinte canta sobre o que quer a fim de fugir das “tardes normais”, e no refrão chega ao êxtase ao falar do lugar onde encontrará “gargalhada geral do meio dia até o anoitecer”. A interpretação de Elis é tão incrível que torna minhas análises sobre “Cinema Olympia” inúteis. Para sentir o deslumbramento cantado por Elis, só há uma forma: ir ao cinema e se deixar encharcar pelas imagens que chovem na tela.
Nota
* CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio. Tradução: Ivo Barroso. 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Pág. 97.
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