sexta-feira, 23 de junho de 2017

viole(n)ta em mar trigueiro



Violeta, violenta,
Passividade ativa,
tem consciência da sua condição,
sua cor é teu nome,
sua forma, atração.

Seu pólen se dispersa no ar
alcançando o desejo alheio.
Despertando ao desabrochar.

Num mar trigueiro
violenta é sua cor
Abre-se por inteiro
entregando-se ao seu admirador.

O tempo seu, só seu, mulher,
Flor, dona de si, se dá por prazer,
se abre pra quem quer.


só te promerti

O que te prometi

G / D / A / E - 4 X

D7 / A7

um tom abaixo:

F / C / G / D

C7 / G7

Eu só te prometi
O que eu posso ser
Te fiz sorrir
Dizendo nada ter

Falei de tudo
Que vou lhe dar
Mãos atadas, beijos loucos
Sorrisos e o meu cantar

C7 / G7
Jurei pra sempre
Só na hora
O amor eterno
Do agora


Eu só te prometi
O que eu posso ser
Te fiz sorrir
Dizendo nada ter














quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Medo deslocado



A foto de um funcionário de escritório trabalhando de capacete incomoda pelo deslocamento. O capacete sobra, se mostra excessivo, desnecessário, até ridículo. Mas a imagem suscita a discussão do deslocamento, a coisa fora de lugar. E isso acontece com o medo. Bauman defende a ideia de que as pessoas em geral não conhecem a causa da sua insegurança, direcionando o discurso de reação a fatores que nada tem a ver com a causa real do medo. Segundo Bauman, enquanto a maioria das pessoas acha que o medo vem de crimes brutais noticiados a toda hora pela mídia (e aí a culpa recai sobre grupos "diferentes", no caso dos imigrantes na Europa, e de mais pobres no Brasil), a causa real é estrutural e diz respeito ao fim do estado de bem-estar social, ao avanço neoliberal, lançando as pessoas à própria sorte e recursos particulares, em sociedades historicamente desiguais. No fim, o medo e a reação são direcionados a outras vítimas e não à causa real. Se acha o medo do funcionário da foto ridículo, talvez possa se indagar sobre o seu.    

sábado, 28 de janeiro de 2017

Ninguém liga pro Daniel Blake

O filme começa com palavras num fundo negro: apenas um diálogo. Um homem e uma mulher falam sobre o questionário para obter benefício previdenciário. Muitas frases são ditas antes que as imagens venham à luz. O diretor é um parteiro de imagens sóbrias, realistas, em tons azuis acinzentados e focos originais. O filme tem cortes bem marcados de tempos em tempos, indicando a passagem de períodos: segundos de tela negra e silêncio destacam trechos da obra.

A narrativa mira a burocracia, a frieza, a falta de humanidade, o despreparo programado dos técnicos, que negam benefícios vitais para pessoas mais pobres, numa sociedade claramente desigual. Mira, sobretudo, o estado, a máquina pública e os vilões são os gerentes do instituto de previdência britânico. Daniel Blake, carpinteiro há mais de 40 anos, viúvo, morador de uma cidade média, sofreu um infarto, quase morreu. Sua médica o proibiu de trabalhar. Porém, mesmo com o laudo, o benefício lhe foi negado. Daniel não é um homem paciente, submisso; é um homem ciente dos seus direitos, astuto, tem o dom da ironia, a simpatia de um homem experiente, que convive em harmonia com vizinhos pobres, imigrantes.

A trama pode lembrar “o processo” de Kafka, mas é muito mais realista, embora as exigências e a falta de abertura ao diálogo nos deixem mareados, enjoados, irritados, tensos. Blake tenta, fala, grita e, ao presenciar o absurdo da negativa de atendimento a uma mulher jovem com duas crianças, toma partido, em defesa da mãe desnorteada. Ambos terminam expulsos da unidade, agressivamente. E daí começam uma amizade.

Há cenas que expõem a globalização, quando um vizinho de Daniel recebe pares de tenis da china para revender na cidade, e também com a multietnicidade das personagens, além da conversa por vídeo com o chinês apaixonado por futebol. O filme revela a vida, os impasses, os dramas de Daniel e Katie, que está longe da família e sem dinheiro. O filme é realista e delicado.

A narrativa tem sua poesia, com os dons artísticos do senhor solitário que faz peixinhos de madeira para pendurar no teto, rendendo belas imagens dos bichinhos contra a luz da janela, por onde entra alguma luz para aquecer a casa e a vida em crise de pessoas que estão isoladas e sem meios de subsistência. Os peixinhos de madeira me lembraram os de ouro de Aureliano Buendia (Cem anos de Solidão). 

E a trama remete também a outra obra de  Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana. 

Blake lembra também a Clara de Aquarius: um homem com dignidade, força, história e uma disposição de lutar, mesmo que o coração já esteja enfraquecido. Nenhum dos dois se submete. Uma das cenas mais marcantes é quando Daniel inscreve seu recurso fora do lugar, numa superfície pública, aberta. O fato de escrever diz muito. A palavra. Mais uma vez. Se o diálogo inaugural tinha o fundo negro, agora a palavra se expõe aberta. Um homem pobre, um homem machucado pela vida, com roupas velhas, bêbado começa a defender Daniel e faz um belo discurso, se identificando também como uma vítima do governo, “dos gordos com suas taxas”.

Em tempos de governantes que apagam arte, pichar pode ser um meio de dizer (qual o lugar da arte?). E qual o lugar do poder econômico? O filme é magnífico, o diretor Ken Loach faz um trabalho excelente, porém penso que a narrativa poderia abordar mais a vinculação do poder privado ao público, as relações econômicas capitalistas que criam e reproduzem a desigualdade, a exploração, a negação da dignidade de forma sistemática. Os vilões do filme, burocratas do estado, só fazem o trabalho sujo para os empresários ricos.

E a palavra, ao final, surge com um discurso deslocado, agora não de superfície mas de personagem, um discurso que vai além. Um recurso/discurso que é escrito e acaba lido fora da repartição, longe do seu lugar, um recurso que lembra a carta não enviada, que segundo Lacan seria para o grande Outro. O filme é como a mensagem, e lá como aqui vemos idosos tendo que trabalhar, mesmo doentes, para sobreviver e todo avanço neoliberal de privatização, redução do estado. Pode ser que amanhã ninguém nos escreva. 



Eu, Daniel Blake

Ficção
Reino Unido / França - 2016
Direção:

KEN LOACH
Roteiro:

PAUL LAVERTY

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Fala falo

coração tem fama de gamadão:
projeta-se por todo lado
pintado, digital ou à mão.
embora more, no peito, entocado,
é bateria da vida, percussão.

tão profundo, fechado,
é usado pra falar do amor.
ah, coração apertado,
tem fama de Don Juan do corpo,
intenso e conquistador,
escute aqui outro pedaço
tirar onda de trovador.

trema corpo, repercuta inteiro,
tira roupa, surja, apareça,
um pedaço de devaneio,
que eu diga, declame e cresça.

se você, coração, ama demais,
o que dirá quem é abraçado,
tocado, cheio de tramas sensoriais?

falo! falo mesmo! Digo, grito,
instigo, provoco: te amo, amo!
não, não sou nenhum maldito,
o coração se declara, eu me derramo.





sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amizade (conto)

Risadinha tá foda hoje! Impossível! Rá, rá, rá!”, disse o homem barbudo, que usava roupas surradas e segurava uma bolsa velha.
Você sabe o que o papagaio disse pra dona?”, continuou Risadinha, enquanto o homem barbudo gargalhava, tremia de tanto rir, com o corpo arqueado e o rosto enrugado.
Risadinha, Risadinha, conta aquela, conta aquela, a do político! Rá, rá, rá!”, pediu o homem, e Risadinha soltou sua risada longa, de vários tons, aquela sua risada de plateia, de claque, que se misturou com a risada do homem barbudo, mais uma entre as várias gargalhadas que tomavam a praça.
Ah, Risadinha, você conta o que quer, na hora que quer - puta que o pariu! Rá, rá, rá! Mas sabe contar piada! Mas é um filha da puta que sabe contar piada! Rá, rá, rá!”, disse o barbudo, largando sua bolsa no chão.
Estava o presidente sobrevoando uma cidade do interior quando...”, continuou Risadinha.
Essa, é essa, seu safado! Mas que filha da puta! Rá, rá, rá!”
Ô Risadinha, segura sua onda aí! Pode escutar, rir, mas ficar xingando, não! Olha as senhoras passando aí; você tá na praça, na cidade, não dá pra ficar esculhambando, não! Mais respeito!”, falou o vendedor de pipoca para o homem barbudo, que estava cada vez mais agitado.
É todo dia isso! Parece uma novela! Esse Risadinha aí com essas piadas!”, gritou o jornaleiro, dando um passo pra fora da banca de jornal e apontando pro barbudo, enquanto se dirigia ao pipoqueiro.
Aí o padre olhou para a moça e disse que...”, prosseguia Risadinha.
Ah, não enche, não enche! Esse Risadinha é que acaba comigo! Rá, rá, rá! Vocês querem o quê?! Ele me mata com essas piadas! Ele é foda! Rá, rá, rá!”, respondeu o barbudo.
Pega leve, Risadinha, pega leve! Senão você me prejudica; eu tô aqui querendo vender meus cedês; assim você espanta a clientela”, falou o vendedor, diante da sua barraquinha.
Mas não é pra rir? Mas não é pra se escangalhar de rir com uma porra dessa? Rá, rá, rá”, respondeu o barbudo, com o corpo arqueado, uma mão na barriga, o outro braço estendido.
Ele hoje tá impossível! Risadinha, Risadinha, segura sua onda! O Zé da pipoca já tá furioso com sua gritaria!”, respondeu o vendedor de cedês.
Rá, rá, rá, rá...”, as risadas dos Risadinhas se misturavam e tomavam a praça, em meio ao barulho de máquinas, conversas e os pregões de vendedores ambulantes.
Muitas pessoas passavam apressadas. A conversa ocorria numa praça, no centro da cidade, perto da estação das barcas. Parados, só os vendedores e um ou outro que estivesse esperando alguém. Jornaleiros, vendedores de chips de celular, carrocinhas de cachorro-quente, churros, pipoca, isopor com bebidas, cedês, devedês... A cada quinze ou vinte minutos, chegava uma barca e uma torrente de pessoas jorrava pela praça; nesse momento, o barulho aumentava, os vendedores gritavam mais alto, anunciavam seus produtos. Mas as piadas e risadas seguiam um fluxo contínuo e se destacavam ainda mais quando a onda de pessoas ia se afastando. Havia momentos em que dominava, quase sozinha, a risada longa, eufórica, variada, aquela risada de claque. Uma risada solta, sozinha, perdida numa praça cinzenta, suja, quente, onde nada parece engraçado. Risadas que se repetem, marcando o tempo como um relógio com alarme de risos. Risadas que parecem debochar da pressa e da rotina da multidão que passa.

... e aí a professora perguntou pro Joãozinho...”, continuava Risadinha.
Mas é de foder, é de foder! Essa é muito boa! Rá, rá, rá”, gritou o barbudo, se sacudindo de tanto rir.
Ele tá de sacanagem! Ele já tá provocando! Eu falei com educação! Mas também vem esse aí lá da puta que o pariu pra botar essas merdas dessas piadas o dia inteiro na nossa cabeça!”, reclamou o pipoqueiro.
Tô trabalhando! Aqui é praça, é público, quem tiver incomodado que se mude! Você solta uma fumaceira danada aí com essa pipoca gordurenta e a gente atura!”, respondeu o vendedor de cedês.
Mas o problema é esse cachaceiro desgraçado aí! Esse vagabundo Risadinha aí, que passa horas e horas rindo e xingando!”, se intrometeu o jornaleiro, já a uns três passos da sua banca, apontando pro barbudo.
Rá, rá, rá. Mas essa é boa! Repete, repete, seu filha da puta! Rá, rá, rá”, berrava o barbudo, se aproximando da barraquinha de cedês.
Risadinha, segura sua onda, Risadinha! Você tá demais hoje mesmo!”, disse o vendedor de cedês.
... daí em diante o bêbado passou a evitar a primeira dose...”, Risadinha continuou.
Mas que putaria é essa de me chamar disso?! Vai rir na minha cara!”, berrou o barbudo, erguendo a cabeça e o braço direito.
Rá, rá, rá, rá...”, gargalhava risadinha entre uma piada e outra.
Mas você acha que vai ficar nessa provocação e eu não vou fazer nada?!”, disse o barbudo, se aproximando ainda mais da barraquinha de cedês.
Ih, agora Risadinha surtou! Acabou a graça, cachaceiro?!”, provocou o pipoqueiro.
... e aí a mulher falou: já foi beber, safado, já foi beber...”, contava Risadinha.
Puta que o pariu! Mas que filho da puta! Tá achando que eu tô de brincadeira!”, falou o barbudo, enfurecido, mais perto da barraquinha de cedês.
Rá, rá, rá...”, gargalhava a plateia.
Seu pilantra, filho da puta! Mas você vai aprender a calar essa porra dessa boca!”, gritou o barbudo, atacando Risadinha.

O barbudo empurrou Risadinha - uma lixeira grande, de plástico, com rodinhas, adaptada com alto-falante - e, desequilibrado, caiu por cima dela. O plástico estalou e quebrou, e o som das risadas foi interrompido.

O pipoqueiro, o jornaleiro e outros vendedores se aproximaram.

Seu bêbado filho da puta!”, disse o vendedor de cedês, dono de Risadinha, enquanto tirava com agressividade o barbudo de cima do seu alto-falante. Empurrado, o barbudo caiu no chão, de lado, e não fez força pra levantar.

Você viu o que você fez, desgraçado!”, gritou o vendedor de cedês.

O barbudo ficou quieto, de cabeça baixa, se ajeitou devagar, permanecendo sentado no chão.

Você destruiu meu alto-falante? Como é que eu vou trabalhar agora? Você destruiu! Destruiu!”, continuou o enfurecido vendedor.

Eu não queria machucar Risadinha, eu não queria machucar risadinha...”, disse o barbudo, balançando a cabeça abaixada e chorando.