Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
terça-feira, 21 de julho de 2026
CIDADE DE DEUS: UMA OBRA ESSENCIAL SOBRE O BRASIL
Baseado no romance de Paulo Lins e dirigido por Fernando Meirelles, Cidade de Deus (2002) é um dos filmes brasileiros mais aclamados internacionalmente. A trama acompanha o crescimento da violência na comunidade Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e 1980, sob o olhar de Buscapé, um jovem que tenta escapar do destino imposto pelo crime.
Mais do que um filme sobre tráfico de drogas, Cidade de Deus é uma reflexão sobre desigualdade social, ausência do Estado e a reprodução da violência nas periferias brasileiras. Sua narrativa ágil, a fotografia marcante e as atuações memoráveis transformaram a obra em um marco do cinema nacional.
Ao mesmo tempo, o filme levanta debates importantes. Alguns críticos apontam que a estética vibrante e dinâmica pode transformar a violência em espetáculo, enquanto outros defendem que a obra expõe uma realidade frequentemente ignorada pela sociedade brasileira. Essa tensão entre denúncia social e entretenimento é parte da força e da complexidade do filme.
O livro de Paulo Lins aprofunda ainda mais as relações sociais, históricas e econômicas que moldam aquele universo, oferecendo uma visão mais ampla e detalhada da realidade retratada na tela.
Indicação: indispensável para quem deseja compreender as raízes da violência urbana no Brasil e refletir sobre os mecanismos de exclusão social que continuam presentes no país.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
JORGE AMADO: O BRASIL CABE NA LITERATURA
Poucos escritores retrataram o Brasil com tanta força, humanidade e contradições quanto Jorge Amado. Em suas obras, o autor baiano deu voz aos trabalhadores, pescadores, prostitutas, migrantes e personagens que muitas vezes ficavam à margem da história oficial.
Seus romances misturam crítica social, humor, sensualidade e uma profunda observação das desigualdades brasileiras. Livros como Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos continuam atuais ao abordar pobreza, preconceito, exploração econômica e as transformações sociais do país.
Sua obra também gerou adaptações marcantes para o cinema e a televisão, como o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, o filme Capitães da Areia e a novela Gabriela, que ajudaram a apresentar suas histórias para novas gerações.
Mais do que contar histórias, Jorge Amado construiu um retrato do Brasil popular, mostrando suas injustiças, sua diversidade cultural e sua capacidade de resistência.
Indicação de leitura: Capitães da Areia é uma excelente porta de entrada para conhecer sua obra. Um romance emocionante e crítico sobre infância abandonada, exclusão social e esperança. Merecem destaque também a Morte e a morte de Quincas Berro D'água e Capitão de longo curso.
domingo, 19 de julho de 2026
Identidades inventadas, verdades escondidas.
Em Argo (2012), uma equipe falsa de cinema é criada para retirar diplomatas americanos do Irã em meio à Revolução Islâmica. A ficção se transforma em estratégia de sobrevivência.
Em A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, Gabriel García Márquez narra a história real do cineasta chileno que, exilado pela ditadura de Pinochet, retorna secretamente ao seu país usando identidades falsas para registrar, com sua câmera, um Chile que o regime tentava esconder.
As duas obras mostram que, em tempos de exceção, representar um papel pode ser mais do que teatro: pode ser um ato de resistência.
Se em Argo a mentira salva vidas, em Miguel Littín clandestino no Chile o disfarce preserva a memória. Em ambos os casos, o cinema deixa de ser entretenimento para se tornar instrumento político, documental e, sobretudo, humano.
No fim, a pergunta permanece: quando a verdade é perseguida, quantas máscaras são necessárias para que ela sobreviva?
domingo, 12 de julho de 2026
Vingança ou justiça?
O Homem-Aranha e Scarface parecem habitar universos completamente diferentes. Um é um super-herói. O outro, um dos maiores criminosos do cinema. Mas ambos partem de um sentimento muito humano: a vingança.
Peter Parker aprende, depois da morte do Tio Ben, que a vingança não é justiça. O impulso de punir o culpado dá lugar à responsabilidade de proteger os outros. É essa escolha que faz dele um herói.
Tony Montana faz o caminho oposto. Em Scarface, toda afronta exige uma resposta violenta. Ele acredita que pode fazer justiça com as próprias mãos, impondo respeito pelo medo. Mas, quando a vingança vira modo de vida, ela deixa de ser justiça e passa a ser apenas mais violência.
Talvez essa seja a grande diferença entre os dois: Peter vence a própria sede de vingança. Tony se torna prisioneiro dela.
E uma curiosidade: o Scarface de Al Pacino (1983) é uma refilmagem do clássico de 1932. Na versão original, o grande negócio do crime organizado era o álcool, durante a Lei Seca. Décadas depois, a cocaína substituiu o álcool, mas a reflexão continua atual: quando a violência é tratada como justiça, o resultado costuma ser o mesmo.
No fim, as histórias fazem a mesma pergunta: até onde alguém pode ir em nome da justiça sem se transformar naquilo que dizia combater?
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