sábado, 13 de setembro de 2025

REPRESENTAÇÕES DO BANDITISMO NA LITERATURA BRASILEIRA: CANGAÇO E TRÁFICO DE DROGAS

 

RESUMO

 

Análise do banditismo na literatura brasileira, com pesquisa acerca da sua definição, de sua origem, de seus elementos e de suas representações em obras artísticas, sobretudo literárias, com destaque para o cangaço e o tráfico de drogas. Tanto nos sertões como nas favelas, criminosos viraram história, nos aspectos de registros de fatos e de criações ficcionais. O presente trabalho objetiva traçar um paralelo entre os bandidos dos sertões nordestinos e dos traficantes de droga, cuja atividade é, em geral, urbana.  Por meio de análise literária, comparativa e interdisciplinar, propõe-se revisitar obras artísticas nacionais que tratam de referidos criminosos e sua relação com o espaço, a sociedade e as relações de poder.

 

Palavras-chave: arte; literatura brasileira; cangaço; tráfico de drogas; banditismo.

 

SUMÁRIO

 

1.     INTRODUÇÃO.. 5

2.     DESENVOLVIMENTO.. 8

2.1. Lei e infrações

2.2. Estudos sobre o sertão e o cangaço na literatura.

2.3. Análise do tráfico de drogas na literatura

2.4. Do sertão às favelas

3.     Conclusão.. 21

REFERÊNCIAS


 

1.     INTRODUÇÃO

“O sertanejo é antes de tudo um forte”; o favelado também. Assim como os cangaceiros, os traficantes de drogas são uma minoria. Enquanto Graciliano Ramos descreve o sertanejo comum, integrante da maioria, em Vidas Secas, muitos cordéis e obras literárias tratam dos bandidos, dos cangaceiros. O mesmo ocorre com os traficantes de drogas, como vemos em Cidade de Deus, de Paulo Lins. Apesar de figurarem como exceções, os criminosos exercem um tipo de fascínio e acabam se destacando em obras literárias, ficcionais ou não, como Estação Carandiru de Dráuzio Varella.   

Trata-se da análise de algumas obras artísticas, sobretudo literárias, que trazem representações do banditismo brasileiro, especialmente do cangaço - inerente a uma fase de predominância rural do país e, portanto, mais antigo - e do tráfico de drogas, que cresce à margem, nos grandes centros urbanos contemporâneos. E, sobretudo, a tentativa de estabelecer um paralelo entre os crimes dos sertões e aqueles que ocorrem nas favelas, sem negar, todavia, seus vínculos estreitos com o povo dos condomínios, do “asfalto”, como são designados aqueles de fora das comunidades.

Aqueles que violaram e violam as leis afetam a estrutura de poder, considerando tanto o Estado como a sociedade. Para Eric Hobsbawm, historiador que escreveu sobre banditismo social:

 

Nas montanhas e nas florestas, bandos de homens violentos e armados, fora do alcance da lei e da autoridade (tradicionalmente, mulheres são raras), impõem suas vontades a suas vítimas, mediante extorsão, roubo e outros procedimentos. Assim, o banditismo desafia simultaneamente a ordem econômica, a social e a política, ao desafiar os que têm ou aspiram ter o poder e o controle dos recursos. Esse é o significado histórico do banditismo nas sociedades com divisões de classe e Estados. (Hobsbawm, 2010, p. 21).*

 

No presente ensaio, pretende-se, por meio da análise literária, comparativa e interdisciplinar, trazer as representações do banditismo nacional, relacionando-o com o meio, com as suas causas e práticas, com a violência e com a repressão, com atenção a pontos de divergência entre os criminosos de ontem e de hoje.

É do filósofo Ortega Y Gasset a frase "civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência ". No caso dos crimes - em especial do cangaço e do tráfico de drogas -, constata-se o caráter de afronta às normas e práticas estabelecidas e, mesmo assim, é relevante que se questione suas representações e em que medida se contrapõem a civilização e as dificuldades de convivência.

Se a lei explica muito acerca da sociedade e do Estado, dado que emerge como normatização e valoração de condutas aprovadas ou reprimidas, a violação da lei por certos grupos e em determinado período histórico também é capaz de trazer luz sobre pontos obscuros das relações humanas.

Deste modo, o presente ensaio se debruça sobre o banditismo e se aprofunda em sua representação na literatura brasileira, propondo uma análise dos seus pressupostos, assim como das possíveis caracterizações dos crimes do passado e do presente, ainda que de forma panorâmica.

Não há dúvida de que o banditismo, como fenômeno social, encontra espaço na história, considerando suas marcas e suas consequências. A literatura e a arte, aqui entendidas com amplitude, acabam por trazer para o campo artístico representações do crime e dos criminosos que vão além do registro e não deixam de ser importantes na compreensão do fenômeno.

Propõe-se, portanto, um exame multidisciplinar que abarca obras literárias, filmes, livros de história, crítica literária e artigos, a fim de obter uma pesquisa e análise mais ampla acerca dos temas abordados.


2.     DESENVOLVIMENTO

 

2.1. Lei e infrações

 

A violação da lei e o próprio questionamento acerca das ordens ou proibições impostas pelo Rei ou Estado - figuras que muitas vezes se confundiam - encontra representações antigas na arte, como se vê na tragédia grega Antígona, de Sófocles, representada pela primeira vez em 441 a.C.

Na peça, a lei é o ponto central de um conflito fundamental entre a norma do Estado (positiva) e a lei divina ou natural. Antígona, com o objetivo de sepultar seu irmão Polinices, desafia o decreto de Creonte, que proíbe o enterro daquele que entende como traidor.  

Assim, Antígona viola uma norma positiva imposta por Creonte, ou seja, uma lei temporal, por entender que uma lei natural lhe conferia o direito do, como familiar, enterrar o seu irmão.

Destaca-se trecho do diálogo entre Antígona e Creonte:

 

Creonte

E te atreveste a desobedecer às leis?

Antígona

Mas Zeus não foi o arauto delas para mim,

nem essas leis são ditadas e entre homens

pela justiça, companheira de morada

dos deuses infernais; e não me pareceu

que tuas determinações tivessem força

para impor aos mortais até a obrigação

de transgredir normas divinas, não escritas,

inevitáveis; não é de hoje, não e de ontem,

é desde os tempos mais remotos que elas vigem,

sem que ninguém possa dizer quando surgiram. 

(SÓFOCLES, A Trilogia Tebana, 1990, p. 530).

 

 

A questão que se coloca, tal como em Antígona, é se as manifestações de rebeldia e até criminosas, como as que se viam no cangaço e se veem no tráfico de drogas, poderiam ser entendidas como manifestações de um direito natural, dadas as injustiças estruturais em que os referidos banditismos emergiram e emergem.

Em um contexto de muita terra para poucos proprietários protegidos por jagunços, seria um direito natural pegar em armas?

E nas favelas, bolsões de miséria, com a criminalização do comércio de certas substâncias (opção do Estado, visto que o álcool, por exemplo, é uma droga lícita), haveria um direito natural de empreender com drogas ilícitas, usadas por membros de todas as classes sociais?

Segundo Hobsbawn:

 

Os bandidos, por definição, resistem a obedecer, estão fora do alcance do poder, são eles próprios possíveis detentores do poder e, portanto, rebeldes potenciais. Na verdade, a palavra bandido provém do italiano bandito, que significa um homem banido, posto fora da lei seja por que razão for, ainda que não surpreenda que os proscritos se transformassem em ladrões. (Hobsbawm, 2010, p. 26).

 

É relevante notar que a própria origem do termo bandido trata daquele “posto fora da lei” e traz a ideia que o criminoso talvez fosse marginalizado, no sentido de ser colocado à margem, antes mesmo de se tornar um infrator.

Ainda conforme Hobsbawn (2010), para haver banditismo, um pressuposto é indispensável: a existência de ordens socioeconômicas e políticas que possam ser desafiadas. Da mesma forma, para compreender o fenômeno, é imprescindível analisar a história do poder e de seu controle.

Se a miséria é uma imposição do Estado, do destino ou da sociedade, revoltar-se por meio do banditismo seria um direito natural a que o indivíduo se arroga?

            “O bandido não é só um homem, é também um símbolo” (Hobsbawn, 2010. P. 165). E são esses homens, que não deixam de ser símbolos, que encontram repercussão em obras artísticas, não só literárias, mas também na música, nos versos, cordéis, filmes, além de outras representações.

 

2.2. Estudos sobre o sertão e o cangaço na literatura.

 

Tudo era seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru. Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. (RAMOS, Vidas Secas, 2008, pp. 24 e 25).

 

            Como o trecho de Vidas Secas deixa claro, não era só o ambiente e o clima que eram secos, mas também o trabalho e as relações que se estabeleciam, duras, espinhosas, difíceis.

Para entender o cangaço, faz-se necessário compreender antes o sertão entre o fim do século 19 e início do século 20. Para tanto, faz-se referência a diversos autores que tratam do sertão e do cangaço, tais como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Euclides da Cunha, Franklin Távora, José Lins do Rego e Jorge Amado, entre outros.

            Certo é que o sertão nordestino é frequentemente retratado como árdua paisagem, marcada pela seca, pela vegetação de caatinga e pela presença de sertanejos que buscam o sustento em meio à dificuldade. 

Não resta dúvida de que a seca é um elemento central nas descrições, muitas vezes personificada como uma força opressora que afeta tanto a natureza quanto a vida das pessoas. 

Os sertanejos, na verdade, podiam ser considerados duplamente marginalizados. Estavam à margem da sociedade, empobrecidos, com recursos escassos, e também longe do litoral, das margens do oceano atlântico, onde, em regra, estavam os centros dos poderes econômicos e políticos do Brasil, teoricamente com mais oportunidades. Tanto que é assim que a História e a literatura descrevem a saga dos retirantes.

E foi neste solo seco, quebradiço, rachado, que pessoas - em sua maioria, homens - tiveram acesso a armas, a princípio a mando dos poderosos locais (coronéis), mas depois como bandoleiros independentes, dando forma ao cangaço (Hobsbawm, 2010, pp. 190 e 191).

Dada a natureza do presente ensaio, tem-se o objetivo de buscar a essência do banditismo do sertão, tendo em conta a exclusão social, os parcos recursos e o caráter infrator dos cangaceiros.

De acordo com trecho de Jorge Amado, vê-se o poder do cangaço e sua relação com o espaço físico:

 

 Aqui, na caatinga, habitam os cangaceiros. Os soldados da vingança, os donos do sertão.  Não têm paz nem descanso, não têm quartel bivaques, não têm lar nem transporte. Sua casa é seu quartel, sua cama e sua mesa são a caatinga, para eles bem-amada.  Os soldados da polícia que os perseguem não se atrevem a penetrar por entre os arbustos de espinhos, os pés de xiquexiques e croás. Ao lado das serpentes e dos lagartos, vivem os cangaceiros na caatinga, e também eles, por vezes, liquidam no tiro das suas repetições os sertanejos que descem e que sobem na contínua migração. (AMADO, Seara Vermelha, pp. 43 e 44).

 

Indispensável para entender o cangaço em sua representação literária, destaca-se a obra de José Lins do Rego. Em 1938, o referido escritor publica Pedra Bonita e, em 1953, Cangaceiros, segundo e último romance da série.

 O aludido escritor traz em suas obras que tratam dos cangaceiros diversos elementos inerentes à atividade criminosa e à vida no sertão, como a sua cultura, o fanatismo religioso (aprofundado em Os Sertões, de Euclides da Cunha) e o coronelismo.

Convém destacar a nota de introdução de Cangaceiros, na qual José Lins do Rego ressalta a relação entre a obra e Pedra Bonita:

 

Continua a correr neste Cangaceiros o rio de vida que tem as suas nascentes em meu anterior romance Pedra Bonita.  É o sertão dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma crueza e a mesma humanidade. (REGO, 2022, p. 15).

 

Em cangaceiros, o autor deixa claro a força, o poder do cangaço e do fanatismo religioso. Senão vejamos:

- Tu sabe, Bentinho, eu caí no cangaço sem mesmo saber como. Estava lá na Pedra e o santo tinha tomado conta de mim. Eu vi aquela desgraça de tiroteio da tropa. Tu chegaste nas vésperas com a notícia da força do governo. Para te falar com franqueza, eu não cheguei a acreditar. Foi um fogo danado. Eu estava longe da latada da minha mãe. O velho tinha se enterrado, nem fazia uma semana. E eu vou dizer, quando Aparício entrou na Pedra eu disse comigo: “Aparício e o santo vão se encontrar e não vai aparecer neste mundo poder maior do que os dois juntos.” (REGO, 2022, pp. 53 e 54).

 

José Lins do Rego elabora uma narrativa que  contém o  complexo  campo das relações entre cangaceiros, coronéis, fanáticos religiosos e a força policial. Vê-se emergir nela, em fluxo tormentoso, as relações entre os personagens no meio social, assim como sua interação enraizada no espaço geográfico.  (SILVA, 2020, p 11).

É de se destacar que na obra cinematográfica Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, lançada no conturbado ano de 1964, há um diálogo que menciona Pedra Bonita, romance de José Lins do Rego. Não se pode deixar de mencionar Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, publicado em 1956, que evidencia  conflitos do sertão e a dualidade humana.

O messianismo de Antônio Conselheiro – e Sebastião, seu correspondente em Deus e o diabo na terra do sol – que se contrapõe à igreja católica, instituição forte no sertão. O cangaço, por sua vez, contesta o poder do coronelismo e do Estado, mas, em regra, mantém a fé católica, como os cangaceiros devotos de Padre Cícero.

O cangaço, em sua representação literária, não deixa de ser um esforço de captar e descrever acontecimentos que marcaram a História e a cultura regionais, sem, no entanto, afastar-se da ideia de peculiaridade brasileira, nacional, o que encontra repercussão na obra Introdução à literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho:

 

Nacionalizar a literatura, sem contudo perder a cultura clássica e a nobre emulação dos monumentos estrangeiros” (Araripe Júnior), eis o ideal do pensamento literário nacionalista. E por nacionalizar entenda-se absorver e captar as peculiaridades da situação sócio-histórico-geográfica, fazendo-as viver como “símbolos que traduzam literariamente a nossa vida social” (Araripe Junior). Assim fizeram no passado nossos maiores escritores, e assim o fazem no presente. (COUTINHO, 1980, p. 236).  

 

Na obra História da Literatura brasileira, de Luciana Stegagno Picchio, destaca-se a inspiração de autores consagrados na literatura de cordel, quando se trata da saga dos cangaceiros:

 

Fabulosos cantadores ou trovadores populares como Nicandro Nunes da Costa, Leandro Gomes de Barros ou Silvino Pirauá Lima, todos eles desabrochados entre o fim do século XIX e o primeiro quarto do século XX, divulgam de fazenda em fazenda, de feira em feira, as obras-primas desse gênero [cordel], do qual a literatura culta extrai pincelas coloridas para seus próprios textos. Não é por acaso que os cangaceiros de Jorge Amado, de José Lins do Rego, mas sobretudo de Guimarães Rosa se moverão no espaço sertão como paladinos da França nas florestas europeias. (PICCHIO, 2024, p. 46).

 

Para o propósito do presente ensaio, mostra-se imprescindível revelar a figura de Lampião, como resultado do meio, nas palavras de Graciliano Ramos:

 

O que transformou Lampião em besta-fera foi a necessidade de viver. Enquanto possuía um bocado de farinha e rapadura, trabalhou. Mas quando viu o alastrado morrer e em redor dos bebedouros secos o gado mastigando ossos, quando já não havia no mato raiz de imbu ou caroço de mucanã, pôs o chapéu de couro, o patuá de cabra preta, tomou o rifle e ganhou a capoeira. Lá está como bicho montado.

Conhecidos dele, velhos, subiram para o Acre; outros, mais moços, desceram para São Paulo. Ele não: foi a Juazeiro, confessou-se ao Padre Cícero, pediu benção a Nossa Senhora e entrou a matar e roubar. (RAMOS, Cangaços, 2014, p. 28).

 

Graciliano Ramos descreve Lampião como sertanejo que, diante das adversidades naturais e sociais, em vez de migrar, acaba por virar cangaceiro, inicia-se no crime, sem deixar de lado a religiosidade, tão marcante no sertão. É o bandido que antes de sê-lo era trabalhador rural, que veio a trocar a enxada pela espingarda e, mesmo armado, não se afasta da fé religiosa.

A representação do cangaceiro, na literatura - incluindo-se os cordéis e a modalidade cantada dos repentes -, não é apenas de um simples criminoso maldoso e sem outros propósitos ou mesmo desenraizado. É antes a de homens, frutos espinhosos do sertão, que desafiam injustiças sociais e que respondem a violência das forças estatais. Daí o seu enquadramento como representantes do denominado banditismo social, conforme Hobsbawn (2010), mesmo com as assertivas críticas de seus comentadores.

 

2.3. Análise do tráfico de drogas na literatura

 

            Como se sabe, o tráfico de drogas não se limita às favelas. Trata-se de fenômeno que se vincula ao proibicionismo e se encontra disseminado em todas das classes sociais. Usuários e traficantes podem ser encontrados nos mais diversos grupos sociais. Todavia, no presente ensaio, dadas as obras literárias pesquisadas e a busca de relação com o cangaço, a ênfase será o tráfico de drogas praticado por quadrilhas e/ou facções nas periferias urbanas, por grupos marginalizados.

            Para compreender o tráfico de drogas, sobretudo o comércio ilícito contemporâneo, revela-se indispensável se aprofundar o conceito de proibicionismo:

 

O valor das drogas ao longo da história humana é enorme. No sentido cultural e moral, assim como no sentido econômico da palavra valor. Foi maior que o dos alimentos em muitos contextos, especialmente na dimensão do sagrado. Sempre foi, assim, um hiper-valor. Mas no período moderno e, mais ainda, no contemporâneo, essa condição foi elevada de forma exponencial.

O hiper-valor de uso se manifesta no mercado global crescente de produtos psicoativos, na intensificação e difusão da sua amplitude, e nas formas de seu excesso, como hybris compulsiva e hoje cada vez mais hiperconsumista. O vício no consumo é um valor de uso exacerbado em que os produtos além de comprados são consumidos corporalmente por ingestão. São os bens não-duráveis que mais rapidamente recriam permanentemente o ciclo de produção e consumo. (...)

Com o advento do proibicionismo e da separação das drogas em categorias lícitas e ilícitas o hiper-valor foi hipertrofiado. A proibição agregou um enorme valor às substâncias cujo mercado clandestino permitiu formas de hiperacumulação de capital por meio de isenção fiscal, margem de lucro gigantesca e regime de monopólio com o uso da violência sobre a força de trabalho produtora, o sistema comercial e o mercado consumidor. (...)

O hiper-valor como signo expressa o bode expiatório simbólico e real da atualidade, o inimigo por definição, o traficante, figura à qual se reduz, por metonímia, o conjunto dos crimes. Em qualquer tiroteio nas favelas com as vítimas anônimas de sempre, o seu designativo na mídia e nos comunicados oficiais é como traficantes. (CARNEIRO, 2019, pp. 11-14).

 

            O sertão do passado está para o cangaceiro como as favelas estão para o traficante de drogas urbano contemporâneo. Repetem-se em ambas as atividades criminosas - do sertão e das favelas - a pobreza, as condições difíceis, a marginalidade que antecede as infrações.

            Acerca da realidade árdua da favela, antes mesmo da disseminação do tráfico de drogas, Carolina Maria de Jesus registrava em Quarto de Despejo, publicado em 1960:

           

14 de junho ... Está chovendo. Eu não posso ir catar papel. O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes. E hoje é sábado. Os favelados são considerados mendigos. Vou aproveitar a deixa. A vera não vai sair comigo porque está chovendo. (...) Ageitei um guarda-chuva velho que achei no lixo e saí. Fui no frigorífico, ganhei uns ossos. Já serve. Faço uma sopa. Já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei desmaiar. Então eu resolvi trabalhar porque eu não quero desistir da vida. (JESUS, 2014, p. 61).

 

            Para tratar da representação literária do tráfico de drogas, dar-se-á destaque a Cidade de Deus, de Paulo Lins e Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, ressaltando que ambos os livros tiveram adaptações cinematográficas. A primeira narra a saga da favela, descrevendo seus personagens e situações. A segunda, traz um viés da estrutura policial, um olhar de fora, das forças de repressão. Ainda será abordada a obra de Ferréz, que parte de dentro da periferia. Ademais, da mesma forma que os cordéis e repentes narraram os feitos dos cangaceiros, o rap e o funk surgem como o correspondente contemporâneo do banditismo de favela. 

            O romance Cidade de Deus é dividido em três partes: A história de inferninho; A história de Pardalzinho; A história de Zé Miúdo e traz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional de mesmo nome, conhecido popularmente como CDD.

Criada na década de 1960, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, como parte de um programa de habitação do governo da Guanabara, com o objetivo de abrigar moradores de favelas removidas da Zona Sul e do centro da cidade. Inicialmente, o local era um projeto de habitação popular, porém, com o tempo, evoluiu para um bairro com características próprias. O romance homônimo, baseado em pesquisa, descreve a criminalidade e sua evolução na região.  

Como os sertanejos, os favelados da Cidade de Deus também são duplamente marginalizados, retirantes compulsórios. Já não bastasse serem da periferia, moradores dos morros da Zona Sul e do Cento do Município do Rio de Janeiro, são removidos das favelas de origem para a distante Zona Oeste, para viverem mais longe das elites cariocas e da vista dos turistas.

A narrativa do romance Cidade de Deus mostra o crime, que no início da narrativa consistia em roubos, com a posterior progressão para o tráfico de drogas. Tal evolução que parte de atos de furto e roubo, menos organizados e episódicos, para o tráfico de drogas, em que a venda de substâncias ilícitas, de forma organizada, mais fixada e permanente surge como nova prática de banditismo. Sintomático que, durante a evolução do capitalismo, o banditismo com mais força e mais organizado constitua atividade de venda de drogas ilícitas.   

Neste contexto, o tráfico de drogas surge como uma das principais formas de expressão da criminalidade periférica. O romance de Paulo Lins narra a ascensão do tráfico e do conflito, não somente com as forças repressoras (polícia), mas com outros bandidos e quadrilhas. Conflito que nem sempre será resolvido com tiros e mortes, mas também com composições menos violentas.

Assim como o livro homônimo de Franklin Távora, a Cidade de Deus também tinha o seu bandido Cabeleira. No romance de Paulo Lins, o referido criminoso é da primeira fase. Se na pré-história do crime da periferia carioca reinavam os assaltos, a evolução natural foi a passagem ao tráfico de drogas.

É de se destacar que os grupos e bandos praticantes de furtos e assaltos de certa forma se assemelhavam aos cangaceiros, tinham que se manter em movimento e se faziam fortes com as armas e as estratégias de alcançar bens alheios.

O tráfico de drogas, de outro modo, se constitui de outra forma: baseia-se no estabelecimento de um ponto de venda de substâncias ilícitas, a chamada boca de fumo, boca ou biqueira. As armas servem para proteger este local de venda, da polícia - muitas vezes detida não pelo poder de fogo, mas com parte do dinheiro recebido como propina - e das quadrilhas rivais. E por se tratar de comércio, ao que tudo indica, o crime chegou à sua fase mais urbana e capitalista. 

As armas também servem para punir aqueles - usuários, viciados ou nóias - que deixam de pagar o preço monetário cobrado pelas drogas, que são caras não somente em dinheiro. Como o registro de Ferréz em Capão Pecado:

 

[...] as bocas não podem se dar ao luxo de ficar com o prejuízo, porque senão os negócios despencam: é só um nóia saber que tal mano comprou na boca, não pagou e nada aconteceu, que tá feito o boato de que os chefes da boca não tão com nada. O respeito deve prevalecer. (FERRÉZ, p. 36).

 

O pseudônimo Ferréz é, segundo o próprio escritor, uma mistura de dois heróis brasileiros: Lampião, Virgulino Ferreira da Silva (Ferre), e Zumbi dos Palmares (Z).

O tráfico de drogas se caracteriza como a expressão máxima do banditismo dentro das favelas, distinguindo-se do roubo, do furto e de outras atividades criminosas. É o que se vê em Elite da Tropa:

 

O sujeito ficou apavorado: por um lado sabia muito bem que não brinca com o BOPE; por outro lado, entregando as armas, talvez se safasse, mas não escaparia dos seus comparsas, na prisão ou na favela. Seria tratado como X-9. O fato é que resistia, negava, jurava que era só um ladrãozinho de merda, que não tinha nada, que a arma era só aquela ali mesmo. (SOARES et al., 2005, p. 72).

 

Tanto Cidade de Deus quanto Elite da Tropa expõem a violência não só dos traficantes, mas também da polícia, que é retratada, no geral, como corrupta e muitas vezes criminosa por torturar e executar e por fazer laços com os bandidos, atuando no tráfico de armas e recebendo parte do valor da venda das drogas, o chamado “arrego” na linguagem popular.

Elite da Tropa, baseado em fatos, teve que ser lido como ficção dada a criminalidade da atuação policial. Muitos membros do BOPE e da PMRJ retratados no livro são torturadores e homicidas. Na guerra contra as drogas a lei não existe. De ambos os lados; embora só um represente a lei.

A literatura de cordel e o repente estão para o cangaço, como o rap e o funk nacionais estão para o tráfico de drogas das favelas. Não se trata de propor aqui uma criminalização da música produzida nas periferias, mas sim de se reconhecer que, na condição de arte, cantam-se, também nas favelas, as infrações que crescem à margem. Se muitos cordéis cantaram a saga de Lampião, atualmente é nos proibidões que se vê parte da realidade do tráfico de drogas nas favelas, salientando-se que enquanto o cordel e o repente trazem marcas mais regionais e nacionais, o rap e o funk espelham um mundo globalizado.

 

2.4. Do sertão à favela.

           

A relação entre sertão e favela é mais íntima do que se poderia supor. O próprio termo favela tem origem em Os Sertões, de Euclides da Cunha, mas não se referia na aludida obra à ocupação irregular de morros, mas sim a um morro específico em Canudos, o Morro da Favela, assim chamado por causa da vegetação que o cobria, uma planta espinhosa com sementes que parecem fava, daí favela.

Aos soldados que atuaram na Guerra de Canudos, tema do romance de Euclides da Cunha, foi dito que receberiam moradias, mas a promessa não foi cumprida. Então, tal como os retirantes sertanejos, os soldados passaram a ocupar o morro da Providência, no Rio de Janeiro, associando o nome favela, do morro de Canudos, à ocupação carioca.

Literalmente, a favela brotou no sertão. E hoje muitos dos favelados têm origem nordestina. Muitos sertanejos, na qualidade de retirantes, vieram para o sudeste; eles e seus descendentes conviveram e convivem com os traficantes de drogas.

Como se vê em Abusado de Caco Barcellos, a relação das favelas cariocas com os nordestinos é fato, como na descrição da formação da Santa Marta, comunidade na zona sul do Rio de Janeiro:

 

Na década de 1940, os barracos da Santa Marta abrigavam dezenas de famílias vindas do interior fluminense e de ex-escravos que migraram de Minas Gerais. Naquela época o Rio tinha menos de cem favelas, abrigo de 140 mil pessoas, a maioria migrantes. Os pais de Juliano chegaram no final dos anos 50, quando começou a grande invasão nordestina no morro e em todas a cidade, então Distrito Federal. (BARCELLOS, p. 64) 

 

E mesmo antes da década de 1950, havia forte presença de nordestinos no Rio de Janeiro, de modo que até o samba - conhecido como carioca - é alvo de disputas sobre sua criação, que teve a participação de baianos e baianas, estas até hoje homenageadas no carnaval das Escolas de Samba do Rio com ala homônima (NETO, 2017).

O ambiente seco e árduo da caatinga, com sua vegetação espinhosa, serve de proteção ao cangaço, assim como a geografia íngreme dos morros, com suas vielas e a desordem das construções, serve ao tráfico de drogas. Em pontos estratégicos da caatinga, Lampião se escondeu, fez base. Em locais específicos dos morros, os traficantes de drogas vendem entorpecentes e montam, de forma ardilosa, ponto de vigília, para evitar surpresas da polícia e de facções rivais.

Comum a ambas atividades criminosas é a agregação na atividade ilícita da população excedente, como descreve Hobsbawn:

 

A fonte básica de bandidos, e talvez a mais importante, se encontra naquelas formas de economia ou de ambiente rural onde a procura por mão de obra é relativamente pequena, ou que são demasiado pobres para empregar todos os seus homens aptos; em outras palavras, na população rural excedente. (HOBSBAWN, 2010, p. 54).

 

Embora o livro de Hobsbawn trate do banditismo social no âmbito rural, verifica-se que as condições básicas ali retratadas se reproduzem atualmente nas periferias das grandes cidades, de modo que os criminosos das favelas também se enquadrem nas proposições do autor, dada a escassez de recursos e a formação de população excedente. Poder-se-ia dizer que a opressão do coronelismo criou o cangaceiro e da desigualdade social surge o vapor, membro da facção responsável pela venda de drogas.

A diferença que se pode apontar é a da presença de facções, organizações criminosas com atuação internacional no tráfico de drogas. O Comando Vermelho, que teve origem na convivência de criminosos comuns com presos políticos durante a ditadura civil-militar, tornou-se um dos maiores grupos de crime organizado do país. O Primeiro Comando da Capital - PCC também foi criado entre as grades, mas na década de 1990, ou seja, durante o período democrático (AMORIM, 2005).

Outra característica comum ao cangaço e ao tráfico de drogas é a de recrutar os mais jovens. Senão vejamos:

 

Ainda assim, nem todos os homens de tais regiões tendem a se tornar proscritos, ainda que sempre haja grupos cuja posição social lhes dá a necessária liberdade de ação. O mais importante desses grupos compreende os homens jovens, entre a puberdade e o casamento, isto é, antes que as responsabilidades da família lhes pesem nas costas. (HOBSBAWN, 2010, p. 55).

 

            Tal fato é confirmado pela leitura do conto A história do periquito e do macaco no livro o Sol na Cabeça de Giovani Martins:

 

Quando a UPP invadiu o morro, era foda pra comprar bagulho. Maior escaldação; ninguém queria botar a cara pra vender, só tinha criança trabalhando de vapor. Uns moleques de oito, nove anos. Tinha vez que sentia até pena de ver as crianças naquela situação, mas o papo é que a gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que passa rápido; geral continuou comprando droga. (MARTINS, O Sol na Cabeça, 2018, p. 37).

           

Era conturbada a relação estabelecida entre os cangaceiros e a polícia, cujos agentes eram conhecidos popularmente como macacos: o mais comum era a perseguição, com confrontos e mortes. Já no tráfico de drogas também há excesso de mortes - muitas ilegais, consideradas execuções - e prisões, dada a política de guerra às drogas (ZACCONE, 2015). Todavia, há também a participação de policiais corruptos, que fazem “acordos” com os traficantes, participando efetivamente das atividades criminosas, inclusive com o tráfico de armas.

            Enquanto os cangaceiros eram envolvidos com a igreja/fé católica, como já destacado acima, os traficantes apresentam diferentes relações com as religiões. Não se ignora a mais recente ligação entre criminosos do tráfico de drogas com as igrejas pentecostais. Senão vejamos:

 

Como vimos, o pastor narcotraficante Peixão estabeleceu diálogos de confronto com rivais, anunciando a expansão de seu território atual, formado por Parada de Lucas e Vigário Geral. (...).

Segundo relato de moradores de novos territórios conquistados, uma carta-manual foi distribuída para anunciar a troca de comando, com as diretrizes daqueles que chegavam “em nome de Deus”. (...)

A bandeira de Israel desponta como símbolo do Complexo de Israel, organizado a partir da conquista da Cidade Alta e suas adjacências. No ponto mais alto da favela, é ostentada a Estrela de Israel, podendo ser vista por quem passa na mais importante via expressa da cidade, a Avenida Brasil. As demais favelas que formam o Complexo, e aquelas conquistadas posteriormente, são igualmente identificadas como território simbólico sagrado de Israel no Rio de Janeiro. (COSTA, 2023, Pp. 122-124).

 

Enquanto o cangaço se relacionava com os dogmas católicos, o neopentecostalismo parece se adequar melhor ao capitalismo pós-moderno.

 

 

 

 

 

3.     Conclusão

 

A arte surge como reflexo e crítica social ao narrar como atuavam os cangaceiros e como atuam os traficantes de drogas. É antiga a narrativa sobre feitos extraordinários, fatos e histórias que se distanciam do comum, do que se entende como cotidiano. Ao se ater aos criminosos e suas façanhas, as obras literárias, consideradas em sentido mais amplo para incluir o cordel e as letras de músicas, acabam trazendo luz à estrutura social, com suas mazelas, desigualdade e violência, que não se restringe aos atos dos bandidos.

O caráter interdisciplinar permite vislumbrar várias faces das mesmas questões, realizando uma análise que não se pauta apenas na literatura e na ficção, mas também na História e na Sociologia. Acaba, portanto, por aprofundar o estudo do banditismo de ontem e de hoje.

A ligação do termo favela com o sertão, com Canudos dá a dimensão que é a proposta de tratar, ainda que forma sucinta, do banditismo dos cangaceiros e dos traficantes de drogas, encontrando similitudes e diferenças.

Lampião e Zé Miúdo como expressões de um mesmo fenômeno, embora com distinções óbvias e outras nem tão claras, surgem das palavras de Graciliano Ramos e de Paulo Lins. Policiais, BOPE, tropas, tropas volantes. A repressão, a violência, a corrupção a atuação criminosas daqueles que existem para reprimir.

Sobre a base da miséria, da falta de trabalho e da marginalidade imposta, despontam criminosos, uns em bandos, outros em facções, que vêm a dominar o espaço e impor suas regras, à base de armas, rifles, facões, pistolas e fuzis.

Sob a cruz ou com a bíblia, cangaceiros pedem benção a Padre Cícero e traficantes de drogas ostentam bandeira de Israel. O fenômeno é complexo e, mesmo com contradições, paradoxos, se impõe. No crime, porém católicos e evangélicos. Em nome de Jesus, ontem e hoje, mas com armas de fogo.

Ontem, do chão craquelado do sertão, brotaram cangaceiros. Hoje, da viela escura do alto do morro, entre barracos imbricados, brota, de fuzil importado, um soldado do tráfico. A literatura mostra como foi germinada essa semente, com pouca água, vinda de margens distantes; na verdade, das margens das margens. Idade pouca, pouca oportunidade. Promessa de poder, de compra, de consumo. Uma dose de pinga, um pino de pó. Um terço, uma bíblia. Desemprego, ócio, omissão e ódio.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

AMADO, Jorge. Seara Vermelha. Rio de Janeiro: Record, 1999.

 

AMORIM, Carlos. CV-PCC. A irmandade do crime. Rio de Janeiro: Record, 2005.

 

BARCELLOS, Caco. Abusado: o dono do morro Dona Marta. Rio de Janeiro: Record, 2003.

 

CARNEIRO, Henrique. Drogas: a história do proibicionismo. São Paulo:  Autonomia literária, 2019.

 

COSTA, Viviane. Traficantes evangélicos: quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus. Rio de Janeiro: GodBooks, 2023.

 

COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1976.

 

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Abril, 2010.

 

EL-JAICK, Sylmar Lannes. Graciliano Ramos: uma narrativa social como reflexão. Belo Horizonte, Dialética, 2021.

 

FACINA, Adriana et al. Tamborzão: olhares sobre a criminalização do funk. Rio de Janeiro: Revan, 2015.

 

FÉRREZ. Capão Pecado. São Paulo: Companhia de bolso, 2020.

 

________.  Manual prático do ódio.  São Paulo: Companhia das letras, 2024.

 

HOBSBAWN, Eric J. Bandidos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.

 

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo. São Paulo: Ática, 2014.

 

MACEDO, Nertan. Lampião. Rio de Janeiro: Artenova, 1972.

 

MANSO, Bruno Paes. A fé o fuzil: crime e religião no Brasil do Século XXI. São Paulo: Todavia, 2023.

 

MARTINS, Giovani. O Sol na Cabeça. São Paulo: Companhia das letras, 2018.

 

NETO, Lira. Uma História do Samba: as origens. São Paulo: Companhia das letras, 2017.

 

PERICÁS, Luiz Bernardo. Cangaço e banditismo social: breves considerações. Ruris, volume 9 , núm ero 2, de setembro 2015.

 

PICCHIO, Luciana Stegagno. História da literatura Brasileira. Campinas: Sétimo Selo, 2024.

 

RAMOS, Graciliano. Cangaços. Rio de Janeiro: Record, 2014.

 

______ . Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2008.

 

REGO, José Lins do. Cangaceiros. São Paulo: Global, 2022.

 

______. Pedra Bonita. São Paulo: Global, 2022.

 

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. São Paulo: Companhia das letras, 2019.

 

SILVA, Edvânio Caetano. RESISTIR PARA EXISTIR: UMA ANÁLISE DA OBRA CANGACEIROS, DE JOSÉ LINS DO REGO. Disponível na internet:  https://e-revista.unioeste.br/index.php/rlhm/article/view/24720/1673. Consulta em 20/4/2025 às 19:10h.

 

SOARES, Luiz Eduardo et al. Elite da tropa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

 

SÓFOCLES. A trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Rio de Janeiro, Zahar, 1990.

 

TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. São Paulo: Martin Claret, 2005.

 

VARELLA, Dráuzio. Estação Carandiru. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

 

VELASCO, Pedro Ricardo de Souza. Direito natural em litígio: o debate de Antígona e Creonte. 25 de março de 2023.

 

ZACCONE, Orlando. Indignos da vida. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2015.



Mostra-se relevante destacar que o modelo de banditismo social proposto por Hobsbawn é criticado por comentadores, que o definem como “excessivamente universalizante” e que, no caso do cangaço, carece de respaldo bibliográfico, como afirma Luiz Bernardo Pericás em Cangaço e Banditismo Social, in Ruris, Volume 9, número 2, de setembro de 2015. 


Trabalho de conclusão de curso. Pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia. PUC/RS.

sábado, 25 de junho de 2022

Era "monotelista" ou relatos de uma época de poucas telas

                                              Para Rafaela e Gabriel, meus irmãos (ambos da era "politelista").


“Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.”
(Mário Quintana)
 
Quando nada parecia mudar e o tempo se entendia como um fluxo contínuo, sempre igual, dias que se repetiam, rotinas que não se alteravam - acordar, colégio, amigos, bola, TV, videogame, família, dormir, acordar, colégio... -, era a programação da TV (esse relógio dinâmico cheio de imagens e sons que dominava o centro da casa) que marcava as horas, os dias, cronometrando nossas vidas. A TV na nossa casa e naquela época - fim dos anos oitenta, início dos noventa - eram os canais abertos: Globo, Manchete, TVE, SBT e Bandeirantes. Se houvesse algum problema de transmissão, que poderia ser causada por um temporal, por exemplo, a Globo era sempre o canal que ficava com a imagem melhor; acho que era o canal mais visto lá em casa. Vivíamos a era pré-controle-remoto, tínhamos que nos levantar pra mudar de canal (ou convencer quem estivesse junto a fazê-lo), o que se fazia girando um botão: nossa TV (que era moderna pra época, acho eu) tinha cara de rádio antigo, com carcaça de plástico imitando madeira e botões arredondados; escolhíamos os canais como hoje se escolhe os diferentes tipos de lavagem de roupas na máquina.

O mais impressionante é que eu - que sou ruim de memória e apaguei grande parte da infância - lembro com clareza do dia em que essa TV chegou, nova, numa caixa de papelão, e reuniu todos na sala, em torno dela, surpresos, alegres e ansiosos, numa cena que hoje pra mim evoca um presépio, daqueles que o menino jesus tem tanta luz em cima que até parece que vai ser abduzido por uma nave espacial, e fica tudo mundo em volta dele, até os bichos (no nosso caso, o Popy, um cachorro vira-lata preto com todas extremidades brancas, que naturalmente não poderia estar na sala - porque era rigorosamente enxotado quando se metia a ultrapassar os limites do quintal pra entrar na casa -, mas que na minha memória do dia da chegada da nova TV também estava ali, ou pra compor melhor minha fantasia do presépio ou porque toda a atenção estava voltada pra chegada do novo deus e Popy entrou na sala sem que ninguém além de mim reparasse; eu o protegia, curtia suas invasões bárbaras).

Sim, trouxeram a caixa de papelão pra dentro de casa: era a hora de saudarmos o novo deus e colocá-lo no centro da sala, sobre o altar, já que o deus antigo nos castigava demais com uma tela pequena e problemas de imagens, que mesmo com todos os sacrifícios que lhe oferecíamos, como subir até o telhado pra mexer na antena externa; colocar chumaços de bombril na antena interna - a TV com as duas hastes metálicas em cima da “cabeça” parecia mesmo um inseto, mas era muito querida, de fazer inveja ao rejeitado Gregor Samsa de Metamorfose -; ou mesmo ficar de pé, segurando a antena e se mexendo até achar um modo de agradar aos anjos da boa transmissão. Todavia, mesmo com todos esses sacrifícios, muitas vezes o antigo deus não tinha piedade e punia, nos privando das suas imagens e sons. E se a TV não funcionasse ou não pudesse ser ligada - fosse por castigo divino, castigo materno (bem eficaz, aliás) ou falta de luz - redescobríamos outras formas de diversão, como jogos, brinquedos, revistas, livros, conversas ou a exploração do mundo do quintal. Nem só de telas viviam os meninos nascidos na década de 80; mas isso é material pra outras divagações; melhor me ater, ao menos por ora, à TV. É importante explicar logo que éramos uma família monoteísta (ou monotelista, se preferir), tínhamos só uma TV, o que aumentava nossa união e nossas brigas, evidentemente.

Nossa sala era um mundo, cujo chão - que quando nasci já era totalmente irregular porque foi cedendo com o tempo, e eu era um neto morando na casa que os avós tinham construído décadas antes de eu pensar em nascer, o que ocorreu no fim de 82 - era totalmente coberto por um carpete verde escuro, grosso, no qual, apesar da poeira e do calor nos deitávamos pra ver TV. Como fazem geralmente os deuses mais modernos, a TV nova não exigia tantos sacrifícios como a antiga, era muito menos carente e punitiva (sim, porque os deuses antigos viviam de papo furado e interagindo com os homens - pode reparar). Além do tapete, havia um sofá grande de três ou quatro lugares, de frente pra TV, e duas poltronas gigantes, uma do lado esquerdo e outra do direito; no centro, uma mesa de mármore branco, baixinha com uns cinzeiros (vocês acreditam, novinhos dos anos 2000, que fumavam muito àquela época, e dentro de casa?).

A poltrona gigante do lado esquerdo de quem olhava pra TV, perto da janela, era onde se sentava meu avô materno, o vô Lico, acompanhado do seu inseparável cigarro; ele se sentava ali e me chamava a ir pro buraco, o espaço exato em que eu me enfiava, ao lado dele, pra vermos TV juntos, espremidos na poltrona. Falem o quiser dos cigarros (não tiro as razões dos antitabagistas de plantão), mas até hoje lembro com saudades do cheiro enfumaçado do meu avô. E já que estamos falando dele, vou começar a cronologia semanal pelo domingo - sim, a TV era um deus que não descansava aos domingos (pelo contrário), mas juro que não vou descrever toda a grade de programas da época, só os mais marcantes pra mim. Especificamente na manhã dominical havia a corrida de fórmula um.

Mesmo aos domingos, eu acordava cedo demais, muito antes da hora da corrida, que variava de acordo com o lugar do mundo onde fosse a competição. Nesse ponto, eu competia com minha avó Marly, que era a outra pessoa da casa que também se levantava cedo (ambos sem a mínima necessidade de fazê-lo nos fins de semana). Então, antes da corrida, via às vezes globo rural, com todos os bois, plantas, paisagens enormes e pessoas que pareciam vir de outro planeta prum menino de Niterói, cidade na zona metropolitana do Rio, e acho que havia desenhos animados em algum canal também; mas depois vinha a corrida de fórmula um, que era um dos programas favoritos do meu avô - que também curtia partidas futebol sem grandes compromissos - era botafoguense, mas se dizia torcedor do São Cristóvão pra criar polêmica - e filmes ruins da madrugada, que ele às vezes descrevia pro resto da família no café da manhã.

Pra mim, as corridas automobilísticas eram um tédio, exceto as de vídeo game. Meu avô, no entanto, adorava e acompanhava até aquelas disputas pra definir as posições de largada, mesmo quando eram de madrugada. Lembro-me de perguntar a ele quantas voltas os carros dariam até terminar, sofrendo porque pra mim era algo que se assemelhava ao infinito. Sendo bem sincero, pra mim a monotonia só era quebrada quando havia alguma batida; fora isso, as manhãs de domingo eram marcadas por aquele zum zum zum infernal dos carros da fórmula um, que pareciam uma praga de insetos consumindo horas do meu dia livre. Depois, quando cresci um pouco, até passei a curtir as corridas com meu avô, ou me entreguei ao hábito, não sei bem. Até o dia em que assistimos juntos à última corrida do Ayrton Senna, nosso herói das pistas; dali em diante o zum zum zum e uma música que tocavam pras muitas vitórias do Senna se tornaram sinais de tristeza pra gente.

O domingo seguia, e hoje tenho imensa gratidão à minha família, dentre milhares de outras coisas, pelo fato de que não tinham o hábito de assistir programas de auditório dominicais. (Na verdade, acho que minha mãe nem via TV, talvez porque nem tivesse muito tempo livre nessa época, e porque sempre dormiu nos filmes). Não me lembro (ou apaguei) de ver em casa Faustão, Sílvio Santos etc.; é óbvio que conhecia esses programas e apresentadores, mas não éramos telespectadores deles. Acho que prevaleciam lá em casa aos domingos partidas de futebol e outros esportes, ou talvez eu costumasse sair pra passear ou brincasse de outra coisa.

Já que mencionei os esportes, abro logo um parênteses pra falar deles. Não era de ficar assistindo esportes e jogos na TV, exceto futebol quando se tratava de partidas mais importantes do Botafogo, seleção brasileira (especialmente nas copas) e também nas olimpíadas, quando surgiam na TV todas aquelas modalidades. Além das copas, lembro-me da família vibrando com as partidas de voley nas olimpíadas. E um dos jogos mais marcantes do fogão foi a final do campeonato brasileiro de 1995, que assisti na sala lá de casa com meu avô, meu tio Zezé e o Daniel, amigo meu desde que me entendo por gente. O pai do Daniel, o mais fanático dos botafoguenses, não aguentou assistir à partida e ficou rodando de carro pela cidade, aparecendo de tempos em tempos. Até que depois de muito sofrimento - como não poderia deixar de ser, já que se trata do botafogo -, o alvinegro carioca venceu o Santos e vibramos como loucos.

Voltando ao domingo, tenho que falar da sua noite - a mais triste da semana, sem dúvida -, que era marcada pelo Fantástico, com aquela música de abertura e mulheres lindas, que emergiam da água e tomavam a tela da TV, dançando e pulando no que pra mim eram imagens de outros planetas. Eu achava o Fantástico meio chato, e acho isso tinha a ver com minhas expectativas criadas com aquela abertura estonteante e com o modo fantástico dos apresentadores falarem “fantástico!”. O fato é que depois daquela abertura de outro mundo, o programa lembrava o jornal nacional, que pra mim era um saco. Então, eu me frustrava, exceto por uns clipes musicais que apareciam às vezes e pela simpática zebrinha, que não falhava. É certo que hoje essa zebrinha seria alvo de muitas críticas (e com razão, já que era associada aos resultados da loteria esportiva), mas eu a adorava, e não me tornei jogador compulsivo; pra falar a verdade, entre todos os vícios que já me atingiram ainda não se encontra o jogo. Viva a zebrinha da jogatina!

Passando aos dias de semana, lembro bem dos programas infantis de auditório. Xuxa, como as garotas do fantástico, também era algo de outro planeta, e o modo como aparecia no programa confirmava sua natureza extraterrestre: ela descia uma nave espacial. O que eu mais gostava do programa dela eram os desenhos animados. O mesmo acontecia com os programas do SBT e Manchete; a molecada da minha época também assistia a Bozo, Angélica, Mara Maravilha. E minha preferência em todos os programas infantis se repetia: eram os desenhos animados. Gostava de vários, mas me lembro agora que costumava ver sempre scooby-doo, thundercats, caverna do dragão (que não teve um episódio final e até hoje gera especulações e versões), tartarugas ninjas, os flintstones, zé colmeia, pica-pau, smurfs, cavaleiros do zodíaco etc. Gostava também do sítio do Picapau amarelo (eu tinha medo da cuca) e do Castelo ra tim bum, que eram da TVE.

E também havia aquelas séries de super-heróis orientais, tipo jaspion, changeman etc., que eram horrorosas e se repetiam invariavelmente, mas que eu adorava. Imperdoável. (Esse é sem dúvida um dos pontos bons de amadurecer). Pra finalizar as manhãs (do tempo que eu ainda estudava só a tarde, depois entrei num colégio de horário integral), tenho que fazer uma admissão tragicômica: brigava com meu tio Zezé, porque eu queria ver Chaves e Chapolim enquanto ele queria ver globo esporte. Talvez eu esteja errando quanto a horários, canais etc., mas confesso que minha intenção é fazer um apanhado geral das lembranças e não ficar parando toda hora pra fazer pesquisas. Sejam benevolentes, por favor.

À tarde eu só via TV se faltasse ao colégio e isso era raro. Pelo que lembro, os grandes destaques da tarde eram o vídeo show, a escolinha do professor Raimundo e a sessão da tarde. O mais legal do vídeo show era ver a arqueologia da TV, com a exibição de trechos e cenas antigas “diretamente do túnel do tempo”. A sessão da tarde (cinema em casa, na versão do SBT) repetia os mesmos filmes várias vezes, alguns inesquecíveis pra mim - lagoa azul, de volta pro futuro, goonies, loucademia de polícia, curtindo a vida adoidado, se meu fusca falasse, e.t., edward mãos de tesoura, um morto muito louco, olha quem está falando, quero ser grande, caça fantasmas, corra que a polícia vem aí, um monte de filmes dos trapalhões, top gun, karatê kid, esqueceram de mim, entre outros -, não sei se se tornaram inesquecíveis porque eu realmente gostava deles ou por força da repetição.

E a escolinha do professor Raimundo fechava a tarde numa reunião de humoristas de todas as idades e épocas numa sala de aula cheia de clichês, caricaturas, piadas velhas e repetições, mas mesmo assim engraçadas pro garoto que eu era e pra muita gente que via sempre, e acaba reproduzindo por aí as frases de efeitos dos personagens mais marcantes, como o próprio professor (“...e o salário, ó?”), o seu Boneco (“aí eu vou pra galera!”), Rolando Relo (“amado mestre! Captei a mensagem!”) e outros.

À noite não havia nada infantil, pelo que me lembro (talvez o mundo de beakman, na TVE, não sei ao certo). E é aí que fica bem marcada a passagem do tempo pra mim, porque as telenovelas de cada época, com seus personagens, enredos e músicas e aberturas, cronometravam nossas vidas. Não acompanhava com rigor as novelas; em geral não curtia muito a maioria delas, mas é impossível não reconhecer que as novelas marcavam nossas vidas como um plano ficcional de fundo. Certas músicas se repetiam todos os dias nos mesmos horários e acabaram virando trilha sonora das nossas vidas - mesmo que a contragosto. Não dá pra negar que as novelas invadiam nossas vidas. Lá em casa a TV ficava ligada à noite e mesmo que ninguém se dedicasse a assisti-la, ela nos fazia companhia, talvez destacando nossas rotinas monótonas, repetitivas. Dessa época, as novelas de que mais me lembro são Tieta (globo) e Pantanal (manchete). Pensando bem, talvez essas novelas tenham sido meu primeiro contato com o realismo fantástico, com a mulher de branco em Tieta e a mulher-onça em Pantanal. Além dessas, outra que me marcou foi Vamp, com vampiros morenos num país tropical - ao som de uma versão de “sympathy for de devil” - que se tornaram moda entre a garotada da minha idade.

E tinham os jornais da noite, que chamavam a atenção com suas músicas de abertura e as vozes de seus locutores. Também não morria de amores pelos telejornais, que achava chatos demais. Se deixassem na época, eu certamente ligaria, na hora dos jornais, o meu videogame - um phantom system, que tinha controles que pareciam o morcego símbolo do Batman, no qual passei horas e horas jogando super mário e outros jogos da nintendo e que chegou a contundir os dedos do meu avô Lico. Mas nunca deixaram. Então, só nos restava dar boa noite ao Cid Moreira e ouvir toda a “verdade” sobre os acontecimentos nacionais. Lembrem-se de que não havia Internet por aqui e a Globo exercia com mais facilidade o monopólio das informações e versões.

Uma outra dádiva divina foi o videocassete, que apareceu depois e tornou a TV muito mais interessante, porque com ele a gente passou a poder ver os filmes que a gente quisesse, na hora que a gente quisesse, com a opção de parar quando a gente quisesse - pra lanchar, ir ao banheiro etc. - sem ter que esperar os intervalos comerciais pra isso: pois é, o videocassete também nos livrou dos intervalos forçados da TV. E não foi só isso (o que já era muito pra época): o vídeo permitia que a gente gravasse os programas preferidos pra assistir depois, quando a gente quisesse. Muito avanço tecnológico!

Porque a TV, antes do vídeo, era um fluxo contínuo de programas; se a gente não estivesse em casa pra ver, já era; talvez daí, desse fluxo contínuo, a minha associação da TV à passagem inexorável do tempo. O que importa é que o videocassete foi uma dádiva e tenho quase certeza de que quem trouxe essa maravilha lá pra casa foi minha tia Mônica, a mais cinéfila da família. Outra invenção maravilhosa da mesma época, que também foi descoberta pela Mônica, foram as videolocadoras, onde não éramos simples clientes, meros consumidores, mas sócios reunidos por uma paixão. E não alugavam só filmes, mas também fitas de videogame; ou seja, algo que parecia o paraíso pra mim. Agora, no finzinho de 2015, está fechando a última do bairro, a Xi-liq, da Feli. Mas vou deixar essa história pra outra vez porque já tô com os olhos cheios d' água e porque o tema merece um texto inteiro só pra ele.

Voltando pra programação da TV, não consigo agora me lembrar de mais nenhum programa que fosse marcante durante a semana, exceto o globo repórter, na sexta, mas eu não curtia muito. No sábado, tirando uns desenhos animados que passavam cedo, também não havia programas interessantes pra mim, ou talvez eu curtisse outras coisas fora de casa. E quase fechando a semana, lembro da triste música de abertura de Supercine, que sempre passou filmes horrorosos. Chego a pensar que essa música é intencionalmente triste, porque ficar assistindo a globo num sábado à noite é uma das coisas mais deprimentes que se pode fazer. Não digo que é triste ver um filme legal em casa no sábado à noite - pelo contrário, isso eu curto -, mas Supercine nunca é legal; tão ruim q até hoje não gosto de ouvir essa melodia.

O último programa do sábado era proibido pra mim, mas quando eu estava fora da vigilância familiar, me metia a assistir, coisa que acho que quase todos os garotos da minha idade deviam fazer. Não sei com que idade comecei com isso, mas foi ali, no fim da infância, início da adolescência. O programa era o cine privé da Bandeirantes, que antes rolava na sexta e se chamava sexta sexy. Refletindo hoje sobre esses filmes eróticos levinhos - que sempre mostravam menos do que eu desejava (e eu sofria pra ficar acordado até aquela hora) - acho que eram voltados pra garotada mesmo: afinal, quem ficaria em casa vendo filminho de sexo, se pudesse sair e tentar arrumar sexo real?

Pra não dizerem que não falei de outras telas domésticas na minha infância (cinema é outra história), lembro das primeiras vezes que mexi num computador. E nem foi em casa. Acho que o primeiro contato foi no trabalho da minha mãe, num escritório na Urca. Mas era sem graça. Uma tela preta que só reconhecia uns comandos chatos sempre com uma barra. Meu tio Alex, irmão do meu pai, também foi pioneiro nesse lance de computadores, mas ele era tão viciado no negócio que eu só ficava em volta assistindo. Lá em casa meu avô e meu tio maternos apareceram com um PC (não sei se um 286 ou 386), mas eles ficaram muito mais empolgados que eu. Meu avô bem que tentou me despertar pra máquina do futuro (até separava umas páginas do jornal que eram dedicadas à informática), mas eu continuava preferindo a TV e o videogame ao computador, que, vale lembrar, não tinha internet naquela época.

Quem diria que, passados uns 20 anos, eu não teria TV na minha casa, mas um PC, no qual escolho o que quero ver, ler, ouvir, me sento pra escrever sobre minha infância de poucas telas e de onde vou mandar pra outras telas o texto final. Na minha infância, éramos seis na casa (quando não estavam os namorados, aí chegavam à nove), e só havia uma tela. Hoje somos só dois aqui em casa e temos quatro telas (todas ligadas à internet, claro): dois celulares, o PC e mais um tablet; e, se aparecerem visitas, pode ter certeza que vêm trazendo pelo menos uma telinha e não demora muito pra perguntarem qual a senha do wi-fi. Não nego o valor do presente, mas é impossível não me sentir nostálgico com nosso passado monotelista. Hoje, não sei bem o que marca o tempo, mas acho que pode ser a timeline do Facebook, do Twitter ou do Instagram...