terça-feira, 1 de novembro de 2016

Aos indignados - convite à cidadania

Muito se fala sobre crise de representatividade, mas penso que o problema é mais profundo. Não se sentir representado é mais uma consequência da crise de cidadania e da prevalência de um discurso de falência da política. A maioria das grandes empresas da mídia descrevem o Estado e os políticos como algo ruim, mau, como se todos estivessem envolvidos com corrupção, como se só existisse a politicagem. Essa visão de que tudo é corrompido, de que só existe politicagem liga-se ao fascismo. Falta nas escolas educação para formar cidadãos, para que as pessoas desenvolvam senso crítico e se interessem e participem da política.

A maioria das pessoas demonstra raiva dos políticos, compartilha reportagens sobre corrupção, xinga, grita, fica indignada. Mas grande parte dessas pessoas nunca colocou os pés numa reunião de um partido, nunca tentou participar, ver como funciona a escolha das propostas, dos candidatos, dos programas. Querendo ou não, gostando ou não, é dos partidos que virão os nossos representantes. O modo de vida consumista contamina tudo. Escolher candidatos, atuar para a construção dos governos, não é como ir ao supermecardo ou shopping escolher produtos.

Mas é assim que muitos agem: de dois em dois anos ficam surpreendidos e indignados com as escolhas que tem de fazer, como se os candidatos fossem produtos ruins numa prateleira de uma loja arcaica. A mesma coisa acontece com os sindicatos e outras organizações coletivas: as pessoas não participam e depois ficam reclamando, cheias de raiva, como se fossem meras vítimas de um processo macabro e misterioso. Não é assim. Há processos deliberativos, votações, assembleias e muitos não vão, não se informam, não querem saber e depois ficam reclamando, reforçando padrões individualistas, frustrantes e ineficazes.

Se você está surpreso com os candidatos é porque não acompanha a política, não participa de nenhum partido, e uma parcela na restrição de escolhas é responsabilidade sua também. Os partidos são construídos por pessoas e se você fica afastado contribui para sua surpresa e indignação. Sei que é cansativo, desgastante, que a gente trabalha demais, que tem família, outras coisas pra cuidar etc. mas, se a gente não praticar cidadania, não respirar política, vai ser difícil se sentir representado...  

Um comentário:

  1. Gostei do link entre o consumismo/individualismo e a crise de representatividade.
    A indignação que é "uma mosca sem asas e não ultrapassa as paredes das casas" em nada contribui para o debate político. Antes de abrir a boca para reclamar de tudo os "indignados" poderiam participar dos processos decisórios. É impressionante como está tudo interligado. Importante reflexão, parabéns!

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