sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Aquarius: poder econômico e golpe (outra leitura)



Numa primeira leitura que fiz do filme Aquarius*, do cineasta Kleber Mendonça Filho, vi Clara (a protagonista interpretada por Sonia Braga) como a própria cidade que luta contra o poder econômico desregulamentado, representado por uma empreiteira inescrupulosa. Ou seja, uma visão sobre a atual predominância das práticas neoliberais.

Todavia, o filme é muito rico e uma outra leitura pode ser feita: a de que Clara seria uma representante do poder político lutando contra as imposições do poder econômico, talvez como a ex-presidente Dilma Rousseff, tendo em vista os pactos realizados para que chegasse a chefe do executivo federal (uns dizem que é como a política funciona por aqui) e por sua tentativa de impor reajuste fiscal em prejuízo dos mais pobres.

Mesmo havendo dúvidas, podemos ver algumas semelhanças entre Clara e Dilma. A primeira é que ambas são mulheres fortes, dispostas a lutar. O filme começa nos anos oitenta, mostrando Clara mais jovem, com os filhos ainda pequenos e pouco depois de vencer um câncer. Dilma lutou contra a ditadura militar e foi nos anos oitenta que houve a redemocratização no Brasil; assim, poderíamos ver o câncer da personagem como uma representação do regime militar, que teve vínculos estreitos com o poder econômico. Dilma e Clara carregam cicatrizes desta mesma época.

Nesse contexto, podemos enxergar o edifício Aquarius como o Brasil. Aqui preciso dizer que não gosto da comparação que muitos fazem entre Estado e condomínio, porque a complexidade do primeiro não se encaixa no modelo do segundo. Porém, para efeito de interpretação deste longa, creio que se possa admitir essa correspondência.

Sendo assim, ao vermos Clara já com mais de sessenta anos e lutando praticamente sozinha contra a grande construtora, percebemos que atualmente o poder econômico não precisa mais instaurar uma ditadura para impor suas exigências. Com o fim da guerra fria e o avanço do capitalismo neoliberal e da globalização, houve uma sofisticação dos meios pelos quais o poder econômico controla os Estados.

Com as transnacionais e o fortalecimento do capital financeiro e especulativo, o controle dos Estados se dá por meio da retirada de investimentos, além do uso das grandes empresas de mídia. O poder econômico força a desregulamentação e a corrosão dos direitos de índole social e protetiva (trabalhistas, previdenciários, ambientais etc.), transferindo, ou ameaçando transferir, a produção para Estados com menos barreiras para exploração em larga escala. Como exemplo deste processo, vimos grandes fábricas se deslocarem para países asiáticos e africanos onde exploram trabalho escravo e degradam o meio ambiente sem sofrerem quaisquer sanções.

Diante deste quadro, como agem os partidos à esquerda? O que pode fazer um partido de esquerda quando chega ao poder? E é importante compreender que ter a chefia do poder executivo não significa amplos poderes, já que praticamente tudo tem que passar pelo legislativo, composto por representantes com interesses diversos e muitas vezes contrários, o que é normal e saudável numa democracia. 

No caso do Brasil, o congresso eleito em 2014 - com o enorme financiamento empresarial permitido à época - é considerado o mais conservador desde 1964, quando houve o golpe civil-militar que instaurou uma ditadora de duas décadas. Não custa lembrar a sensacionalista e duvidosa operação Lava Jato e as muitas notícias sobre doações ilegais  de grandes empreiteiras (como a do filme) a partidos políticos. E foi esse congresso que decidiu pelo afastamento da presidente, que havia se posicionado contra o financiamento empresarial. É muito provável que por trás do golpe estejam articulações para voltar com tais doações.

Feitas essas observações, a comparação entre Clara e Dilma sugere que ambas ficaram isoladas num contexto em que os demais se entregaram sem ressalvas ao poder econômico. Clara é a última proprietária de uma unidade no antigo edifício Aquarius; todos os demais já assinaram contratos com a empreiteira e estão só aguardando que a personagem de Sonia Braga se entregue também. Mas, para surpresa e insatisfação deles, Clara resiste.

É interessante um trecho do filme em que Clara decide pintar o prédio inteiro por conta própria. Quando ela age assim, comete uma irregularidade, pois é um condomínio e todas as outras unidades estão nas mãos da empreiteira. Um condômino sozinho não pode fazer o que quiser com o prédio, mesmo que tenha a melhor das intenções.

Essa conduta de Clara pode ser interpretada como algo semelhante às “pedaladas fiscais” e abertura de crédito suplementar, que serviram de base para o golpe disfarçado de impeachment, embora tais práticas venham se repetindo desde o governo de FHC, passando pelos mandatos de Lula, sendo comuns também nos estados e, na minha visão, não configuram crime de responsabilidade.

Isolada, sozinha, abandonada por seus antigos vizinhos (no caso de Dilma, traída por parlamentares que eram da base do governo, principalmente os do MDB, legenda do seu vice) e lutando contra o poder econômico, ela faz o possível para tentar melhorar as coisas, mesmo que seja só superficialmente. Como pintar a fachada do prédio. Porém, qualquer erro, por mais banal que seja, pode servir como justificativa para tentar forçar sua expulsão.

Essa é a segunda interpretação que faço de Aquarius. Possivelmente o cineasta não pensou nisso quando elaborou o enredo, uma vez que o processo de impeachment veio a se consolidar depois da produção do filme. Porém, a meu ver, a obra é aberta: uma vez que exposta ao público, a interpretação é livre. Aquarius é muito mais que isso e vale por tudo: pela trama, pelos personagens, pela forma, pelas grandes atuações, pela trilha sonora. Vendo e revendo o longa muitas outras leituras poderão surgir. 
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*Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era, no link: https://ecosprosaicos.blogspot.com/2016/09/aquarius-uma-mulher-uma-cidade-uma-era.html

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Aquarius: uma mulher, uma cidade, uma era




Lançado em 2016, o filme Aquarius, do cineasta Kleber Mendonça Filho, narra o conflito entre a jornalista aposentada Clara (Sônia Braga) e a empreiteira Bonfim,  que pretende demolir o edifício que dá nome ao longa para erguer um arranha-céu. Moradora antiga do prédio ameaçado, a protagonista é a única que se recusou a vender seu apartamento à empresa.

Para mim, Clara é como uma representação humana da cidade, com suas histórias, estigmas, aspectos naturais e construções; ela e Recife misturam-se e, neste processo, não ocorre uma reificação da moradora, mas uma humanização da cidade, que se destaca como local onde pessoas diferentes tentam (sobre)viver. O filme é um “zoom” em uma destas pessoas: uma mulher arretada, capaz de abraçar as novidades sem negar seu passado e suas cicatrizes.

Mas há uma cisão entre Clara e Recife: enquanto a mulher consegue conciliar harmonicamente passado e presente - o que se vê na cena em que Clara explica que ouve música de várias formas, antigas (LPs) e novas (streaming, mp3) - a cidade é atacada por empreiteiras que destroem indiscriminadamente edifícios históricos para construir prédios grotescos como ninhos de cupim. 

Aquarius - prédio que integra o corpo de Recife - é atacado pela construtora, da mesma forma que Clara enfrentou um câncer, doença em que as células se multiplicam descontroladamente. As construções de uma cidade, como as células num corpo, devem funcionar em harmonia, para não comprometer o organismo como um todo. Novos prédios são importantes e necessários, mas a atuação das empresas não deve ser desordenada como um câncer. 

Não vemos nenhum representante do poder público para regular a atividade da construtora Bonfim, cujo nome soa sarcástico, se considerarmos o fim que a empresa quer impor ao lar da protagonista. O conflito se dá entre uma empresa e uma mulher de classe média. Não há ninguém para fiscalizar, controlar e exigir equilíbrio. 

Muitos parecem temer apenas o poder excessivo do Estado, mas a iniciativa privada também pode oprimir. No neoliberalismo, o Estado - esvaziado da função de regular as atividades de grandes empresas - é inflado para vigiar, punir e varrer para longe os mais pobres, que geralmente só têm a posse do local onde moram. Por não serem proprietários como a personagem de classe média, são despejados para zonas cada vez mais afastadas.

A música "Hoje", de Taiguara, tocada duas vezes no longa, tem tudo a ver com o enredo; lançada em 1969, expôs a violência da ditadura militar e agora se encaixa perfeitamente à tirania das grandes empresas.

O discurso neoliberal defende a redução do Estado, a desregulamentação e o filme mostra algumas das consequências da adoção destas posturas. Na trama, também se observa a mídia comprada pelo dinheiro das contas de publicidade. O jornal da cidade tem informações que se recusa a divulgar para não perder anunciantes. Uma espécie de censura realizada pelo poder econômico.

Defender o edifício Aquarius é mais que defender o lar de uma pessoa, o abrigo da história de uma família etc. É como defender uma era, uma época, a história, a integração do passado com o presente, o equilíbrio entre o que foi e o que virá. 

A cidade se ama, como Clara. A cidade luta, como a protagonista no filme e na realidade, como o Movimento Ocupe Estelita em Recife. O filme mostra que a classe média passou a ter o dever de viver (ou seria morrer?) em arranha-céus com grades, cercas elétricas e câmeras. (Se a classe média sofre pressões desse tipo, imaginem os mais pobres?).

É fato que o excesso de liberdade (e poder) das grandes empresas afeta a liberdade das pessoas. O medo dos ladrões de coisas pequenas ofusca os medos e as imposições maiores. Há muita desigualdade, nenhum equilíbrio. O discurso tem sido algo como: aos pobres, punição; aos ricos, desregulamentação.

No filme, vemos placas alertando para ataques de tubarões na praia em frente ao edifício Aquarius. Segundo ambientalistas, essa ameaça surgiu na praia de Boa Viagem depois da construção do Porto de Suape, que afetou o ecossistema local. Outro caso de desequilíbrio em que o poder econômico impôs suas vontades, suas exigências, sem debate, de modo antidemocrático, demolindo a cidadania. 

Quando ações desenfreadas reduzem tudo - até a moradia - a produto, consumo e lucro, e o “novo” faz questão de matar o antigo, para usurpar totalmente seu espaço, arrancando suas raízes do solo do passado, as consequências atingem não só o morador do local mas a todos, pois bloqueiam as memórias e interrompem a história, causando irreparável destruição. Como pragas. Como um câncer.
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PS. Pra quem curtiu "Aquarius", vale a pena assistir a outros filmes do mesmo diretor, como os longas "Som ao redor" (disponível na Netflix) e "Bacurau", além do curta "Recife frio".

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Segunda visita à ocupação escolar

Ontem, 21 de abril de 2016, voltei ao IEPIC/Niterói-RJ, dessa vez com a Verônica (minha mulher e ex-aluna de lá) e o Rafael, grande amigo. Dessa vez, outrx estudante - de 16 anos e alunx do 2º ano do curso normal e integrante da comissão de comunicação - mostrou a escola e conversou com a gente. A ocupação completou duas semanas e tivemos a oportunidade de conhecer espaços do colégio que os próprios alunxs não conheciam até iniciar a mobilização. Ficamos surpresos com a quantidade de material em bom estado - computadores, máquinas copiadoras, impressoras etc. -, que estava inacessível ao alunado. Mais que sem acesso: eles explicaram que não sabiam sequer da existência do material e de certos locais, que estavam sempre fechados. Alguns desses espaços foram revelados com a visita de ex-alunxs à ocupação que, ao conversarem sobre suas lembranças no colégio, levaram os alunxs ocupantes a ingressarem nesses locais anteriormente interditados. Ex-alunxs, junto aos atuais, conversando e descobrindo novos espaços. E não são só espaços físicos. Na verdade, a ocupação é a descoberta desse espaço de cidadania e de política, na melhor e mais honrada acepção do termo.

Nessa segunda visita, o colégio estava ainda mais bonito. Limpo, mais aberto, cheio de jovens dialogando e se envolvendo em atividades. Outros visitantes e apoiadores também andavam pelo pátio. Li em alguns jornais que as ocupações estariam impedindo o funcionamento dos colégios. Não é verdade. Infelizmente, é esse governo que está vandalizando a educação, ao cortar gastos e deixar de pagar professores e funcionários. Os professores estão em greve e a ocupação é legítima. Vandalismo é o que faz a atual administração do estado do RJ. Se não acredita no que digo aqui, sugiro que visite as ocupações, pesquise sobre o que o governo vem fazendo e chegue a suas próprias conclusões.

O movimento é delxs, dxs alunos, e extremamente democrático. Perguntei se elxs lutavam para escolher a diretoria e a resposta foi que não era só para escolher, mas participar das decisões: elxs querem mais que uma democracia representativa, eles querem assembleias e votação direta para as grandes decisões do colégio. Esse movimento, a pauta dessxs meninxs, ensina muito e serve de exemplo para o nosso sistema político e a necessidade de reformas. Mais uma vez, saí da escola cheio de esperança. Amanhã voltarei lá. #OcupaIEPIC 

sábado, 16 de abril de 2016

Visitando uma escola estadual ocupada

Sábado, 16/04/2016. Hoje à tarde, por volta de 16h, visitei a ocupação do IEPIC - Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, em Niterói. Nesse texto quero apenas expor minhas impressões sobre a visita à ocupação. Para saber mais e acompanhar o movimento, vale a pena acessar a comunidade “Ocupa IEPIC”, no Facebook, onde há vídeos, textos e fotos postados pelos alunos.

Fui sozinho até o colégio, que fica numa rua pouco movimentada de um bairro residencial próximo ao Centro da cidade. O portão estava fechado e havia vários cartazes colados na parede (foto abaixo). Bati e logo fui atendido: uma menina, que aparentava ter 16 ou 17 anos, perguntou quem eu era. Me apresentei e expliquei que tinha interesse em conhecer a ocupação. Sem mais perguntas, o portão foi aberto e pude ver um grupo de alunos que estava reunido na portaria. Um deles se aproximou, perguntando se eu já conhecia o espaço e informando que fazia parte da comissão de segurança da ocupação. Ele me levou até a cozinha, onde havia um grupo lanchando e conversando de forma descontraída. Assim que entrei, todos me cumprimentaram e ofereceram refrigerante e pão com presunto. Em seguida, fui apresentado a um aluno da comissão de comunicação que me levou para ver o espaço e explicar como funciona a ocupação. Um integrante da comissão da cozinha também nos acompanhou durante a volta que fizemos pela escola.

Os dois alunos - ambos com 17 anos e estudantes do segundo ano do curso normal do IEPIC - foram simpáticos, receptivos e bem articulados diante de todas as perguntas que fiz - e foram muitas! Expliquei a eles a minha intenção de escrever sobre a visita e perguntei se havia algum problema; eles responderam que eu poderia relatar tudo livremente, esclarecendo que tinham restrições apenas quanto à mídia corporativa e a eventuais oportunistas ligados a partidos ou organizações, que pudessem deturpar ou tentar se promover com a ocupação. Daí conversamos sobre a importância de construir narrativas que desmontem os discursos que criminalizam o movimento.

Caminhamos pelo pátio da escola. Visitamos a horta, que está sendo preparada para ser reativada depois de 18 anos de abandono (hoje de manhã eles tiveram aula de compostagem); a quadra onde eles dormiam; a sala do rádio; a quadra de esportes (onde alguns jogavam bola) e ainda o local onde foi realizada a reunião com a diretoria. Tudo está limpo e organizado. Eles explicaram que a escola estava suja e com mato alto em algumas partes, e que, em pouco mais de uma semana de ocupação, os alunos limparam e capinaram tudo. Também esclareceram que não têm livre acesso a todos os espaços do instituto, já que a biblioteca e a cantina, dentre outros locais, estão trancados.

No tocante ao modo de funcionamento e o processo de tomada de decisões da ocupação, eles disseram que se organizam em comissões e decidem tudo por meio de assembleias com a participação de todos. Também perguntei por que eles tinham decidido integrar do movimento e se a experiência de ocupação em São Paulo havia influenciado a mobilização. Eles explicaram que apoiam a luta dos professores e que desejam uma escola pública de qualidade e afirmaram que a experiência paulista influenciou principalmente a organização do movimento.

No que se refere às causas dos problemas relativos à educação, ambos falaram que o descaso não é só do estado, mas também de grande parte dos pais, que não se interessam, e em seguida explicaram que não há preocupação em formar pessoas que pensem, que tenham uma visão crítica, que a formação é vista somente como uma forma de arrumar emprego; e que esses pais se mostram desinteressados porque também não tiveram ensino de qualidade.

Estávamos na sala do rádio conversando, quando uma menina apareceu na porta e anunciou a próxima atividade: assistir ao filme “Escritores da liberdade”. Decidi que era uma boa hora para me despedir, até para não atrapalhar a participação dos rapazes que estavam comigo. Agradeci e desejei força à ocupação. Eles me convidaram a voltar e a trazer mais gente. Cruzei o portão cheio de orgulho daqueles meninos e meninas, feliz da vida por ter visto, num sábado à tarde, uma escola cheia de jovens lutando por educação de qualidade.


Todo mundo que eu conheço - de direita, de esquerda, apartidário... - diz que temos que melhorar a educação, que os professores não são valorizados etc. Pois bem: aí está um movimento que tem justamente essa finalidade. Por que não aproveitar a oportunidade para ver de perto, conhecer e apoiar a mobilização?       


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ideologia: perto demais para ser vista

Curto a revista Superinteressante, que nem parece da Editora Abril, mesma da Veja. Mas a última capa serve de exemplo pra falar um pouco de ideologia, especialmente sobre a predominante, essa que muita gente nem repara, porque se encontra completamente mergulhada nela.

Pois bem. Vamos ao título na capa da revista: “Transforme seu stress em algo bom”. Parece uma dica legal, né? Só que não. Vou explicar os motivos.

A matéria não fala sobre o que poderíamos fazer para mudar as causas do estresse. Pelo contrário, o texto já parte da ideia de que viver uma rotina constante de estresse é inevitável. Também é superinteressante notar que a própria autora reconhece o imenso impacto da área profissional, das relações de trabalho, na origem do estresse: a maioria dos exemplos utilizados diz respeito ao trabalho, as fotos na parte interna são de um homem de terno e já no subtítulo se fala em aumento da produtividade.

O texto da matéria não se afasta do título e não deixa dúvidas sobre a mensagem principal: é destino de todos ter uma rotina de trabalho exaustiva, estressante, e é o indivíduo - sozinho, isoladamente - que deve se adaptar para tirar proveito disso.

Por que a matéria não aborda as causas atuais do estresse? Por que não fala de possíveis soluções para mudar a estrutura que gera a rotina massacrante? A matéria só oferece duas opções: sofrer mais com o estresse (se não se adaptar) ou sofrer um pouco menos, “curtindo o lado bom dele”. Não existem no texto alternativas que cheguem à raiz do problema. É como uma questão de múltipla escolha, que já parte de opções pré-determinadas e reflete muito bem a ideologia, na medida em que reduz as opções, fecha-se numa moldura estreita, e interdita o diálogo e a criação que são permitidas nas questões discursivas.

Aí se vê claramente que essa rotina estressante - que faz parte de um modo de produção que explora coletivamente - é mostrada como destino inevitável. Não dá para ignorar que a palavra coletividade sofre um bloqueio ideológico. O estresse é a consequência de um sistema de trabalho imposto (e o texto reconhece isso nos exemplos), que afeta a maioria das pessoas, ou seja, a sociedade, a coletividade. Mas é o indivíduo, sozinho, que deve fazer alguma coisa: e sozinho ele só pode aceitar e se adaptar - nunca atingir a causa. Daí as praças e sindicatos vazios e os consultórios de psicólogos e psiquiatras cheios. Os problemas vêm de sistemas, estruturas, que afetam todos, mas a ideologia predominante é de fragmentação e individualização.

Nesse contexto, o discurso que se repete é: “você tem que ser adaptar! Você tem que se moldar, se transformar! É preciso resiliência!”. Típico discurso raso de “auto-ajuda”. Nada é falado sobre as estruturas, é o indivíduo que tem que se encaixar ali, se transformar em mais uma engrenagem, e não tentar transformar a máquina. O indivíduo tem que abrir mão do seu tempo, dos seus desejos, da sua família, das suas características para se encaixar no modo de produção massacrante, o que envolve, cada vez mais, até o uso de medicamentos psiquiátricos, ou seja, uma adequação química para “funcionar” e produzir bem nessa realidade apresentada como imutável.

Por que não há a sugestão de que as pessoas se unam e coletivamente tentem formular mudanças nas causas do estresse? A solução da matéria aponta para o indivíduo que, sozinho, é absolutamente impotente pra isso. A estratégia coletiva - que é a única que pode atingir a estrutura - é negada, sequer é cogitada.

Curioso destacar que, enquanto essa capa individualista é exibida nas bancas, é uma ação coletiva que consegue ter eficácia. Os estudantes da rede pública do Estado de São Paulo se organizaram e coletivamente impediram que a gestão do governador Geraldo Alckmin impusesse o fechamento de várias escolas, sem qualquer tentativa de diálogo e com evidente prejuízo aos jovens, que teriam que se deslocar pra locais distantes e se submeter a salas superlotadas, o que, muito provavelmente, levaria à evasão escolar.

Se cada um daqueles jovens fosse seguir a dica da revista Superinteressante, eles iam se adaptar às mudanças: aceitar, calar, nada fazer para impedir e viver uma rotina massacrante pra chegar e voltar da escola. Como os trabalhadores estressados. Cada um deles sofreria individualmente as consequências. Mas eles se uniram e pra mim são um coletivo de heróis; e só são heróis porque organizados coletivamente. E aqui é importante chamar a atenção pros super-heróis dos quadrinhos norte-americanos que, com raras exceções, são indivíduos isolados, que usam seus superpoderes contra supervilões, mas nunca atingem as estruturas que causam as desigualdades no mundo. Mais um exemplo da ideologia das estratégias individualistas (e por isso impotentes) pros problemas coletivos.

Muitos dizem que não há ideologia ou que só existem ideologias de esquerda, comunista etc. Como já coloquei acima, penso que isso acontece porque as pessoas estão mergulhadas na ideologia predominante (capitalista), o que dificulta muito a percepção. O termo capitalismo também sofre um bloqueio ideológico. É comum falarem no número de mortes causadas pelos regimes soviéticos, por exemplo, mas quantas vezes vemos sistema capitalista como causador de mortes?  O fato é que a revista Superinteressante não nega a existência de ideologia, porque páginas depois da reportagem sobre o estresse, fala que o uso da maconha é barrado por motivos ideológicos (página 56).

Para revelar a ideologia é indispensável formular certas perguntas, como: por que esse esse tema e essa abordagem? E tal tipo de análise e questionamento pode ser utilizado para desvendar o que está por trás de diversos discursos e escolhas, inclusive das pesquisas científicas que são citadas na matéria, que tratam de situações isoladas de estresse e não envolvem os efeitos da submissão a rotinas estressantes contantes e a longo prazo, o que ocorre frequentemente com muitas pessoas.

Acredito que a autora do texto nem tenha pensado sobre as questões colocadas aqui. Penso que é provável que a ideia de escrever essa matéria tenha surgido diante da leitura de outros artigos que foram escritos sobre as novas pesquisas científicas acerca dos efeitos do estresse. Se foi assim, não há surpresa, já que faz parte da imersão da ideologia a reprodução dos discursos dominantes, sem grandes reflexões sobre as origens, raízes.    

Por último, mas não menos importante, a matéria termina comparando pessoas “a máquina[s] de enfrentar dificuldades”. Nada melhor para a produtividade que máquinas. Mas não. Não somos máquinas e não estamos dispostos a nos transformar em máquinas e engrenagens para produzir melhor. Impossível negar a ideologia predominante. Vou enviar esse texto à revista e ver se tenho alguma resposta. Seria legal ler uma matéria falando sobre ideologia. 


PS. O texto tem influência de dois autores de que gosto bastante: Bauman e Zizek.

domingo, 27 de setembro de 2015

PM apreende Cosme e Damião a caminho da zona sul e causa revolta

Rio. 27/09/2015. 10:17h.

Em operação realizada essa manhã, a polícia militar apreendeu dois irmãos, conhecidos como Cosme e Damião. Eles estavam num ônibus, que no momento da apreensão fazia o trajeto da zona norte à zona sul do Rio. Segundo a assessoria de imprensa da PM, os irmãos não foram apreendidos, mas apenas acolhidos, porque estavam em situação de vulnerabilidade. “Estavam só de bermudas e chinelos, sem documentação, indo sozinhos pra praia de Ipanema.”, informou um dos policiais que participava da operação. Ouvidos pela equipe de reportagem, os irmãos afirmaram ter marcado com amigos na praia e que também tinha intenção de pegar doces, como sempre fazem nesse dia. Os rapazes, surpresos, também indagaram por que os meninos brancos da zona sul não são revistados nos ônibus (nem em lugar nenhum) e por que a polícia não apreende as crianças trabalhando nos sinais e calçadas por toda a cidade. Por essas declarações, consideradas como desacato, foram algemados. O calor já estava insuportável às 9h da manhã, mas mesmo assim eles foram trancados numa viatura exposta ao sol.


A operação tinha tudo para ser tranquila, mas religiosos fundamentalistas e moradores jovens e musculosos da zona sul resolveram punir logo de uma vez Cosme e Damião. Líderes exaltados quiseram tirar os rapazes da viatura e houve tumulto. A confusão se agravou quando os grupos se desentenderam sobre o que fazer com os irmãos apreendidos. Os religiosos queriam aplicar a lei do velho testamento e apedrejar os rapazes, ante a declaração de que iriam pegar doces, atividade demoníaca, segundo explicação de um dos líderes. Já os jovens da zona sul queriam o linchamento, talvez com morte ao final. A polícia interveio e explicou que seria muito complicado o homicídio de Cosme e Damião logo hoje, porque esse ano, perto da páscoa, a PM já havia matado o menino Jesus no Alemão. A temperatura aumentou ainda mais, beirando os 50 graus. Mesmo depois de depredarem a viatura e ferirem dois policias, os rapazes da zona sul foram liberados, sem registro de ocorrência; as autoridades afirmaram que eles não representam risco: muito piores são os que vêm da zona norte para Ipanema, embora não tenham feito nada ainda (é só questão de tempo). Líderes dos religiosos fundamentalistas afirmaram que o fim está próximo e que o eclipse lunar de hoje à noite confirma o apocalipse. “Nós só queríamos salvar esses ímpios do calor do inferno, mas a lei dos homens nos impediu e agora eles estão ali, na viatura, fritando no calor da terra. Deus sabe o que faz!” - afirmou um dos presentes. Os delinquentes serão encaminhados para o centro de acolhimento “Cidade Maravilhosa”, onde permanecerão até o comparecimento de algum familiar para libertá-los. A previsão é de mais calor para esta tarde.

sábado, 31 de maio de 2014

Robocop: uma metáfora sobre a exploração do trabalho

Quando certa manhã Alex Murphy acordou de seu sonho tranquilo - no qual dançava com sua mulher ao som de fly me to the moon na voz de Sinatra -, encontrou-se numa sala grande e clara metamorfoseado num robô. Estava de pé, acoplado a uma máquina e só recuperou seus movimentos aos poucos, obedecendo às ordens do senhor de jaleco branco, que o olhava de perto. Vestia uma armadura que emitia sons a cada movimento. Nervoso, perguntou o que estava acontecendo e pediu que o tirassem daquela carapaça metálica. Não pode ser atendido: aquilo era o seu corpo.

Não era um pesadelo. Depois de ser gravemente ferido por uma bomba, o policial Alex Murphy estava num laboratório, transformado em Robocop, um híbrido de homem e robô, cujo nome já suprime qualquer referência à sua humanidade. Dentre mutilados e doentes afastados da polícia - inválidos sob a ótica do mercado de trabalho -, Alex foi escolhido para se tornar produto (made in china) de uma empresa especializada em fabricar e vender robôs policiais pelo mundo afora, exceto nos EUA, onde uma lei os proibia.

Sob o discurso do medo reforçado por um jornal da TV, a ideia de fabricar o híbrido surgiu para burlar essa lei e transformar o poder público dos EUA em cliente. Essa é a história de Robocop, dirigido por José Padilha (o mesmo de Tropa de Elite), que é uma versão do filme homônimo lançado em 1987.

Robocop aborda muitos temas interessantes, mas vou procurar me ater à questão da exploração do trabalho. Talvez possa parecer estranho falar sobre isso analisando um filme que trata da utilização de robôs na segurança pública. Se o risco é a substituição de homens por máquinas, por que exploração humana?

Bom, o filme pode ser visto como a história do policial transformado numa máquina, com armadura metálica, visão computadorizada, acesso ao arquivo de dados e controle à distância. Mas pode ser interpretado também como uma metáfora do homem pós-moderno; ou melhor, de todos nós, que não temos membros robóticos (embora o celular pareça uma parte do corpo), mas que, ao cumprirmos as exigências profissionais, agimos como máquinas.

Aos que não perceberam, o primeiro parágrafo é uma paródia do início de Metamorfose, de F. Kafka. Em vez de metamorfoseado em inseto, o herói acorda como robô policial. E no lugar da rejeição que sofreu Gregor Samsa (o homem inseto kafkaniano), Robocop é aclamado por todos.

Na minha visão, a principal distinção entre Gregor e Alex é que um deixou de ser útil sob o aspecto profissional, enquanto o outro tornou-se o mais eficiente dos policiais, um exemplo de produtividade. Como um sonho dos chefes, passou de inválido ao melhor da categoria. Para alcançar esse nível de eficiência, Alex foi destituído das emoções, das lembranças, da fragilidade, da autonomia bem como da convivência social e familiar, ou seja, de tudo que o fazia humano.

Há quem leia metamorfose e entenda que Gregor não se transformou num inseto: ele teria passado a se ver e ser visto assim a partir do momento em que deixou de trabalhar, já que na sua família todos dependiam do seu dinheiro, fruto do exercício exaustivo da função de caxeiro-viajante, detestada pelo protagonista.

É interessante ressaltar que Gregor - mesmo metamorfoseado num inseto - continua capaz de se emocionar, apresentando-se bem mais sensível que as demais personagens que o cercam. Essa sensibilidade é nítida durante a narrativa e há um ponto peculiar que merece destaque: sua reação à música. Num trecho do capítulo 3, sua irmã toca violino na sala e os inquilinos mostram-se enfadados; Gregor, no entanto, comove-se com a música e tenta se aproximar da irmã para incentivá-la.

Já em Robocop, as emoções atrapalham o bom funcionamento da máquina, o que leva o cientista a controlar as substâncias no “corpo” de Alex para eliminá-las, a ponto de ele deixar de sentir afeto pela própria família. Tal estratégia, a meu ver, não difere muito do consumo de medicamentos psiquiátricos para adequação ao papel profissional. Remédios para ansiedade, para tristeza, para dormir na hora “certa” e para acordar “feliz” e produtivo, é claro, já que o mau humor prejudica o bom exercício das funções.

E também há uma cena (aos 18 minutos do filme) em que é demonstrada a reação das máquinas à música: um violonista vai tocar pela primeira vez com suas mãos robóticas; sua mulher o acompanha, ansiosa; ele toca por algum tempo e, ao se emocionar, o sistema falha; o cientista lhe explica que emoções intensas congelam o programa.

Robocop, portanto, é o herói aclamado, ou melhor, o funcionário (produto) perfeito: não se emociona; não prioriza a família (na verdade, chega a esquecê-la); não padece das fragilidades humanas; é controlado todo o tempo e ainda pode ser desligado, se demonstrar rebeldia ou prosseguir com investigações que não interessam aos poderosos - que no filme não são os políticos mas os empresários.

O comportamento do Robocop está muito diferente do que exige o discurso sobre profissionalismo? Impessoalidade, foco, metas, produtividade, jornadas enormes, acesso total e ininterrupto por meio de celular, vestir a camisa - ou a armadura que jamais pode ser retirada? Robocop é policial o tempo todo, é o “ser” reduzido à sua parcela profissional - é um superpolicial castrado. Freud explica.

E não para por aqui. Submetido a testes nos quais é comparado com robôs puros, Robocop mostra-se lento, hesita um pouco antes de atirar (certamente, por mais tempo que o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, que parece mais robótico que Alex Murphy). O atraso do Robocop é um grave problema; ele tem consciência, decide, pensa e isso o torna ineficiente. Daí, o cientista faz uma intervenção cirúrgica para consertá-lo.

Mais ou menos aos 50 minutos do filme, depois do reparo e durante um novo teste, o cientista explica que fez uma pequena alteração, de modo que Alex nada decide a partir do momento em que começa a batalha e seu visor desce: “nos combates ele é só um passageiro de carona; pensa que está no controle, mas não está, é uma ilusão de livre-arbítrio.” Uma cientista, que observa o desempenho espetacular do Robocop ao destruir dezenas de robôs, conclui que se trata de uma máquina que pensa ser um homem.

Ilusão de livre-arbítrio. Achar que faz algo porque quer, por livre e espontânea vontade, fruto da própria e independente deliberação, quando na verdade não está no controle. Muitas pessoas vestem a armadura, a máscara profissional, e agem de acordo com o que exigem delas, mesmo que isso signifique a negação de seus valores.

Ao contrário do "pede pra sair" do capitão Nascimento em Tropa de Elite - que incentivava alguns recrutas a desistirem da carreira no BOPE -, em Robocop não há opções: Alex acorda preso à armadura, à profissão, sem escolha. 


Funções exaustivas, exercidas com alienação, destituídas dos valores ligados à identidade, objeto de exploração, mas dissimuladas pelo discurso da liberdade, que tenta encobrir a pura submissão às regras do mercado.

Não se trata de rejeitar o trabalho; de forma alguma. A ideia de empregar a energia humana para criar é ótima; mas não é isso que acontece em regra. A força é explorada e desvalorizada; o ser humano é reificado e a desigualdade cresce.

Vivemos sob o impacto do discurso do medo, cuja causa principal - segundo os jornais e o senso comum - é a violência dos criminosos, para a qual a solução seria o fortalecimento da polícia. No entanto, o Robocop de José Padilha deixa claro algo que poucos parecem enxergar: a pior violência não é a dos bandidos, mas a do império dos poderes econômicos, que, na verdade, é validada pelas leis.

A lei permite que uma jornada de 40 horas semanais seja remunerada com um salário mínimo, mas não impede que empresas lucrativas reduzam seus quadros. Com a globalização, as empresas transitam entre os países e compram de cada um o que encontram mais barato. Há muitas restrições legais para os imigrantes, mas não para os negócios. As funções do Estado vêm sendo reduzidas, ao mesmo tempo em que cresce o número de trabalhadores sem vínculo formal, ou seja, sem proteção legal perante a exploração.

Todavia, os jornais falam o tempo todo das agressões dos criminosos - nada dizem sobre a violência da exploração do trabalho, do medo de perder o emprego, de se tornar uma peça obsoleta, inútil para a produção, e passível de descarte. Isso não é violência? Não é uma boa causa para sentir medo? A polícia pode resolver esse tipo de situação?

A exploração da força de trabalho dilacera as pessoas e as modifica para encaixá-las às exigências do mercado; e se não há como torná-las úteis sob a ótica da produtividade, elas ficam de fora, largadas à própria sorte, já que o Estado deve ser mínimo.

Porém, ao contrário de Alex - que pediu pra sair da armadura -, muitos estão presos em suas carapaças, com o visor abaixado, trabalhando. Eles confundem poder de consumo com liberdade, morrem de medo dos criminosos e aplaudem o sucesso dos empresários famosos. Veem o capitão Nascimento como herói e acham a armadura do Robocop o máximo.