domingo, 25 de abril de 2010

Brasília: cidade dos sonhos


Brasília é a cidade incapaz de abraçar os homens que a ergueram. É a cidade dos sonhos: não só para quem a projetou, mas também para os que deixaram suas terras e seguiram rumo ao nada, cheios de esperança.

No entanto, ao abrirem os olhos, uns encontraram suas casas; outros, o fim do trabalho, o fim do pão, o fim de sua utilidade: o nada, o adeus - sem promessas.

Marco Polo, em “As cidade invisíveis” - de Italo Calvino -, conversa com Kublai Khan sobre as cidades que visitou. Certa vez, “descreve uma ponte, pedra por pedra:
- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra - responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
- Sem pedras o arco não existe."



Trecho do documentário "Brasília: contradições de uma cidade nova", de Joaquim Pedro de Andrade (cineasta, diretor de Macunaíma), que, contratado para fazer um curta institucional, encontrou, já em 1965, apenas um terço dos habitante do DF morando no plano piloto de Brasília.

domingo, 18 de abril de 2010

Uma homenagem a Armando Nogueira

O Botafogo, ao vencer o Flamengo por 2 a 1, tornou-se o Campeão Carioca de 2010; sem dúvida, uma mais que merecida homenagem a Armando Nogueira, jornalista e botafoguense ilustre, que faleceu há pouquíssimo tempo.
Junto-me ao alvinegro carioca para homenageá-lo, mas não só por ter sido um torcedor apaixonado e um grande jornalista, mas por ter tido a sensibilidade de unir dois de seus maiores amores: o futebol e a literatura.
Armando jogava com as palavras - tratava-as com a mesma habilidade com que um craque trata a bola. Uma pelada, a seus olhos, era pura poesia:

Pelada de Subúrbio
(Armando Nogueira)

"Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.

A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.

Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.

Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.

A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.

No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha."

(Nogueira, Armando. "Os melhores da crônica brasileira", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1977, pág. 22 - extraído do site www.releituras.com/anogueira_suburbio.asp)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Obscuro horizonte"

“É estupendo! Quando cheguei aqui e contemplei, da colina, esse formoso vale, fui atraído por ele por todas as formas e com um irresistível encanto... Lá embaixo, o pequeno bosque... 'Ah! Se eu pudesse abrigar-me a sua sombra!...' Lá em cima, o cume da montanha... 'Ah! Se eu pudesse contemplar dali a paisagem enorme...' E as colinas encadeadas entre si, e os vales discretos... 'Oh! Se eu pudesse me perder neles!' Corria até lá e voltava, sem haver encontrado o que esperava. Acontece com o futuro o mesmo que com as coisas que estão longe. Um imenso, obscuro horizonte se estende diante de nossa alma; perdem-se nele nossos sentimentos, bem como nossos olhares, e ardemos, sim!, do desejo de dar tudo o que somos para saborear plenamente as delícias de um sentimento único, enorme, sublime... E quando chegamos lá, quando o distante se tornou aqui, tudo é o mesmo que antes – continuamos na miséria, em nossa esfera restrita, e nossa alma suspira pela ventura que lhe escapou.”

GOETHE, Johann Wolfgang. Os sofrimentos do jovem Werther / Johann Wolfgang Goethe; tradução de Leonardo César Lack. São paulo: Abril, 2010. P. 39 (Carta de 21 de julho).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Abraços partidos



Assisti recentemente ao último filme do Almodóvar – Abraços Partidos – e o que mais me chamou atenção foram os heterônimos, as personagens criadas pelas personagens.

Li algumas críticas do filme, mas até então não encontrei nenhuma que tratasse dessa duplicação das personagens; as que li tratam basicamente das referências, da metalinguagem e da cinefilia, características sem dúvida marcantes no filme.

Como não pretendo revelar a trama de um filme que ainda está no cinema, limitar-me-ei a advertir sobre essa peculiaridade. A narrativa revela três personagens que se duplicam, tornando-se, assim, seis. O mais óbvio é Harry C., pseudônimo do diretor Mateo; mas há ainda duas outras personagens que se atribuem heterônimos a fim de realizar certas façanhas ou escondê-las.

Os heterônimos, no entanto, surgem, são retomados ou se intensificam numa situação limite: a morte ou risco de morte de alguém próximo. Isso me parece bastante interessante, na medida em que a morte de outra pessoa (ou sua iminência) leva o personagem assumir outro nome, outra identidade.

A estória se desenvolve a partir de uma morte, que faz um heterônimo nascer e outro morrer: um pseudônimo é criado para perscrutar e revelar o passado do morto e outro praticamente se extingue, como se essa morte o tivesse libertado, ao lhe servir de ponto de partida para uma catártica volta ao passado.

Talvez os "abraços partidos" refiram-se mais à relação dos personagens com os seus heterônimos que às relações dos personagens entre si.

Mais não falo, agora. Não quero estragar surpresas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Tecnocracia e poesia, segundo Quintana

"Não pretendo que a poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual. Mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando assim mais próximo da natureza, mais por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia, nunca." (Quintana, Mario. A vaca e o Hipogrifo. P. 133)


sábado, 24 de outubro de 2009

Fungível

Fosse Kafka vivo, "A metamorfose" não trataria da transformação de Gregor Samsa num inseto. Gregor, após uma noite de insônia (e não de "sonhos inquietos"), transformar-se-ia numa máquina. Seu pai não sentiria repulsa, mas orgulho e, após refletir um pouco, vendê-lo-ia.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Guichês e roletas: Estado mínimo, lucro máximo

De acordo com o discurso vigente, os empreendimentos públicos devem buscar investimentos na iniciativa privada; desta forma, o Estado deve delegar a empresas a prestação de serviços públicos, reservando para si somente o poder de regulamentar e fiscalizar os serviços.

O principal argumento dos que defendem a redução do papel do Estado é a diminuição dos gastos: a cessão do espaço e/ou prestação do serviço público a empresas alivia os cofres públicos, ou seja, a iniciativa privada paga para assumir a administração da área/serviço - o que evitaria ou, pelo menos, compensaria os gastos públicos.

Mas na realidade não é assim.

Isso porque, quem arca com as despesas é o usuário do serviço, uma vez que a empresa responsável pela gestão cobra tarifas, para cobrir o seu dispêndio e lucrar com a prestação do serviço. Repita-se: compensar seus gastos e LUCRAR com a prestação do serviço.

Não há certeza sobre os gastos e os lucros - e não haverá enquanto inexistir transparência.

Transporte com tarifas baixas não dão lucro e, portanto, não interessam à iniciativa privada, "patrocinadora" - indispensável? - do Poder Público. O transporte público, que deveria ser uma ponte, transforma-se em muro com as tarifas altas.

O responsável pela prestação dos serviços públicos é o Estado; isso está na nossa Constituição, artigo 175. A delegação do serviço à iniciativa privada é uma opção (sim, o Estado pode prestá-lo diretamente), que só se justifica quando tem por finalidade o interesse público. Resumindo: é pra servir - e muito bem - ao cidadão e não pra encher os bolsos de uns poucos.

A tarifa é alta: pagamos muito. Motoristas, trocadores, mecânicos etc. ganham pouco. Parece que só os empresários estão satisfeitos.