A foto de
um funcionário de escritório trabalhando de capacete incomoda pelo
deslocamento. O capacete sobra, se mostra excessivo, desnecessário,
até ridículo. Mas a imagem suscita a discussão do deslocamento, da
coisa fora de lugar. E isso acontece com o medo. Bauman defende a
ideia de que as pessoas em geral não conhecem a causa da sua
insegurança, direcionando o discurso de reação a fatores que nada
tem a ver com a causa real do medo. Segundo Bauman, enquanto a
maioria das pessoas acha que o medo vem de crimes brutais noticiados
a toda hora pela mídia (e aí a culpa recai sobre grupos de supostos "diferentes", caso dos imigrantes na Europa e dos mais pobres e excluídos no Brasil), a causa real é estrutural e diz
respeito ao fim do estado de bem-estar social, ao avanço neoliberal, lançando as pessoas à
própria sorte e recursos particulares, em sociedades historicamente
desiguais. No fim, o medo e a reação são direcionados a outras
vítimas e não à causa real. Se acha o medo do funcionário da foto
ridículo, talvez possa se indagar sobre o seu.
Ecos, porque se trata da ressonância que certos fatos ou obras de arte produzem em mim, embora o som que devolvo ao mundo nunca seja mera repetição do que entrou (isso sem falar na ninfa); prosaicos, pelos dois sentidos do termo: pela forma de prosa e por ser corriqueiro, vulgar. Afinal, quem é a prosa para falar da poesia?
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
sábado, 28 de janeiro de 2017
Ninguém liga pro Daniel Blake (Ken Loach, 2016)
O
filme começa com palavras num fundo negro: apenas um diálogo. Um
homem e uma mulher falam sobre o questionário para obter benefício previdenciário. Muitas frases são ditas antes que as imagens
venham à luz. O diretor é um parteiro de imagens sóbrias,
realistas, em tons azuis acinzentados e focos originais. O filme tem
cortes bem marcados de tempos em tempos, indicando a passagem de
períodos: segundos de tela negra e silêncio destacam trechos da
obra.
A
narrativa mira a burocracia, a frieza, a falta de humanidade, o
despreparo programado dos técnicos, que negam benefícios vitais
para pessoas mais pobres, numa sociedade claramente desigual. Mira,
sobretudo, o estado, a máquina pública e os vilões são os
gerentes do instituto de previdência britânico. Daniel Blake,
carpinteiro há mais de 40 anos, viúvo, morador de uma cidade média,
sofreu um infarto, quase morreu. Sua médica o proibiu de trabalhar.
Porém, mesmo com o laudo, o benefício lhe foi negado. Daniel não é
um homem paciente, submisso; é um homem ciente dos seus direitos,
astuto, tem o dom da ironia, a simpatia de um homem experiente, que
convive em harmonia com vizinhos pobres, imigrantes.
A
trama pode lembrar “o processo” de Kafka, mas é muito mais
realista, embora as exigências e a
falta de abertura ao diálogo nos deixem mareados, enjoados,
irritados, tensos. Blake tenta, fala, grita e, ao presenciar o
absurdo da negativa de atendimento a uma mulher jovem com duas
crianças, toma partido, em defesa da mãe desnorteada. Ambos
terminam expulsos da unidade, agressivamente. E daí começam uma
amizade.
Há
cenas que expõem a globalização, quando um vizinho de Daniel
recebe pares de tenis da china para revender na cidade, e também com
a multietnicidade das personagens, além da conversa por vídeo com o
chinês apaixonado por futebol. O filme revela a vida, os impasses,
os dramas de Daniel e Katie, que está longe da família e sem
dinheiro. O filme é realista e delicado.
A
narrativa tem sua poesia, com os dons artísticos do senhor solitário
que faz peixinhos de madeira para pendurar no teto, rendendo belas
imagens dos bichinhos contra a luz da janela, por onde entra alguma
luz para aquecer a casa e a vida em crise de pessoas que estão
isoladas e sem meios de subsistência. Os peixinhos de madeira me
lembraram os de ouro de Aureliano Buendia (Cem anos de
Solidão).
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
E a trama remete também a outra obra de Gabriel Garcia Marquez, a novela “Ninguém escreve ao coronel”, no qual um senhor espera o pagamento de sua aposentadoria pelo correio. O coronel, como Daniel, sofre pela sobrevivência, lutando contra a burocracia. As cartas, as ligações, os questionários, a fome, as amizades, tudo é descrito no livro escrito em 1957, sobre a vida (ou sobrevida) de um senhor numa pequena cidade colombiana.
Blake lembra também a
Clara de Aquarius: um homem com dignidade, força, história e uma
disposição de lutar, mesmo que o coração já esteja enfraquecido.
Nenhum dos dois se submete. Uma das cenas mais marcantes é quando
Daniel inscreve seu recurso fora do lugar, numa superfície pública,
aberta. O fato de escrever diz muito. A palavra. Mais uma vez. Se o
diálogo inaugural tinha o fundo negro, agora a palavra se expõe
aberta. Um homem pobre, um homem machucado pela vida, com roupas
velhas, bêbado começa a defender Daniel e faz um belo discurso, se
identificando também como uma vítima do governo, “dos gordos com
suas taxas”.
Em
tempos de governantes que apagam arte, pichar pode ser um meio de
dizer (qual o lugar da arte?). E qual o lugar do poder econômico? O
filme é magnífico, o diretor Ken Loach faz um trabalho excelente,
porém penso que a narrativa poderia abordar mais a vinculação do
poder privado ao público, as relações econômicas capitalistas que
criam e reproduzem a desigualdade, a exploração, a negação da
dignidade de forma sistemática. Os vilões do filme, burocratas do estado, só
fazem o trabalho sujo para os empresários ricos.
E a palavra, ao final,
surge com um discurso deslocado, agora não de superfície mas de
personagem, um discurso que vai além. Um recurso/discurso que é
escrito e acaba lido fora da repartição, longe do seu lugar, um
recurso que lembra a carta não enviada, que segundo Lacan seria para
o grande Outro. O filme é como a mensagem, e lá como aqui vemos
idosos tendo que trabalhar, mesmo doentes, para sobreviver e todo
avanço neoliberal de privatização, redução do estado. Pode ser
que amanhã ninguém nos escreva.
______________________________________
Filme: "Eu, Daniel Blake"
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
KEN LOACH
Ficção/Fiction
Cor/Color DCP 100'
Reino Unido / França - 2016
Direção/Direction:
KEN LOACH
Roteiro/Screenplay:
PAUL LAVERTY
Marcadores:
capitalismo,
cinema,
desigualdade,
Estado,
Eu Daniel Blake,
ficção,
filme,
Gabriel Garcia Marquez,
informalidade,
Kafka,
Ken Loach,
literatura,
Ninguém escreve ao coronel,
pobreza,
previdência social
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Fala falo
coração tem fama de
gamadão:
projeta-se por todo
lado
pintado, digital ou à
mão.
embora more, no peito,
entocado,
é bateria da vida,
percussão.
tão profundo, fechado,
é usado pra falar do
amor.
ah, coração apertado,
tem fama de Don Juan do
corpo,
intenso e conquistador,
escute aqui outro
pedaço
tirar onda de trovador.
trema corpo, repercuta
inteiro,
tira roupa, surja,
apareça,
um pedaço de devaneio,
que eu diga, declame e
cresça.
se você, coração,
ama demais,
o que dirá quem é
abraçado,
tocado, cheio de tramas
sensoriais?
falo! falo mesmo! Digo,
grito,
instigo, provoco: te
amo, amo!
não, não sou nenhum
maldito,
o coração se declara,
eu me derramo.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Amor, liberdade e segurança
Segundo
Bauman, “para ser feliz há dois valores essenciais que são
absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é
liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na
ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão.
Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois.
[...] Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco
da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você
entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde
algo".
O
sociólogo conhecido pelo termo “modernidade líquida”, ator de
diversas obras sobre a fluidez da pós-modernidade, critica nossos
tempos de total liberdade, na qual os laços são frouxos, abertos,
além da reprodução das práticas de consumo nas relações
pessoais, reificando humanos. No entanto, na minha interpretação,
vejo Bauman como um saudosista, de certo modo conservador, tanto nos
costumes quanto nas questões de estado e economia. Ele defende o
Estado de bem-estar social pós-guerra, diante das suas experiência
europeias, desconsiderando outros países e cenários periféricos
numa visão eurocêntrica.
É
claro que gosto muito do autor e mantenho minha admiração,
especialmente nas críticas ao neoliberalismo e consumismo e também
na cidadania, mas num aprofundamento não posso deixar de divergir,
já que em uma sociedade patriarcal nunca houve igualdade de gêneros
nem exclusividade imposta ao homem. Bauman critica a fluidez, mas é
essa liberdade que reflete uma evolução no sentido de as pessoas não
se submeterem a relações opressivas e expandir a capacidade de amar
e construir novas formas mais abertas, como o poliamor. A questão é
viver isso sem reificar. Bauman condena a liberdade, é um nostálgico
dos laços perenes e exclusivistas.
Uma
leitura do filme Her (2013, S. Jonze), numa perspectiva baumaniana,
atinge “o paradigma de que são apenas as relações carnais que
estão perdendo a força. Ao se apaixonar por um sistema operacional,
Theodore parece suprir todas as suas necessidades dentro de um
relacionamento. A forma virtual de se relacionar é a maneira que o
protagonista tem de encontrar aquilo que realmente procura e
idealiza, pois o sistema operacional se adapta cada vez mais às suas
satisfações, tornando-se uma complementação do usuário.1”
Nessa
visão crítica da superficialidade virtual Bauman acerta em cheio,
mas a verdade é que o filme não reflete a realidade, é uma
hipérbole. Hoje ainda há pessoas por trás das máquinas, celulares
e aplicativos: mensagens trocadas geram encontro entre pessoas reais.
Desse modo, a internet e outras tecnologias não acabam com as
relações.
Aqui
proponho um diálogo entre o que colocações de Bauman e da
psicanalista Regina Navarro Lins. Enquanto o sociólogo se fecha no
passado, Navarro Lins já enxerga mudanças positivas e um futuro com
outras configurações afetivas e familiares. Segundo a psicanalista
“poliamor
é a tradução livre para a língua portuguesa da palavra polyamory
(Polyamory é uma palavra híbrida: poly é grego, e significa muitos
, e amor vem do latim), que descreve relações interpessoais
amorosas que recusam a monogamia como princípio ou necessidade. Por
outras palavras, o poliamor como opção ou modo de vida defende a
possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo
responsável em relações íntimas, profundas e eventualmente
duradouras com várias/os parceiras/os simultaneamente.”2
Regina Navarro
Lins compreende a liberdade e a abraça; Z. Bauman vê com desconfiança,
dando maior ênfase à defesa da segurança. Só
tempo vai mostrar como a sociedade vai desenvolver o modo de se
relacionar, mas desde já se veem novas modalidade de relacionamentos
mais complexos. Na dança da vida, entre a liberdade e a segurança,
as pessoas vão descobrir como querem amar.
________________________________
2 blogosfera.uol.com.br/2016/08/06/da-monogamia-ao-poliamor/
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Assinar:
Postagens (Atom)

